SUPLEMENTAÇÃO DE BEZERROS DE CORTE

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1 SUPLEMENTAÇÃO DE BEZERROS DE CORTE Nos primeiros meses de vida os bezerros obtêm grande parte dos nutrientes de que precisa do leite materno, que é de fácil digestão para o animal que ainda é jovem. Em virtude de ainda não ser um animal ruminante, não tem todas as estruturas do seu sistema digestivo estão desenvolvidas, assim, esse alimento se constitui em uma importante fonte nutricional. No entanto, nota-se que a necessidade total de energia do animal só é suprida pelo leite da mãe nos primeiros dois meses de vida e que a oferta de leite pela vaca tende a cair com o tempo. Assim, calcula-se que há uma diferença de aproximadamente 30% entre o que o animal necessita para um desenvolvimento adequado e o oferecido pela mãe, nessa época da vida do terneiro. O crescimento até a desmama tem especial importância, pois nesta fase o bezerro apresenta a mais alta taxa de incremento de peso em toda sua vida, alcançando em 7 meses cerca de 35% do peso final de abate. Desta forma, é necessária uma maior atenção aos animais nessa fase de sua vida, pois vários são os fatores que influenciam o crescimento dos animais nesta fase, podemos citar como principais, os efeitos da habilidade materna, do grupo racial e do nível nutricional dos bezerros. Portanto, para evitar que o bezerro fique impedido de expressar todo seu potencial genético, recomendamos a utilização da tecnologia denominada suplementação em Creep-Feeding ou cocho privativo. Com o intuito de desmamar bezerros mais pesados, o uso desta suplementação pré-desmama vem sendo muito utilizada pelos pecuaristas. No entanto, em muitas propriedades, essas práticas são adotadas sem qualquer avaliação técnico-econômica e podem gerar prejuízos aos produtores. VANTAGENS DA UTILIZAÇÃO DO CREEP-FEEDING OU COCHO PRIVATIVO O sistema creep-feeding ou cocho privativo consiste em disponibilizar somente aos bezerros, em fase de aleitamento, acesso a uma área de cocho, onde estes irão receber uma alimentação suplementar protéica e/ou energética de acordo com as particularidades de cada sistema de produção. Essa suplementação pré-desmama estimula o desenvolvimento precoce do rúmen, incentivando os bezerros a procurarem outros alimentos além do leite, ingerindo assim uma quantidade maior de nutrientes, que se traduz em animais de maior peso à desmama. Além disto, o creep-feeding reduz o estresse à desmama e promove significativo descanso da matriz, reduzindo a carga produtiva a ela imposta, melhorando assim suas funções reprodutivas. A resposta dos animais a esta suplementação depende de alguns fatores que podem ser limitantes no sucesso do uso dessa técnica, tais como a disponibilidade e a qualidade da pastagem, a produção de leite materno, o potencial genético dos bezerros e a utilização de suplementos de alta qualidade, visando uma dieta adequada e evitando gastos desnecessários. O creep-feeding se mostra uma técnica interessante quando se avaliam suas vantagens em relação ao peso na desmama, entretanto, nas fases posteriores, de acordo com os objetivos do sistema e dos modos de produção, as vantagens podem se alongar.

