TRABALHOS TÉCNICOS Divisão Sindical O ENQUADRAMENTO SINDICAL DE EMPRESAS FRANQUEADORAS. Lidiane Duarte Nogueira Advogada

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1 TRABALHOS TÉCNICOS Divisão Sindical O ENQUADRAMENTO SINDICAL DE EMPRESAS FRANQUEADORAS Lidiane Duarte Nogueira Advogada O presente estudo trata do enquadramento sindical de empresas franqueadoras. À luz da Constituição Federal (art. 8º, II), o enquadramento deve ser feito por categoria profissional ou econômica, observado o Quadro de Atividades e Profissões a que se refere o art. 577 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), no qual as atividades estão distribuídas por diversos grupos. Convém lembrar que o Quadro de Atividades e Profissões, que complementa a CLT, foi recepcionado pela Constituição Federal (CF), conforme decidiu o Supremo Tribunal Federal STF (RMS DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurélio, RTJ 137, pág. 1131/1135). Logo, para que possamos definir o enquadramento sindical das empresas franqueadoras, primeiro temos de identificar a atividade econômica praticada por essa espécie de empresa e, para tanto, faz-se necessária breve análise acerca do contrato de franquia ou franchising. O contrato de franquia empresarial ou franchising é disciplinado pela Lei nº 8.955, de 15 de dezembro de O artigo 2º da citada Lei conceitua o contrato de franquia empresarial (franchising) como sendo o sistema pelo qual um franqueador cede ao franqueado o direito de uso de marca ou patente, associado ao direito de distribuição exclusiva ou semiexclusiva de produtos ou serviços e, eventualmente, também ao direito de uso de tecnologia de implantação e administração de negócio ou sistema operacional desenvolvidos ou detidos pelo franqueador, mediante remuneração direta ou indireta, sem que, no entanto, fique caracterizado vínculo empregatício. Como se depreende do texto legal, a empresa franqueadora é a pessoa jurídica, titular da marca registrada, patente ou registro de propriedade industrial, que concede a outra (o franqueado) licença para a utilização (em atividade de comércio, indústria ou serviços) de sua marca, bem como de seu processo de produção, seus produtos e/ou sistemas de negócios, mediante determinada remuneração (royalties) e o cumprimento de certas condições.

2 80 A franquia, portanto, pode ser identificada como o produto, o processo ou o serviço franqueado, ou ainda, o estabelecimento que funciona sob o licenciamento licença concedida pelo franqueador ao franqueado. Para corroborar com essa assertiva, trazemos à colação o conceito de franchising, extraído da obra Vocabulário jurídico, De Plácido e Silva, Editora Forense, 2001: Franchising : Franchising ou franquia, em vernáculo, é o contrato pelo qual uma das partes (franqueador ou franchisor) concede, por certo tempo, a outra (franqueado ou franchise) o direito de comercializar, com exclusividade, em determinada área geográfica, serviços, nome comercial, título de estabelecimento, marca de indústria ou produto que lhe pertence, com assistência técnica permanente, recebendo em troca, certa remuneração (Maria Helena Diniz). Trata-se o franchising de contrato atípico, bilateral, consensual, oneroso e de execução continuada. Ainda sobre o tema, para elucidar a questão atinente à atividade desempenhada pelas empresas franqueadoras, cabe aqui transcrever trechos extraídos da monografia Um Estudo sobre a Internacionalização de Franquias Brasileiras, de Patrícia de Salles Vance, Marcelo Felippe Figueira Júnior, Rodrigo Alexandre Gedra Alvarez, Universidade de São Paulo: A opção pela franquia empresarial é bastante frequente no mercado de consumo de bens e serviços, viabilizando a ampliação da rede de distribuição com o mínimo de recursos próprios. Uma complexa relação que se estabelece entre duas empresas juridicamente independentes, à medida que a empresa franqueadora delega à empresa franqueada a responsabilidade de representar a sua imagem e o seu negócio aos consumidores. O franqueado é dono do seu negócio e não empregado da sua franqueadora, investindo os recursos financeiros necessários para a operação das unidades sob sua responsabilidade. No mundo empresarial o termo franquia de maneira geral, corresponde a uma licença de uso de marca, de comercialização de produtos ou serviços e, em muitos casos, de acesso a todo um sistema de negócios já desenvolvido e testado. No Brasil, a palavra franquia também é utilizada para designar as unidades franqueadas. Definido pela ABF como uma estratégia de distribuição de serviços ou produtos, a comercialização de franquias ou franchising possibilita que uma empresa amplie seus negócios com investimento menor. (...) Trabalhos Técnicos

