CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARANÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA

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1 CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARANÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS ATRAVÉS DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA: SUGESTÕES PARA A MELHORIA DA EXECUÇÃO DE PROJETOS DE PRODUTOS NA FAURECIA RAQUEL FERRARI PASSAMANI Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Tecnologia, Linha de Pesquisa: Tecnologia & Desenvolvimento. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Kazuo Hatakeyama CURITIBA 2002

2 RAQUEL FERRARI PASSAMANI ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS ATRAVÉS DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA: SUGESTÕES PARA A MELHORIA DA EXECUÇÃO DE PROJETOS DE PRODUTOS NA FAURECIA Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Tecnologia, Linha de Pesquisa: Tecnologia & Desenvolvimento. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Kazuo Hatakeyama CURITIBA 2002

3 TERMO DE APROVAÇÃO

4 AGRADECIMENTOS Ao Programa de Pós-graduação em Tecnologia PPGTE do CEFET-PR e à CAPES pela oportunidade e apoio na realização da pesquisa. Ao meu orientador, Prof. Dr. Kazuo Hatakeyama, pela orientação e estímulo. À Faurecia, em especial ao Diretor Industrial, Francisco Dogo Pretel, pelas informações e comentários no estudo de caso e, ainda, aos demais colaboradores da Diretoria de Desenvolvimento e Engenharia Industrial pela compreensão e motivação nas respostas aos permanentes questionamentos. A Darli, meu marido e companheiro de todos os dias, que me incentivou sem limites. Aos meus pais, Natal e Alzira, e a meus irmãos por acreditarem em mim e pela força permanente. Aos colegas do Mestrado pelas discussões e transmissão de entusiasmo. Enfim, a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização desta dissertação. ii

5 SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS... v LISTA DE QUADROS... vi LISTA DE ABREVIATURAS E LISTA DE SIGLAS... vii RESUMO...viii ABSTRACT... ix 1 INTRODUÇÃO APRESENTAÇÃO OBJETIVOS Objetivo Geral Objetivos Específicos JUSTIFICATIVA METODOLOGIA A Escolha da Estratégia da Pesquisa Problema de Pesquisa ESTUDO DE CASO Delimitação do Estudo de Caso PREMISSAS DA PESQUISA INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS ESTRUTURA DA EXPOSIÇÃO ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS A IDÉIA DE PROJETO FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DE PROJETO Organização Funcional ou Departamental ou Hierárquica Organização por Projeto Organização Matricial A TRANSIÇÃO DA SOCIEDADE INDUSTRIAL PARA A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO CARACTERÍSTICAS DO GERENTE E DA EQUIPE DE PROJETO PROJETO DE PRODUTO E PROJETO DE SERVIÇO INFLUÊNCIA DO CICLO DE VIDA DAS EMPRESAS NA ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS A CADEIA DE VALOR E A ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS...44 iii

6 3 ENGENHARIA SIMULTÂNEA: ESTRUTURA CONCEITUAL E ORGANIZACIONAL HISTÓRICO E EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA ASPECTOS ORGANIZACIONAIS ASPECTOS HUMANOS NA ENGENHARIA SIMULTÂNEA ASPECTOS TECNOLÓGICOS NA ENGENHARIA SIMULTÂNEA O QFD NA ENGENHARIA SIMULTÂNEA A ENGENHARIA SIMULTÂNEA NA ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS GESTÃO DA INFORMAÇÃO NA ENGENHARIA SIMULTÂNEA ABORDAGENS DA ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS NO ESTILO ENGENHARIA SIMULTÂNEA: SUGESTÕES PARA A ELABORAÇÃO DE UM MODELO TEÓRICO ESTUDO DE CASO: ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS DE PRODUTOS NA FAURECIA CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO DE CASO CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA A Faurecia no Mundo A Faurecia no Brasil RAZÕES DA ESCOLHA DA EMPRESA PARA O ESTUDO DE CASO O MODELO APQP: O SISTEMA DE ORIENTAÇÃO DE PROJETOS DA FAURECIA A ESTRUTURA E O FUNCIONAMENTO DA DIRETORIA DE DESENVOLVIMENTO E ENGENHARIA INDUSTRIAL A ANÁLISE DO CASO À LUZ DOS PRINCÍPIOS DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA ELEMENTOS PARA ACOMPANHAMENTO DE PROJETOS NA FAURECIA CONCLUSÃO GERAL DO TRABALHO E RECOMENDAÇÕES CONCLUSÃO GERAL DO TRABALHO RECOMENDAÇÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS iv

