30 TRIBUNAL MARÍTIMO

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1 30 TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO N ACÓRDÃO Motor gerador de luz apresentando vasamento dt gasolina, origina incêndio e naufrágio com conseqüências funestas. O transporte de 82 colonos em lancha com capacidade para 20 passageiros, sem a devida autorização das autoridades, oem como meios de salvatagem, ocasionou a morte de 41 seres humanos. Condenação. Vistos, examinados, relatados e discutidos os presentes autos. No dia 4 de julho de 1971, o barco a motor ANAMÃ ' zarpou de Belém para Vitória do Xingu, conduzindo 82 passageiros e 5 tripulantes. A ANAMÃ e r de propriedade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (1NCRA), e estava sob o comando do mestre Ademar Borges Palheta. A viagem transcorria normal quando, às 23 0C horas do dia 4 de julho, após a passagem pela localidade de Antonio Lemos, irrompeu violento incêndio a bordo, tendo sua origem no motor a gasolina, acionador do gerador de luz. O mestre, manobrando rapidamente, tentou alcançar a margem mais próxima, onde desembarcaram vários colonos, inclusive tripulantes. Em conseqüência da paralisação do motor, devido ao fogo, a ANAMÀ. ao sabor da correnteza, afaitou-se da margem. Com a mudança do vento, o barco foi totalmente envolto pelas chamas e vários passageiros se lançaram n'água. Algum tempo depois explodiu naufragando. Os sobreviventes foram recolhidos por moradores do local. O INCR \, ao tomar conhecimento do sinistro, tomou as providências cabíveis, quais sejam: envio de avião conduzindo socorros médicos e a embarcação Almirante Tamandaré.

2 ANUARIO DE JU RISPRUDÊN CIA 31 No dia 6, chegou ao local uma corveta da Marinha de Guerra conduzindo, inclusive, escafandristas. Os quarenta e um mortos foram sepultados em Breves e os passageiros sobreviventes conduzidos a Vitória do Xingu sendo, posteriormente, encaminhados a Altamira. 0 mestre da ANAMÃ, em seu depoimento, fls. 9, declarou que os passageiros foram tomados pelo pânico e atiravam-s4 n água fugindo ao fogo, sendo impossível comandá-los e orientar o abandono. Não havia a bordo nenhuma embarcação miúda para auxiliar a salvatagem. Não conseguiu manter a lancha próximo a margem por ter o motor parado. Declarou ainda, que apenas possuiam 10 coletes salvavidas e 6 bóias circulares. i O primeiro motorista, Décio Martins da Silva, a fls. 11, declarou que, aproximadamente às 23,05 horas, o segundo íhotoiista comunicou a existência de fogo no gr upo gerador acionado a gasolina. Imediatamente, deixou seu beliche e correu ao local do incêndio. Na praça de máquinas não havia nenhum extintor em condições de funcionamento. O marinheiro Waldemar tentou apagar o fogo abafando-o com uma lona molhada, nada adiantando devido a propagação rápida do fogo, em conseqüência de grande quantidade de colchões existentes no convés. Com o pânico entre os passageiros, tornou-se impossível coordenar qualquer faina. Declarou ainda que combateram o incêndio cerca de 30 minutos, tendo se atirado n água, nadando para a margem, aproximadamente às 24,00 horas. O marinheiro Waldemar da Silva Oliveira, em seu depoimento,^ a fls. J 3, declarou que ao notar a presença ue fogo, correu com um pedaço de lona, tentando apagá-lo. Não se lembrou de utilizar o extintor. Havia 2 no convés e um na praça de máquinas, que não funcionava. O mestre que se encontrava no leme, guinou para a margem mais próxima, para facilitar o desembarque dos colonos. i Otto Rubin Aguiar, segundo motorista, a fls. 15, declarou que foi a primeira pessoa a verificar o fogo e também tjuem deu o alarme. Não usou extintor da praça de máquinas por saber que o mesmo não funcionai ia. Com a propagação do fogo, houve pânico entre os passageiros. Quando o barco montou no barranco, os colonos começaram a atirar-se n água. Logo em seguida, com a paralisação do motor, a correnteza afastou a embarcação para o meio do rio. O mèstre e o marinheiro Waldemar tentaram amarrar um cabo em terra, mas a força da correnteza não permitiu. O senhor Francisco dos S an to s Carneiro, Técnico Agrícola, viajando como encarregado dos colonos,/a fls. 17, declarou que, por volta das 23,00 horas estava conversando com o comandante, que se encontrava no leme, e com o marinheiro Waldemar quando, repentina men*:, o marinheiro Waldemar correu ein direção à popa, chamando-lhe a atenção. Ao olhar para

