TRIBUNAL MARÍTIMO FC/NCF PROCESSO Nº /11 ACÓRDÃO

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1 TRIBUNAL MARÍTIMO FC/NCF PROCESSO Nº /11 ACÓRDÃO Lancha ARPEDI. Naufrágio no local de fundeio devido a admissão de água pelas obras vivas e pelas obras mortas. Defeito no calafeto do casco e do convés. Naufrágio iminente acelerado por fortes chuvas. Condenação. Vistos, relatados e discutidos o presente processo. Tratam os autos do naufrágio da lancha denominada ARPEDI, nas proximidades do Forte São Marcelo, no município de Salvador, BA, ocorrido em 08 de março de 2010, às 8h, acarretando danos à embarcação. A embarcação envolvida no acidente da navegação foi a lancha ARPEDI, não inscrita, construída em madeira, motorizada com motor a diesel, com 29,39m de comprimento, 6,69m de boca e 134 AB, classificada para transporte de passageiros, de propriedade de Antonio Roberto Ghirotti. A embarcação não possuía seguro DPEM e estava em processo de inscrição com várias pendências. Segundo se apurou, a lancha permaneceu fundeada por alguns anos sob os cuidados de uma pessoa sem habilitação e, devido à falta de manutenção, teria perdido estanqueidade com a deterioração do calafeto de todo o casco, naufragando onde estava fundeada, ficando submersa até a altura do convés principal. As testemunhas ouvidas disseram que a embarcação tinha problemas no calafeto tanto nas obras vivas como nas obras mortas, permitindo a entrada de água do mar e da chuva, o que obrigava seu esgotamento diário. Na noite anterior ao naufrágio houve um forte temporal em Salvador, causando um alagamento superior à capacidade de esgotamento das bombas, que levou a lancha ao naufrágio. O proprietário da lancha assumiu a responsabilidade pelo acidente durante seu depoimento e o encarregado do IAFN, com base nas demais provas testemunhais e pericial colhidas, apontou-o como possível responsável pelo acidente. Notificado do resultado do inquérito, não apresentou defesa prévia. Os autos foram então encaminhados a este Tribunal, que os remeteu à PEM, que oferece representação em face do Sr. Antonio Roberto Ghirotti, proprietário da lancha ARPEDI, com fulcro no art. 14, letra a, da Lei nº 2.180/54. Entendeu a PEM ter sido o representado negligente na manutenção da embarcação e imprudente ao deixá-la aos cuidados de pessoa não habilitada, comprometendo sua estrutura e expondo-a a risco que acabou por se materializar com seu naufrágio. Pede, desta maneira, seja o mesmo condenado nas iras da lei e ao pagamento 1/5

2 das custas processuais. Pede, ademais, seja oficiada a DPC em razão de infrações ao RLESTA e por não possuir seguro DPEM. A representação foi recebida por unanimidade na Sessão Ordinária do dia 02 de agosto de O representado foi citado pela via postal e apresentou defesa tempestiva, firmada por advogado particular devidamente constituído. Em sua contestação disse que na noite que a lancha foi ao fundo um forte temporal acompanhado de tromba d água atingiu toda a região, ferindo pessoas e causando grande estrago. Acrescentou que ele, o proprietário, reside no estado de São Paulo, mas que mantém uma pessoa, o Sr. José Rocha Lima, residindo a bordo e que este senhor acompanhava a manutenção regular que era dada na embarcação, tendo, inclusive, treinamento específico para tanto. Disse que a documentação da embarcação já tramitava na Capitania, que fez algumas exigências burocráticas, que vinham sendo preparadas por um Engenheiro Naval quando o barco afundou. Quanto ao estado geral da embarcação mencionado na perícia da Capitania dos Portos, alegou que essa se deu quando a lancha foi reflutuada passados quase 60 dias de seu naufrágio, mas que aquele estado encontrado não refletia o estado geral que a lancha se encontrava antes, merecedora de elogios do próprio Capitão dos Portos. Relatou, ainda, que a lancha ARPEDI pertenceu à Marinha do Brasil entre 1957 e 2004, quando foi leiloado. Fora o NB Faroleiro Nascimento e já sofrera dois naufrágios quando era de propriedade da Marinha, sendo um deles nas mesmas circunstâncias, ou seja, enquanto atracado ao cais da DHN na Base Naval de Aratu. Disse que era uma característica da construção da embarcação ser um pouco derrabado para facilitar o recebimento de equipamentos e que essa característica aumentava o risco de naufrágio. Encerra dizendo que não teria o Seguro DPEM, pois as seguradoras não fazem seguro de embarcações com documentação ainda em tramitação e que o acidente não provocou danos a pessoas, a terceiros ou poluição, pedindo, assim, seja exculpado e pugnou pela produção de provas. Juntou à peça uma notícia colhida na internet do Jornal A Tarde, que informa que no dia 07 de março de 2010 uma forte chuva acompanhada de ventos e trovoadas atingiu a região metropolitana de Salvador, o Recôncavo Bahiano e o Nordeste do estado da Bahia, provocando a morte de uma pessoa e outros 53 feridos, desabamento de casas e a queda de um ônibus em uma obra de drenagem. Juntou também um bilhete do Capitão dos Portos da Bahia endereçada ao Sr. Roberto elogiando a lancha e fotos da mesma em ótimo estado. 2/5

