TRIBUNAL MARÍTIMO JP/SCB PROCESSO Nº /2004 ACÓRDÃO

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1 TRIBUNAL MARÍTIMO JP/SCB PROCESSO Nº /2004 ACÓRDÃO L/M ARROZ. Colisão, seguida de encalhe, água aberta e naufrágio, de lancha de esporte e recreio, provocando avarias na embarcação, sem ocorrência de vítimas. Erro de navegação do condutor da lancha. Imprudência e negligência Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Trata-se de analisar a colisão com pedras envolvendo a L/M ARROZ, de propriedade de José Olavo Mourão Alves Pinto, quando, cerca de 16h30min do dia 10/06/2003, encontrava-se próximo a Ilha de Cataguases, Angra dos Reis, RJ, provocando o encalhe, seguido de água aberta e posterior naufrágio, sem ocorrência de vítimas ou danos ao meio ambiente. Dos depoimentos colhidos e documentos acostados extrai-se que a L/M ARROZ, de AB, casco em fibra de vidro, com 13,59 metros de comprimento e 4 metros de boca, logo após suspender da Ilha de Cataguases com destino a sua sede náutica, Marina do Pirata, em Angra dos Reis, era conduzida pelo Moço de Convés (MOC) Evânio Pedro da Silva, levando a bordo mais 4 pessoas, quando colidiu com um pedral na Ponta da Cidade, onde encalhou, abrindo água, indo, em seguida, a pique; que a lancha sinistrada encontrava-se com seu seguro obrigatório DPEM vencido e não possuía cobertura de seguro para o casco, sendo que após reflutuada foi vendida a terceiros por seu proprietário, no estado em que se encontrava; e que a lancha encontrava-se sob a responsabilidade da senhora Devana Nunes de Lemos, a qual tinha autorização do proprietário para movimentar e sair com a embarcação, bem como para mandar executar serviços na mesma. Em seu depoimento, Devana Nunes de Lemos, administradora do proprietário, declarou que contratou o MOC Evânio Pedro da Silva para no dia 10/06/2003 em torno das 10 horas levar a embarcação até a Ilha de Cataguases para fazer a limpeza do fundo da lancha, já que na Marina do Pirata é praticamente impossível realizar esses serviços, sendo que era para retornar por volta do meio dia; que tomou conhecimento, através de terceiros que haviam 12 pessoas a bordo da lancha sinistrada no momento do acidente; que teve conhecimento que o Sr. Evânio Pedro vinha em uma brincadeira com um bote, as duas embarcações mantinham a mesma proa, a lancha sendo uma embarcação mais veloz, adquiriu uma velocidade suficiente para atropelar o bote e no bombordo oposto vinha outra 1/8

2 embarcação, sendo que o condutor da lancha optou por tomar rota de boreste, batendo na laje; e que o responsável pelo acidente foi o Sr. Evânio Pedro da Silva, pois na Ilha de Cataguases havia tido uma churrascada e cervejada na qual ele bebeu muito e inclusive se não tivesse acontecido o acidente ele a havia enganado, devolvendo a lancha sem limpar o fundo conforme combinado, sendo que ele usou a embarcação para o seu lazer próprio. Em seu depoimento, Evânio Pedro da Silva, condutor da lancha ARROZ, declarou que estava sozinho no momento do acidente, tendo sido autorizado a sair com a embarcação pela Sra.Devana; que foi contratado para raspar o fundo; que estava vindo de Cataguases para a Ponta da Cidade, quando estava montando a Ponta da Cidade, surgiu uma embarcação pelo seu bombordo muito próximo, e deu uma guinada para boreste e pegou uma ponta de pedra no eixo de boreste, com isto o pé de galinha e uma pá do hélice entraram para dentro do casco; que ao sentir o impacto desacelerou, parou o barco e foi verificar a causa do impacto quando localizou água no porão de popa, tentou acionar as bombas de água, mas as mesmas estavam com mal contato, tentou sair com o barco, não tendo mais velocidade, encalhando em uma pequena praia que tinha no seu boreste, vindo a ancorar; que existia carta náutica a bordo, mas que não fazia uso dela, porque conhece a região; que desenvolvia a velocidade entre 30 e 35 nós; que não fazia uso de bebida alcoólica no momento do acidente; e que a embarcação possui radar, mas estava desligado no momento do acidente; e que o responsável pelo acidente foi a embarcação, que não sabe informar o nome, que guinou para bombordo. Laudo de exame pericial concluiu que a causa determinante do acidente foi devido ao não cumprimento das seguintes regras do RIPEAM pelo condutor da L/M ARROZ : Regra 6a,VI encontrava-se em alta velocidade não atentando para o calado da embarcação em relação a profundidade disponível; Regra 7b não fez uso apropriado do equipamento radar, conforme afirmou o condutor da embarcação; Regra 8a deixou de manobrar franca e positivamente para evitar a colisão, bem como ser feita com ampla antecedência e conforme a boa marinharia; Regra 9a por navegar numa via de acesso deixou de manter-se a uma distância segura do limite exterior que estava a seu boreste; e Regra 9 f ao se aproximar de uma curva não navegou com atenção e cuidados redobrados, bem como não emitiu sinal sonoro conforme o disposto na regra 34 e, onde outras embarcações poderiam estar ocultas devido a obstáculos. 2/7