3 32 TRIBUNAL MARÍTIMO ré verificou que havia fogo e pânico entre os passageiros. Tentou dirigir-se ao local, porém foi impedido pelos passageiros que corriam desordenadamente. O comandante manobrou, tentando atingir a margem, porém não conseguiu encalhar a proa. Estima em 20 minutos o tempo decorrido entre o início do sinistro e a hora em que cbandorou a lancha. Informou que viu o marinheiro Waldemar combater o incêndio com um pedaço de lona. A senhora Joaquina da Silva, passageira, ã fls. 27, declarou que às 23,00 horas, viu junto ao motor a gasolina ali existente, o senhor Otto Rubin de Aguiar que estava com un*a lata aparando a gasolina que vesava oonstantemente. Anteriormente vira, tanto o senhor Otto Rubin como outro motorista, colocarem a gasolina recolhida, da lata já mencionada, numa lata maior existente ao *ado do motor. Embora estivessem trabalhando com combustível e com o piso encharcado de gasolina, o motorista Otto fumava um cigarro. Logo a seguir ouv?u o barulho característico de gasolina quando atingida por fogo. Foram cuvidas 10 testemunhas. Vistorias em dia. O encarregado do inquérito responsabilizou o INCRA e os cinco tripulantes, pelo evento. A Douta Procuradoria, de acordo com o que a lei lhe confere, representou contra o Instituto Nacional úe Colonização e Reforma Agrária, contra o mestre Ademar Borges Palheta, motorista Otto Rubin de Aguiar, motorista Décio Martins da Silva, Marinheiro Waldemar da Silva Oliveira e cozinheiro Cirino Sena de Souza. Em 8 de junho de 1972, o Tribunal recebeu a representação. Citados nc. forma da lei, defenderam-se através de seus advogados. A defesa da primeira representada, INCRA, declara que, ao contrário do que afirma a representação, a lancha ANAMÃ trafegava de acordo com todas as exigências legais e cita documentos anexados aos autos. Alega ainda que todos os tripulantes eram homens de grande vivência marítima local, que o mestre Ademar Borges é servidor do INCRA há mais de cinco anos, sempre dedicados a pilotagem de lanchas e barcos. Que o rol de equipagem foi submetido e aprovado pela Capitania (fls. 46). A defesa dos demais tripulantes alega que o naufrágio ocorreu às 03,00 horas, todos os colonos dormiam no convés e, com o pânico geral, não foi possível organizar o abandono da lancha. A manobra de acostamento, com a tentativa de passarem um cabo em terra, permitiu que grande parte dos passageiros se salvassem.

4 ANUARIO DE JURISPRUDÊN CIA 33 A tripulação não foi omissa nem covarde, apenas deu, na medida de sua possibilidade, a assistência aos passageiros. De tudo o que contém os presentes autos, conclui-se que muita razão tem a Douta Procuiadoria em afirmar que a lancha ANAMÃ encontrava-se em situação irregular. Os documentos que a defesa do INCRA apresenta como prova de que a lancha trafegava dentro das exigências legais, na realidade são provas irrefutáveis contra o próprio INCRA. A Vistoria flutuando, fls. 50, encontra-se irregular, pois não foram cumpridas, dentro do prazo, as exigências n9s 4-5 _ 6 7e8. A lanchâ zarpou de Belém sem a devida autorização da Capitania. O documento a tis. 45 não é autorização de viagem, como quer fazer crer a defesa. Trata-se de uma autorização para trafegar sem o Título de Provisão e Registro. A embarcação tinha capacidade para transportar 20 passageiros, conforme consta do Título de Inscrição (fls. 47). Portanto, para transportar 82, teria que obter uma licença avulsa e sujeitar-se a uma nova Vistoria. Teria tamltf í que embarcar, na sua tripulação, um taifeiro e um enfermeiro, conforme consta no verso do Cartão de Lotação, fls. 51, exigência a cumprir quando transportar mais de 1C passageiros. A ANAMÃ" possuía material de salvatagem insuficiente, apenas 10 coletes salva-vidas, quando deveria ter 87 para oferecer o mínimo de segurança aos passageiros e tripulantes. Dos cinco tripulantes, apenas dois são marítimos habilitados, o mestre e o marinheiro Waldemar. O vazamento de gasolina existente no motor que impulsionava o gerador de luz, pelo que consta nos autos, já existia ao zarparem de Belém. A própria defesa do INCRA recoi hece a sua ilegalidade quando declara, a fls. 90, "se nfo procurou a Capitania dor Portos, é porque se trútava de um domingo e a mesma não funcionava... se na partida, a embarcação ANA- MÃ omitiu alguma exigência marítima, isto se deveu às contingências do momento quando, sob pressão dos colonos e ante a impossibilidade do alojá-los, visto terem chegado intempestivamente, a única alternativa seria o embarque, como diversas vezes S3 fizera, com 10 salva-vidas e 3 extintores. O lamentável é que uma instituição governamental, como o INCRA, ao planejar a colonização do Alto Amazonas, tendo como formação embrionária a cidade de Altamira, demonstre falha de estrutura administrativa e alegue inexictência de verba própria para atender a contingência em tela.