7 LISTA DE FIGURAS FIGURA 01 EXEMPLO GENÉRICO DE CICLO DE VIDA FIGURA 02 AS FASES DE UM PROJETO FIGURA 03 ORGANIZAÇÃO FUNCIONAL FIGURA 04 ORGANIZAÇÃO POR PROJETOS FIGURA 05 ORGANIZAÇÃO MATRICIAL FORTE FIGURA 07 FLEXIBILIDADE E CONTROLE ORGANIZACIONAL FIGURA 08 - MODELO DE DESENVOLVIMENTO DE PROJETO FIGURA 09 FLUXO DE ATIVIDADES DA EMPRESA INTEGRADA FIGURA 10 ORGANIZAÇÃO TEÓRICA DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA FIGURA 11 O MODELO DA ES COM BASE NA TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO FIGURA 12 - FLUXOS A SEREM CONTROLADOS PARA DESENVOLVER INTELIGÊNCIA COMPETITIVA FIGURA 13 - O MODELO APQP DA FAURECIA FIGURA 14 ORGANOGRAMA DA ENGENHARIA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL FIGURA 15 - PRÁTICA DO PROJETO DE MODIFICAÇÃO DE PRODUTO COM A MONTADORA X FIGURA 16 - PEDIDO DE MODIFICAÇÃO DE PRODUTO NECESSITANDO DE MODIFICAÇÃO DE PROCESSO FIGURA 17 - PRÁTICA DO PROJETO DE MODIFICAÇÃO DE PROCESSO COM A MONTADORA X FIGURA 18 - PROJETO DE NACIONALIZAÇÃO DE PRODUTOS NA FAURECIA S. J. DOS PINHAIS FIGURA 19 - SEQÜÊNCIA DE PASSOS NA ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS NA FAURECIA v

8 LISTA DE QUADROS QUADRO 01 - SITUAÇÕES RELEVANTES PARA DIFERENTES ESTRATÉGIAS DE PESQUISA... 5 QUADRO 02 MITOS E CONCEITOS DE PROJETOS QUADRO 03 ATIVIDADES EXERCIDAS AO LONGO DO CICLO DE VIDA DO PROJETO QUADRO 04 VANTAGENS E DESVANTAGENS DA ORGANIZAÇÃO MATRICIAL QUADRO 05 INFLUÊNCIA DA ESTRUTURA DA ORGANIZAÇÃO NOS PROJETOS QUADRO 06 FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO QUADRO 07 REDUÇÃO DO CICLO DE DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS QUADRO 08 ATRIBUTOS DESEJÁVEIS DO GERENTE DE PROJETO QUADRO 09 ALGUMAS CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DO GERENTE E DO LÍDER QUADRO 10 - CARACTERÍSTICAS DOS PROJETOS DESUMANO E HUMANIZADO QUADRO 11 - PARALELO ENTRE PDCA DA MELHORIA E DO PLANEJAMENTO DA QUALIDADE QUADRO 12 - CARACTERÍSTICAS DAS EQUIPES: QFD X TRADICIONAL QUADRO 13 - ETAPAS DO CICLO UNITÁRIO DE PROJETO QUADRO 14 POSIÇÃO DA FAURECIA NO MERCADO POR MÓDULOS PRODUZIDOS QUADRO 15 ETAPAS DO PLANEJAMENTO AVANÇADO DA QUALIDADE DO PRODUTO NA FAURECIA vi

