TRIBUNAL MARÍTIMO WM/SCB PROCESSO Nº /07 ACÓRDÃO

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1 TRIBUNAL MARÍTIMO WM/SCB PROCESSO Nº /07 ACÓRDÃO L/M ILSA-MAR. Queda na água de condutor de lancha, provocando-lhe lesões leves. Falha do condutor da lancha na operação do motor da embarcação. Imperícia. Condenação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Trata-se de analisar o fato da navegação envolvendo a L/M ILSA-MAR, de propriedade de Luiz Nahal Furtado, quando, cerca 10h30min do dia 19/01/2007, encontrava-se navegando na Praia Grande, Ilha de Itacuruçá, RJ, provocando a queda na água de seu condutor, o qual sofreu lesões leves. Dos depoimentos colhidos e documentos acostados extrai-se que a L/M ILSA-MAR estava inscrita em nome do primeiro proprietário Henrique Luiz Grechi Galvão, o qual vendeu a embarcação para Luiz Custódio Fontes Outeiro em 01/03/2005, sendo que este vendeu ao proprietário atual Luiz Nahal Furtado em 30/06/2005, sendo que nenhum deles providenciou a transferência de propriedade junto à Capitania dos Portos; que o condutor e proprietário da lancha ao dar partida no motor, acelerou muito, causando um movimento brusco da lancha, o que fez com que o mesmo fosse projetado para fora do barco; que ao acionar o motor da embarcação o condutor acionou também o afogador, para aquecimento do motor e prosseguiu fazendo a retirada das folhas da embarcação tendo reparado que o motor havia disparado em aceleração excessiva e ao tentar chegar ao comando houve o engrazamento de uma das marchas, fazendo com que a embarcação se movesse bruscamente, causando a sua queda na água; e que o condutor vitimado caiu na água tendo ficado inconsciente, sendo socorrido por uma embarcação de pequeno porte, a qual não foi identificada nos autos. Em seu depoimento, Luiz Nahal Furtado, condutor e proprietário da L/M ILSA-MAR, declarou que ao acionar o motor da embarcação, o mesmo só deu ignição com pouco de aceleração, sendo necessário acionar o afogador para o aquecimento do motor, prosseguiu fazendo uma retirada de folhas da embarcação, quando reparou que o motor havia disparado em aceleração excessiva e ao tentar chegar a parte do comando, houve o engrazamento de uma das marchas fazendo com que a embarcação se movesse bruscamente, causando a queda dentro da água; que o motivo do acidente foi que após a última utilização do motor, não foi feita a manutenção (secagem do sistema do carburador, com o objetivo de 1/6

2 eliminar resíduos de gasolina); que o depoente seria o responsável pelo acidente, por não ter feito a manutenção de secagem do carburador na última vez que usou a embarcação em questão; e que quer deixar claro que não houve imprudência da parte dele e sim uma falha referente a não manutenção no carburador que ocasionou o disparo na aceleração e posteriormente engrazamento de uma das marchas da embarcação, causando o acidente que se considera o responsável. Laudo de exame pericial descreve a seqüência dos acontecimentos e conclui que a causa determinante da queda do condutor da embarcação ILSA-MAR na água se deu por negligência do referido condutor que deu partida no motor em marcha avante e com alto grau de aceleração, levando a embarcação a ficar sem controle, até atingir o próprio condutor que foi atirado no mar, devido ao rápido deslocamento da embarcação. Ressalta que esse tipo de motor tem três posições para o engrazamento da marcha, sendo uma avante, uma no centro, em neutro e outra a ré, sendo tal engrazamento somente feito pela ação direta do condutor. Documentação de praxe anexada. No relatório, o encarregado do inquérito concluiu que face aos fatos apurados em depoimentos e perícia direta a causa determinante foi considerada negligência do condutor da embarcação ILSA-MAR. Apontou como possível responsável direto pelo acidente o próprio condutor da embarcação, Sr. Luiz Nahal Furtado que deu partida no motor em marcha avante e com alto grau de aceleração, levando a embarcação ficar sem controle. A D. Procuradoria ofereceu representação contra Luiz Nahal Furtado, na qualidade de condutor da L/M ILSA-MAR, com fulcro no art. 15, letra e (todos os fatos), da Lei nº 2.180/54, sustentando, em resumo, que não há como deixar de atribuir culpa ao condutor da lancha, eis que restou patente, por meio das provas carreadas aos autos, assim como pelo seu depoimento, que o mesmo foi imperito por ocasião de operar o motor da embarcação, acelerando demais num momento inoportuno, dando causa ao movimento brusco, citado por ele, que ao final terminou por lançá-lo nas águas; e que desta forma, diante dos fatos narrados e robustas provas dos autos, conclui pela culpa do condutor da embarcação, que deverá responder por imperícia, conforme a conclusão do laudo pericial e relatório final do inquérito. Recebida a representação e citado, o representado foi regularmente defendido. A defesa de Luiz Nahal Furtado, por I. defensor público da União, alega, em resumo, que a embarcação ILSA-MAR não está devidamente inscrita na Capitania dos Portos e a alienação da lancha não ocorreu na forma da Lei, razão pela qual inexiste a suposta venda da propriedade; que de acordo com a Lei nº 7.652/1988, as embarcações de bandeira brasileira têm necessariamente que obedecer trâmites previstos em lei para a plena 2/6

