Negar é no fundo querer recalcar

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1 Negar é no fundo querer recalcar Jorge A. Pimenta Filho Introdução A Negativa 1 artigo de Freud escrito em 1925 se refere à metapsicologia e também à técnica psicanalítica. (FREUD, 1976). A primeira indicação é a de que Die Verneinung, não é estritamente falando, um conceito, mas uma operação que age sempre sobre a frase palavra que provém do verbo alemão verneinen o que em linguagem corrente seria dizer não. Uma segunda questão é a de que se deve distinguir Negação - Verneinung, de Denegação, ou Abweissung. Esse termo denegação Freud o utiliza para traduzir a frase do início do texto: Nós compreendemos que é denegação, por projeção de uma idéia que está surgindo. Denegação tem, aqui, um sentido jurídico que remete a uma não aceitação, a uma recusa daquilo que emerge na instância do Outro. Para discutir essa de forma de negação, retomaremos, como se verá, outras operações de negatividade, que se articulam ou não à Verneinung. Para tanto nos valeremos dos aportes de Jacques Lacan. Discutindo o texto de Freud Agora você pergunta, quem pode ser essa pessoa do sonho. A mãe não é. Nós retificamos: Então é a mãe. Ao interpretar, tomamos a liberdade de deixar de lado a negação e escolher o conteúdo puro da idéia. É como se o paciente tivesse dito: Certo, me ocorreu que essa pessoa é a mãe, mas não me apraz admitir essa idéia. (FREUD, 1976). Podemos inferir daí a questão do sujeito constituído no campo do Outro. O não do paciente não nega o que foi dito, mas assinala a incompletude da construção: não foi dito tudo. Por uma questão de estrutura, tudo, não pode ser dito: não há palavras para tudo dizer, ou o nem tudo é recoberto pelo simbólico, algo falha, rateia, escapa, faz resto. Esse não está a nos dizer que o Outro aqui foi barrado A/ (A barrado). A interpretação de Freud está colocada aqui a partir da falha do Outro : Nós retificamos: então, é a mãe. Não é a mãe designa a relação do discurso ao Nome do Pai a interdição do objeto pela Lei. Se fizermos uma escansão nessa frase: Não é... faz surgir a relação do sujeito ao ser faz retorno como não sou, aparecendo aqui a simbolização primordial, Bejahung, a morte da coisa, ou, a palavra como morte da coisa, o que designa o fading (apagamento) do sujeito que representamos pelo $ (S barrado).

2 2 Que é que você considera mais inverossímil nessa situação? O que você acha que nesse momento está mais longe de você?... Tenho uma nova representação obsessiva.... (FREUD, 1976). Aqui podemos ver o discurso obsessivo com o paradigma do funcionamento da denegação o sujeito fica capturado na infindável alienação do pensar uma extensão do momento de compreender, uma protelação da ação, sem uma conclusão. O equívoco do pensar, sistema construído pelo sujeito que o preserva de um encontro com a falha do Outro. É a mãe, o psicanalista afirma como sentido exato, o que a neurose rejeita. Passemos a comentar agora articulação entre a negação e o recalque a relação entre Verneinung e Verdrangung. Podemos dizer que a negação é uma suspensão do recalque. Mas, atenção, estamos dizendo suspensão e não eliminação ou ação de desrecalcamento há uma suspensão, mantendo e conservando o recalque. O termo aqui utilizado é o de uma Aufhebung do recalque, essa suspensão temporária do recalque. O que por exemplo, ocorre com o chiste quando há uma flexibilização, uma suspensão ou franqueamento da censura. Esse franqueamento opera possibilitando que o recalcado penetre na consciência sem afetar, basicamente, o trabalho do recalque. Permanece, portanto, a divisão subjetiva o $ - com a separação entre pensamento e o afeto, esse um resíduo ou descarga inassimilável, que redundará, por exemplo, na conversão histérica ou nas intermináveis dúvidas e ruminações obsessivas. É o que está no 3º parágrafo do texto de Freud: Um conteúdo de representação ou de pensamento recalcado pode penetrar na consciência sob a condição de que se deixe negar. A negação é um modo de tomar conhecimento do recalcado, no fundo já uma suspensão do recalque, mas na verdade nenhuma aceitação do recalcado. Vê-se como a função intelectual se separa aqui do processo afetivo. Com a ajuda da negação se faz retroceder apenas uma das conseqüências do processo de recalque, a de não chegar seu conteúdo de representação à consciência. Resulta disso um modo de aceitação intelectual do recalcado com persistência do essencial do recalque.(...) o processo do recalque em si ainda não é com isso levantado. (FREUD, 1976). A partir do 4º parágrafo Freud discute a questão do juízo. A questão do juízo ou do julgamento.... a tarefa da função intelectual do juízo é afirmar ou negar os conteúdos de pensamento, (...) Negar algo no juízo significa no fundo: Isso é algo que preferiria melhor recalcar. A condenação é o substituto intelectual do recalque, seu não, a marca do mesmo, um certificado de origem, algo como o made in Germany.(...) A função de juízo tem que tomar duas decisões (...) deve atribuir ou negar uma qualidade a uma coisa e deve conceder ou impugnar a existência de uma representação da realidade. A qualidade sobre a qual deve decidir-se poderia ser originalmente boa ou má, proveitosa ou nociva. Expresso na língua das mais antigas moções pulsionais orais: (Eu) quero comer isto ou quero cuspi-lo, e numa mais ampla transferência: (Eu) quero introduzir isto em mim e quero expulsar isto de

