Uma introdução Chafia Américo Farah 1

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1 PASSAGEM AO ATO, ACTING OUT, ATO PSICANALÍTICO: Uma introdução Chafia Américo Farah 1 Palavras chaves: passagem ao ato, acting,psicose,gozo Manhãs de quartas-feiras. Caso clínico ou apresentação de pacientes? Quando ouvimos um relato de um caso clínico ou assistimos a uma apresentação de enfermos, esbarramos sempre em alguma auto ou hétero-agressão. O que isto quer nos dizer? Paulo agride a auxiliar de enfermagem, pois se recusa a fazer uso da medicação. Ele justifica: A voz falava que eu sou covarde, eu só queria provar que eu não era. As vozes, elas ficam falando que eu sou brocha, que é pra eu me matar - Caso clínico, apresentado no I.R.S., em A experiência analítica nos ensina que a essência do pensamento, quando se compreende a partir do inconsciente, é a dúvida. Dizemos que ele está em impasse. A essência do ato, é a certeza; ele ultrapassa a dúvida. Observamos, na clínica, uma antinomia entre o pensamento e a ação,mas isto não nos deve impedir de captar as conexões entre ato e linguagem. Os filósofos acreditavam que o sujeito busca o bem, confundindo o bem com o seu bem estar. Lacan propõe um seminário dedicado à Ética, pois sabe que o supereu introduz um ética que não seria do bem, assim sendo, um ética diferente das demais. O paradoxo do supereu reside em que o sujeito está apegado a algo que não lhe faz bem, ou seja, a algo que não colabora com o seu bem estar. i Miller questiona se isto constitui uma exceção ou se é a regra do ato. Maria retorna ao hospital após uma licença para passar o final de semana em sua casa. Falou deprimida e chorando: Voltou a vontade de pular na frente dos carros, de me matar, por causa do inimigo; não sou eu que quero, é ele que manda. Acordou, certo dia, com pensamento acusatório, em que diziam para se matar, e pulou na frente dos carros. - Caso clínico apresentado no I.R.S., no dia Segundo Lacan, a clínica do ato põe em questão o postulado de que o sujeito, o sujeito do pensamento, quer o seu próprio bem. Temos à nossa disposição, numa via racional, um acúmulo de meios de auto-destruição que vão além do indivíduo e que se estende por toda a humanidade. Pensa então o ato a partir do suicídio, e faz dele o paradigma do ato. O sujeito, portanto, tem algo que é suceptivel de não trabalhar para seu próprio bem, de não trabalhar para o útil, mas que, ao contrário, trabalha para sua destruição. Todo ato verdadeiro, no sentido que lhe dá Lacan, é um suicídio do sujeito. Entende-se aqui que o sujeito pode voltar a nascer daí, porém diferente. No ato, no sentido estrito, o sujeito não é o mesmo, antes e depois do ato. É assim que se justifica o termo mutação, levado ao extremo até o suicídio. ii 1 Psicóloga, membro da Escola Brasileira de Psicanálise - Sessão Minas Gerais e membro da Associação Mundial de Psicanálise.

2 Miller nos diz que todo ato verdadeiro, que todo ato que não é somente agitação, movimento, descarga motora, todo ato verdadeiro, todo ato que marca é uma transgressão. Todo ato verdadeiro é delinqüente. Observa-se, na história, que não tem ato verdadeiro que não comporte um franqueamento. Um franqueamento de que? De um código, de uma lei, de um conjunto simbólico a propósito do qual é uma infração. É precisamente o fato de cometer uma infração que permite que este ato tenha uma possibilidade de retornar a essa codificação. iii Falar que todo ato verdadeiro é um suicídio do sujeito, é uma concepção que se adequa à noção de pulsão de morte. Assim, podemos dizer que o conceito de ato, em Lacan, é um conceito ordenado segundo a noção de pulsão de morte. É certo que o ato suicida ilustra a disjunção total que opera, por um lado, o organismo, com todo o interesse que tem o ser vivo em sua sobrevivência, seu bem estar, sua homeostase e, por outro lado, algo que o consome que o destrói. Tudo isto para dizer que o suicídio, seja ele patológico ou heróico, encontra-se num paradoxo. O bem estar, o prazer, o proveito do ser vivo não se sustenta segundo um valor absoluto. Assim, o ato suicida reúne-se, num curto circuito, a esta zona central, às vezes excluída do mundo subjetivo, que Lacan deu o nome de gozo. O gozo, aqui, é um conceito necessário, para nos ordenar quanto ao que Freud nos coloca em relação ao sintoma. Muitas vezes, este sintoma, que queremos curar, como terapeutas, o sujeito quer mantê-lo. Em certos casos, ama-o como a si mesmo; é o que Freud dizia, por exemplo, do delírio para o delirante. Temos aqui que pontuar que gozo não deve ser confundido com prazer. O sintoma não se alia ao prazer, mas à dor. É uma satisfação de dor que em alguns casos chega à morte. O heroísmo, diz-nos Lacan, é uma sublimação. Não exclui o gozo; ao contrário, dá testemunho dele, no fato de que se pode por isto sacrificar até a vida. É o triunfo da pulsão de morte, é a afirmação desesperada do gozo. iv Com isto podemos distinguir o ato, da ação e da agitação. Lacan denomina ato, aquele que aponta para o coração do ser: o gozo. Por exemplo, o suicídio e também o homicídio. É o atentado realizado contra o gozo supostamente nocivo do Outro. Leandro vê um coração que diz que irá matá-lo. Num outro momento: Ontem, matei um gato, arranquei o olho e depois o costurei. Num outro dia: Leandro chega com seu braço costurado, utiliza uma linha grossa e dá pontos profundos. Diz que irá matar todos em casa, que aí essa história terá um fim. Já tentou matar o irmão, atirando com a arma do tio. E, na apresentação de paciente no I.R.S., no dia : Eu queria entrar na prédio mais alto de B.H. e pular de lá. O termo passagem ao ato parece adequado; são deixados de lado os equívocos do pensamento, da palavra e da linguagem em favor do ato. O sujeito barra assim a invasão do Outro. Em todo ato propriamente dito, é precisamente a passagem ao ato que está aí para nós como paradigma. No cerne de todo ato tem um não, um não proferido para o Outro. v Márcio disse: As vozes, elas estão me mandando suicidar. Não tenho coragem, não tenho coragem, não vou fazer nada contra minha vontade. Acho que as vozes estão brincando comigo, brincadeira de mal gosto. Ao ver a mãe conversando no telefone, agrediu-a e ameaçou matar a família e suicidar-se... Não devia ter feito isso. Não se bate em mãe, estava nervoso, não consegui controlar... fizeram minha cabeça. Apresentação de paciente no I.R.S., no dia