3 81 Normalmente, as franquias são classificadas em gerações, de acordo com a intensidade do suporte que é dado pela empresa franqueadora à franqueada, e entre as quais destacam-se a de marca e de produto e a de formato de negócio. Entre os ativos do franqueador, merece atenção o valor da marca que, segundo Plá (2001), pode ultrapassar de forma significativa todos os ativos tangíveis de um franqueador. A franquia de marca e de produto engloba a concessão de direitos de uso de marca e de comercialização de produtos e/ou serviços (FOSTER, 1994) e, nesta modalidade, o franqueado adota a imagem da empresa franqueadora, tornando-se distribuidor preferencial de seus produtos e/ou serviços (ELANGO; FRIED, 1997, p ). Em geral, as franquias de marca e de produto são subdivididas em franquias de 1ª ou 2ª gerações, conforme o grau de assessoria dado à franqueada pela franqueadora. O suporte, entretanto, é bastante limitado, podendo incluir ou não algum apoio técnico ou financeiro (CHERTO, RIZZO, 1994; SANTOS, 1997). Na franquia de formato de negócio, ou de 3ª geração, o apoio dado à empresa franqueadora é muito mais abrangente, com a transferência de conhecimento de todo o modelo de gerenciamento do negócio, previamente desenvolvido e testado (FOSTER, 1994; CHERTO, RIZZO, 1994; ELANGO; FRIED, 1997, p ). O franqueado, desta forma, é proprietário do seu negócio, no qual investe seus próprios capitais, respeitando os padrões estabelecidos pela franqueadora. Afinal, a empresa franqueada representa a imagem da franqueadora frente aos consumidores, sendo o relacionamento entre franqueadora e franqueada formalizado por meio de um contrato de franquia (FOSTER, 1994). (grifo nosso) Desse modo, resta claro, que no sistema de franchising, a empresa que detém a marca e/ou formato das operações do negócio e concede os direitos de uso a outra empresa é conhecida como franqueadora, enquanto aquela que adquire estes direitos é denominada franqueada. Vale dizer, o franqueador é aquele que cede ao franqueado o direito de uso de marca ou patente, associado ao direito de distribuição exclusiva ou semiexclusiva de produtos ou serviços e, eventualmente, também ao direito de uso de tecnologia de implantação e administração de negócio ou sistema operacional desenvolvidos ou detidos pelo franqueador. Ressalte-se ainda que o franchising pode ser estabelecido em diversos setores da economia como, por exemplo, 1) acessórios pessoais e calçados; 2) alimentação; 3) beleza, saúde e produtos naturais; 4) comunicação, informática e eletrônicos; 5) construção, material e serviços; 6) cosméticos e perfumaria; 7) educação e treinamento; 8) entretenimento; 9) Trabalhos Técnicos

