Os nós e o amor. Silvia Emilia Espósito* Palavras - chave: nós, real, amor, três registros

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1 Os nós e o amor Silvia Emilia Espósito* Palavras - chave: nós, real, amor, três registros Aprendemos com Freud que o amor é sempre narcísico, ou seja, não importa de que escolha de objeto se trate, ele é sempre da ordem de um retorno na tentativa de apreender o outro em si mesmo. Porém anos depois, Lacan acrescentará que essa escolha é enganosa, querendo encontrar a si mesmo o sujeito se engana. Metáfora, esta, que desvenda outra função do amor que é a suplência, supre a inexistência da relação sexual e nesse sentido se poderia dizer advém sintoma, não por ser ilusório, mas por supor que ele amarra signo e gozo. É no seminário 21 que Lacan aborda a problemática do amor na perspectiva dos nós simbólico, imaginário e real. No texto A Interpretação dos sonhos de fato Freud se pergunta sobre a relação entre a realidade psíquica e o real e conclui que o umbigo do sonho assinala um além da interpretação. Desta feita Freud coloca o limite da interpretação do lado do A/ (A barrado), dos múltiplos sentidos possíveis, enquanto Lacan persegue, pelo contrário, o que pode ser calculado, e o que é contingente. Lacan sublinha que o que constitui a barreira do calculável é o gozo, o que motiva que tanto o amor como a interpretação sejam desconcertantes e incalculáveis. Ou seja, o real de Freud, incluído no sentido inconsciente limita com a polissemia do sentido. Em oposição, Lacan vai dizer que o sonho tem a função de gozo como guardião do dormir, e que o cifrado da significação sexual está aí com essa função de limite. A linguagem está no lugar do sentido cuja função é obturar o real impossível. O valor dos sonhos se apóia no que ele nos diz, a saber, que a vida é uma viagem. Desse modo, a partir da invenção do inconsciente, em qualquer ponto da viagem se descobrirá ainda que o desejo é sempre o mesmo nascimento morte nascimento estrutura morte

2 A perspectiva da viagem colocará em xeque a idéia da vida tecida pela oposição pulsão de vida e morte. Lacan promove, assim, o deslocamento do inconsciente ao real, do gozo proibido ao gozo impossível. É aqui nesta virada que a teoria dos nós vem para mostrar o real. O mito do Édipo supõe uma representação do corpo como resposta do fantasma ao empecilho sexual, mas ao mesmo tempo faz ponte com o limite do gozo. (Nome do Pai) Desse modo, ir além do mito significa, em Lacan, ir ao limite de uma função lógica. O corpo como substância gozosa passa, então, a se distinguir da imagem, fato que nos deixa na ignorância, afora o gozo, do que seja o próprio corpo e do que seja a vida. Lacan diferencia assim o gozo do vivente, do corpo da vida. A crítica, por tanto, de Lacan, aos princípios (pulsões) de vida e morte está ligada ao saber de que o sexual, como estrutura não causa, não determina nenhuma relação. A virada do conceito de estrutura, a partir dos nós, se concentra no limite da função de equivalência dos três registros e por conseqüência implica que o impossível, não apareça só como umbigo, mas seja posto em circulação. O amor, segundo Lacan, é metáfora e ele se pergunta metáfora de quê. Uma aproximação inicial à problemática do amor seria, segundo Lacan, pensar o amor como acontecimento, como o que acontece no encontro entre um homem e uma mulher. Reafirma que para além do saber que a única forma de laço é o discurso, o sujeito imagina, sonha acordado. Sonha com a promessa de uma viagem juntos, de um percurso de ajuda mutua, sonha em terem filhos, em serem avós, etc. Será o amor essa viagem sobre a terra? Lacan dirá que o amor definido no saber enquanto nós com os três: que é imaginável, já que de fato é imagem efetiva, que é simbólico, já que pode defini-lo como nó e que é totalmente real pelo acontecimento mesmo desse dizer, acontecimento consistente em que...cada um de vocês pode dar o sentido que tem. Onde o consistente nas três categorias é estritamente equivalente. Equivalente neste caso alude a que cada uma pode ocupar o lugar do meio. Nesse sentido os nós não constituem nenhuma relação com o conhecimento, mas com o saber, o saber que implica o dizer sobre o acontecimento. Assim o cerne do amor divino se encontra no simbólico como meio, entre o real e o imaginário. O amor divino realiza a junção do ser e o amor, presente no mandamento amarás ao próximo como a ti mesmo pela abolição dos sexos, pelo banimento do desejo.

