Sociologia Jurídica. Apresentação 2.1.b Capitalismo, Estado e Direito

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1 Sociologia Jurídica Apresentação 2.1.b Capitalismo, Estado e Direito

2 O direito na sociedade moderna Fonte: UNGER, Roberto Mangabeira. O Direito na Sociedade Moderna contribuição à crítica da teoria social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, capítulos II e III, pp , ). (pp e ) O direito e as formas de sociedade O direito e a modernidade

3 Sociedade Estamental Sucede a sociedade feudal É uma sociedade aristocrática Precursora imediata da sociedade liberal Características: 1. Marcada por duas cisões básicas: Separação massa e elite Separação entre o poder real e os estamentos que constituem a elite

4 Sociedade Estamental 2. Os estamentos que constituem a elite organizam-se em assembleias Cada assembleia fala em nome próprio, defendendo os interesses do grupo Não há interesses gerais 3. Equilíbrio entre os interesses reais e os interesses comerciais Contexto: capitalismo comercial das cidades mercantis e centralização administrativa do rei

5 Sociedade Estamental Estruturas estamentais: Bicameralismo inglês Alta nobreza na câmara superior e pequena nobreza e comerciantes na inferior Tripartição francesa Nobreza, clero e grupos comerciantes

6 Direito na Sociedade Estamental Direito Administrativo Há dois componentes, em oposição: Setor profano de ordenações discricionárias (lex) Livre para agir em nome dos interesses reais ou sociais Público e positivo Não é geral nem autônomo Esfera da vida social imune ao soberano (ius) Sujeita apenas a uma ordem sagrada e suprapositiva que, inicialmente, estabelece os privilégios Não é público nem positivo Geral e autônomo

7 Direito na Sociedade Estamental Aos poucos, a diferença entre os setores transforma-se: O soberano é obrigado a adotar leis gerais e autônomas Fortalece-se a diferença entre administração e legislação Surge um judiciário independente, com pessoas e métodos próprios, para fiscalizar o emprego administrativo da legislação O direito das prerrogativas torna-se, aos poucos, público e positivo Não perde seu caráter de superior ao próprio governo

8 Direito na Sociedade Liberal Elementos característicos da sociedade liberal: 1. Multiplicidade de funções cada vez mais especializadas Cada pessoa exerce algumas funções em sua vida (fragmentação da personalidade) 2. Desaparecimento da nítida distinção entre associados e estranhos Ordem social torna-se associação de interesses 3. Oposição entre ideais e realidade Sociedade precisa justificar-se perante os membros Sem essa justificativa, existência é experimentada como arbitrária ou sem sentido

9 Direito na Sociedade Liberal Interesse particular motiva a união entre os homens Necessidade de usarem-se uns aos outros para satisfação dos próprios desejos Ideais morais, estéticos ou religiosos são redefinidos como interesses ou preferências particulares, para os quais não há critérios públicos Como, então, pode existir consenso sem autoridade, estabilidade sem convicção, ordem sem justificação?

10 Direito na Sociedade Liberal Para desenvolver a questão, é preciso compreender que a sociedade liberal é, antes de tudo, uma sociedade de classes Há uma distribuição hierárquica de grupos sociais no que tange ao acesso à riqueza, ao poder e ao conhecimento Comparativamente com a sociedade aristocrática, a sociedade liberal é mais aberta Mas essa abertura dificulta a legitimação da hierarquia

11 Direito na Sociedade Liberal A subordinação de classes e atribuições é suficientemente estanque e inclusiva para determinar grande parte da condição social do indivíduo, e para ser considerada como o seu determinante. Mas é também suficientemente aberta e parcial para ser vista como algo contingente e até mesmo arbitrário, fundamentalmente destituído de qualquer base na natureza das coisas

12 Direito na Sociedade Liberal Todo consenso numa sociedade de classes passa a parecer corrupto em virtude das desigualdades da condição social hierárquica Mesmo que busque a igualdade, a desigualdade restante o desmente O sistema de poder da sociedade liberal tornase incapaz de preservar a sua autoridade Mas, dadas as disparidades sociais de poder, a falta de legitimidade não significa que os homens possam derrubar ou substituir o sistema

13 Direito na Sociedade Liberal Podemos agora compreender a misteriosa coexistência de resignação e descrença, de desigualdade de poder e de convicções igualitárias que caracteriza a consciência na sociedade liberal As questões básicas da especulação no campo da jurisprudência e da política resultam da dupla experiência da injustificabilidade da ordem de classesexistente e da corrupção dos acordos ou tradições morais pela injustiça da sua origem

14 Direito na Sociedade Liberal Surge o Estado de Direito Luta-se por um poder mais forte, impessoal e independente, que elimine as arbitrariedades da hierarquia social Caracterizado pela neutralidade, uniformidade e previsibilidade Regras gerais e aplicadas uniformemente Separam-se os procedimentos de administração, legislação e jurisdição Todos devem participar do processo de elaboração das leis

15 Direito na Sociedade Liberal Para atingir seu objetivo, o Estado de Direito deve: 1. Concentrar no governo os poderes mais importantes ou mais fortes da sociedade 2. Moderar, por regras, esse poder, evitando seu uso pessoal ou arbitrário As duas premissas levam à separação entre direito público e direito privado

16 Direito na Sociedade Liberal Todavia, as duas premissas nunca se concretizam totalmente na sociedade liberal O governo não concentra em suas mãos os poderes mais importantes ou mais fortes da sociedade Hierarquias da família, do trabalho e do mercado não são modificadas pela igualdade formal O poder nem sempre é exercido de modo impessoal e imparcial

17 Direito na Sociedade Liberal os motivos do fracasso dessa tentativa de garantir a impessoalidade do poder são os mesmos que originariamente inspiraram tal esforço: a existência de uma ordem de classes relativamente aberta e parcial, e a concomitante desintegração de um consenso que pretende justificar-se a si mesmo. Os fatores que tornam a busca necessária impedem também o seu sucesso. O Estado, fiscal supostamente neutro do conflito social, é sempre envolvido no antagonismo dos interesses privados e transformado em instrumento de uma ou de outra facção.

18 Desintegração do Estado de Direito na Sociedade Pós-Liberal Caracteres da sociedade pós-liberal: Intervenção do governo em áreas anteriormente consideradas fora da esfera de ação do Estado Estado de bem-estar Gradual aproximação entre o Estado e a sociedade e entre as esferas pública e privada Estado deixa de ser guardião neutro da ordem social Organizações privadas tornam-se cada vez mais poderosas, assumindo poderes governamentais Estado corporativo

19 Desintegração do Estado de Direito na Sociedade Pós-Liberal Declínio do Estado de Direito (bem-estar) Expansão no uso de normas ilimitadas e cláusulas gerais na legislação, administração e jurisdição Transição de estilos de raciocínio legais formalistas para estilos teleológicos ou prudenciais (da preocupação com a justiça formal para uma preocupação com a justiça substantiva) Levam a uma crise da generalidade da lei e da autonomia da ordem jurídica Normas tornam-se particulares, defendendo grupos sociais específicos Argumento jurídico aproxima-se do argumento político ou econômico

20 Desintegração do Estado de Direito na Sociedade Pós-Liberal Declínio do Estado de Direito (corporativismo) As fronteiras entre a lei estatal e a ordem normativa das instituições não estatais diluem-se Fracassa a ideia de concentrar no governo todo poder importante Surgem clamores contra regras impostas pelo Estado e a favor de normas espontâneas que surgem nos grupos sociais Tendências corporativas da sociedade levam a uma crise de publicidade e positividade do direito

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