9 LISTA DE ABREVIATURAS E LISTA DE SIGLAS ACO Aprovação Comercial e Operacional do Produto AFITEP Association Francophone du Management de Projet AP Aprovação do Protótipo APQP Advanced Product Quality Planning CAD Computer Aided Design CAE Computer Aided Engineering CALS Computer Aided Acquisition and Logistic Support CAPP Computer Aided Process Planning CE Concurrent Engineering CNES Conseil Nationale des E tudes Spatiale CSCW Computer-Support Collaborative Work DARPA/USA Defense Advanced Research Project Agency DMG Design Methods Group ES Engenharia Simultânea ETP Avaliação Técnicado Produto IC Inteligência Competitiva ICED International Conference on Engineering Design IDA Institute for Defense Analysis ISO International Organisation for Standizartion IT Informação Tecnológica IPMA International Project Management Association NASA National Aeronautics and Space Administration PERT Program Evaluation and Review Technique PDCA Plan-Do-Check-Act P&D Pesquisa e Desenvolvimento PMBOK Project Management Body of Knowledge PMI Project Management Institute QFD Quality Function Deployment TQC Total Quality Control S. J. dos Pinhais São José dos Pinhais USA United States of America WBS Work Breakdown Structure vii

10 RESUMO A presente dissertação analisa o problema da organização de projetos através da engenharia simultânea, em que a expressão projeto é entendida como uma ação integrada, visando a obtenção de um determinado resultado. A organização de projetos é a organização de ações cuja complexidade impõe um gerenciamento. A Gerência de Projetos planeja, excuta e controla as referidas ações de forma a respeitar prazos, custos, riscos e o desempenho final do trabalho. Desta forma, e como conseqüência de uma maneira específica de se gerenciar, também se desenvolve a aprendizagem das tarefas, isto é, se desenvolve o conhecimento necessário à eficaz realização das atividades. A Gerência de Projetos se apresenta como uma forma competitiva de se desenvolver aprendizagem e resolver problemas, tornando o trabalho humano de concepção mais produtivo, sobretudo na forma proposta pela engenharia simultânea. Para tanto, a análise procura evidenciar os principais fundamentos relativos à organização de projetos e à engenharia simultânea. A forma de se trabalhar em projetos conforme a engenharia simultânea é o passo seguinte da análise, destacando diferentes benefícios gerenciais. A realização de um estudo de caso em um fornecedor automotivo gera resultados que explicitam oportunidades de ganhos com a engenharia simultânea em projetos de modificação e de nacionalização de produtos. viii

11 ABSTRACT This dissertation analyses the problem of project organisation through Concurrent Engineering. The term project is understood as an integrated action aiming to achieve a determined result. Project organisation is the organisation of actions whose complexity imposes management. Project management plans, carries out and controls the aforementioned actions while respecting deadlines, costs, risks and the final development of the project. Thus, as a consequence of a specific way of being managed, task learning is also developed, i.e. the knowledge required for the effective fulfilment of activities. Project management is presented as a competitive form of developing learning and solving problems, making the human input more productive, especially in the way that is proposed by Concurrent Engineering. To this end, the analysis seeks to witness the main bases relative to the organisation of projects and to Concurrent Engineering. Working on projects according to simultaneous engineering is the next step in the analysis, highlighting the different forms of management benefits. The carrying out of a case study on an automotive parts supplier results in the gains of opportunities with Concurrent Engineering to modify and to aclopt projects for new products. ix

