TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº /97 ACÓRDÃO

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1 TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº /97 ACÓRDÃO N/M CONDOR. Ferimento de tripulante por imprudência do mesmo. Condenar o 1º representado, exculpando os demais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. No dia 13/08/97, cerca das 16:00 horas, durante faina de embarque de containers na tampa do porão nº 02 do N/M CONDOR, o estivador Edison Claudio Monteiro sofreu fratura exposta no pé direito, ao tentar colocar a trava de segurança na posição correta, ocasião em que o container arriou sobre o mesmo. No inquérito realizado pela CPSP, foram ouvidas 5 testemunhas, e juntada farta documentação. Hector Chible Toledo, imediato, declarou que quando o contêiner era transportado do cais para bordo no momento que o mesmo estava sendo colocado na posição de estocagem a castanha de travamento correu e o estivador tentou colocá-la na posição com os pés e o container continuou a descer inpresando o pé do estivador, e o estivador estava de sandália e não com os sapatos de segurança. O portaló em momento nenhum mandou parar o movimento do container. Acrescentou que o tempo era bom; ventos fracos e visibilidade boa, além de não haver nenhum baque do cais no momento do acidente. Edison Claudio Monteiro, estivador, declarou que estava embarcando contêiner de 40 pés para colocar na tampa do porão, nesse intervalo o guincheiro arriou o contêiner, a castanha saiu fora de posição, mandou o portaló que virasse (suspender um pouco o container), para poder colocar a castanha na posição, quando o contêiner estava içado

2 aproximadamente 40 cm, fui acertar a castanha com o pé direito, o contêiner arriou em cima do meu pé, somente pegando a ponta do dedão do pé, imediatamente mandou que suspendesse o contêiner, para retirar, foi levado ao Pronto Socorro do Macuco, depois para Santa Casa onde fizeram uma micro-cirurgia. Carlos Damasceno de Carvalho, guincheiro, declarou que o acidentado não utilizava-se de nenhum tipo de equipamento de segurança. Claudio Figueira, portaló, declarou que o container não se encaixou direito na castanha, correu um pouco da mesma vindo a pegar o pé do estivador Sr. Edilson Cláudio Monteiro. Acrescentou que os estivadores não utilizaram equipamento de segurança. No relatório o encarregado do inquérito concluiu que: 1) Fatores que contribuíram para o acidente: a) Fator humano: não contribuiu, visto que não foi citado ou juntado qualquer documento nos autos deste inquérito, envolvendo os trabalhadores sob o ponto de vista biológico, psicológico, psicossomático ou fisiológico; b) Fator Material: não contribuiu; e c) Fator Operacional: contribuiu, visto que o estivador Sr. Edilson Cláudio Monteiro, ao perceber que a trava de segurança (castanha) estava fora de posição, tentou colocá-la corretamente com o próprio pé. Mesmo estando desprovido de Equipamento de Proteção Individual (EPI). É evidente, que naquela situação, o correto seria: parar a manobra, içar o container, retirá-lo daquela posição, deixando o local desimpedido para que a trava (castanha) fosse colocada na devida posição, com segurança. 2) Fase ao exposto este encarregado aponta como possíveis responsáveis o Sr. Edilson Cláudio Monteiro, por imprudência. De acordo com a Portaria n.º 3.214/78, do Ministério do Trabalho, item 6.2, o empregador é obrigado a fornecer ao empregado, gratuitamente, Equipamentos de 2

3 Proteção Individual (EPI), adequado ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento. O que normalmente não tem sido cumprido, conforme consta nos autos deste Inquérito folhas 03, 42, 47 e 59. A PEM, após diligências, ofereceu representação em face de Edilson Cláudio Monteiro, estivador acidentado, Cláudio Figueira, portaló e Wilson Sons S/A Comércio e Indústria e Agência de Navegação, entidade estivadora, com fulcro no art. 15, e, da Lei nº 2180/54. Citados, os representados foram regularmente defendidos. A defesa da entidade estivadora alegou que a Procuradoria afasta-se da realidade fática dos Portos brasileiros ao afirmar que a operadora possui posição de empregadora. Desconhece que, de fato, a operadora portuária não possui voz de mando junto aos estivadores. Pelo menos no Porto de Santos esta é a realidade exaustivamente demonstrada em matérias jornalística na imprensa local e nacional, conforme demonstra os documentos anexos (docs. 2/3/4/5). Edilson pertencia, na época dos fatos, março de 1997, aos quadros do Sindicato dos Estivadores de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão, e por esta razão é que foi escalado pelo Sindicato para prestar serviços no navio CONDOR. É público e notório que não há qualquer participação da operadora portuária nesta escolha. E mais. A Lei nº 8.630/93, em seu artigo 19, inciso V, que prevê a responsabilidade do órgão de gestão de mão-de-obra do trabalho portuário, responsabilidade que na época dos fatos era exercida pelo Sindicato dos Estivadores, em zelar pelas normas de saúde, higiene e segurança no trabalho portuário avulso. Assim, de fato é tarefa do Sindicato fiscalizar os trabalhos dos estivadores. 3