3 Documentação de praxe anexada. No relatório, o encarregado do inquérito concluiu, em uniformidade com o laudo pericial, que o acidente ocorreu devido ao condutor da embarcação não ter conhecimento suficiente do RIPEAM e ter sido negligente e imprudente por não ter tomado as precauções de segurança que a ocasião e o local requeriam, em virtude de ser de intenso movimento de embarcações que demandam a cidade, dessa forma descumprindo as regras 5, 6a-VI, 8a e 9a do RIPEAM. Apontou como possível responsável direto o condutor da embarcação ARROZ, Evânio Pedro da Silva, por desatenção e não observância das regras do RIPEAM. A D. Procuradoria requereu diligências, para que fosse fornecida cópia do TIE da L/M ARROZ, para que esclarecesse se a embarcação possuía, à época do acidente, cobertura de seguro obrigatório DPEM, para que fosse fornecida cópia do registro de saída da embarcação e da procuração outorgada pelo proprietário da embarcação a Devana Nunes de Lemos, para que fosse promovida a oitiva de Wanderlei Castorino Pedro, citado no depoimento da Sra. Devana às fls.17, para que fossem listadas as avarias sofridas pela lancha e se existia cobertura de seguro casco, informando o valor segurado e a seguradora. A Delegacia da Capitania dos Portos em Angra dos Reis, em cumprimento às diligências informou que o bilhete de seguro obrigatório DPEM encontrava-se vencido na época do acidente, que a embarcação, conforme informação prestada pelo proprietário, não possuía qualquer cobertura de seguro patrimonial para um eventual sinistro e foi negociada no estado que se encontrava, não tendo feito qualquer orçamento para reparo da mesma. Informou, ainda, que não consta nos arquivos da Marina Pirata registro de saída da embarcação, esclarecendo que por tratar-se de embarcação de vaga molhada, os responsáveis apenas informam, via rádio, à Administração da Marina, o plano de navegação; que a Marina não possui cópia da procuração solicitada, mas apresentou cópias de diversos documentos, aqui anexados, onde a Sra. Devana Nunes de Lemos aparece como responsável pela embarcação. Apresentou, ainda, a referida Delegacia a notificação de Evânio Pedro da Silva, devidamente assinada (fls.63), a sua defesa prévia de fls.71/71v, e os termos de inquirição referentes a 5 testemunhas ouvidas após a diligência requerida., sendo elas: Wanderlei Castorino Pedro, Fábio Ferreira dos Santos, Renato Gonçalves Silva, Antônio José Souza da Silva e Anderson Reis Gomes. Dos depoimentos colhidos em diligência extrai-se que o MOC Evânio de fato levou a embarcação para a Ilha onde esteve a executar o serviço para o qual fora contratado; que, em dado momento, o condutor da lancha sinistrada, juntou-se a um grupo de pessoas 3/7