12 1 INTRODUÇÃO 1.1 APRESENTAÇÃO Diante de uma grande pressão competitiva, em que se aumentam as exigências de prazo, custo, risco e desempenho do produto desenvolvido, as empresas estão buscando novas formas de organizar seus projetos. Isso tem sido constatado em diferentes setores industriais, sobretudo na indústria automotiva. Nesse segmento, não somente o tempo de desenvolvimento de projetos de novos produtos, mas também o tempo de desenvolvimento de projetos de modificação e nacionalização de componentes e módulos - caso típico dos projetos realizados por fornecedores automotivos em países como o Brasil - têm se constituído um problema, sobretudo em um contexto de regime cambial desfavorável à importação de componentes. As solicitações de modificações em produtos exigem rapidez de repostas com qualidade. Diversas alternativas estão sendo propostas para solucionar esse problema e, no geral, elas abrangem alguns aspectos das dimensões tecnológica e/ou organizacional. Um importante número de soluções propostas está fortemente apoiado em ferramentas computacionais. Um outro número de alternativas enfatiza um intenso trabalho de mudança organizacional. Poucas soluções combinam um necessário equilíbrio entre as múltiplas e complementares variáveis que contribuem para o sucesso da organização de projetos. Por possibilitar mais e melhores resultados integralizados na organização dos projetos, a Engenharia Simultânea (ES) está tendo uma crescente aceitação nas empresas. Isso pode ser constatado em diferentes relatos de diversos congressos do Concurrent Engineering (CE) e nos congressos da Association Francophone du Management de Projet (AFITEP). O setor automotivo, extremamente terceirizado em suas atividades, tem adotado práticas cada vez mais coerentes com a ES. É um setor também benchmarking em iniciativas de projetos, caso, por exemplo, do referencial Advanced Product Quality Planning/ Planejamento Avançado da Qualidade do Produto (APQP), originariamente criado pelas empresas General Motors, Ford e Chrysler que está favorecendo profundas interações e comunicações. A relevância gerencial que adquire a ES na organização de projetos é o objeto do presente estudo.

13 1.2 OBJETIVOS Objetivo Geral = Evidenciar que a organização de projetos segundo a ES favorece o desenvolvimento de produtos de forma competitiva 1, sobretudo no atual contexto de forte pressão do mercado para a redução do time-to-market Objetivos Específicos = = = = Estudar a organização de projetos do ponto de vista técnico e organizacional; Pesquisar a ES como uma forma de organização de projetos e suas aplicações; Verificar a prática da organização de projetos em uma empresa fornecedora de componentes do setor automotivo; Propor recomendações para a melhoria da organização de projetos, no caso analisado, à luz dos princípios da ES. 1.3 JUSTIFICATIVA As formas tradicionais de gerenciar projetos - o chamado modelo seqüencial - em um ambiente de pressão não favorecem a redução dos prazos impostos pelos clientes e também não proporcionam a aprendizagem das equipes. É, portanto, oportuno buscar-se formas de responder às novas exigências de atuação em projetos de forma competitiva. A análise de trabalhos sobre gerência de projetos associada à atividade profissional de suporte ao planejamento de engenharia na Diretoria de Desenvolvimento e Engenharia Industrial da Faurecia, São José dos Pinhais e, ainda, visitas a instituições - na França (2000 e 2001) e no Canadá (2001) que estão direcio- 1 A expressão forma competitiva é utilizada no sentido de redução de prazos e, por extensão, dos custos de desenvolvimento. 2