2 Nos sistemas que visam à venda de animais por peso à desmama, muito comum no sul do país, as vantagens são muito grandes, já que os bezerros suplementados chegam a esta fase mais pesados e mais uniformes que aqueles mantidos somente a pasto. Para quem trabalha com produção de novilhos super-precoces (abate entre 12 e 15 meses), o uso do creep-feeding se mostra ainda mais interessante, principalmente quando os bezerros são levados ao confinamento imediatamente após a desmama, permanecendo neste sistema de produção até atingir o peso de abate, o que gera um melhor rendimento de carcaça e uma carne de melhor qualidade. Entretanto, se os animais permanecem no pasto, o efeito da suplementação pré-desmama, tende a ser reduzido, e muitas vezes o peso ao abate dos animais suplementados se assemelha ao dos animais que não receberam nenhuma suplementação e, dessa forma, os prejuízos são evidentes. Em rebanhos geneticamente melhorados ou que explorem raças européias, esse tipo de suplementação é recomendado, pois propicia uma maior expressão do potencial genético dos terneiros e conseqüentemente um impulso na comercialização destes animais. Um outro aspecto a ser considerado é a eficiência do creep-feeding em função da época de estação de monta. O sistema se mostra mais eficiente quando a monta é feita no outono, pois os bezerros serão suplementados justamente durante o final da estação mais seca do ano no sul do país. Com relação à monta de primavera/verão (usual), essa prática pode não ser vantajosa, uma vez que as pastagens apresentam boa qualidade e alta disponibilidade à época da suplementação. MONTANDO UM CREEP A estrutura do creep-feeding deve permitir a entrada exclusiva dos bezerros aos cochos de suplementação. Os vãos de entrada (longitudinais e/ou transversais) devem restringir o acesso das matrizes. Em alguns casos faz-se necessário o uso de arame na parte inferior para evitar que algumas vaca se ajoelhem e entrem no creep. Esta estrutura deve estar localizada em lugares de uso freqüente e diário dos animais, próximo aos cochos de sal das matrizes, por exemplo e, se possível, com alguma sombra. De forma bem prática, recomendamos colocar o limitador da entrada das matrizes 10 centímetros mais baixo que a parte inferior do peito da menor vaca. Outra maneira de impedir a entrada das matrizes seria dispor os palanques de modo que o vão entre eles seja apertado o suficiente para entrar somente o bezerro. Porém, o ideal é que o dimensionamento das instalações deva ser de acordo com as características do sistema produtivo. A EMBRAPA-CNPGC sugere as seguintes dimensões para o cercado e o cocho: área do cercado: aproximadamente 1,5 m 2 / cria (deixando espaço de no mínimo, 2 metros entre o cocho e a cerca, para a circulação dos animais); acesso de entrada exclusivo ao bezerro: 0,40 metro de largura x 1,20 metros de altura, com esteios fincados bem firmes; número de entradas: 4 para 50 bezerros ; 8 para 200 bezerros;

3 cocho com comprimento de 0,10 metro por cria e largura que possibilite alimentação pelos dois lados simultaneamente. A estrutura física de um cocho privativo pode ser constituída em uma armação de arame, madeira ou metal como nas figuras abaixo. AVALIANDO OS SISTEMAS COM CREEP Para se proceder uma boa avaliação dos sistemas que utilizam creep-feeding, deve-se ressaltar que, independentemente do sistema utilizado pelo produtor, há a necessidade de uma fonte de volumoso para o sistema funcionar a contento, como um bom pasto, uma boa capineira ou silagem de boa qualidade. Para o produtor que está engajado na fase de cria, a suplementação com cocho privativo demonstra-se uma interessante estratégia, à medida que: Obtém-se um maior peso a desmama (10 a 15% maior que o não suplementado); Atinge-se o peso de desmama em menor tempo, pois há uma complementação do requerido pelo animal nessa fase, que não acontecia anteriormente com a dieta apenas à pasto e leite; Ocasiona um menor impacto de estresse ao bezerro na desmama, já que o animal tem uma menor dependência nutricional do leite materno; Melhora o intervalo entre partos das vacas, à medida que a matriz não é exigida ao máximo para a produção de leite. Note que, não há a substituição do consumo do leite pelo consumo do concentrado oferecido ao bezerro, mas há o impedimento que o leite produzido pela vaca seja utilizado pelo bezerro como uma suplementação ao pasto; Aumenta a uniformidade do rebanho, à medida que há o oferecimento de um concentrado com formulação específica às necessidades dos animais. Para produtores de ciclo completo deve-se avaliar a suplementação do bezerro cuidadosamente. Animais que ganham maior peso na fase de desmama tendem a ser mais exigentes nutricionalmente, quando estão na fase de recria. Portanto, caso o animal, proveniente de suplementação e recém desmamado, seja mantido em um pasto com baixa fonte de nutrientes e sem suplementação adequada, o ganho de peso obtido pela utilização do cocho privativo na fase anterior pode se perder.