4 Para tanto designa os contramestres (geral e de porão), os portalós e os fiscais, com função específica de ordenar e fiscalizar a execução dos serviços com a devida segurança, responsabilizando-se inclusive pela presença dos trabalhadores. E para tanto emite o ponto do pessoal engajado, com a assinatura dos responsáveis pelo seu efetivo cumprimento (fls. 85 dos autos). Também nesta escolha não entra qualquer ingerência ou voz de comando das operadoras portuárias. Assim como pode ser empregador se não escolhe os seus empregados. Qualquer tentativa de modificar este estado de fato nos portos brasileiros levam as reações violentas da categoria, conforme demonstra matéria da Revista Veja, de 17 de março de 1999 (doc.4). E nesta matéria bem se define a posição acuada das operadoras de portos. Qualquer desafio ao poder dos sindicatos pode significar retaliação, e porto parado é um prejuízo enorme para todo mundo. Só recentemente, segundo semestre de 1998, é que se negociava em tal fiscalização passar, como manda a lei, para o Orgão Gestor de Mão de Obra. (doc.2). Assim, não é necessário grandes esforços para entender que o poder de comando, e a subordinação dos estivadores a este comando por parte da operadora, no caso Wilson Sons S/A, que caracterizaria possível relação empregatícia, era, na época dos fatos, 1997, mera falácia ou presunção jurídica. Estar atento a realidade fática é a exigência aos aplicadores e operadores da lei, e esta realidade demonstra que não existe escolha, fiscalização ou qualquer voz de comando de modo a caracterizar a função de empregadora por parte das operadoras portuárias, como o é a terceira representada, Wilson Sons S/A Comércio, Indústria e Agência de Navegação. 4

5 A resolução 8.179/84, da SUNAMAM (Superintendência Nacional da Marinha Mercante), estabelece as normas para todos os serviços de estiva, e determina que é de responsabilidade dos Sindicatos dos Estivadores equipar os estivadores com os equipamentos individuais de proteção ( item 1.9 4º). Para tanto o Sindicato dos Estivadores exige o pagamento dos valores relativos ao equipamento de proteção individual, que serão utilizados pelos trabalhadores, além das taxas de estiva (item 1.5) das operadoras portuárias quando da requisição dos serviços de estiva. A prova desta prática é que a Wilson Sons S/A recolheu os valores referentes ao Equipamentos de Proteção individual (EPI) que seriam utilizados pelos estivadores escalados pelo Sindicato para executar o serviço, ao próprio Sindicato dos Estivadores (doc.6). Assim cabia ao Sindicato, que cobrou pelo equipamento, fornecer aos trabalhadores que escalou. Quanto a obrigar e fiscalizar o estivador a utilizá-los a ausência de comando das operadoras ficou bastante clara no item anterior, e, ainda, bem ilustra a reportagem de um jornal local A TRIBUNA datada de 18/11/1999 (doc.7) quando então iriam iniciar a aceitar o EPI. Da culpa exclusiva do estivador pela lesão sofrida: A Lei e a Jurisprudência exigem o nexo de causalidade entre o ato ilícito e o evento danoso. A prova do nexo de causalidade é do autor (TJRJ-8 C. Ap. Del. Dourado de Gusmão RT 573/302). Cabe portanto a procuradoria comprovar o que alega de modo a configurar o nexo causal ou etiológico (relação da causa e efeito) entre o ato doloso ou culposo da ré que deu causa ao resultado danoso. 5

