Rádio escolar, vídeo popular e cineclube popular: um panorama sobre a atuação do Grupo de Estudos e Extensão em Comunicação e Educação Popular

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1 Rádio escolar, vídeo popular e cineclube popular: um panorama sobre a atuação do Grupo de Estudos e Extensão em Comunicação e Educação Popular Djalma Ribeiro Junior Universidade Federal de São Carlos O resumo que se segue tem como objetivo apresentar o trabalho do Grupo de Estudos e Extensão em Comunicação e Educação Popular (GECEPop) que vem atuando de forma intensa, há cerca de 3 anos, na periferia da cidade de São Carlos, interior do Estado de São Paulo. O GECEPop é composto por servidores públicos federais que trabalham na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por estudantes do curso de Imagem e Som da UFSCar e aberto à participação de todas as pessoas interessadas em debater e atuar na extensão universitária na área da Comunicação e da Educação Popular. Ao longo dos 3 anos de atuação do GECEPop, vem sendo possível construir um espaço de diálogo e de ação com as pessoas das comunidades com as quais os projetos de extensão estão sendo realizados. Especificamente, o GECEPop atua com projetos que incentivam e estimulam a criação e manutenção de Rádios Escolares, a criação e manutenção de Cineclubes Populares e a democratização do acesso ao Vídeo Popular. Antes de entrarmos no detalhamento destas atividades específicas que vem sendo realizadas pelo GECEPop, entendemos ser importante apresentarmos algumas compreensões conceituais que se configuram como princípios de trabalho. Desta maneira, é fundamental lançarmos mão sobre o que compreendemos sobre as expressões: popular, extensão, comunicação popular e educação popular. O termo popular significa, aqui, uma posição política, ideológica que aponta quais são as pessoas que estão envolvidas nos projetos. O termo popular representa uma parte significativa da sociedade que está marginalizada em relação à garantia de seus direitos humanos, dentre os quais a Educação e a Comunicação. Quando afirmamos o caráter popular dos projetos de extensão universitário realizados pelo GECEPop, compreendemos a importância que os conhecimentos populares presentes nas periferias dos centros urbanos ou nas zonas rurais possuem para garantir uma pluralidade de perspectiva no ambiente universitário, permitindo contribuir para a construção de uma sociedade cada vez mais democrática.

2 Neste sentido, o termo extensão precisa ser ressignificado. Não se trata de conhecimentos científicos que são estendidos sobre os conhecimentos populares. Não se trata de cobrir o conhecimento popular com o manto do conhecimento cientifico. O educador brasileiro Paulo Freire já fez esta crítica ao termo extensão e propôs pensar e praticar a extensão como comunicação, ou seja, aquela que se pauta pelo diálogo (FREIRE, 1983). A extensão, portanto, se configura como espaço de diálogo, de trocas de experiências com o propósito de compreender a pluralidade de perspectivas que constituem nossas sociedades. No diálogo não há conhecimentos melhores e outros piores, o que há são (re)conhecimentos diferentes. Por isso acreditamos que a extensão se constitui como um espaço revolucionário dentro das estruturas universitárias que são, muitas vezes, rígidas e burocratizadas. Por meio da extensão é possível praticar o diálogo com a sociedade e oxigenar a própria universidade, contribuindo para que a universidade não se separe da sociedade, mas, sim, que a ela se integre. Neste sentido, o pesquisador português Boaventura de Sousa Santos apontou que as atividades de extensão devem ter como objetivo prioritário, sufragado democraticamente no interior da universidade, o apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão e da discriminação sociais e de tal modo que nele se dê voz aos grupos excluídos e discriminados (SANTOS, p. 74, 2005). Diante do que foi exposto acerca dos termos popular e extensão, cabe, neste momento, apresentarmos nossas compreensões em relação à Educação Popular e à Comunicação Popular. O GECEPop possui como metodologia de trabalho aquela que é habitualmente utilizada em processos de Educação Popular. Quando falamos em Educação Popular, estamos nos remetendo às experiências realizadas, sobretudo na América Latina, por grupos populares, movimentos sociais, educadores populares que compreendem a Educação como um processo contínuo e infindável e que se estrutura nas relações que os seres humanos estabelecem com outros seres humanos. Neste processo, partimos dos conhecimentos populares para alcançarmos etapas que articulam reflexão com ação. Buscamos, sempre, partir de uma consciência ingênua, presente em pessoas que estão na universidade e, também, nas que estão atuando em algumas comunidades, para, juntos, construirmos uma consciência crítica. Partir da consciência ingênua para um processo de construção de uma consciência crítica foi proposto pelo educador Paulo Freire (FREIRE, 2005) e também pelo comunicador uruguaio Mário Kaplún

