Ana Maria Curvo Dimam dos Santos Pereira RESUMO

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1 O espaço escolar e as diferenças étnico culturais Ana Maria Curvo Dimam dos Santos Pereira RESUMO O presente resumo questiona o preconceito étnico racial numa escola estadual a partir do olhar de uma coordenadora pedagógica negra que, durante o seu período de gestão, sente os reflexos da ação discriminatória e, por vezes vexatória, situações essas levantadas e ocasionadas no âmbito escolar e na dimensão das relações sociais profissionais com os pais dos alunos. Embora a sociedade contemporânea contemple o respeito aos direitos humanos e os valores da diversidade, ainda se efetivam comportamentos inóspitos e desumanos em locais específicos para a Educação formal. Cientes de que essa Educação é fundamental para transformação da realidade social, pois é na prática do ensino que a formação da cidadania dos alunos refletirá na vida cotidiana dos seus lares possibilitando a reversão do quadro atual.seria a necessidade de um trabalho multiculturalista na escola?... Assim, na área de linguagem os professores de Língua Portuguesa utilizar-se-ão de inúmeras situações didáticas para o alcance de tal objetivo. Todo material apresenta um benefício. Mas nesse momento em especial, é interessante que os educadores reflitam a seguinte questão: Que leituras e proposições poderão ser inseridas para discussão e reflexão sobre o assunto? Quando fazer isso? Como inserir os pais no processo? São questões que, indubitavelmente, trarão a relevância dos valores que impregnados na criança, adolescente e adulto construirão o ser humano mais justo. Nessa perspectiva todos os esforços dos educadores serão válidos. Palavras-chave: Preconceito, multiculturalismo, espaço escolar. REVISTA SABERES EM REDE CEFAPRO DE CUIABÁ/MT 79

2 Falar do multiculturalismo é falar do jogo das diferenças cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que, por uma razão ou outra, experimentam o gosto amargo da discriminação e do preconceito no interior das sociedades em que vivem. (Gonçalves & Silva, 2004, p. 11) Ainda que a sociedade contemporânea contemple o respeito aos direitos humanos e os valores da diversidade, efetivam-se ainda comportamentos inóspitos e desumanos em locais de educação formal. Cientes de que somente a Educação pode reverter essa realidade é fundamental que a prática do ensino voltada para a cidadania possa ao longo do tempo sensibilizar os pais e a comunidade para essa transformação. Desse modo a pluralidade cultural se coloca como um problema, pois as sociedades não se representam enquanto plurais, mas como monoculturais. Faz-se necessário investigar até que ponto a escola tem contribuído para o respeito ou discriminação de identidades diversas. Assim, reconhecendo a importância de uma educação transformadora pretende-se nesse trabalho discutir e relatar algumas situações de preconceito étnico racial, ocorridas em ambiente escolar, assim como propor caminhos multiculturais e transformadores aos professores de Língua Portuguesa a partir da análise, construção e reconstrução da identidade negra no cotidiano escolar para consequente transformação da sociedade, aqui especificamente considerando funcionários e os pais dos alunos. Constitui-se um estudo de caso de cunho etnográfico desenvolvido durante o ano de 2003 numa escola estadual de ensino fundamental e médio localizada na região central do município de Várzea Grande. Esta atende uma diversidade de alunos com diferentes características fenotípicas, religiosas, políticas, culturais e econômicas. Assim, é um desafio da escola atender a complexidade de camadas desfavorecidas da população, como também a diversidade cultural e social de cada uma. Nesse sentido entender e abraçar o multiculturalismo para resolução dos problemas é imprescindível, visto que significa diferentes ideias para diferentes pessoas e instituições, até porque a compreensão da perspectiva multicultural deveria ser uma dimensão voltada à valorização da diversidade cultural e desafio a preconceitos, a permear todo o projeto pedagógico e as práticas de qualquer instituição. Em uma perspectiva que se coaduna com essa dimensão, temos argumentado que pensar em multiculturalismo é, acima de tudo, pensar sobre identidades plurais que perfazem grupos sociais e em respostas que garantam a representação e a valorização dessas identidades nos espaços sociais e organizacionais. Desse modo, a escola ainda precisa aprender a lidar com essas culturas diversas. Só assim poderá dar um conjunto de respostas à questão do multiculturalismo e propiciar por intermédio da Educação novos valores de promoção da diversidade entre as pessoas. 80 Jul./Dez.2013

