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1 AUTORRETRATO... EU COMO SOU? SOU ÚNICO! Maria da Penha Rodrigues de Assis EMEF SERRA DOURADA No ano de 2010 escolhi como posto de trabalho a EMEF Serra Dourada para lecionar como arte-educadora de séries iniciais do ensino fundamental, com turmas de 1ª s a 3ª s séries. A escola fica localizada no Bairro Serra Dourada e pertence à Rede Municipal de Ensino do Município de Serra/ES. O relato de experiência que segue, partiu de observações que fiz, quando os alunos brincavam de chamar os colegas de seu cabeça de... a nariz de..., orelha de..., isso acontecia durante as aulas e no recreio. No decorrer de nossa vida estamos sempre interferindo e sendo interferidos pelos acontecimentos nos espaços que freqüentamos. A escola é um espaço onde acontecem várias trocas, é um lugar de socialização. Para Kramer (1998) é importante que as crianças, os jovens e os adultos recuperem, aprendam e descubram a paixão pelo conhecimento e, nesse processo o papel do outro é fundamental. Assim pensamos que a escola tem papel importante nesse processo, já que é espaço que nos encontramos com muitos sujeitos e nas trocas com eles nos constituímos como sujeitos únicos, com nossas singularidades. [...] Os sujeitos que estão inseridos no cotidiano da escola não deixam do lado de fora o conjunto de fatores individuais e sociais que os distinguem como indivíduos que têm vontade, sujeitos com subjetividades marcados por suas experiências em seus espaços de interações. (VAGO-SOARES, 2010, P.40) 1 A criança vem para a escola repleta de fatos, acontecimentos e histórias para contar. Os assuntos são os mais diversos; sobre sua vida, de seus familiares, o que viu na TV, enfim do mundo que a cerca. Nossa proposta foi construir o projeto a partir das vivências que as crianças já tinham. Como abordar o fato que observei, nas aulas de artes, de forma prazerosa e estimulando a reflexão das crianças? 1 Disponível em <http://www.gpime.pro.br/grupeci/adm/impressos/trabalhos/tr50.pdf> Acesso em 12 de abr

2 Conversando com a pedagoga Marlene, surgiu a idéia de trabalhar, com os alunos, o autoconhecimento, o respeito e a valorização de si mesmo e do outro. Ressalto que essa tarefa só foi possível de ser executada, com a participação da professora regente 2 da 3ª série B, Tânia, já que no município da Serra temos apenas uma aula de arte por semana nas séries iniciais do ensino fundamental. Desenvolvi o projeto com apóio da professora, que permitia que as crianças continuassem as produções na aula dela. Assim pude esquematizar como seria o nosso projeto, que teve início no final do mês de março e término no começo do mês de maio de O titulo inicial foi Projeto Autorretrato e Projeto retratando a minha mãe em seguida, pois estávamos próximos do dia das mães. Após a elaboração do projeto, iniciamos as propostas. Utilizarei a palavra passo para apresentarmos o que foi produzido em cada aula de artes. O primeiro passo foi contar, através de história, como surgiu o povo brasileiro que foi uma grande mistura de raças: índios, africanos, portugueses, italianos, holandeses, entre outros que seguem até os dias de hoje, dando continuidade a grande mistura étnica no Brasil. Depois demos exemplos, contei que na minha família tem mistura de brancos, negros e índios, e que prevaleceu a maioria de negros e eu sou uma delas. Quando eu me identifico como negra, alguns alunos se surpreendem, pois acham que os negros têm que ter a pele muito escura e que eu só era um pouquinho. Conversamos então sobre o nascimento de uma pessoa, que ao nascer a raça já está definida, ou seja, se nasce negra continua negra e que não ficará branca ao crescer. Foi interessante quando começaram a falar de suas famílias e das misturas étnicas também existentes, trazendo suas vivências e suas origens, tendo vista que muitos alunos vieram da Bahia, estado de predominância negra, para o nosso estado e se concentraram principalmente no município da Serra. [...] por meio da linguagem que a criança constrói a representação da realidade na qual está inserida. Agindo, ela será capaz de transformar a realidade, mas, ao mesmo tempo, é também transformada por esse seu modo de agir no mundo. [...] (JOBIM E SOUZA, 1994, P. 24). A partir da troca de experiências com os colegas, a criança interage com os outros e constrói seus conhecimentos com mais significado para o seu dia a dia. 2 Professora graduada em Pedagogia e com habilitação em ensino fundamental, séries iniciais.

