O BRINCAR E A CLÍNICA

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1 O BRINCAR E A CLÍNICA Christine Nunes (psicóloga clínica, candidata da SPRJ) RESUMO: O presente trabalho, propõe a uma breve exposição do que pensa Winnicott sobre o brincar e a sessão analítica estendendo para o viver criativo. INTRODUÇÃO: Donald Winnicott amplia o leque de recursos do analista e muda a noção de sessão analítica quando aproxima a sessão de psicanálise à noção do brincar. Para ele, a sessão se dá mediante a sobreposição de duas áreas do brincar a do paciente e a do analista. E diz mais:...em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é. (Winnicott, 1971, p. 59). O BRINCAR: O brincar possui história dentro da psicanálise, iniciando com seu criador, Sigmund Freud (1920). Todos conhecem suas observações e interpretações acerca da brincadeira do neto, de um ano e meio, jogando um carretel de linha para fora do berço e depois recuperando-o, enquanto pronunciava fort (ir embora) e da ( ali), isso como uma encenação do desaparecimento e do retorno de sua mãe. Winnicott nos diz que o brincar só pode ser plenamente entendido, acompanhado de sua noção de transicionalidade. Simplificando, podemos dizer que Freud estabelecera 1

2 dois campos da experiência dos indivíduos. Por um lado, ele falava na realidade psíquica, desde A interpretação dos sonhos, em que se referia à experiência psíquica, pessoal e interna do indivíduo. Também falava da realidade externa e compartilhada socialmente, que se distingue ou até se opõe à realidade psíquica. Winnicott nos propõe um campo intermediário, um espaço que fica entre, que faz a transição entre estas duas realidades. E os objetos nomeados transicionais são aqueles que não pertencem ao corpo do bebê, nem são plenamente reconhecidos como a realidade externa compartilhada. Este campo intermediário constituído tanto pela realidade interna quanto pela realidade externa é fundamental para entender o brincar Winnicottiano. É onde se constitui, justamente, o espaço potencial (Winnicott, 1971) entre o eu e o não eu, entre os mundos interno e externo, que vão se formando na medida em que o brincar se desenvolve de forma criativa e original. A separação entre eu e não-eu é repudiada através da experiência ilusória, o que permite que o espaço potencial seja o lugar onde se estabelece o jogo criativo dos primórdios da existência, o uso de símbolos, a mediação pela linguagem e tudo o que constitui a vida cultural. Claramente, Donald Winnicott, diz que não pretende questionar a noção de espaço interno e espaço externo de Freud. A idéia de Winnicott complementa esta noção, acrescentando este espaço especial que fica fora e dentro ao mesmo tempo, espaço construído pelo bebê e a mãe e recriado na relação analítica. 2

3 Winnicott se volta para o brincar como algo a ser olhado em sua potencialidade própria. O brincar, como o concebe Winnicott, não se limita às crianças apenas, mas se estende aos adultos também. Seguidor de Klein, Winnicott redimensiona o brincar, tanto na natureza da atividade infantil em si como em sua utilidade terapêutica. O brincar não é considerado apenas como uma alternativa simbólica; e sim, é um tempo-espaço de criação e elaboração da realidade subjetiva/objetiva. O setting terapêutico deixa de ser um lugar de análise da brincadeira para ser uma vivência do brincar. É possível descrever uma seqüência de relacionamentos sobre o processo de desenvolvimento, examiná-los, e ver a que lugar pertence o brincar. O modo como Winnicott concebe o brincar tem a ver com vários tempos. No primeiro tempo, o bebê e o objeto estão fundidos. A visão que o bebê tem do objeto é subjetiva. A mãe suficientemente boa se orienta para concretizar aquilo que o bebê está pronto a encontrar. No segundo tempo, o objeto é repudiado como não-eu, aceito de novo e objetivamente percebido. Neste tempo, a mãe devolve ao bebê o objeto que ele repudiou. A mãe oscila entre ser o que o bebê tem capacidade de encontrar e ser ela própria, enquanto aguarda ser encontrada. Se a mãe tem suficiente sucesso no exercício destes papéis, então o bebê tem a experiência mágica da onipotência. Quando a mãe tem uma relação de sintonia inicial com o bebê, estabelece-se um ambiente de confiança e o bebê brinca com a realidade. Trata-se de um brincar muito prazeroso porque neste jogo delicado da subjetividade emergente e dos objetos reais há uma sensação de controle. O terceiro estágio consiste em mais um dos paradoxos do pensamento de Winnicott, ou seja, o de ficar só na presença de alguém. A 3

4 criança brinca segura de que a pessoa a quem ama e confia estará disponível ao ser lembrada após ter sido esquecida. Winnicott, em palavras simples, confere um novo universo ao brincar: o da formação do eu e da adaptação à realidade. Essa área intermediária da experiência incontestada quanto a pertencer à realidade interna ou externa (compartilhada), constitui a parte maior da experiência do bebê e, através da vida, é conservada na experimentação intensa que diz respeito às artes, à religião, ao viver imaginativo e ao trabalho científico criador. ( Winnicott, 1971, p.30) É nesse espaço, como sabemos, que a criança vivencia sua liberdade de criação, pode usar sua personalidade integral e, com isso, descobrir seu self. Na verdade, desde a formulação, em 1951, do conceito de objetos ou fenômenos transicionais até a integração deste conceito em uma teoria do playing, em 1971, o autor procura caracterizar o lugar onde se dá o processo de emergência simultânea do sujeito e do mundo entendido como ambiente cultural compartilhado. Esse lugar é o espaço, ao mesmo tempo psíquico e real, no qual uma atividade o brincar, o jogo sem regras pode produzir-se, caso as condições sejam favoráveis. O brincar, atividade constitutiva de uma determinada espécie de espaço e tempo psíquicos, terá, na reflexão do autor, a importância que tem o sonho no pensamento freudiano. O BRINCAR NA CLÍNICA ANALÍTICA: Ao investigarmos a questão do brincar nos escritos de Winnicott (1971), começamos com a constatação de que o espaço analítico em si nada mais é do que um desenvolvimento peculiar dessa atividade humana universal: o BRINCAR. 4