3 Também Canen (2001) já afirmava que a identidade negra e sua construção/reconstrução positiva é base de superação da discriminação, viabilizando práticas curriculares inovadoras pautadas no reconhecimento e valorização do negro, isto é, cor, raça e etnia. Nesse sentido, ser negro é parte de uma construção identitária, em que a identificação racial é também social e culturalmente construída. A construção da identidade negra é marcada historicamente pelo tratamento desigual ao negro, portanto há casos em que este se posiciona e se estabelece no espaço como tal, semelhante a qualquer outra raça. É uma situação, no mínimo sofrida, porém conquistada passo a passo e que se relaciona a essa construção identitária. Argumentamos, pois, que a escola precisa ter consciência do seu papel como organização multicultural. Podemos dizer então que essa diversidade diz respeito não só aos sujeitos que nela trabalham (professores e funcionários) com suas diferenças de etnias, gênero, classe social e outras características, mas também à diversidade cultural dos que a ela acorrem (pais e alunos), em constante movimento de hibridização com a identidade institucional da escola identificada em seu projeto político-pedagógico, em seu clima institucional e nas especificidades do meio em que está inserida. Percebe-se a importância de se ter uma administração escolar também multicultural, através da qual possam ser criadas estratégias organizacionais que busquem a valorização da diversidade cultural e a sensibilização para as suas vantagens, bem como indicar caminhos para se lidar com esta, no cotidiano escolar. Dessa forma, o trabalho para a construção e reconstrução das identidades culturais, dentre as quais a identidade negra, passa por um olhar renovado sobre a escola, entendendo-a não só a partir de seus currículos, mas de suas práticas de gestão cotidianas. Algumas situações vividas pela coordenadora pedagógica. 1. No ano letivo de 2003 assumi a função de coordenadora do Ensino Fundamental no período vespertino de uma escola estadual do município de Várzea Grande juntamente com uma colega que já atuava nessa função. Concomitante à nova função iniciamos o curso de extensão Trabalhando as diferenças no ensino fundamental oferecido pelo Nepre, núcleo de estudos da Universidade Federal do estado de Mato Grosso. Até então não havia percebido como no interior da escola havia conflitos raciais em todo o segmento escolar. Sempre que ocorria algum desentendimento entre alunos ou alunas estava relacionado à questão da cor, do tipo e cabelo, apelidos que desagradavam, tais como: Bob esponja, Ih! Choveu... cabelo encolheu!, Nega do cabelo duro!..., Aqui não é o seu lugar!... O preconceito, a discriminação acontece muito entre os alunos, principalmente na faixa etária dos anos. 2. Ainda na mesma escola aconteceu que certa vez a minha colega solicitou a presença da mãe de um determinado aluno para conversar a respeito do REVISTA SABERES EM REDE CEFAPRO DE CUIABÁ/MT 81