3 alienação da propriedade; que nesse sentido, a Lei nº 7.652/1988 impõe o registro da propriedade das embarcações, conforme dispõe o art. 2º ( O registro da propriedade tem por objeto estabelecer a nacionalidade, validade, segurança e publicidade da propriedade de embarcações ); que não houve a transferência de domínio, razão pela qual permanece como proprietário de direito da embarcação o Sr. Henrique Luiz Grechi Galvão; que o art. 5º da Lei nº 7.652/1988 diz: Presume-se proprietário a pessoa física ou jurídica em cujo nome estiver registrada ou inscrita a embarcação, conforme o caso ; que assim sendo, observando o disposto na legislação que rege a matéria, depreende-se que o legislador pretende que o uso da embarcação deva ser feito em consonância com as regras de sua utilização, para que o uso se dê de forma segura, considerando o estado de conservação da embarcação e também a ausência de avarias, no caso de embarcações, uma transferência inadequada pode gerar acidente ou fato da navegação, ambos descritos nos arts. 14 e 15, respectivamente, da Lei nº 2.180/54; que se verifica também a gravidade da situação, pois o verdadeiro proprietário não zelou nem sequer informou ao suposto comprador acerca do seguro obrigatório da embarcação, sendo que a venda realizada não tem valor de direito algum, razão que impõe o entendimento que o seguro obrigatório também está sob sua responsabilidade; que para deixar claro a responsabilidade do proprietário pelo fato da navegação em comento, a que se chamar, ao menos, a sua responsabilidade por solidariedade, uma vez que o Sr. Henrique Luiz Grechi Galvão, ao passar a posse da embarcação a terceiros sem a alteração no registro da embarcação, responde solidariamente por quaisquer acidentes ou fatos da navegação que porventura a embarcação venha a sofrer, uma vez que, como foi observado, a conseqüência é que não há transferência do domínio, portanto é o Sr. Henrique co-responsável pelo fato da navegação em tela; que nesta linha, é inegável a responsabilidade do Sr. Henrique Galvão, tendo em vista que houve um dano resultante do uso da embarcação, tendo o seu nome no registro da embarcação ILSA-MAR ; que outrossim, é importante destacar a total ingenuidade do acusado, quando em seu depoimento de fls. 16/17, diz-se entender como responsável pelo fato da navegação, por não ter feito a manutenção necessária para colocar o ILSA-MAR em água, sendo que, essa manutenção deveria ter sido orientada adequadamente pelo vendedor do bem; que nesse sentido, não há que se falar em responsabilidade do representado, pelo contrário, foi vítima, uma vez que foi o único prejudicado de diversas formas, sendo que primeiramente pagou por uma embarcação e não detém o seu domínio, isto é, pensa ser proprietário de um bem que pertence a outrem, em seguida observa-se que recebeu uma embarcação sem a devida manutenção, fato que gerou o fato da navegação; que não há como atribuir qualquer culpa ao condutor da embarcação, pois pelo que se depreende dos autos, ela não estava em boas condições para ser vendida, não 3/6

4 estava com a manutenção em dia, razão pela qual deve prevalecer o entendimento da responsabilidade exclusiva daqueles que de forma irresponsável realizaram a venda do bem; que por fim, vale relembrar que o fato da navegação em tela não trouxe qualquer prejuízo a terceiros, nem danos materiais ou pessoais; que a única conseqüência foram as lesões corporais sofridas pelo representado, fato que sem dúvida corrobora a tese de que a este não cabe outra terminologia senão a de vítima; que a conseqüência somente não resultou em tragédia em virtude do salvamento recebido pelo pescador que o resgatou do mar; e que pelo exposto requer que a representação seja julgada improcedente, tendo em vista que indiscutivelmente a responsabilidade é do atual proprietário que tentou alienar o bem sem observar os requisitos legais, reconhecendo-se assim a inexistência de pressupostos da conduta culposa, qual seja, a imperícia, tampouco o nexo de causalidade. Na instrução, nenhuma prova foi produzida. Em alegações finais, falaram as partes. Decide-se. De tudo o que consta nos presentes autos, conclui-se que a natureza e extensão do fato da navegação sob análise, tipificado no art. 15, letra e, da Lei nº 2.180/54, ficaram caracterizadas como queda na água de condutor de lancha, provocando-lhe lesões leves. embarcação. A causa determinante foi a falha do condutor da lancha na operação do motor da Analisando-se os autos, verifica-se que o inquérito deu conta de apurar que o condutor da lancha ILSA-MAR deu partida no motor em marcha avante e com alto grau de aceleração, levando a embarcação a ficar sem controle, até atingir o próprio condutor que foi atirado no mar, devido ao rápido deslocamento da embarcação, ressaltando que esse tipo de motor tem três posições para o engrazamento da marcha, sendo uma avante, uma no centro, em neutro e outra a ré, sendo tal engrazamento somente feito pela ação direta do condutor, restando provado nos autos que o referido condutor, ora representado, foi imperito por ocasião da operação do motor da embarcação, acelerando demais num momento inadequado, dando causa a um movimento brusco, o que determinou a sua queda na água. Observe-se que o próprio representado, em seu depoimento de fls. 16/17, declarou que ao acionar o motor da embarcação, o mesmo só deu ignição com pouco de aceleração, sendo necessário acionar o afogador para o aquecimento do motor, prosseguiu fazendo uma retirada de folhas da embarcação, quando reparou que o motor havia disparado em aceleração excessiva e ao tentar chegar à parte do comando, houve o engrazamento de uma das marchas fazendo com que a embarcação se movesse bruscamente, causando a sua queda dentro da água; que o motivo do acidente foi que após a última utilização do motor, não foi 4/6