3 3 mim. Assim: Isso deve estar em mim ou fora de mim. O eu-prazer originário, quer- (...) introjetar-se todo o bom, lançar fora de si todo o mau. O mau, estranho ao eu, o que se encontra fora, lhe é em princípio idêntico. (FREUD, 1976). Sobressaem-se aqui duas questões; a do juízo de atribuição e a do juízo de existência. Para entendermos a noção de juízo de atribuição há uma operação fundamental que a funda a Ausstossung, isto é, o que Freud nos diz da expulsão. Essa expulsão, podemos entendê-la com Lacan, como o que é fundante do real, que certifica a perda a que o discurso, ou a entrada na lei simbólica condena a todo sujeito falante, encarna assim o irrepresentável do real no significante, atesta o limite, o impossível d alíngua. Com Freud temos uma distinção definitiva entre psicanálise e psicologia, a função de juízo é conjugada às pulsões originais. Assim não temos aqui um sujeito psicológico fundado na noção de ser mas um desser. O juízo é a função que, no discurso, afirma e nega. E a afirmação é aqui a afirmação simbólica Behajung. Afirmação do corpo simbólico do sujeito que promove a introdução de um significante fundamental para a constituição do sujeito ( o NP, Nome-do-Pai, inscrito edipicamente). Só haverá recalque Verdrangung se houver essa uma afirmação inicial. Mecanismo também necessário e prévio à Verneinung, operação que destaca isso que é do retorno do recalcado: (Não) é minha mãe. A função do juízo é indissociável à lei do discurso. Negar é o exercício da função que afirma o elemento irredutível a barra separadora de significante e significado: Significante/Significado. A Negação (Verneinung) operando o retorno do recalcado vai possibilitar que certos significantes liberados do recalque, entre e estejam à disposição na cadeia discursiva. O estudo do juízo talvez nos abra a visão, pela primeira vez, para o surgimento de uma função intelectual a partir do jogo das moções pulsionais primárias. O julgar é a evolução objetivada da inclusão no eu ou expulsão do eu, realizadas originalmente conforme o princípio do prazer. (FREUD, 1976). Aqui Freud afasta toda a possibilidade de pensar as pulsões ditas primárias constituídas fora do campo da linguagem. E ainda mais a pulsão habita a função orgânica numa relação que não é nem de apoio nem de complementariedade, mas de subversão. A pulsão só é concebível porque o sujeito fala, e, ainda mais, ele fala sem saber que fala. A Bejahung afirmação simbólica primeira está, assim, correlacionada a uma inclusão significante Einbeziehung ins Ich uma inclusão no eu, que comporta uma Ausstossung aus dem Ich uma expulsão do eu, que constitui o real excluído da ordem simbólica. Podemos representar essas operações através do esquema seguinte ( 2 ): (Eu) quero