4 82 escolas de idiomas; 10) fotografia, gráficas e sinalização; 11) hotelaria e turismo; 12) limpeza e conservação; 13) livrarias e papelarias; 14) móveis, decoração e presentes; 15) negócios, serviços e conveniência; 16) serviços automotivos; e 17) vestuário (classificação extraída do site Definido, portanto, o conceito de franchising e sua aplicação no mundo empresarial, passamos à análise da atividade econômica praticada pela empresa franqueadora identificada como parte desse contrato, titular da marca registrada, patente ou registro de propriedade industrial, que concede ao franqueado licença para a utilização de sua marca, bem como de seu processo de produção, seus produtos e/ou sistemas de negócios, em atividade de segmento do comércio, da indústria, etc. Merece destaque o fato de que a atividade das empresas franqueadoras não se consubstancia na comercialização de franquias. Comercializar franquias constitui modo eficaz de ampliação dos negócios da empresa, com investimento menor. Isso porque, antes de comercializar franquias, as empresas franqueadoras desenvolvem sua atividade preponderante atividade esta que define o enquadramento sindical, nos termos do disposto no 2º, do art Daí porque, é importante identificar a atividade preponderante desempenhada pelas empresas franqueadoras. As empresas franqueadoras desenvolvem uma determinada atividade de forma preponderante atividade esta que pode pertencer ao plano do comércio, da indústria, da educação e cultura etc. e, ao pretender expandir seus negócios, com o desenvolvimento dessa atividade, pode optar por fazê-lo por intermédio do contrato de franchising (comercialização de franquias). A comercialização de franquias, de forma isolada, não deve ser considerada para fins de enquadramento, pois essa não é atividade preponderante da empresa franqueadora. Se assim fosse, teríamos os sindicatos das empresas franqueadoras, desconsiderando, no caso, a atividade preponderante de cada uma dessas empresas e desvirtuando, por conseguinte, a regra contida no dispositivo legal supramencionado. Por conta disso, a empresa franqueadora deve ser enquadrada na categoria econômica correspondente a atividade efetivamente por ela praticada, tendo em conta o conceito de atividade preponderante prescrito no 2º, do art. 581, da CLT. Por exemplo, uma empresa como a HERING STORE, que tem como atividade preponderante a comercialização, no varejo, de roupas e acessórios e que, por sua vez, concede à outra (o franqueado) licença para a utilização de sua marca e de seus produtos, estaria enquadrada na categoria econômica lojistas do comércio (estabelecimentos de tecidos, Trabalhos Técnicos

5 83 de vestuário, adorno e acessórios, de objetos de arte, de louças finas, de cirurgia, de móveis e congêneres), integrante do 2º Grupo do Plano da CNC comércio varejista. Ao passo que, uma empresa como a YAZIGI INTERNEXUS, que atua no setor de educação e tem como atividade preponderante o ensino de idiomas, ao ceder o direito de uso de marca ou patente associado ao direito de uso da metodologia de ensino por ela desenvolvida, não estaria enquadrada no plano do comércio, mas sim, no 1º Grupo do Plano da educação e cultura estabelecimentos de ensino. No ponto, é importante ressaltar que a presente consulta foi formulada em tese, o que não permite a exata identificação da atividade preponderante das empresas franqueadoras em questão, e, por via de consequência, o seu enquadramento sindical. Vale dizer, não está se tratando de empresa específica (caso concreto), hipótese em que seria possível o exame de seus atos constitutivos, notadamente do objeto social com vistas à definição do enquadramento sindical. E, para saber se a empresa franqueadora estaria enquadrada no plano da CNC, seria necessário identificar a atividade preponderante dessa empresa, o que só seria possível mediante a análise dos referidos documentos. Isto posto, no que diz respeito ao enquadramento sindical, em tese, das empresas franqueadoras, considerando 1) que a atividade desempenhada pela empresa franqueadora não se resume à comercialização de franquias; e 2) que o franchising define apenas o modo pelo qual determinada atividade econômica será desenvolvida pelo franqueado, atividade esta que pode ser integrante de qualquer um dos planos constantes do Quadro de Atividades e Profissões a que se refere o art. 577, da CLT comércio, indústria, educação e cultura, transportes etc., tem-se que o enquadramento das empresas franqueadoras deve ser feito de forma casuística, tendo em conta a categoria econômica correspondente à atividade preponderante por elas desempenhadas nos termos do disposto no 2º, do art. 581, da CLT. Trabalhos Técnicos

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