Resenha do livro Sobre fotografia, de Susan Sontag

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3 Este trabalho, realizado no âmbito do curso de pósgraduação em Fotografia da Universidade Cândido Mendes, tem como finalidade comentar o livro Sobre fotografia, de autoria de Susan Sontag. Publicada em 1977, essa obra reúne seis ensaios escritos na década de 70, muito discutidos e considerados como tendo grande importância no entendimento de questões relacionadas com a fotografia. O primeiro deles, denominado Na Caverna de Platão, trata dos usos que podem ser feitos da atividade fotográfica e da importância assumida pela fotografia na sociedade, a ponto de Sontag considerar que Hoje, tudo existe para terminar numa foto. Estados Unidos, visto em fotos, de um ângulo sombrio, é o título do segundo ensaio. Nele, Sontag aborda o nivelamento das discriminações entre o belo e o feio, entre o importante e o trivial e comenta o trabalho de alguns dos mais importantes fotógrafos norte-americanos, como Walker Evans, Robert Frank, Lewis Hine e Diane Arbus. Salienta, ainda, a ligação entre os Estados Unidos e o surreal. A propósito disso, pode-se fazer uma analogia com o que acontece no Brasil, onde as coisas mais bizarras se materializam. No ensaio Objetos de melancolia, a escritora aborda o lado surrealista da fotografia, caracterizado, por exemplo,

4 nas radiografias de Man Ray, nas fotomontagens de Alexander Rodchenko ou na múltipla exposição de Bragaglia. Salienta, também, o fato de que houve uma cooperação acidental ou quase mágica entre o fotógrafo e o assunto, nesses casos. Em O Heroismo da Visão, Sontag tece considerações a respeito da ligação entre a foto e o belo. A respeito do posicionamento do fotógrafo entre o esforço para embelezar o mundo e o contra-esforço para rasgar-lhe a máscara, ela chega a afirmar que não há diferença de valor. Na opinião do signatário isso pode ser realmente um dilema para o fotógrafo, muito embora, dependendo do seu estado de espírito e da situação que envolve a obtenção da fotografia, a vantagem do atendimento de cada objetivo possa ser óbvia. Após dirigir a discussão a outras questões, como por exemplo, a do realismo das fotos e seu relacionamento com o tempo, a escritora estabelece que o fotógrafo se identificou no humanismo porque ele mascara as confusões sobre a verdade e a beleza. No ensaio Evangelhos Fotográficos, discorre-se a respeito dos questionamentos que a fotografia tem sofrido desde sua criação, quando o problema de uma possível concorrência com a pintura foi levantado, mas não se configurou. Por sua vez a escritora também questiona a atitude dos fotógrafos, muitas vezes defensivista, ao

5 escrever manifestos sobre as virtudes da fotografia. Entretanto, de certa forma, a intelectual faz o mesmo ao vaticinar que Hoje, toda a arte aspira a condição de fotografia. No texto O mundo-imagem, a questão da representação da realidade pela fotografia é comentada, salientando-se que, por se constituir num registro de ondas de luz emanadas pelos objetos, ou seja, um vestígio material do tema, a fotografia assumiu o papel que a pintura exercia, no campo da documentação. Além disso, Sontag aborda a questão de estar um mundo-imagem substituindo o mudo real. Novamente é comentado o poder que a fotografia exercia à época de seus pensamentos, situação que ainda persiste. Ao longo desses ensaios, a autora é prolífera em exemplos históricos e apresenta opiniões sobre a fotografia de alguns escritores como Baudelaire, Valéry, Balzac, Zola, Mallarmé e Nabokov. Leva o leitor a refletir sobre o papel da imagem no mundo atual. Há que se considerar, ao ler o livro, alguns aspectos conjunturais da época em que foi escrito. Assim, por exemplo, somente quatro anos depois, em 1981, ocorreria o lançamento comercial do primeiro microcomputador, muito embora, alguns anos tenham trannscorrido antes que, dotados de interface gráfica que facilitou

6 enormemente sua operação, tenha se tornado popular. Mas, foi somente vinte anos depois que ocorreu o impacto da massificação da produção e difusão que a fotografia digital e a internet proporcionam. Sontag, já naquela época, afirmava que a câmera havia aumentado nosso repertório visual ao mesmo tempo em que o diminuiu ao procurarmos apenas o que é fotogênico. Outra interessante idéia é a de que o conhecimento adquirido pelas fotografias confere uma sabedoria aparente, assim como também é aparente a apropriação do real pelo fotógrafo. Em resumo, a partir de pressupostos filosóficos, históricos, artísticos e sociais, Sontag avalia objetivamente o papel da fotografia desde a sua invenção até os dias atuais na sociedade moderna. Apesar de passados mais de 30 anos de sua publicação, o texto de Sontag é extremamente atual, pois se intensificou o bombardeio com imagens através de novas mídias, como a internet, o que amplificou o poder exercido pela fotografia na sociedade pósmoderna. A leitura de Sobre Fotografia constitui-se, também, em fonte de referências da história da Fotografia, já que as citações de Sontag tendem a induzir o leitor a nelas buscar conhecimentos específicos.

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