14 nando seus esforços de projetos nos fundamentos da ES, reforçaram a motivação relativa à escolha do presente assunto. A importância da ES nas empresas pode ser constatada pelo grande investimento realizado, por exemplo, pela Renault no Technocentre (www.renault.com), seu centro mundial de inteligência em projetos. Com ele, a empresa pretende fazer uma economia de custos de 1 a 1,5 bilhões de francos nos projetos de desenvolvimento de cada novo modelo (Renault, Le Technocentre, 2000). Segundo LOUIS SCHWEITZER, presidente da Renault, o Technocentre é um ambiente de trabalho a serviço da estratégia de inovação e de competitividade da empresa. Essa nova realidade de trabalho na indústria automotiva chama atenção para a importância que pode assumir uma forma inteligente de organizar projetos. O problema das montadoras de automóveis e de suas redes de fornecedores no Brasil, cujos projetos de montagem de veículos - sobretudo os destinados ao mercado internacional - estão com elevado percentual de componentes importados 2, reforça a justificativa de se tentar compreender melhor o impacto que pode ter uma nova forma de organizar projetos de nacionalização e de modificação, tanto nas montadoras quanto nos fornecedores. O relato de melhorias na organização e execução de projetos no estilo ES tem sido registrado em debates e publicações de diferentes fóruns mundiais. No debate relativo à conferência de THIRY sobre Added Value Project Management, apresentada no IP- MA 96 World Congress on Project Management (1996), afirmou-se que a gerência de projetos segundo a filosofia da ES pode reduzir em até 45% os prazos de desenvolvimento de novos produtos e diminuir em até 30% sobre os custos. Analisando os temas dos quatro últimos Congressos da AFITEP, observa-se que em todos existe uma relação direta ou indireta com a forma de trabalhar a melhoria dos projetos com base na filosofia da ES (Cf / tema: Gerência de Projetos e Novas Tecnologias de Comunicação; 1998 / tema: Contratantes e Contratados em Projetos; 1999 / tema: Controle de Risco; 2000 / tema: Recursos Humanos e Projetos). Além da preocupação em pesquisar uma nova forma de organização do trabalho, o presente estudo também se preocupa em rever os conceitos aplicados no desenvolvimento de produtos. 2 Índice de aproximadamente 60% de partes importadas. Informação obtida junto às montadoras e fornecedores situados no Paraná. 3

15 A elaboração de estudos é necessária para favorecer uma melhor interpretação dos referidos problemas, isto é, explicitar uma forma de organizar projetos que seja capaz de lidar com os principais desafios da atualidade, tais como: exigência de redução time-tomarket, custos competitivos, favorecimento da aprendizagem coletiva das equipes de projetos entre outros. Tal como pode ser visto nos objetivos geral e específico, o presente estudo procura responder a uma parte específica deste conjunto de desafios. Em síntese, a justificativa do presente estudo está na busca de soluções eficazes no gerenciamento de projetos e tem como proposta a ES. Esse estudo procura mostrar que a forma seqüencial de desenvolvimento de projetos não condiz com a dinâmica do mundo atual cada vez mais competitivo e que busca produtos cada vez melhores num tempo mais curto e com menor custo. 1.4 METODOLOGIA O presente estudo se apóia em uma metodologia baseada em abordagens teórica e empírica e, ainda, privilegia os principais aspectos das dimensões tecnológica e organizacional do ambiente de projetos. Em termos de orientação metodológica, essa pesquisa privilegia a linha que sugere que...a pesquisa deve ser orientada para a ação (MINGAT et al., 1985). Dessa forma, e com base nas abordagens teórica e empírica, apresentam-se os passos do desenvolvimento dessa argumentação em duas partes diferentes e complementares à compreensão de um mesmo problema. Na primeira parte, fundamenta-se o problema em questão e, por extensão, explicitam-se os limites em termos de objetivos - geral e específicos - por meio de uma justificativa que enfatiza a importância e a oportunidade de desenvolvimento do presente estudo. Ainda nessa primeira parte, os conceitos fundamentais e as relações entre organização de projetos e a ES são descritos. Tem-se aí a conclusão dos fundamentos da base teórica do trabalho por meio de uma pesquisa bibliográfica. Na segunda parte, a parte empírica, há um estudo de caso realizado em uma empresa fornecedora de componentes do setor automotivo. Essa parte do trabalho, baseada no empirismo, constituiu-se em uma natural continuidade da argumentação desenvolvida na primeira parte. Os conceitos e as relações já estabelecidas no plano teórico são aplicados à ação de caracterização e interpretação do problema na empresa analisada. 4

