PROCESSO N /93 ACÓRDÃO. IVM "NORSUL PINDARé". Encalhe. Danos materiais. Sem vítimas. Causa não apurada acima de qualquer dúvida. Arquivamento.

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1 848 TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO N /93 ACÓRDÃO IVM "NORSUL PINDARé". Encalhe. Danos materiais. Sem vítimas. Causa não apurada acima de qualquer dúvida. Arquivamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Consia dos autos que no dia 30/01/93, cerca das 05:30h a L/M "NORSUL PINDARÉ". classificação I-2-a, propriedade de Norsul Offshore Ltda., sob a mestrança do mestre de cabotagem Antonio Teixeira Bezerra, sofreu um encalhe no baixio de Maracajaú, RN, na posição de lat Sul e long W, quando navegava do porto de Paracuru, CE, com destino ao porto do Rio de Janeiro. A embarcação teve apoio do barco de pesca "GATÃO, que ajudou no desencalhe, e foi rebocada para Natal pelo rebocador "ASTRO GUARECEMA". Na ocasião estava no timão o moço de convés Roberto Nascimento Ribeiro. Não houve perdas de vidas e/ou feridos. Houve danos materiais. Antonio Teixeira Bezerra, comandante, disse que na ocasião se encontrava no refeitório, estando no timão o moço de convés Roberto. O mar estava com força 4 (quatro), aproximadamente. Tempo meio nublado e visibilidade regular. Na ocasião o rumo do navio era 160 verdadeiros. A embarcação possui piloto automático. Todos os motores propulsores funcionavam normalmente, assim como os equipamentos de navegação. O calado do navio era de um metro e oitenta centímetros (l,80m ) e o local media uma profundidade entre um metro e meio (1,50 m) a dois metros (2m). Disse que ao sentir o impacto subiu imediatamente ao passadiço, assumindo o comando da embarcação, onde constatou haver avarias no compartimento da máquina do leme, quando então foi executado o esgoto através da bomba de esgoto do porão e de uma outra, portátil. Foi feito também bombeamento de água do tanque de popa, mantendo assim o alagamento sobre controle. O fato foi comunicado à empresa. O desencalhe do "NORSUL PINDARÉ" foi efetuado com o auxílio do B/P "GATÃO". Atribuiu como causa do acidente à queima do fusível, desviando a embarcação noventa graus (9CT) do rumo anterior. Roberto do Nascimento Ribeiro disse que na ocasião se encontrava no timão do "NORSUL PINDARÉ". A embarcação estava no rumo de 160 com o piloto automático funcionando. O mar estava regular, vento variável, visibilidade boa. Disse desconhecer a área em que navegava. No mais confirma as declarações do seu comandante. Irineu Mario Tobias, marinheiro de máquinas, disse que na ocasião se encontrava de serviço na praça de máquinas; que os motores funcionavam normalmente; que houve perda de um leme, hélices empenados, rasgo na altura da máquina do leme de aproximadamente trinta centímetros. Na ocasião os motores propulsores desenvolviam RPM. Não soube a que atribuir o acidente.

2 Te.xe.ra Bezerra, comandante da L/M "NORSUL PINDARÉ", pela imprudênc.a de ter entregue o comando da embarcação a pessoa não habilitada, e ter prosseguido navegando com o piloto automático, mesmo ciente de que a embarcação encontrava-se vanando de rumo. al.ando-se ao fato um possível eno de navegação, já que, segundo seu propno depoimento e do moço de convés, os equipamentos de navegação funcionavam normalmente. Apensados aos autos documentação da embarcação com vistorias em dia e outros documentos de praxe. A Douta Procuradoria requereu o arquivamento dos autos por entender não ter havido erro na navegação e nem imprudência do comandante, tendo o encalhe ocorrido dev ido à queima do fusível do piloto automático, não sendo possível, nessas circunstâncias, exigir do comandante a sua presença no timão por tempo ininterrupto, privando-o de sua necessidade fundamental de alimentação. Faz considerações ao cartão de lotação às fls. 26 e 26v. dos autos. Publicada nota de arquivamento. Prazos preclusos, sem manifestação de interessados. Em sessão do dia 04/08/94, este Tribunal, por unanimidade, decidiu retomar os autos à Douta Procuradoria para representar em face de Antonio Texeira Bezerra e Roberto do Nascimento Ribeiro, com fulcro no artigo 14, letra "a", da Lei 2.180/54, pelas razões aduzidas pelo encarregado do inquérito às fls. 71/71 v. dos presentes autos (fls. 88). Cumprida a decisão retro, a PEM ofereceu representação contra os Srs. Antonio Teixeira Bezerra e Roberto do Nascimento Ribeiro, com fulcro no artigo 14, letra a", da Lei n 2.180/54, por entender "que a culpabilidade de ambos representados, segundo se depreende do relatório do inquérito, configura-se pela imprudência do comandante, primeiro representado, de ter entregue o comando da embarcação à pessoa não habilitada, e este, o segundo representado, por ter cometido provável erro na navegação, em razão de ter prosseguido navegando com piloto automático, mesmo tendo observado que a embarcação se encontrava variando de rumo, dando causa ao encalhe ífls.91/92). de timoneiro, para a qual estava habilitado.