5 A partir deste ponto, entramos diretamente no tema do presente trabalho, na medida em que, para Winnicott (1971, p. 63): [...] a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. O natural é o brincar e o fenômeno altamente aperfeiçoado do século XX é a psicanálise. O autor relaciona que, assim como, a criança desenvolve a capacidade para disponibilizar da superposição de duas áreas de brincar, a dela própria e a de sua mãe, existe, também, o timing das interpretações na análise de pacientes de qualquer idade cronológica. E diz mais sobre o brincar na análise de adultos: [...] Sugiro que devemos encontrar o brincar tão em evidência nas análises de adultos quanto o é no caso de nosso trabalho com crianças. Manifesta-se, por exemplo, na escolha das palavras, nas inflexões de voz e, na verdade, no senso de humor. ( Winnicott, 1975, p. 61) Para tanto, a noção de espaço potencial Winnicott aplica-se à sessão de análise. O brincar facilita a comunicação consigo e com os outros, propiciando experiências inéditas, é saudável e de todo desejável, inclusive na sessão de análise onde pode ser pensada como uma manifestação sofisticada e contemporânea da experiência de brincar. Freud valeu-se da seguinte metáfora: Aja como se, por exemplo, você fosse um viajante sentado à janela de um vagão ferroviário, a descrever para alguém que se encontra dentro as vistas cambiantes que vê lá fora. (1913, p. 177) Aqui o que ele propõe é como um brincar de faz de conta. 5

6 Isso para explicar a associação livre que constitui a regra fundamental da técnica psicanalítica.esta consiste na expressão indiscriminada de tudo o que vier à mente do paciente (Freud, 1913). O objetivo é justamente eliminar a seleção voluntária e consciente dos pensamentos, deixando, assim, espaço para que se evidenciem derivados de conteúdos inconscientes. A proposta de permitir que os pensamentos flutuem soltos na mente aponta evidentes semelhanças com o brincar ou, melhor ainda, depende justamente desta capacidade humana. De modo ainda mais específico, depende, a meu ver, da capacidade para brincar sozinho na presença de outro, conforme descrito por Winnicott (1971). Isso porque na não-intencionalidade se permite a liberdade de expressão mesmo que esta se expresse em um fluxo de pensamentos sem ligação. Esta experiência de nãointencionalidade se dá no ambiente da confiança proporcionado por espaço potencial. Por isso mesmo, assim como angústias inibem o brincar da criança, o mesmo ocorre com a capacidade para associar livremente do adulto. Em contrapartida, a atenção flutuante no analista, constitui, como também é sabido, o modo específico de escuta analítica. Mais uma vez, penso que esse [...] deixar funcionar o mais livremente possível (Laplanche; Pontalis, 1991, p. 40) a atividade inconsciente, implica e exige a capacidade de brincar do analista, começando com a capacidade para brincar sozinho (na presença de alguém). CONSIDERAÇÕES FINAIS: O desafio é brincar com a realidade subjetiva de ambos (paciente e analista) ali na sessão, de um modo que se pode quase tocar. Caso não haja uma 6

7 adesão do paciente e do analista àquele espaço e tempo fora do espaço e tempo comuns, então o brincar não acontece. Ambos têm que entrar neste espaço potencial, diferente do espaço-tempo do senso comum. Podemos dizer que o espaço potencial que nasce de experiências de confiança é a base para a atividade criativa que se manifesta no brincar. A soma destas muitas experiências e a criação é que permite a formação de um sentimento verdadeiro de self. É no brincar e talvez, apenas no brincar, que a criança e o adulto experimentam liberdade suficiente para criar e criar-se. O brincar criativo é um modo de lidar com a realidade que valoriza esta alegria de estar vivo. 7

8 EM ANEXO Slides utilizados na apresentação através do power point:. 8

9 9

10 BIBLIOGRAFIA: OUTEIRAL, J. O. e GRANÃ, R. B. (1991) Donald W. Winnicott: Estudos. Porto Alegre: Artes Médicas. [ Links ] WINNICOTT, D. W. (1975) O brincar & a realidade. Trad. J. O. A. Abreu e V. Nobre. Rio de Janeiro: Imago. [ Links ]. (1983) O ambiente e os processos de maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Trad. I. C. S. Ortiz. Porto Alegre: Artmed. [ Links ]. (1990) Natureza humana. Trad. D. L. Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago. [ Links ]. (1999) Tudo começa em casa. Tradução P. Sandler. São Paulo: Martins Fontes. [ Links ]. (2001) A família e o desenvolvimento individual. Trad. M. B. Cipolla. São Paulo: Martins Fontes. [ Links ] 10

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