5 feita a manutenção (secagem do sistema do carburador, com o objetivo de eliminar resíduos de gasolina); que o depoente seria o responsável pelo acidente, por não ter feito a manutenção de secagem do carburador na última vez que usou a embarcação em questão; e que quer deixar claro que não houve imprudência da parte dele e sim uma falha referente a não manutenção no carburador que ocasionou o disparo na aceleração e posteriormente engrazamento de uma das marchas da embarcação, causando o acidente que se considera o responsável. Deste modo, não deve ser acolhida a argumentação da defesa do representado sobre a propriedade da embarcação, uma vez que o representado Luiz Nahal Furtado declarou que adquiriu a embarcação de Luiz Custodio Fontes Outeiro, sendo que este, por sua vez, adquiriu a embarcação de Henrique Luiz Grechi Galvão em 01/03/2005 e a vendeu para o representado em 30/06/2005, portanto há mais de um ano antes do acidente, ficando caracterizada a posse da lancha pelo representado Luiz Nahal Furtado, e segundo o art. 9º da Lei nº 7.562/88 o pedido de registro da propriedade de embarcação, inicial ou por transferência (que é o caso) será feito pelo adquirente, no prazo máximo de 15 (quinze) dias, o que não foi cumprido pelo proprietário anterior, Luiz Custodio Fontes Outeiro, nem pelo proprietário atual, Luiz Nahal Furtado, ora representado, não havendo como imputar a culpa pelo evento ao proprietário constante do registro, Henrique Luiz Grechi Galvão, até porque o acidente se deu por culpa exclusiva do condutor da embarcação Luiz Nahal Furtado, razão pela qual deve ser responsabilizado pelo fato da navegação em tela. Pelo exposto, deve-se considerar procedente a fundamentação da Procuradoria Especial da Marinha, julgando o fato da navegação como decorrente de imperícia, condenando Luiz Nahal Furtado. Deve ser levado em consideração que o representado não possui antecedentes no Tribunal Marítimo e que assumiu a responsabilidade pelo evento em questão. Deve ainda ser oficiada à Diretoria de Portos e Costas a infração ao RLESTA: art. 16 inciso I (falta de transferência de propriedade no prazo legal), cometida pelo proprietário anterior da L/M ILSA-MAR, Luiz Custodio Fontes Outeiro e pelo proprietário atual da referida lancha, Luiz Nahal Furtado, e a infração à Lei nº 8.374/91 (falta de bilhete de seguro obrigatório DPEM em vigor na data do acidente), cometida pelo proprietário da L/M ILSA-MAR, Luiz Nahal Furtado. Assim, A C O R D A M os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do fato da navegação: queda na água de condutor de lancha, provocando-lhe lesões leves; b) quanto à causa determinante: falha do condutor da lancha na operação do motor da embarcação; c) decisão: julgar o fato da navegação, previsto no art. 15, 5/6

6 letra e, da Lei nº 2.180/54, como decorrente de imperícia, condenando Luiz Nahal Furtado à pena de repreensão, de acordo com o art. 121, inciso I, da Lei nº 2.180/54, com a redação dada pela Lei nº 8.969/94, isentando-o das custas processuais. Oficiar à Diretoria de Portos e Costas a infração ao RLESTA: art. 16 inciso I (falta de transferência de propriedade no prazo legal), cometida pelo proprietário anterior da L/M ILSA-MAR, Luiz Custodio Fontes Outeiro e pelo proprietário atual da referida lancha, Luiz Nahal Furtado, e a infração à Lei nº 8.374/91 (falta de bilhete de seguro obrigatório DPEM em vigor na data do acidente), cometida pelo proprietário da L/M ILSA-MAR, Luiz Nahal Furtado. Publique-se. Comunique-se. Registre-se. Rio de Janeiro, em 07 de outubro de SERGIO CEZAR BOKEL Juiz-Relator LUIZ AUGUSTO CORREIA Vice-Almirante (RM1) Juiz-Presidente DINÉIA DA SILVA Diretora da Divisão Judiciária AUTENTICADO DIGITALMENTE 6/6

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