3 850 TRIBUNAL MARÍTIMO O defendente concluiu, em sua análise sobre o acidente que um fusível do piloto automático teria queimado, fa/endo com que este desviasse o rumo de 160 para 250, o que provocou o encalhe. Infelizmente, para a apuração da verdade e para os que querem uma condenação, o encarregado do inquérito não determinou perícia no piloto automático da embarcação, o que faz com que a alegação do defendente tenha de ser aceita como verdadeira. A própria procuradora, na sua promoção original, entendeu que não havia culpa apurada de ninguém, tendo requerido o arquivamento do inquérito. A absoluta falta de provas e a falta de relação de causa e efeito entre o que se arbitrou como acusação e a realidade dos fatos impõem a absolvição do defendente, o que se requer neste momento, como medida de legítima justiça". Roberto do Nascimento Ribeiro, o segundo representado, em sua defesa de fls. 110 a 113, alega, cm síntese: Nos depoimentos de fls. 12, 12v, 13, 14 e 14v. não consta qualquer citação que comprometa o representado. O encarregado do inquérito também não acusou o representado, não atribuiu culpa pelo sinistro, conforme relatório (fls. 68 e 68v.). Em seu depoimento, o representado disse ter recebido o serviço de timão às 24:00 horas, com o rumo de 160 verdadeiros. Que a embarcação navegava com o piloto automático. Que por volta de 01:30 horas o comandante do navio teria feito uma correção de rumo. O que patenteia a sua participação efetiva no comando da embarcação e sua qualidade de navegador. Há na representação e também no relatório, um engano inaceitável, dizer-se que o representado assumiu o comando do navio. Ele não assumiu o comando do navio, mas sim, assumiu a função de timoneiro ". A defesa fez comentários a respeito da função de timoneiro a bordo de embarcações, e continuou: "O timoneiro não tem qualquer responsabilidade a respeito de rumo da embarcação. Este é fornecido por quem de direito. No presente caso, o rumo de 160 verdadeiros foi fornecido pelo mestre de cabotagem e comandante da lancha. Sr. Antonio Teixeira Bezerra, como ele próprio declarou (fls. 12 e 12v.). A lancha "NORSUL PINDARÉ com seu piloto automático, o que quer dizer que o timoneiro, apenas observava. O comandante estava no refeitório, mas acabara de sair do passadiço, onde tinha feito uma correção no rumo. Portanto, estava atento à navegação de sua embarcação. Se o navio navegasse com o leme manual, o timoneiro cumprindo seu serviço e obedecendo o rumo fornecido pelo navegador e houvesse o encalhe, esse timoneiro não teria culpa, pois ele não tem nada com rumo de navio, não entende desse assunto. Fí apenas um prestador de serviço no passadiço, mas não manuseia com carta náutica. Contudo, se esse encalhe ocorresse durante o dia. com boa visibilidade e o timoneiro não avisasse a quem de direito, a proximidade de terra ou pedras, nesse caso ele poderia ter culpa. Entretanto, o encalhe do "NORSUL PINDARH" ocorreu em noite de escuro".