6 A enciclopédia Jurídica Leib Soibelman define as modalidades culposas: Imprudência = temeridade, falta deprecausão, falta de moderação. Agir perigosamente. Negligência = falta de atenção, falta de cuidado, inobservância de deveres. Edison agindo perigosamente, com falta de cuidado e inobservado deveres, é que deu causa ao acidente em 13 de março de Acidente que deveu-se única e exclusivamente ao seu comportamento imprudente e negligente, conforme diz os autos: Executava o reposicionamento, com a manobra em plena execução, da castanha de encaixe do container com o próprio pé direito, quando então o container caiu sobre o seu pé direito lesionando-o. Assim Edilson Cláudio Monteiro, como quaisquer dos estivadores que manipulam com containeres, sabem que existem procedimentos a serem seguidos na arrumação de um container dada a periculosidade das manobras. Sabem que o correto, no caso em tela, é: Requerer ao portaló que avise ao guindasteiro para parar a manobra; Içar o container e deixar o local desimpedido para que a trava (castanha) fosse recolocada, com as mãos e com a devida segurança, na correta posição; Avisar ao Portaló que indicasse ao guindasteiro para continuar a manobra. E não foi este o procedimento adotado pelo autor. Seu comportamento imprudente e negligente, é que, comprovadamente, causou o próprio gravame. Edilson Cláudio Monteiro, vítima, declarou que nega qualquer responsabilidade no evento do qual foi a única vítima, visto não ter o mesmo sido assistido por normas de segurança adequadas, com as quais o evento poderia ter sido evitado ou minimizado. 6

7 O representado denuncia a não observação das NRs, sobretudo as ora elencadas, quais sejam: 6.6.1; ; ; ; ; ; ; As quais trataram-se, entre outros assuntos, do dever da empregadora para com a aquisição, o fornecimento e coercitividade do uso do EPI, a obrigação de manter o funcionamento do CPATP, uso de rádio, etc. Já a defesa de Cláudio Figueira alega que não se pode atribuir ao acusado a responsabilidade pelo acidente. Por outro lado, o que resultou evidenciado é que o acidente ocorreu por culpa exclusiva da própria vítima que utilizou seus pés para colocar a trava do container na posição correta. Neste sentido, o próprio órgão acusador reconhece ao fundamentar sua peça que a vítima...tenta justificar seu comportamento imprudente, alegando que, ao verificar que a castanha saíra fora da posição... colocara seu pé para endireitar. Portanto, a conduta do acusado não contribuiu direta ou indiretamente para o resultado, visto que a vítima colocou o pé embaixo do container sem seu conhecimento. Diante do exposto, a defesa espera a absolvição do acusado, visto que o evento foi, em relação a vítima, uma mera infelicitas factil. Na fase de instrução, nenhuma prova foi produzida.. 7

8 Em alegações finais, silentes as partes. De tudo o que consta nos presentes autos, verifica-se que a causa determinante do fato da navegação foi a atitude inopinada e inconseqüente da própria vítima que tentou, quando não deveria, modificar o travamento do contêiner com o próprio pé, devendo, desta forma, ser responsabilizado pelo evento. Em relação ao 2º representado deve o mesmo ser exculpado, uma vez que restou provado que não houve de sua parte qualquer participação culposa no acidente, até porque não houve tempo para agir, diante da atitude inesperada. Também deve ser exculpada a empresa, 3ª representada, uma vez que, de acordo com o documento de fls. 75, havia um convênio entre a mesma e o sindicato, que recebia da 1ª para comprar e fiscalizar o EPI, eximindo-se assim, da acusação contida nos autos. Diante do exposto, deve ser julgada parcialmente procedente a representação, responsabilizando-se o 1º representado e exculpando-se os demais. Em tempo, deve ser notado que os custos noticiam fortes indícios de participação culposa do Sindicato dos Estivadores de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão OGMO, ditada pela Lei nº 8.630/93, uma vez que as operações de estiva eram realizadas sob a égide do referido sindicato, que, inclusive recebia repasse de verbas, da entidade estivadora, para aquisição de EPI para seus associados (doc. de fls. 185). Contudo, considerando o lapso temporal e as mudanças ocorridas no porto de Santos, onde o OGMO passou, recentemente, a desenvolver suas atribuições legais, o que certamente minimizará as ocorrências de irregularidades similares, deixa-se de determinar o oferecimento de representação contra o sindicato, supostamente faltoso. Assim, A C O R D A M os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do fato: fratura exposta em pé de estivador provocada por 8

9 deslocamento de contêiner na tampa do porão de N/M; b) quanto à causa determinante: atitude inopinada e inconseqüente da vítima em tentar modificar o travamento do contêiner com o pé; c) decisão: julgar o fato da navegação, previsto no art. 15, letra e, da Lei nº 2.180/54, como decorrente de imprudência do 1º representado, deixando-se de aplicar-lhe pena ou custas, diante das conseqüências que o mesmo sofrera. Exculpar os demais representados. P. C. R. Rio de Janeiro, RJ, em 13 de setembro de MARCELO DAVID GONÇALVES Juiz-Relator WALDEMAR NICOLAU CANELLAS JÚNIOR Almirante-de-Esquadra (RRm) Juiz-Presidente 9

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