3 O segundo passo foi levar espelhos para a aula. Cada criança ganhou um espelho para poder observar os detalhes de seu rosto, fazendo um autoconhecimento ou autoreconhecimento. Tom de pele, cor dos olhos, formato do nariz, formato do rosto, sobrancelhas, cílios, lábios, cor dos cabelos, sinais... Enfim pudemos observar que alguns alunos, a partir das observações produziram narrativas orais, diversas, entre elas: Eu sou negro e você também é!, Meu cabelo é enrolado e o seu é liso!, Tia Penha, meu olhos são da cor dos seus!. Outros comentavam que, na turma, não existe ninguém com uma pele branca totalmente, existe tons de pele branca e a aula seguiu no exercício de olhar, observar o eu e o outro. Combinamos de cada um, na próxima aula, trazer uma fotografia que apresentasse imagens de pessoas da família. O terceiro passo iniciou-se a partir das fotografias que as crianças trouxeram. Começamos a observar as fotos das famílias. Abordamos que, antigamente os retratos eram pintados e os artistas eram pagos para pintar as famílias nobres, não existia câmeras fotográficas muito menos as digitais, como hoje. As fotografias postas para observação eram as mais variadas: apenas a família, parentes reunidos em eventos, entre outras. Percebemos As imagens, como expressão do homem em tempos e lugares distintos, contam histórias referidas a grupos étnicos e culturas humanas localizadas e datadas. (SCHÜTZ-FOERSTE, 2004, p.67). A partir das imagens, nas fotografias, cada criança oralmente, narrou sobre a foto, apontavam os parentes já falecidos, imaginaram, criaram e contaram parte de sua história. Levamos fotos também, para partilhar. No quarto passo levamos, para a sala, livros de Arte que tinham fotos (Autorretrato) de alguns artistas como: Van Gogh, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Renoir, Candido Portinari e outros. Fizemos apreciação e observação das imagens. Então partimos para o desenho do Eu, como sou? Começamos a desenhar o nosso Autorretrato. Primeiro fizemos o meu autorretrato, e todos foram observando e ajudando a colocar minhas características e objetos (adornos) que estava usando no dia. Logo em seguida, as crianças começaram a fazer seus autorretratos. Sempre observando nos espelhos e colocando suas características. Os desenhos foram feitos à lápis inicialmente e somente depois a cor foi colocada, respeitando o tom de pele, tipo de cabelo, nariz e principalmente a representação do Eu, como sou? Sou único!

4 Concluindo essa primeira etapa surgiu um projeto da UFES, na área de Língua Portuguesa sobre: Monteiro Lobato. Eram os recontos da obra do mestre da literatura e meus alunos foram convidados pelos professores de língua portuguesa, que já sabiam do projeto Autorretrato, para então desenhar o retrato de Monteiro Lobato para se juntar ao portifólio que foi levado para ser apresentado na UFES. Ficamos satisfeitos em participar. Na semana seguinte combinamos de trazer fotografia da mãe, ou de outra mulher importante de sua vida, avó, tia, madrinha, para podermos desenhar a imagem, observando os detalhes. Cada criança trouxe a foto para apreciar, observar e desenhar. Nesse período uma pessoa da Secretaria de Educação, que se identificou como Larissa ligou para a escola perguntando o que nós estávamos preparando para o dia das mães, pois o jornal A Gazeta estava propondo ir até a escola fazer uma reportagem sobre o dia das mães. Falaram por telefone com a pedagoga, que marcou um dia para a visita. Então as crianças puderam ter como culminância seus trabalhos registrados no jornal. Elas conversaram com os jornalistas, mostraram os retratos, que produziram, das mães e disseram que iriam presenteá-las, no dia das mães, com os mesmos. Os trabalhos foram apreciados por todos. A reportagem encontra-se registrada no Jornal A Gazeta, do dia 06 de maio de Foi um trabalho gratificante e devido ao grande entusiasmo dos alunos, realizamos o projeto em outras turmas, gerando um clima gostoso de também fiz. Sempre contando com ajuda dos professores regentes que também se envolveram no projeto dando o apoio necessário. Ressalto também o interesse da mestranda em Educação e Linguagens, Maria Angélica Vago-Soares, ao saber do projeto e da sua provocação e incentivo para eu escrever esse relato, a ela o meu muito obrigado. Referências Bibliográficas JOBIM E SOUZA, Solange. Infância e linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin. Campinas, SP: Papirus, KRAMER, Sonia. O que é básico na escola básica? Constribuições para o debate sobre o papel da escola na vida social e na cultura. In: KRAMER, Sonia; LEITE, Maria Isabel. Infância e produção cultural. Campinas, SP: Papirus, 1998.

5 SCHÜTZ-FOERSTE, Gerda Margit. Leitura de imagens: um desafio à educação contemporânea. Vitória: EDUFES, Currículo Sucinto Maria da Penha Rodrigues de Assis - Graduada em Educação Artística pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), no ano de 2003, pós-graduada em Psicopedagogia pela FASE (Faculdade de Serra). Atualmente sou arte-educadora na EMEF Serra Dourada, Rede Municipal de Ensino Fundamental de Serra e no Colégio Atuante que pertence a Rede Particular de Ensino.

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