4 aprendizado e da disciplina do mesmo na escola. Quando a mãe chegou à sala da coordenação, disse que queria falar com a coordenadora. E quem estava na sala éramos nós. Eu, coordenadora negra e baixa e minha colega também negra. Depois de alguns segundos eu indiquei a minha colega e disse: - Ela é a coordenadora! A senhora pode falar!... Depois de toda a conversa com a mãe ela foi embora ressabiada e demonstrando um certo asco. Eu comentei com minha colega: - Você viu isso? Ela está nos discriminando!...bem se percebe a não aceitação da comunidade perante o negro! Outro fato relevante que aconteceu durante o período que permaneci na coordenação está relacionado a uma colega professora que fazia de tudo para depreciar minha pessoa. Ela mandava que servisse o café, como também pegar o lanche na cozinha para servir os professores, na hora do intervalo! Em alguns momentos obedeci pensando nos colegas, mas depois... refletia: -ela faz isso de propósito, pois tem funcionários, as merendeiras, para atenderem nesse sentido. Afinal, cada um com sua função! Com argumentos deixei de atender, mas antes que eles trouxessem, ela antecipadamente pedia para mim!... Até mesmo entre colega com colega existe o desrespeito para com o outro!... Para melhor entendimento vale esclarecer que NEPRE significa um núcleo de estudos e pesquisa sobre relações raciais e educação e está vinculado ao instituto da Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Tem por objetivo realizar pesquisa, atividades de extensão relativas às temáticas das relações raciais e educação. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo buscou trazer para a reflexão subsídios teóricos e práticos para repensarmos a formação de alunos, professores e funcionários que atuam na escola. Não é possível esgotar o assunto, contudo, é possível levantar questões e reflexões que remetam à importância de levarmos em conta o multiculturalismo na formação das identidades dos sujeitos que atuam no cenário escolar, no caminho da escola como organização multicultural e mudar a concepção da sociedade ainda preconceituosa. Ressalta-se que, em diversos trabalhos, tem apontado que:... as perspectivas multiculturais, grosso modo, podem ser delineadas desde visões mais liberais ou folclóricas, que tratam da valorização da pluralidade cultural a partir do conhecimento dos costumes e processos de significação cultural das identidades plurais, até visões mais críticas, cujo foco é, justamente, o questionamento a racismos, sexismos e preconceitos de forma geral, buscando perspectivas transformadoras nos espaços culturais, sociais e organizacionais (Canen e Canen, 2005, p. 41). 82 Jul./Dez.2013

5 Nessa última, a identidade é percebida como construção, realizada nos diversos espaços discursivos, que incluem a escola, a família, o trabalho, a organização e outros, onde narrativas e discursos presentes, explícitos e implícitos, transmitem mensagens que contribuem para o constante ressignificar dessa identidade, seja ela em termos raciais, de gênero, de sexo, de religião, de linguagem e outros marcadores identitários. Nesse caso, pensar a escola como organização multicultural, a partir dos aportes teóricos e do estudo de caso, passa pelos seguintes aspectos: construção coletiva de um projeto político-pedagógico que configure a identidade institucional da escola como valorizadora da pluralidade e questionadora do preconceito étnico racial; desenvolvimento de um trabalho com os alunos voltado à questão da comunidade mais ampla, incluindo a família no sentido pró-ativo do multiculturalismo, desafiando a construção das diferenças e fomentando clima institucional aberto à diversidade. Usar a poesia, o livro, os clássicos da literatura, vídeos, leitura de textos informativos, oficinas, dramatizações, teatro para despertar nesses alunos o respeito ao multiculturalismo a partir da vivência e participação em situações didático-culturais da escola, contando sempre com o apoio e incentivo dos pais. Nesse sentido a educação, em seus diversos contextos, é chamada a desempenhar um papel relevante na preparação para o respeito e valorização da diversidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMOWICZ, A.; Silvério, V. R. Afirmando Diferenças: montando o quebracabeça da diversidade na escola. São Paulo: Papirus Editora, p CANEN, A. Multiculturalismo e Identidade escolar: desafios e perspectivas para repensar a cultura escolar. In: OLIVEIRA, I. (Org.). Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira. Niterói, RJ: EdUFF, Formação de professores e diversidade cultural. In: CANDAU, V. M. (Org.) Magistério: construção cotidiana. Petrópolis, RJ: Vozes, p CANEN, A.; CANEN, A.G. Rompendo Fronteiras Curriculares: o multiculturalismo na educação e outros campos do saber. In: Currículo sem Fronteiras, v. 5, n. 2, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005, p GONÇALVES, L. A. O.; SILVA, P. B. G. O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos. 3. ed. 2. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, SERRANO, G. P. Educação em Valores: como educar para a democracia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, REVISTA SABERES EM REDE CEFAPRO DE CUIABÁ/MT 83

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