4 peio quíquer *! r munhas- SLTJSLZ representado, pois ele era apenas um mone.ro de serviço da embarcação sm soada e que navegava com p.loto automático e não o seu comandante, como fora Í t o equivocadamente, inclusive pelo encarregado do inquérito". Na instrução as parles se louvam nas provas constantes dos autos Em alegações finais as partes ratificam suas peças iniciais. De tudo o que contêm os presentes autos verifica-se que a L/M "NORSl 1 PINDARE" sofreu um encalhe no baixo de Maracajaú, RN, quando navegava do porto de Paracuru, CE, com destino ao porto do Rio de Janeiro, no dia 30/01/93, cerca das 05.30h, portanto, no período diurno (uma manhã de verão), sob condições favoráveis de tempo, mar e visibilidade, sendo desencalhada no mesmo dia, com a ajuda do B/P GATãO, para em seguida ser rebocada até o porto de Natal pelo R/M "ASTRO GUARICEMA. Houve danos materiais, sem ocorrências de vítimas. Por ocasião do encalhe a embarcação estava no piloto automático, tendo como timoneiro o moço de convés Roberto Nascimento Ribeiro, enquanto o comandante se encontrava no refeitório para um café. Vistorias em dia. A prova testemunhai dá-nos conta que a embarcação estava no rumo de 160P no piloto automático, verificando-se em algumas ocasiões variação de rumo sempre corrigido a tempo. Os motores propulsores funcionavam normalmente assim como os equipamentos de navegação até o momento do acidente quando houve queima de um fusível do piloto automático. Os tripulantes atribuíram o acidente à queima de um fusível do piloto automático, que teria provocado o desvio de rumo 90 do rumo anterior, que era de 160 verdadeiros. Entretanto, não foi realizada uma perícia no fusível do piloto automático da embarcação para uma melhor apuração dos fatos. O encarregado do inquérito se limitou a concluir pela responsabilidade do comandante em razão do fator operacional, por ter entregue o comando da lancha à pessoa não habilitada. Entretanto, ao encerrar o seu relatório faz a seguinte observ ação: "Que tendo em vista a longa travessia deveria constar na lotação da embarcação, além do comandante, mais marítimos habilitados ao tipo de navegação. Tal observação nos leva a excluir de culpa o comandante, em razão da inexistibilidde de conduta diversa. Ressalte-se ainda que a L/M "NORSUL PINDARE" estava autorizada a navegar na seção de convés com apenas um MCB, um mannheiro de convés e um moço de convés, conforme documentos de fls. 26v. O timoneiro Roberto do Nascimento Ribeiro não assumiu o comando da embarcação mas assumiu a função de timoneiro e, como bem alegado pela esa, a não cabia responsabilidade pelo rumo da embarcacção. Este é fornecido por quem de direito. No presente caso. o nimo de 169 verdade.ros foi fornecido P loj. como ele próprio declarou em seu depoimento de fls., em que, anenas PINDARe' navegava com seu piloto automático, ou seja, o observava. O comandante estava no refeitório, mas acabara de sa>r do passadtço.

5 852 TRIBUNAL MARÍTIMO tinha feito uma correção no rumo. Portanto estava atento à navegação de sua embarcação. Diante do exposto e por tudo o mais que dos autos consta, conclui-se que o acidente da navegação em apreciação, caracterizado pelo encalhe da L/M "NORSUL PINDARé", ocorrido no dia 31/01/93, cerca das 05:30h, no baixio do Maracajaú, RN, não teve sua causa determinante apurada acima de qualquer dúvida, eis que não restou confirmado erro de navegação e nem imprudência por parte do comandante, assim como não houve uma perícia no piloto automático da embarcação para apurar as causas da queima do fusível, que segundo os tripulantes teria dado causas ao acidente. Além do que, não se pode exigir do comandante a sua presença no timão por tempo ininterrupto, durante uma longa travessia; também não restou comprovada a conduta imperita do timoneiro, pois ele era apenas um timoneiro de serviço da embarcação, que navegava com piloto automático, e não seu comandante, como bem ficou demonstrado nos autos. Por tais razões, deve-se julgar improcedentes os termos da representação, acolhendo integralmente os argumentos das defesas para exculpar os representados Antonio Teixeira Bezerra e Roberto do Nascimento Ribeiro pelo acidente em apreciação e mandar arquivar o processo. Assim, ACORDAM os Juizes do Tribunal Marítimo, por maioria, nos termos do voto da Exma. Sra. Juíza Relatora: a) quanto à natureza e extensão do acidente: encalhe. Danos materiais, sem vítimas; b) quanto à causa determinante: não apurada cima de qualquer dúvida; c) decisão: julgar o acidente da navegação previsto no art. 14. letra " a, da Lei n" 2.180/54 como de origem indeterminada, exculpando os representados Antonio Teixeira Bezerra e Roberto do Nascimento Ribeiro e mandando arquivar o processo. Vencido, parcialmente, o Exmo. Sr. Juiz-Revisor que nos termos do seu voto responsabilizava pelo acidente Antonio Teixeira Bezerra, aplicando-lhe a pena de multa de RS 300,00 (trezentos reais). P.C.R. Rio de Janeiro, em 21 de novembro de RENATO DE MIRANDA MONTEIRO, Almirante-de-Esquadra (RRm), Juiz Presidente - MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA PADILHA, Juíza- Relatora. PROCESSO N /93 VOTO VENCIDO No seu depoimento o moço do convés Roberto do Nascimento Ribeiro declarou que não conhecia a área por onde navegava, e mesmo assim o comandante da lancha "NORSUL PINDARÉ deixou o barco no piloto automático, descendo para o refeitório sem antes ter se assegurado que estava num rumo que oferecia segurança.

6 ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 853 Não sendo habilitado, Roberto não teve condições de avaliar a situação acabando por encalhar, o que vem demonstrar que o mestre de cabotagem Antoniò Teixeira Bezerra faltou com o dever exigível de comandante, levando o timoneiro a cometer erro de navegação, e ao encalhe, razão pela qual o considero como único responsável pelo acidente. - JOSE DO NASCIMENTO GONÇALVES, Juiz

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