3 Colette Soler nos diz que existe passagens ao ato que não recorrem ao simbólico, mas que procedem de uma operação real sobre o real do gozo. Geralmente são auto ou hétero-mutiladoras. Consideremos aqui Van Gogh, que nos encanta com suas obras: corta em carne viva seu corpo e sua imagem, que o converte em o homem da orelha cortada. Do dano causado em ato no próprio corpo, ou também a imagem do semelhante, de agressão mutiladora até o suicídio ou assassinato, a mutilação real emerge em proporção a falta da eficácia da castração. vi Devemos aqui distinguir passagem ao ato de acting out. Quando se fala de acting out, pressupõe-se um cenário. Este cenário é a palavra, e o sujeito atua neste cenário sob o olhar do Outro. Dizemos sob transferência. O Outro faz-lhe falta, faz-lhe falta o espectador. Leandro diz: eu vou me matar na frente das pessoas. Eu vou suicidar na frente da senhora. Eu queria mostrar para para a professora que eu não era ninguém. Levei a faca para me cortar. Ela tomou a faca e eu pulei pela janela. Eu queria me matar. Apresentação de paciente no I.R.S., no dia Na passagem ao ato, o espectador não está presente. O sujeito está, por um instante, morto. Será ele, o morto, que olhará os demais, colocará sua pergunta e os fará sentir o porque de seu olhar. É precisamente nisto que o ato é sempre auto. Um ato de auto-castigo. O ato é sempre auto, quer dizer, é precisamente o que o separa do Outro. vii Lacan, em sua tese de doutorado, irá propor que a atriz golpeada por Aimeé, a Sra. Z, encarna o ideal de mulher: A Mulher. É a atriz, enquanto duplo de Aimeé, que é golpeada, no lugar de objeto (a) enquanto êxtimo. Com a passagem ao ato, produz-se um alívio efetivo dessa tensão, efeito da imaginarização do sujeito com relação ao Outro, mas nem por isto Aimeé se livrará da punição imposta a ela. viii Aimeé, ao ser castigada, vê-se satisfeita, o que Lacan denomina como pulsão auto-punitiva. A passagem ao ato psicótica supõe a falta de eficácia da castração; o atentado à imagem do semelhante realiza-se em ato. O ato é uma separação do Outro que persegue e vocifera. ix Finalmente, podemos falar do ato analítico, como Lacan o concebe. Quando se diz que o analista se autoriza por si mesmo, é algo que tem a mesma estrutura do suicídio. Lacan formulou que o único ato que pode ser efetivo e não falho é o suicídio. Isto se opõe, neste sentido à psicanálise, que se postula no ato falho. O estatuto do ato na experiência analítica é o ato falho e não o ato efetivo. x A essência do ato é a certeza. Um ato é sempre uma passagem, é sempre um franqueamento. Não há ato, se não há franqueamento de uma porta significante. O ato tem lugar por um dizer. Não basta um fazer para que haja ato, não basta que haja movimento, ação; é preciso que haja também um dizer que marque e que fixe este ato. Concluindo, para que haja ato, é necessário que o próprio sujeito seja mudado em si mesmo por este franqueamento significante. É preciso uma escansão significante; ao mesmo tempo, o ato é indiferente quanto ao seu futuro, como tal está fora do sentido, indiferente ao que acontecerá depois. É por isto que o suicídio é o seu paradigma. Existem casos que exigem uma lição de humildade do terapeuta, a de reconhecer que, nem sempre, se pode impedir o suicídio ou assassinato. Leandro diz: Não quero morrer, eu vou morrer, eu vou me matar. - Apresentação de paciente no I.R.S., em BIBLIOGRAFIA:

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5 i MILLER, J.-A. Recorrido de Lacan.Buenos Aires: Editorial Hacia el Tecer Encuentro del Campo Freudiano,1984, p ii MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones sobre su concepto de pasaje al acto. In: Revista del Cercle Psicoanalític de Catalunya. Barcelona: (6):3-11, outubro de 1988, p. 6. iii MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones... Op. cit., p. 6. iv MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones... Op. cit., p. 7. v MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones... Op. cit., p. 7. vi SOLER,C. Estudios Sobre Las Psicosis. Buenos Aires: Ediciones Manantial, 1992, p vii MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones... Op. cit., p. 8. viii BENETI, A. Sister my sister : o filme sobre o duplo crime das Irmãs Papin. In: Curinga. Belo Horizonte: EBP-MG, (11):73-87, Abril de 1998, p.78. ix BARRETO, F.P. Reforma Psiquiatrica e Movimento Lacaniano. Belo Horizonte Ed. Itatiaia, 1999, p.150. x MILLER, J.-A. Jacques Lacan: observaciones... Op. cit., p. 8. Abril/2000

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