5 34 TRIBUNAL MARÍTIMO O mestre Ademar Borges Palheta não soube cumprir com seu dever e obrigação de comandante, zarpando de Belém com a ANAMÃ sem equipamentos de salvatagem necessários, com extintor inoperante na praça de máquinas e transportando sem a menor segurança uma carga valiosíssima, 82 ' seres humanos que seriam os primeiros colonizadores de Altamira, os quais dariam o início irreversível de integração nacional. Os motoristas Décio Martins da Silva e Otto Rubin de Aguiar tinham por dever manter em condições de funcionamento o motor a gasolina, no qual teve início o incêndio. Deveriam ter consertado o vazamento do motor da saída, ou providenciado seu reparo. Também deveriam estar cercados de todos os cuidados, não permitindo que ninguém se aproximasse do local onde vazava gasolina, nem fumassem nas proximidades. Sabiam que o extintor da praça de máquinas não estava funcionando e não providenciaram a sua substituição. O marinheiro Waldemar da Silva Oliveira, segundo as testemunhas, foi quem deu o alarme do incêndio e tentou abafar o fogo com um pedaço de lona (fls. 11, 13 e 18). As testemunhas também confirmaram que Waldemar tentou auxiliar a puxar a embarcação por um cabo até à margem sendo que, em dado momento, foi forçado a desistir gritando que não agüentava mais (ils. 24). Desde o início empreendeu todos os esforços visando salvar passageiros. Só abandonou a luta quando verificou, conscientemente, a impossibilidade de continuar a prestar qualquer auxílio. O cozinheiro Cirino de Souza, após um dia laborioso, pois tinha que preparar sozinho todas as refeições das 87 pessoas, deitou-se. Já havia adormecido quando os colonos foram tomados pelo pânico. Sua rede chegou a queimar-se. Tentou dirigir-se para a proa porém, não conseguindo passar, só lhe restava atirar-se n'água, assirn como muitos colonos que na popa se encontravam. Assim sendo, ACORDAM os Juizes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente: incêndio, naufrágio e morte de 41 passageiros; b) quanto à causa determinante: vazamento de gasolina no motor do gerador de luz; c) considerar culpados o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o mestre Ademar Borges Palheta, os motoristas Décio Martins da Silva e Otto Rubin de Aguiar, como incursos no art. 14, letra a" e b", e art. 124, da letra h \ da fcei 2 180/54, aplicando ao 19 a multa de 50 salários-mínimos; Exculpar os representados Cirino Sena de Souza e Waldemar da Silva e aos demais de 2 salários a cada um. Custas proporcionais comunicar à D.P.C. as infrações de Polícia Naval. Os Exmos. Juizes Relator e Braz da Silva aplicavam à primeira a multa de 20 salários-mínimos; Charnaux Sertã e Gerson Cruz agravavam a pena do mestre com a suspensão por (seis) meses de suas funções. Não tomou parte na votação o Exmo. Juiz Alvaro

6 A N U 'T IO D E JURISPRUDÊNCIA 35 Beduschi já presente, por ausente ao relatório. P.C.R. Rio de Janeiro, 5 de novembro de Elmar de Mattos Dias, Vice-Almirante (RRm) Juiz-Presidente Raymundo Lannes Bernardes, Relator Gerson Rocha da Cruz Antonio Mendes Braz da Silva Celso Renato Duvivier de Albuquerque Mello Pedro Paulo Chranaux Sertã Procurador: José Maria Coutinho Nevares, 2 Procurador.

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