4 que faziam um churrasco, onde bebeu cerveja; que, por volta de 16 horas e 20 minutos, após ter deixado a Ilha de Cataguases conduzindo a lancha, Evânio alcançou dois botes onde estavam pessoas que haviam participado do churrasco na Ilha, os quais haviam saído antes, e passou a executar manobras com a embarcação com o intuito de provocar marolas e, assim, perturbar a navegação dos botes, alheio aos gritos e sinais de seus ocupantes para que Evânio, visivelmente embriagado, se afastasse; que a lancha ARROZ, navegando muito próximo da Ponta da Cidade, colidiu com a laje submersa, perdendo seguimento, começando a fazer fumaça e a naufragar; que as 4 pessoas que se encontravam a bordo, que pegaram carona para retornarem à Marina do Pirata, atiraram-se na água em direção aos botes, sendo que 3 delas foram recolhidas pelos botes e uma nadou até a praia; que o condutor da lancha, Evânio, permaneceu na lancha, sendo visto na proa da mesma, batendo continência, enquanto a embarcação naufragava de popa; e que os condutores dos botes se aproximaram da lancha acidentada, enquanto a mesma naufragava, e sugeriram a Evânio que pulasse na água para embarcar em um dos botes, após o que se dirigiram a Marina do Pirata. Em seu depoimento, Antônio José Souza da Silva, mestre amador, condutor do bote que socorreu Evânio, declarou que ouviu comentário do marinheiro Heraldo de que a lancha estava constantemente abastecida de bebida alcoólica; que, por volta das 13h, ele e mais 4 companheiros se dirigiram à Ilha de Cataguases para fazer um churrasco; que na ilha, enquanto realizavam o churrasco Evânio se aproximou com a embarcação ARROZ para participar do churrasco, porém eles não aceitaram a sua participação, mesmo assim Evânio saltou da embarcação e bebeu duas cervejas e retornou para a lancha, ocasião em que o depoente percebeu que Evânio estava bêbado, inclusive apresentando hálito alcoólico, o que o fez deduzir que ele já tinha bebido a bordo; que, ao sair da ilha, Evânio levava a bordo 4 pessoas (Anderson, Martinelli, Márcio e Renatinho); que cerca de 20 minutos depois o depoente, ao passar pela Ponta da Cidade, observou que a lancha ARROZ havia se acidentado e estava naufragando, sendo que Evânio estava em sua proa batendo continência ; que parou e prestou socorro a Evânio, sendo que no bote observou que Evânio estava transtornado e bêbado; e que na ocasião somente se encontravam na ilha de Cataguases a L/M ARROZ, e os dois botes. A D. Procuradoria, após diligências, ofereceu representação contra Evânio Pedro da Silva, com fulcro no art.14, letra a (colisão/encalhe/água aberta/naufrágio), da Lei 2.180/54, sustentando, em resumo, que na sua defesa prévia de próprio punho, Evânio nega que estivesse embriagado na ocasião do acidente e que tenha sido socorrido pelo Sr. Antônio, afirmando que seu erro foi agir com excesso de confiança, já que conhecia bem o local por 4/7

5 onde navegava e por navegar muito próximo do pedral, sendo que por conta do acidente perdeu o emprego e que gostaria de fazer cursos de aperfeiçoamento; que por tudo que consta dos autos, conclui que a causa determinante do acidente foi um erro de navegação cometido pelo condutor da L/M ARROZ, ao conduzir a embarcação para um local de pouca profundidade, onde sabia existir uma laje submersa, com a qual colidiu, causando avarias na lancha (água aberta), que resultaram em seu naufrágio; e que a circunstância de estar o mesmo alcoolizado, como afirmam as testemunhas presenciais, não restou provada acima de qualquer dúvida, já que Evânio não foi submetido ao competente teste com o aparelho conhecido como bafômetro. Recebida a representação e citado, o representado, que não possui antecedentes no Tribunal Marítimo, foi declarado revel, sendo-lhe designado defensor público da União. A defesa de Evânio Pedro da Silva, por I. defensor público da União, alega, em resumo, que em conseqüência da colisão, a L/M ARROZ teve avarias no casco, encalhou, abrindo água, indo em seguida a pique, apesar das avarias, graças à habilidade do condutor, o acidente não deixou vítimas; que a representação não merece prosperar, posto que o réu não teve culpa pelo acidente, conforme se demonstrará; que o acidente apenas ocorreu porque, apesar do condutor da embarcação ser experiente, conhecer bem o local, ter realizado as devidas manobras na tentativa de evitar o fato e observar todos os cuidados exigidos, uma outra embarcação surgiu muito próxima a seu bombordo, em alta velocidade, razão pela qual, este se viu obrigado a guinar para boreste, na tentativa de desviar e evitar uma colisão pior, o que acabou ocasionando o impacto da lancha com o pedral; que, após o impacto, o condutor desacelerou a embarcação e dirigiu-se ao porão, com o intuito de verificar as avarias e ligar as bombas para retirar a água que entrava, entretanto, as bombas de sucção não funcionaram, devido a um mau contato, o que acabou ocasionando o naufrágio; que, assim, clara a existência de culpa de terceiro ( manobra imprudente da lancha que passou muito próxima, obrigando o acusado a desviar para evitar uma colisão) e ocorrência de caso fortuito ( mau funcionamento das bombas) a isentar o representado de culpa no presente evento; que, por se tratar de curadoria especial, com fulcro no art. 302, único do CPC, apresenta-se, ainda, a negação geral a todos os fatos aportados pela representação da PEM; e que, por todo o exposto, espera-se que a representação em face de Evânio Pedro da Silva seja julgada improcedente in totum. Na instrução, nenhuma prova foi produzida. Em alegações finais, falaram as partes. Decide-se. 5/7