3 Aberta a instrução não foram produzidas novas provas e em alegações finais somente a PEM se manifestou remetendo-se aos argumentos da inicial. Decide-se. A acusação que pesa sobre o representado, Sr. Roberto Ghirotti, proprietário da Lancha ARPEDI, é a de que teria sido negligente na manutenção da embarcação, permitindo que a mesma naufragasse no local onde estava fundeada. Acrescenta-se que não teria seguro obrigatório em dia. A defesa seguiu a tese de que o naufrágio se deu por força maior, tendo a embarcação sido atingida por forte temporal que provocou o acidente. Quanto ao seguro disse que sua documentação estava em trâmite na Capitania dos Portos da Bahia e que as seguradoras não faziam apólices de seguro DPEM enquanto não estivesse com a documentação em dia. A prova colhida durante o inquérito confirma que a documentação da embarcação encontrava-se tramitando na Capitania, com exigências a cumprir. Na alínea b, do item referente aos dados da embarcação constante da perícia, está escrito que a lancha ARPEDI, por não ser inscrita, possui apenas a Assinatura de Responsabilidade Técnica (ART) do engenheiro responsável e relatórios com exigências a cumprir, de Planos e Vistorias em seco, datados de 21 de março e 1º de fevereiro de 2006, respectivamente (necessários para o processo de inscrição). E estando em processo de inscrição, de fato não conseguiria ser segurada. Nesse sentido tem razão a defesa, motivo pelo que não se deve aplicar nenhuma penalidade em razão de não ter apólice de seguro DPEM. Relativamente ao naufrágio, a PEM, com base na conclusão do inquérito, o atribuiu ao desleixo do proprietário na manutenção e a defesa o atribuiu à força maior, dizendo que mantinha a bordo da embarcação uma pessoa que lhe dava manutenção, mas que o naufrágio teria sido causado pelas fortes chuvas que caíram no local. Para dirimir a controvérsia vale a transcrição de parte do depoimento da pessoa responsável pela manutenção da lancha, Sr. José Rocha Lima (fls. 21/23), quando perguntado como ocorreu o naufrágio: Respondeu que trabalha desde dois mil e seis para o Senhor Antonio Roberto Ghirotti, proprietário da lancha Arpedi, e, inicialmente, a mesma ficava fundeada na Baía Marina funcionando como restaurante e local de eventos. Quando em 2008 o Sr. Roberto perdeu a concessão estadual do restaurante Solar do Unhão, a lancha Arpedi foi transferida para o local onde veio a naufragar, as pessoas foram demitidas e o Sr. Roberto propôs-me continuar como vigia, pois teria que ir para o estado de São Paulo, que me pagaria mil reais de salário até a reforma da lancha na Base Naval de Aratu, para 3/5