16 A abrangência do presente estudo está, portanto, na busca de entendimento de um problema de organização de projetos no meio empresarial industrial. Conseqüentemente, a metodologia adotada no trabalho reflete a realidade do mencionado problema, ou seja, um problema que é tratado ao mesmo tempo como desafio e oportunidade para a consolidação de uma nova era no funcionamento das empresas A Escolha da Estratégia da Pesquisa De acordo com YIN (2001, p. 24), as estratégias de pesquisa mais comum são: = estudo de caso; = experimento; = levantamento; = análise de arquivos; = pesquisa histórica. Yin relata que para a escolha da estratégia de pesquisa é necessário levar em consideração três aspectos: a) o tipo de questão proposto; b) a extensão de controle que o pesquisador tem sobre eventos comportamentais efetivos; c) o grau de enfoque em acontecimentos históricos em oposição a acontecimentos contemporâneos. O Quadro 01 apresenta estas três condições e mostra como cada uma se relaciona as cinco estratégias de pesquisa. Quadro 01 - Situações Relevantes para Diferentes Estratégias de Pesquisa Estratégia Forma da questão de pesquisa Exige controle sobre eventos comportamentais? Focaliza acontecimentos contemporâneos? Experimento Como, por que? Sim Sim Levantamento Quem, o que, onde, quantos, Não Sim quanto? Análise de arquivos Quem, o que, onde, quantos, Não Sim/não quanto? Pesquisa histórica Como, por que? Não Não Estudo de caso Como, por que? Não Sim FONTE: YIN (2001, p. 24). Na definição do problema, procura-se caracterizar a estratégia da pesquisa com base nos aspectos mencionados por Yin. 5

17 1.4.2 Problema de Pesquisa Conforme argumentação de YIN (2001), o primeiro passo a ser dado para a escolha da estratégia de pesquisa é a formulação do problema da pesquisa. A partir do objetivo geral da pesquisa, que é o de evidenciar que a organização de projetos segundo a ES favorece o desenvolvimento de produto de forma competitiva, foram elaboradas as seguintes questões: - Como a organização de projetos segundo a ES pode favorecer o desenvolvimento de produtos de forma competitiva, sobretudo em fornecedores de componentes do setor automotivo brasileiro? - Como a organização de projetos segundo a ES pode contribuir para a melhoria da organização de projetos na Faurecia? Estas questões estão coerentes com a estratégia de estudo de caso proposta por Yin. O presente estudo não exige controle sobre eventos comportamentais, e ainda, conforme Yin, enfatiza plenamente a análise de um problema contemporâneo. 1.5 ESTUDO DE CASO Delimitação do Estudo de Caso No caso analisado, o presente estudo está limitado à organização de projetos de modificação e nacionalização de produtos realizados na empresa Faurecia, unidade S. J. dos Pinhais, importante fornecedora de painéis de porta e painéis de instrumentos para as montadoras. A análise do referido caso foi fundamentada na estrutura e funcionamento do Departamento de Desenvolvimento e Engenharia Industrial. As recomendações propostas para a melhoria da organização dos projetos têm aplicação imediata, porém, no caso estudado, não foram implementadas. Portanto, uma natural continuidade do estudo em trabalhos futuros está na análise dos resultados da implementação de uma nova forma de organizar projetos na empresa. As melhorias propostas neste estudo são de ordem qualitativa, não sendo mensurados os aspectos quantitativos referentes aos projetos em evidência. 6