4 4 comê-lo cuspi-lo introduzir isto expulsar isto de em mim mim Isto deve estar em mim fora de mim O eu-prazer quer introjetar-se o bom lançar fora de si o mau inclusão no eu Einbeziehung ins Ich expulsão do eu Ausstossung aus dem Ich Assim a negação Verneinung, como sucessão de uma expulsão - Ausstossung - se estabelece sobre a possibilidade de uma Bejahung, quer dizer sobre uma frase afirmada que pode ser riscada: é a elisão significante. A elisão está na matriz da Verneinung e determina o lugar do sujeito no corte da cadeia significante. A Verneinung afirma o sujeito no lugar em que uma coisa pode deixar de existir. Pelo princípio criacionista do significante, a coisa já era. O sujeito, inconsistente na cadeia significante, é introduzido na dimensão de falta a ser, vem a esse lugar na ignorância de sua causa e, do real recebe a condição de ser de desejo. O desejo é a metonímia incessante dessa falta marcado pelo -ϕ (menos-fi, minúsculo) da castração. A Verneinung funda a pergunta sobre a existência do sujeito. A prova de realidade instaura uma interpelação ao nível da representação. Decidir sobre a existência é uma ação que não recai sobre a realidade do mundo exterior, mas sobre a fiança a outorgar a uma representação (...) e A prova de realidade exige e força a representação a encontrar sua única fiança: a de veicular uma falta. (FREUD, 1976). Essas duas frases podemos comentá-las a partir da consigna de Lacan de que não há no campo do Outro um significante que represente o sujeito falta estruturalmente fundante do campo da representação. Não há um objeto da representação. O objeto existe fora. O sujeito para que faça seu surgimento está condicionado a isto - que entre os significantes da cadeia simbólica, haja um destaque - de um lado o sujeito barrado, e de outro a queda do objeto. Os objetos que

5 5 outrora traziam satisfação devem ser perdidos. A condição da prova de realidade é o objeto perdido, o resto caído, objeto a, de uma outra satisfação. $ S1 S2 a Assim consolida-se, no nível do funcionamento psíquico, a distinção entre o subjetivo e o objetivo. Die Verneinung o não real o outro representado o real subjetivo objetivo $ <> a ( 3 ) Conclusão Donde se conclui: o objeto a resto caído dessa operação de separação no campo do Outro condição absoluta do trabalho da prova de realidade e, concomitantemente do surgimento do desejo. Aqui temos a distinção de duas regiões, de dois elementos heterogêneos o subjetivo, representado, dentro e o objetivo, real, fora. O sujeito se mantém indeciso, na vacilação entre dois significantes. O objeto a, do real, irrepresentável, faz sua aparição fora do sujeito. O campo da realidade é sustentado pelo fantasma. Freud, nunca considerou a realidade como padrão objetivo de medida ao qual o sujeito deveria se adaptar. A realidade é atravessada pelo filtro, ou tela do fantasma, que fornece consistência ao pouco de realidade. Distinguiremos, finalmente a Verwerfung - rejeição, ou melhor foraclusão, como o nomeia Lacan, mecanismo específico da psicose, onde distintantemente da neurose não temos uma afirmação simbólica inicial fundante Behajung. A Verwerfung dando conta desse mecanismo da forclusão ausência da função do Nome do Pai (NP), implica pois, a rejeição do juízo primeiro, carência do efeito metafórico substitutivo, que implica a impossibilidade de significar a realidade psíquica com a marca do falo. Os efeitos dessa carência retornam como gozo no real um negativismo característico da psicose, formas de intrusão de gozo, petrificação de objeto, ausência de laço social ou fora-discurso. Há, pois um abismo insolúvel que separa a Verwerfung da Verneinung.

6 6 RESUMO Esse texto foi, originalmente, preparado para uma intervenção no Seminário de Leitura e Investigação IPSM-MG. Belo Horizonte, MG, 01/11/99, a convite de Henri Kaufmanner. O autor partindo do texto A Negativa de S. Freud, mostra como há que se distinguirem as diversas formas de negatividades, correlacionando-as às estruturas clínicas. PALAVRAS-CHAVE Operações de negatividade, simbolização, negação, denegação, forclusão.

7 1 NOTAS FREUD, S. (1925) A negativa, Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, 1976, p VIDAL, E. A. Comentário sobre A Negação, de S. Freud, Letra Freudiana, Ano VIII, vol. 5,Rio de Janeiro, s/data. p Idem, ibidem.

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