3 O corpo sustentado no imaginário é o corpo insensível e o real é a morte. Por outro lado o amor cristão é caridade fé e esperança. Caridade representada na arte por uma mãe, em que se realiza o deslocamento da imagem da mulher. Em Platão o amor se dirige à alma, um amor suspenso no imaginário articulado ao belo. O amor como meio aparece com o amor cortês e se remonta à poesia mística erótica árabe. Um místico sufi Ibn Arabi afirmava que a percepção de uma mulher bela era a mediação para a percepção de uma entidade supra-sensorial. O Dante 1 da Beatriz era membro do grupo fedele d amore, que tinham as mesmas idéias que os sufis sobre o amor contemplativo. O amor cortês toma assim o imaginário como meio de outra coisa. O novo do discurso analítico é dizer que as palavras de amor servem para suportar o gozo (simbólico) e que o imaginário como meio suporta o amor, como resposta ao que o sujeito imagina sobre o gozo e a morte. O fundamento da psicanálise se ancora no amor (imaginário) tomado como meio, meio que introduz uma ordem, ou seja, a verdade da psicanálise é a verdade do meio. Se o amor cortês foi esvaziado com a elevação do amor cristão, isso não significa que o desejo tenha mudado, ele foi transferido aí onde o Real é um meio entre o Simbólico e o imaginário. Neste caso Lacan dirá que se esse real é a morte, aí onde o desejo foi expulso, o que temos é o masoquismo, como meio de unir o gozo e o corpo. Na medida em que o sentido sexual não se escreve, se faz possível e por conseqüência como real contingente se transforma em necessário, o que prova a contingência da verdade com relação ao real. Por outro lado, se existe um fundamento do imaginário do amor é a impossibilidade do sujeito imaginar o volume. De tal feita que em relação ao objeto amado o que se adora é sempre um perfil, uma sombra, a projeção de uma silhueta. Este amor espacial, em duas dimensões, da conta das dificuldades que o sujeito enfrenta para imaginar o volume. Lacan frisa que o sentido da profundidade está ausente no sujeito e por isso ele faz metáforas como a única forma de abordar o volume. (exemplo disso são os nós do amor, da amizade) Só podemos aceder a dimensão do espesso, do encorpado no abraço. A idéia que comanda, e que aparece em inúmeras referências, de um além eterno (eterno enquanto dure), segundo Lacan, deriva do obstáculo em conceber o espaço. 1 Dante Alighieri ( )

4 Por outro lado, se o amor é contingente, vale dizer, deixa de se escrever, aponta seu laço com o real, com a contingência da verdade. A carta de amor ocupa nesse sentido a função de não cessa de escrever, do necessário, só que sempre é por um tempo. A psicanálise afirma, e por conseqüência não deixar de escrever, que o sentido das palavras está no lugar da relação sexual, melhor dizendo, que o sentido só é sexual, justamente porque substitui o sexual que falta. Por outro lado, a linguagem tem uma ordem, (registro do simbólico), vale dizer, sujeito, verbo complemento, etc., mas quem exerce a função do meio é o verbo, o que leva a Lacan a concluir que a linguagem não está feita de palavras, pois é suficiente anular o meio para quebrar o sentido, apagar o sentido das palavras. (lógica modal) Desde esse ponto de vista a linguagem não é saber. A linguagem é efeito do significante Um e o saber é a conseqüência do outro significante (S1- S2), não tendo eles nada a ver entre si; não formam corrente, dirá Lacan. Diferente é a realidade da alíngua em que o sentido flui, desliza. De todas as formas, à revelia do real constituir a hiância que impossibilita escrever a relação sexual, homens e umas mulheres não deixam de praticá-lo. Mais ainda, se a histérica faz o homem, se poderia pensar uma mulher como tendo a função de nome do pai? Para que o saber inconsciente posa ser pensado como dizer verdadeiro é necessário endossar a idéia de que o S2 não situe nenhum dizer verdadeiro, vale dizer, seja real. Como indica Lacan o saber inconsciente é topológico, quer dizer que ele se sustenta na vizinhança, na proximidade, e não na repetição, na insistência, mas pelas marcas que essa insistência modula como verdade. Desde esse ponto de vista o sujeito é um conjunto aberto, que não tem limite, razão que determina o saber inconsciente. Por outro lado a verdade limita, já que é meio dizer. Para o homem (Todo- Homem), inscrito do lado do gozo todo fálico, o imaginário do amor é sem dizer, e por conseqüência não sabe nada disso. No seminário 20 Lacan disse: O ato de amor é a perversão polimorfa do macho...sem Outro...autista Pelo contrario, para uma mulher, não - toda, o gozo não circula sem dizer sobre a verdade. O gozo feminino, (gozo suplementar) se apresenta na sua duplicidade como gozo do corpo, sem localização, no além do gozo fálico e por outro como gozo da fala. O amor dá o braço com o gozo, e implica o Outro. O saber masculino, Lacan diz, está irremediavelmente ligado ao errar, a começar a andar para fechar-se, girar em volta de si. O saber do homem é corte... O saber de uma mulher

5 é poder fazer... uma trança com o saber que ela tem do sufoco que provoca no homem a clausura. A trança se forma, se tece em seis gestos quaisquer, gesto em que ela fica definida pela trança que é capaz de tecer. A histérica faz o homem no ponto em que a idéia primeira, a boa é aquela que diz que ele não sabe nada, quando na realidade quem não sabe é ela, o que dá como resposta a possibilidade do homem aceder ao real e saber que fala para não dizer nada, mas para obter efeitos..ainda que continue a negar saber aberto. Se no casamento o amor é uma viagem onde existe enganação de ambos o bom casamento seria aquele em que uma mulher possa ser um dos nomes do pai... do qual o homem aceita ser tolo. Em palavras de Lacan: vale dizer de acordo com a norma do homem que sabe que há o impossível, e que como dizia...uma...encantadora mulher nada para o homem é impossível, o que não pode fazer, o deixa... é o que chamam saúde mental. *Texto apresentado na 1 a Jornada da Seção Santa Catarina (em formação) 2006 Referencias Bibliográficas LACAN, J. (1975) Seminário 21 inédito- Los incautos no yerran ( Los nombres del padre) FREUD, S.(1981) Interpretacion de los Sueños Obras completas capitulo VI. Ponto F Lo inconsciente y la conciencia. La realidad.- Ed. Biblioteca Nueva- Madrid España STEVENS, A. (2006) Amor (amor e nome do pai) Scilicet dos Nomes do pai AMP 13 de outubro de 2006

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