18 1.6 PREMISSAS DA PESQUISA = = = = = A organização de projetos segundo a ES: pode favorecer o desenvolvimento de produtos de forma competitiva integrando áreas funcionais desde o início do projeto; pode evitar o retrabalho, uma vez que a organização do projeto é bem definida nas fases iniciais, reduzindo, dessa forma, os custos; pode facilitar a documentação das tarefas do projeto desde o início da idéia até seu término, gerando, dessa forma, uma memória do projeto; pode favorecer a criação de um ambiente propício à disseminação do conhecimento, ou seja, à aprendizagem organizacional; pode disponibilizar as informações de forma rápida e eficaz, favorecendo, assim, a tomada de decisões. 1.7 INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS A partir da formulação do problema de pesquisa e das premissas julgam-se necessárias as seguintes informações: = A estrutura e o funcionamento da Diretoria de Desenvolvimento e Engenharia Industrial; = O modelo utilizado como referência no desenvolvimento de projetos, ou seja, o modelo APQP adaptado pela Faurecia; = A prática da organização de projetos; = A formação da equipe nos projetos de nacionalização e modificação de produtos; = Os princípios e abordagens de projetos segundo a ES. Segundo YIN (2001, p. 105), as principais fontes de evidências em estudo de caso são: a documentação, os registros em arquivos, as entrevistas, a observação direta, a observação participante e os artefatos físicos. Nesse estudo, e conforme menciona YIN (2001), procurou-se utilizar o maior número possível de evidências. Para acessar as informações pertinentes ao caso, adotou-se o seguinte procedimento: 7

19 = = = = = = reuniões/entrevistas semi-estruturadas com o Diretor de Desenvolvimento e Engenharia Industrial e seus colaboradores diretos, sobretudo, os responsáveis pelos projetos de produtos e processos para cada uma das montadoras clientes; participação em reuniões preparatórias dos requisitos para o trabalho em projetos de modificação e nacionalização de produtos; análise de documentos internos da empresa relativo aos procedimentos técnicoorganizacionais de orientação à organização e ao desenvolvimento de projetos de produtos; observações direta e participante no dia-a-dia do setor e nas práticas executadas; pesquisa bibliográfica sobre a organização de projetos através da ES; verificação de registros em arquivos. 1.8 ESTRUTURA DA EXPOSIÇÃO Este capítulo introdutório procurou caracterizar a natureza da pesquisa, precisando os objetivos geral e específico. Também definiu a metodologia utilizada e explícita o caso analisado. No segundo capítulo, estuda-se a forma de se organizar projetos. Faz-se, ainda, uma síntese sobre a transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento. Em um trabalho como o proposto nesta dissertação, entender as características do gerente e da e- quipe de projetos é fundamental e por isso foi objeto de uma seção seguido dos problemas dos projetos de produto e de serviço. Além disso, relaciona-se o ciclo de vida das empresas com a organização de projetos, finalizando com uma breve análise da cadeia de valor na forma de organizar projetos. A engenharia simultânea é discutida no capítulo três, evidenciando histórico e evolução, aspectos organizacionais, aspectos humanos e tecnológicos e o uso do desdobramento da função qualidade (QFD) nesta forma de abordagem do desenvolvimento de projetos. O capítulo quatro discute a forma de inserção da engenharia simultânea na organização de projetos, destacando-se a contribuição da gestão da informação e a possibilidade de um modelo teórico. A realização de um estudo de caso em um fornecedor automotivo é o objeto do quinto capítulo, onde, depois de realizada a caracterização da empresa e das razões para a sua escolha, se discute o atual modelo adotado pela empresa (APQP) e se analisa a estrutura e funcionamento da Diretoria de Desenvolvimento e Engenharia Industrial. Os ele- 8

20 mentos para o acompanhamento dos projetos na empresa são apresentados na parte final do capítulo. O sexto capítulo conclui a dissertação com base na fundamentação teórica e no estudo de caso. 9

