A Função do Nome Próprio no Campo do Sujeito

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1 A Função do Nome Próprio no Campo do Sujeito Autor: Felipe Nunes de Lima Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integrante do Núcleo de Pesquisa: Psicanálise, Discurso e Laço Social. Sabemos que o sujeito em psicanálise é um sujeito dividido, e essa cisão constituinte é a característica mais marcante do sujeito psicanalítico. Entretanto, essa divisão não pode ser concebida como absoluta: somos obrigados a reconhecer algum nível de unicidade nesse sujeito, algo que nos dê a garantia que somos aproximadamente os mesmos ao longo de nossa existência. Sobre isso, encontramos uma questão formulada por Charles Melman (2009, p. 333) nos seguintes termos: se o sujeito é dividido, o que é que, no entanto, vai fazê-lo um? A questão parece tornar-se ainda mais complicada se nos lembramos que o significante é pura diferença, e, por isso mesmo não pode comportar consigo nada que produza identidade. Como então situar o problema da identidade num sujeito que é produzido por um jogo de significantes dotados de uma diferença radical? Melman aponta para o nome próprio, um significante que teria a propriedade de significar a si mesmo e que, portanto, seria funcionalmente diferente dos demais. A partir desse apontamento, colocaremos em discussão a função do nome no campo do sujeito e tentaremos discernir suas propriedades com base nas idéias de Freud e de Lacan sobre identificação e traço unário. Em seu livro Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901) Freud trata da questão do esquecimento dos nomes próprios, com o propósito de demonstrar a existência de uma determinação psíquica para esse fenômeno aparentemente simples. Para isso, ele apresenta um exemplo retirado de uma situação ocorrida durante uma de suas viagens de trem. Nesse trem que partia da Dalmácia (antiga Bósnia) para chegar até a Herzegovina, ele conversava com um estranho, que era seu companheiro de viagem, e quis mencionar um pintor italiano cujo nome não conseguiu lembrar. Em vez do nome que procurava (Signorelli), vinham-lhe à mente outros dois: Boltraffio e Botticelli, nomes esses que ele sabia não ser aquele que queria recordar. Vemos que, embora não conseguisse trazer o nome esquecido à sua consciência, Freud notou que havia algo que ele não sabia que o fazia saber que os nomes dos outros dois pintores não eram o nome que ele procurava. Algo, portanto, que não estava localizado na

2 consciência, mas que não deixava de ter efeitos nos julgamentos que a consciência fazia. Evidencia-se, assim, o papel do inconsciente nesse processo, e é a partir disso que Freud irá fornecer a explicação para seu esquecimento. Na tentativa de elucidar o fenômeno, Freud recorre ao método da associação livre, e através desse procedimento ocorrem-lhe duas palavras: Traffoi e Bósnia- Herzegovina, ambas também nomes próprios, nomes de lugares. O Bo de Bósnia aparece em Botticelli e em Boltraffio; Signor, sílaba do nome esquecido, é a tradução italiana do alemão Herr, que também está presente em Herzegovina; a sílaba elli permanece inalterada de Signorelli à Botticelli; e Traffoi associa-se por semelhança fonética ao traffio de Boltraffio. Isso indica o que Fernandes (2006) demarcou como um "fechamento", no sentido matemático do termo, isto é, "uma compulsão a lembrar que traz como resultado outros nomes próprios que se compõem através da rearticulação das sílabas e dos segmentos isolados, que, inclusive, são em número finito. Além disso, vemos que as substituições que aparecem respeitam a função discursiva da palavra que foi esquecida, a função do nome: se um nome próprio é esquecido, aparecem como substituições outros nomes próprios, e não qualquer outra coisa. Aqui também portanto, podemos reconhecer um fechamento, que parece ser propriedade intrínseca do nome próprio. Costa-Moura e Fernandes (2010) definem o fechamento como um atributo que determina que o resultado de uma operação deva necessariamente pertencer ao mesmo conjunto a que pertencem seus elementos. Ou seja, a garantia que o fechamento fornece é que, por exemplo: ao somar 2 com 5 o resultado não pode ser uma garrafa térmica, deve ser necessariamente 7; um outro número. Não um número qualquer, mas tão somente o 7 (p. 156). Desse modo, o axioma do fechamento assegura que haja uma relação ontológica, por assim dizer, entre o produto da operação e os elementos unidos por ela. É justamente esse axioma do fechamento presente no nome próprio que o torna diferente dos demais significantes, fazendo com que seu suporte seja menos o fonema do que a letra. Examinemos melhor esse ponto para que nossa proposição se torne mais clara. Um significante define-se por sua negatividade na medida em que não comporta em si nada que possa conferir-lhe uma identidade, e sua existência só se torna possível na relação com outro significante: ele define-se, portanto, por oposição. A letra, por sua vez, é definida por Lacan como essência do significante, meio através do qual ele se distingue do signo (1961, lição de 20 de dezembro).