4 Peso (kg) SÃO PAULO A figura 01 demonstra de maneira qualitativa o comportamento de dois animais com regimes nutricionais diferentes antes desmama, porém após essa fase, com regimes semelhantes, ou seja, apenas a pasto. Avaliação do peso do bezerro: Suplementado x Sem suplementação Desmama Meses Com suplementação Sem suplementação FIGURA 01: Desenvolvimento quantitativo de animais com suplementação quando bezerros, em comparação aos animais sem suplementação. Fonte: PROJEPEC Projetos & Consultoria Agropecuária. Comumente, na região centro-sul do Brasil, na época de inverno há menor produção de forragem e o sistema de cocho privativo apresenta-se como uma segurança para a produção. No entanto, esse caso não se constitui como a melhor opção para o uso da tecnologia, à medida que a suplementação visará complementar a deficiência nutricional que o pasto apresenta nessa época. Uma opção mais interessante economicamente seria o processo de vedação. Essa tecnologia consiste no fechamento de um pasto impedindo a entrada de animais na época chuvosa para que haja reserva de pasto no período seco. Esse assunto será melhor detalhado em outra oportunidade. ESTUDO DE CASO Nesse estudo estabeleceu-se como critério de avaliação o custo do ganho de peso médio dos terneiros em comparação ao preço de venda desses animais, em quilogramas (período correspondente à fase de cria). Nessa simulação considerou-se o preço médio do bezerro do mês de agosto/2.010, de valor R$ 660,00 com peso médio de 220,00 kg, ou seja, cerca de R$ 3,00/ quilo vivo. Para esse cálculo foi utilizado um material que apresenta 18% de proteína bruta, tendo sua fonte de origem vegetal, ou seja, não foi utilizado uréia e sim proteína verdadeira. Os animais começaram a

5 ser suplementados aos dois meses de idade. Deve-se salientar que os dados abaixo foram considerados com matrizes produzindo, em média, 2,5 litros de leite ao dia, do nascimento à desmama dos bezerros. A intenção foi atingir os 220 quilos à desmama e comparar seu custo e lucro com o animal de 180 kg (R$ 540,00/cabeça ou R$ 3,00/quilo) na mesma fase. TABELA 01: Características do sistema de suplementação. FATOR Peso ao nascimento Peso ao início da suplementação Peso final à desmama Ganho de peso médio diário por terneiro Tempo à desmama (do início da suplementação) Consumo de concentrado (média do período) Fonte: PROJEPEC Projetos & Consultoria Agropecuária. VALORES 35 kg 65 kg 220 kg 1,03 kg 150 dias 0,50 kg/dia TABELA 02: Análise de custo adicional de produção com a suplementação. FATOR VALORES Custo do quilo do concentrado R$ 0,78 Custo por terneiro até desmama (adicional) R$ 58,50 Receita por animal (adicional) R$ 120,00 Lucro por animal desmamado R$ 61,50 Fonte: PROJEPEC Projetos & Consultoria Agropecuária. Através da análise dos dados apresentados, conclui-se que a utilização de um cocho privativo torna-se viável, à medida que o custo total de suplementação é menor que a receita por animal. A análise efetuada foi embasada nos custos de suplementação alimentar do bezerro (que se consiste na maior parcela dos custos), sem considerar os custos de cochos, tratadores e quaisquer outras estruturas que possam vir a serem necessárias ao sistema. Porém, também não foram inclusas nas receitas os ganhos em fertilidade das matrizes (aumento na taxa de prenhez), nem os ganhos em tempo de engorda que este animal apresentará na sua recria/terminação.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A utilização do sistema de creep-feeding é uma tecnologia inovadora que auxilia na expressão do potencial genético dos bezerros de corte, principalmente para quem trabalha com cruzamento industrial e com raças européias. Para a região sudeste e centro-oeste do Brasil, onde, usualmente, o mercado de bezerros é tem seus preços orientados em valores por cabeça, a vantagem do maior peso do bezerro à desmama obtida pela suplementação, deve ser exigida pelo criador no momento da venda. Mas, deve-se ressaltar, mesmo essa vantagem não sendo obtida, os benefícios descritos acima, como a obtenção do peso a desmama em menor tempo; menor impacto da desmama ao bezerro; menor exigência da matriz e maior uniformidade do rebanho; proporcionam ao criador uma maior eficiência em seu processo de produção. Já para as regiões do sul do Brasil, onde os animais são comercializados por quilo de peso vivo, o maior peso à desmama é fator fundamental para incrementar a rentabilidade econômica da atividade pecuária, seja ela cria ou terminação. Para todos os casos descritos, a tecnologia aumenta o custo do processo de produção, sendo, portanto, necessária uma séria avaliação de viabilidade econômica para a instalação do sistema. Para isso, o pecuarista deve obter um auxílio técnico de confiança para a implantação do sistema, tornando-o eficiente e produtivo e, consequentemente, permitindo a colheita de bons resultados econômicos. PAULO ARARIPE Engenheiro Agrônomo PROJEPEC

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