4 posterior transferência para Ilha Bela, no litoral paulista. Cinco meses depois começou a perceber sinais de deterioração na estrutura da lancha, principalmente ação de cupins e do buzano, que estavam corroendo a linha d água e obrigando, a cada vez mais, usar a bomba de esgotamento e a tapar os buracos com tubolite. Estima que tenha gastado mais de vinte embalagens de tubolite, mas a cada dia a situação piorava. Que por diversas vezes ligou para o Sr. Roberto relatando a difícil situação em que se encontrava a embarcação, mas que o mesmo se limitava a declarar que providências estavam sendo tomadas, mas efetivamente nenhuma ação era tomada. Que por diversas vezes teve que tomar dinheiro emprestado com pessoas amigas para comprar gasolina para acionar a bomba de esgotamento, pois cada vez mais havia necessidade de acionar a bomba para esgotar a embarcação e finalmente na véspera do naufrágio havia chovido fortemente na cidade, fez por volta das 22 horas o esgotamento e foi dormir. Por volta das 5 horas da manhã, preocupado, acordou e percebeu que o alagamento já tinha atingido a engrenagem reversora, que ligou as duas bombas de esgotamento, mas já não conseguia esgotar a lancha, que a gasolina das bombas esgotou-se e saiu para pedir auxílio, que o Sr. Juca, amigo do Sr. Roberto, forneceu gasolina, mas ao acionar as bombas de novo percebeu que o nível do alagamento só aumentava e logo a bomba situada mais abaixo parou de funcionar e em seguida a outra e finalmente a lancha sentou no fundo e nada mais pôde ser feito. Mais adiante disse o Sr. José Rocha Lima declarou que trabalha como Office boy em condomínios, que não é habilitado como aquaviário, mas que saía esporadicamente para pescar, quando recebeu instruções de como operar com a bomba de esgoto. Disse também que em conversa com tripulantes e por sua observação viu que o naufrágio era iminente devido ao visível estado de deterioração do casco. Teria sido orientado a procurar a Capitania para informar o fato, mas que antes entrara em contato com o proprietário e ele novamente prometera providências. Quando indagado quem seria responsável pelo naufrágio, disse ser o Sr. Roberto. O próprio representado em seu depoimento na capitania, Sr. Antonio Roberto Ghirotti, confirmou as informações prestadas pelo vigia da embarcação de que a embarcação admitia águas pelas obras mortas em razão de problemas no calafeto do convés e assumiu ser ele o culpado pelo naufrágio quando indagado neste sentido. De relevante acrescentou somente que, embora sabedor que a lancha necessitava de esgotamento diário, o vigia teria deixado de comparecer ao serviço por três dias consecutivos, exatamente em virtude das chuvas e que essas teriam sido a causa determinante para o alagamento definitivo da embarcação e seu naufrágio. Assim, com base na prova colhida durante o inquérito, tem-se que o acidente 4/5

5 da navegação caracterizado pelo naufrágio da lancha ARPEDI foi provocado por sua manutenção deficiente. As chuvas que caíram no dia anterior ao naufrágio apenas aceleraram o naufrágio iminente. E sendo assim, deve ser acolhida a pretensão da PEM, julgando-se procedentes os argumentos da representação, para condenar o Sr. Antonio Roberto Ghirotti por entendê-lo responsável pelo acidente. Com relação à falta do seguro DPEM, devem ser acolhidos os argumentos da defesa, de que sua falta se deu por estar a embarcação em processo de inscrição e, sem uma inscrição válida, não poderia contratar com uma seguradora. Na aplicação da pena deve-se sopesar que o representado é primário nesse Tribunal e que o acidente não provocou danos a terceiros ou poluição, tendo causado danos somente ao patrimônio do próprio representado. Assim, ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente da navegação: situação de água aberta seguida de naufrágio de embarcação no local onde estava fundeada, sem danos a pessoas, a terceiros ou poluição marinha; b) quanto à causa determinante: admissão de água pelas obras vivas e pelas obras mortas da embarcação devido à sua precária manutenção, agravada por fortes chuvas, e c) decisão: julgar o acidente da navegação, capitulado no art. 14, letra a (água aberta e naufrágio), da Lei nº 2.180/54, como decorrente da negligência do representado, Sr. Antonio Roberto Ghirotti, condenando-o à pena de repreensão e ao pagamento das custas processuais, com fulcro no art. 121, inciso I, da Lei nº 2.180/54. Publique-se. Comunique-se. Registre-se. Rio de Janeiro, RJ, em 26 de junho de Cumpra-se o Acórdão: Aos de de NELSON CAVALCANTE E SILVA FILHO Juiz-Relator 5/5 LUIZ AUGUSTO CORREIA Vice-Almirante (RM1) Juiz-Presidente DINÉIA DA SILVA Diretora da Divisão Judiciária AUTENTICADO DIGITALMENTE

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