21 2 ORGANIZAÇÃO DE PROJETOS 2.1 A IDÉIA DE PROJETO Com freqüência, tem-se observado a utilização da palavra projeto, porém isso não significa que existe uma profunda compreensão sobre o termo, incluindo aí sua importância e aplicabilidade, seu gerenciamento e sua organização dentre outros fatores. O trabalho organizado na forma de projeto tem se revelado uma forte tendência competitiva nas empresas, pois possibilita forte redução de prazos e custos das atividades de desenvolvimento. Para que o trabalho organizado na forma de projeto obtenha resultados positivos, seu gerenciamento deve ser entendido de forma sistêmica. Conforme relato de MAXIMIANO (1997, p.36)...a administração de projetos compreende um conjunto estruturado de técnicas, procedimentos, definição de responsabilidades e autoridade, sistema de documentação e outros procedimentos, que têm por objetivo normatizar a administração de projetos dentro da empresa. Na sua essência, a idéia de projeto pode ser associada a uma forma de se trabalhar que é, simultaneamente, simples e eficaz, principalmente na atualidade, em que as empresas são obrigadas a responder mais rapidamente às demandas de mercado. Entretanto, e com freqüência, observa-se que muitos projetos apresentam problemas, neste contexto, destaca-se o comentário de JOLIVET (La Cible, n 86, fevereiro/2001, p.30)...os projetos que apresentam problemas são numerosos, muito mais do que se imagina. Estes problemas podem assumir vários aspectos: a) o desempenho do projeto ou do produto é inadaptado ao uso; b) os custos de desenvolvimento e uso explodem; c) a data de colocação em serviço é deslocada e o retorno do investimento é negativo. De acordo com MAXIMIANO (1997) a maioria dos problemas observados em projetos são devido à falta de uma metodologia de organização de projetos formalizada. COSTA (1998, p. 105), relata...sem o domínio dos conceitos da ES e sem um método adequado para sua implantação, a empresa acaba muitas vezes subutilizando seu potencial. Em seu trabalho sobre a ES no setor industrial brasileiro, a autora constata a falta de investimentos em treinamentos e formação de profissionais na área de administração de projeto. É comum deparar-se com empresas trabalhando com projetos de forma muito rudimentar, sem investir na capitalização de conhecimento disponível no universo de projetos, os quais envolve seus princípios, metodologias, ferramentas, e, sobretudo, os as- 10

22 pectos comportamentais que permeiam as empresas e caracterizam a sua cultura. Diretamente associadas à cultura das empresas estão às pessoas, que são os vetores de transformação dos negócios. O gerenciamento de projetos requer atenção em relação a tudo que envolve seu ambiente e que pode afetá-lo direta ou indiretamente. É nesse contexto que o projeto é visto como uma forma complexa de trabalho, pois envolve intenso planejamento e controle. Se o projeto não for devidamente planejado, executado e controlado, seu objetivo poderá ser seriamente prejudicado. Quando isso acontece, os responsáveis tendem a usar essa falha como justificativa para não se trabalhar dessa forma, enfatizando as dificuldades e, por muitas vezes, o fracasso de alguns projetos. Normalmente as atividades do dia-a-dia das empresas são atividades funcionais expressas por processos contínuos. Porém, o que dinamiza essas atividades são os projetos de novos produtos e as constantes melhorias nos processos. Sendo assim, é cada vez maior o interesse pela organização do trabalho por projeto. Mas, afinal, o que se entende por projeto? Segundo ROLDÃO (2000, p. 05)...projecto é uma organização designada para cumprimento de um objectivo, criada com esse objectivo e dissolvida após a sua conclusão. Caracterizando-se por: = ter um tempo limitado; = ter o início e fim bem definidos; = seguir um plano previamente definido. De acordo com o Project Management Body of Knowledge (PMBOK Guide, 1996, p. 04), referencial de projetos do Project Management Institute (PMI), um projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto ou serviço único. VALERIANO (1998, p.19) define projeto como sendo...um conjunto de ações, executadas de forma coordenada por uma organização transitória, ao qual são alocados os insumos necessários para, em um dado prazo, alcançar um objetivo determinado. Muitos estudiosos da área de gerência em projetos (VALERIANO, 1998, 2001; VARGAS, 2000; DINSMORE 1992, 1999; ROLDÃO, 2000) partilham o essencial das idéias que fundamentam o entendimento do que é um projeto. Com base nesses fundamentos, pode-se dizer que não existe uma única definição para projeto, mas características distintas, dentre as quais destacam-se: 11

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