3 Em seu seminário sobre a identificação, Lacan associa a letra ao conceito freudiano de traço unário, e para isso relata uma experiência sua numa visita ao museu Saint-Germain. Ele conta que na Sala Piette encontrou uma costela de um mamífero pré-histórico que chamou sua atenção por estar marcada por vários traços. Esses traços estavam dispostos em série, separados por pequenos intervalos. Lacan supõe que as marcas podem ter sido feitas por um caçador para representar ou registrar alguma coisa, mas, independente disso, o que ele enfatiza é que os traços são reconhecidos como diferentes não por causa de sua qualidade, mas por estarem seriados. A distinção então, não tem a ver com o conteúdo, mas com a seriação: cada um destes traços não é em absoluto idêntico a seu vizinho, mas não é porque sejam diferentes que funcionam como diferentes, senão porque a diferença significante é distinta do tudo o que se refere à diferença qualitativa (Lacan, 1961, lição de 6 de dezembro). É a partir desse exemplo que Lacan retoma o conceito de traço único [Einziger Zug] de Freud para designá-lo como aquilo que funda a essência do significante. Em Freud (1920), o Einziger Zug é encontrado no capítulo sobre a identificação no texto sobre a psicologia das massas e foi usado para demarcar um tipo específico de identificação: a identificação ao traço. Sobre esse processo, Freud fornece dois exemplos: no primeiro, fala de uma menina que por amor ao pai identifica-se com a mãe, e desenvolve o mesmo sintoma histérico que essa. O sintoma é interpretado como a realização do desejo da filha de ocupar o lugar da mãe, que é um objeto de hostilidade para a menina. No segundo exemplo, Freud cita Dora, e a tosse que ela desenvolveu através da imitação de seu pai. Nesse caso, afirma que a identificação apareceu no lugar da escolha de objeto e que a escolha de objeto regrediu para a identificação (1920, p. 116). Freud aponta que, como a identificação é a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa (p. 115), pode acontecer que, devido ao recalque e à prevalência de mecanismos inconscientes, a escolha de objeto dê lugar à identificação. Ele ainda observa que, nesses dois casos, a identificação é parcial e toma apenas um traço do objeto. Lacan propõe outra tradução para Einziger Zug: em vez de traço único, fala de traço unário, porque para ele essa identificação que toma como base um único traço tem como prevalência uma função distintiva (ANDRÈS, 1996). O traço unário demarca uma possibilidade de contagem das diferenças e serve de referencial simbólico para o