6 De tudo o que consta nos presentes autos, conclui-se que a natureza e extensão do acidente da navegação sob análise, tipificado no art. 14, letra a, da Lei nº 2.180/54, ficaram caracterizadas como colisão, seguida de encalhe, água aberta e naufrágio, de lancha de esporte e recreio, provocando avarias na embarcação, sem ocorrência de vítimas. A causa determinante foi erro de navegação do condutor da lancha. Analisando-se os autos, verifica-se que o representado, Evânio Pedro da Silva, foi contratado pela responsável pela L/M ARROZ, Sra. Devana Nunes de Lemos, para executar a raspagem do casco, faina esta que seria executada na ilha de Cataguases, onde estava sendo realizado um churrasco, sendo que Evânio se aproximou das pessoas, tendo participado do referido churrasco, contrariando os responsáveis pelo evento, os quais não o aceitaram, mas mesmo assim comeu e bebeu algumas cervejas. Após ter deixado a ilha de Cataguases, Evânio, conduzindo a L/M ARROZ, embora tenha declarado em seu depoimento que estava sozinho, deu carona a quatro pessoas (Anderson, Martineli, Márcio e Renato) que estavam na festa, vindo a alcançar dois botes, equipados um com motor de 3 HP e outro com um motor de 15 HP, nos quais estavam outras pessoas que haviam participado do churrasco na ilha e que tinham saído antes. Segundo o depoimento do próprio representado ele desenvolvia a velocidade de 30 a 35 nós com a L/M ARROZ e de acordo com o depoimento de Anderson Reis Gomes, um dos quatro passageiro que pegaram carona na L/M ARROZ, e, portanto, testemunha presencial do acidente, Evânio, vulgo Jangadeiro, fez várias manobras com o objetivo de fazer marolas para perturbar a navegação dos botes, ocasião em que os condutores dos botes faziam sinais e gritavam para que ele se afastasse, sendo que logo após a lancha colidiu com um corpo submerso. Alega a defesa do representado que o acidente apenas ocorreu porque, apesar do condutor da embarcação ser experiente, conhecer bem o local, ter realizado as devidas manobras na tentativa de evitar o fato e observar todos os cuidados exigidos, uma outra embarcação surgiu muito próxima a seu bombordo, em alta velocidade, razão pela qual, este se viu obrigado a guinar para boreste, na tentativa de desviar e evitar uma colisão pior, o que acabou ocasionando o impacto da lancha com o pedral, não existindo nos autos qualquer menção das testemunhas a tal ocorrência, não tendo a defesa trazido aos autos qualquer prova ou evidência de que este fato tenha ocorrido, não sabendo o representado informar o nome da embarcação, sendo que nenhuma das testemunhas ouvidas fez qualquer referência ao fato. 6/7

7 Deste modo, ficou caracterizada a imprudência e negligência do representado ao conduzir a embarcação em alta velocidade, em local com pedras submersas, sem a devida atenção, vindo a colidir com pedral, provocando água aberta seguida de naufrágio da lancha sob seu comando. Embora existam evidências nos autos de que o condutor da L/M ARROZ estivesse alcoolizado, conforme consta dos depoimentos das testemunhas Devana Nunes de Lemos, Fábio Ferreira dos Santos e Antônio José Souza da Silva, tal fato não restou provado nos autos, uma vez que o representado não foi submetido a qualquer teste que permitisse confirmar tal afirmação. Pelo exposto, deve-se julgar procedente a fundamentação da PEM, julgando o acidente da navegação como decorrente de imprudência e negligência, condenando Evânio Pedro da Silva. Deve ser oficiado à DPC a infração à Lei 8.374/91 (falta de bilhete de seguro obrigatório DPEM em vigor na data do acidente) cometida pelo proprietário da L/M ARROZ, José Olavo Mourão Alves Pinto. Assim, ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente: colisão, seguida de encalhe, água aberta e naufrágio, de lancha de esporte e recreio, provocando avarias na embarcação, sem ocorrência de vítimas; b) quanto à causa determinante: erro de navegação do condutor da lancha; c) decisão: julgar o acidente da navegação previsto no art. 14, letra a, da Lei 2.180/54, como decorrente de imprudência e negligência de Evânio Pedro da Silva, condenando-o à pena de multa de R$ 400,00 (Quatrocentos reais) e ao pagamento das custas processuais. Honorários de Defensor Público da União no mínimo legal. Oficiar à DPC a infração à Lei 8.374/91 (falta de bilhete de seguro obrigatório DPEM em vigor na data do acidente) cometida pelo proprietário da L/M ARROZ, José Olavo Mourão Alves Pinto. Publique-se. Comunique-se. Registre-se. Rio de Janeiro, RJ., em 14 de junho de SERGIO CEZAR BOKEL Juiz-Relator 7/7 LUIZ AUGUSTO CORREIA

8 Vice-Almirante (RM1) Juiz-Presidente 8/7

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