4 significante, que passa a ser entendido como tudo aquilo que, na fala do sujeito, pode ser contado como um. É o traço unário, portanto, que vai permitir que a inscrição do significante possa denotar uma diferença no real. Lacan afirma que: é o significante o que decide, é ele o que introduz a diferença como tal no real, e justamente na medida em que não se trata de diferenças qualitativas (1961, lição de 20 de dezembro). O que podemos extrair do seminário sobre a identificação é que o nome próprio é um significante que funciona como traço unário. Diferente dos outros significantes, cuja função é de representação, o nome próprio tem função uma função distintiva. Para demonstrar a especificidade do nome próprio, Lacan refere-se à escrita e à decifração de uma língua. Quando se trata de decifrar uma língua, busca-se, primeiramente, por um nome próprio, já que o nome não se traduz, mas se transmite de forma idêntica de uma língua à outra. É nesse sentido, portanto, que podemos associar o nome próprio à letra, pois sua estrutura permanece a mesma não importando a língua em que ele se insere. Desse modo, vemos que o nome próprio é idêntico à si mesmo: diferente do significante, que está sempre remetendo-se a outro significante, o nome próprio é autoreferente e significa-se a si mesmo. Assim, podemos dizer que o nome próprio produz efeitos pela materialidade que lhe é característica, ou seja, pela sua função de traço. Como vimos em Freud, esse traço é algo que é tomado a partir do objeto: o sujeito estabelece uma identificação por meio desse traço. Lacan afirma que, se é do objeto que o traço surge, é algo do objeto que o traço retém: justamente sua unicidade (1962, lição de 10 de janeiro). Se o traço é o que produz essa unicidade, não há divisão possível nesse registro. Como o nome próprio funciona como traço, pode-se dizer que em relação a ele o sujeito encontra-se não dividido, e de certo modo mortificado (Melman, 2009). É somente pela inscrição do traço unário e o consequente estabelecimento das diferenças que o sujeito poderá contar, e contar a si mesmo: é justamente nesse processo que ele se reconhecerá como um. Encontramos em Lacan uma citação que resume o que apresentamos: O nome comum parece concernir ao objeto na medida em que, com ele, há um sentido. Se algo é o nome próprio, é na medida em que não é o sentido do objeto o que leva com ele, mas sim algo da ordem de uma marca aplicada, de alguma maneira, sobre o objeto, superposta a ele... (...) Coloco que não pode haver definição de nome próprio senão na medida em que percebemos a relação da emissão nominante com algo que, em sua natureza radical, é da ordem da letra. (...) O que fica (da imagem) é algo da ordem do traço unário

5 na medida em que funciona como distintivo e pode, para a ocasião, exercer o papel de marca. Retomemos agora o caminho que aqui percorremos a fim de ver como ele pode ajudar a esclarecer o problema que inicialmente foi por nós colocado. Começamos nos perguntando acerca do que pode fazer o sujeito reconhecer-se como um ao longo de sua existência, já que em psicanálise o concebemos como sendo atravessado por uma divisão radical. Partimos então para o nome próprio, com o objetivo de demarcar suas propriedades e distingui-lo do significante, elemento responsável pela divisão fundamental do sujeito. A partir do esquecimento de Freud, reconhecemos um fechamento que é inerente ao nome, e por meio dessa característica pudemos associá-lo ao conceito de traço unário. Vimos por fim, que é porque o nome próprio funciona como traço unário que ele distingue-se dos demais significantes: em relação ao seu nome, o sujeito encontra-se não dividido, e pela função de traço que ele porta o sujeito pode contar-se como um. Referências Bibliográficas: ANDRÈS, M. Unário, Traço. In: KAUFMANN, P. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, COSTA-MOURA, F & FERNANDES, F. Lógica da Ciência, Formalismo e Forclusão do Sujeito. In: COSTA-MOURA, F. Psicanálise e Laço Social. Rio de Janeiro, 7Letras, FERNANDES, F (2006). Sobre o nome próprio. FREUD, S. (1901) Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas v. VI. Rio de Janeiro: Imago, Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, LACAN, J ( ). A Identificação. Seminário inédito. MELMAN, C. A Identidade e seus Destinos. In: Para Introduzir à Psicanálise nos Dias de Hoje. Porto Alegre: CMC, A fidelidade ao nome próprio: sexualidade e morte. In: Para Introduzir à Psicanálise nos Dias de Hoje. Porto Alegre: CMC, 2009.

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