3 (KAPLÚN, 1998), a fim de que se possam vislumbrar práticas de transformação social. Acreditamos, portanto, que a Educação Popular nos proporciona refletir e agir na busca da construção de uma sociedade cada vez mais democrática. Neste sentido, a Comunicação Popular se configura como campo práticoreflexivo donde são realizados os projetos de extensão coordenados pelo GECEPop. Compreendemos que a Comunicação Popular é aquela que expressa a voz do popular sem mediações institucionalizadas, ou seja, a Comunicação Popular permite a expressão de uma pluralidade de vozes que, historicamente, vem sendo silenciadas pelos sistemas institucionalizados de mídia e de educação. Buscar a construção de uma sociedade cada vez mais democrática, passa pela construção de um processo que vise a democratização da própria comunicação. Assim, a comunicação, entendida pelo viés democrático, se caracteriza pelos seguintes aspectos: diálogo, comunidade, horizontal, de doble vía, participativa, al servicio de las mayorías (KAPLÚN, p. 63, 1998). Após apresentar as bases conceituais que orientam o trabalho do GECEPop, trazemos, na sequência do texto, um detalhamento mais preciso acerca dos projetos de extensão que estão sendo realizados junto com as comunidades. Como indicamos acima, os projetos de extensão que estão sendo coordenados pelo GECEPop estão estruturados em 3 frentes de trabalho: a)rádios Escolares; b) Cineclube Popular e c) Vídeo Popular. Os projetos de extensão voltados para a criação e manutenção de Rádios Escolares iniciaram-se em meados de 2010, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e foi realizado em apenas uma escola municipal de educação básica localizada em um bairro de periferia da cidade de São Carlos. Esta experiência fez parte do Programa Mais Educação do Governo Federal que visava implementar a educação em período integral em escolas que possuíam índices baixos em relação à alfabetização. Desta experiência, iniciada em 2010 com apenas uma escola, conseguimos ampliar o projeto para cinco escolas e ter a participação de aproximadamente 500 crianças e jovens. De modo geral, as atividades relacionadas aos projetos de extensão das Rádios Escolares consistem em oficinas que são realizadas no contra turno escolar, envolvendo estudantes de cursos de graduação e servidores públicos da UFSCar, equipe pedagógica e estudantes das escolas participantes. Em termos práticos, buscamos elaborar, de forma coletiva, conteúdos radiofônicos pautados no conhecimento escolar e da comunidade, bem como praticar a comunicação no

4 ambiente escolar por meio de sistemas internos de rádio com o intuito de promover a Rádio Escolar como um espaço crítico, criativo, participativo e, sobretudo, de relações humanas. Nestes 3 anos de atuação em projetos de extensão relacionados às Rádios Escolares, podemos perceber que o GECEPop vem, paulatinamente, ampliando o vínculo entre a universidade e a escola por meio de um processo de comunicação popular, pautado na linguagem radiofônica. Estas atividades vêm fomentando práticas de socialização e convivência, bem como o acesso dos participantes às tecnologias de informação e comunicação, que permitem praticar a comunicação no ambiente escolar de forma autônoma. Estas ações também proporcionam um olhar mais crítico às investidas das grandes corporações midiáticas no processo de comunicação que se pretende hegemônico e homogeneizante. Isto contribui para ressignificar a comunicação como espaços e momentos de relações humanas, desmistificando a ideia de que a comunicação seja algo inatingível e que somente se sustenta em aparatos de alta tecnologia. Na esteira de desmistificar o discurso tecnologista aplicado ao processo de comunicação, o GECEPop vem realizando e coordenando, desde 2010, o projeto de extensão conhecido como Mostra de Vídeo Popular de São Carlos. A Mostra se configura em um espaço de divulgação, exibição e debate sobre o Vídeo Popular. Em um espaço de uma semana por ano, buscamos exibir vídeos realizados por sindicatos, associações de moradores, centros comunitários, grupos e movimentos populares, como centros de defesa dos direitos humanos, universidades, organizações civis; vídeos realizados por coletivos de produção audiovisual, por movimentos sociais e em ambientes escolares. De forma geral, podemos observar que, pouco a pouco, a Mostra vem se consolidando no cenário nacional como um espaço de exibição e de debate acerca da produção audiovisual popular realizada por grupos e movimentos sociais. A Mostra vem contribuindo para a divulgação das realizações audiovisuais populares espalhadas pelo Brasil, colaborando para a promoção da diversidade cultural e social, inserindo a cidade de São Carlos no panorama das mostras de vídeo popular e aproximando a população sãocarlense de uma produção audiovisual pouco difundida. Desta maneira, temos como principais objetivos promover o Vídeo Popular como produto realizado por grupos populares que expressam suas diversidades

5 sociais e culturais, contribuindo para a democratização do audiovisual como linguagem fundamental para um processo de comunicação. Em termos práticos, o projeto de extensão prevê um período para inscrições dos vídeos e envios dos mesmos e, após um processo seletivo que visa garantir a característica popular do vídeo, realizamos parcerias com escolas, centros comunitários, poder público para construirmos, juntos, espaços de exibição em locais que, usualmente, não estão acostumados a receber e participar de um processo de exibição em espaço público de conteúdos audiovisuais produzidos por grupos populares. Como consequência direta desta metodologia de construir os espaços de exibição que recebem a Mostra de Vídeo Popular de São Carlos, o GECEPop também realiza e coordena projetos de extensão que visam a criação e promoção de Cineclubes Populares. Durante as exibições dos vídeos populares, construímos parcerias com escolas, centros comunitários, associações de moradores que se tornam parceiros participantes de projetos de extensão voltados para a criação de cineclubes nestes espaços. Os Cineclubes Populares se constituem como espaços permanentes de exibição e debate de curtametragens que trazem temáticas levantadas pelos próprios participantes destes cineclubes. Com os projetos de extensão de Cineclubes Populares, o GECEPop vem trabalhando com o intuito de: estimular a cultura do cineclubismo; incentivar o debate de ideias; contribuir com a democratização dos meios de expressões. Neste caminho, os Cineclubes populares pretendem contribuir com o debate acerca da democratização dos meios de expressões (culturais e comunicativos) e com o debate acerca da organização da comunidade para a construção e manutenção de cineclubes que articulem a cultura e a comunicação como áreas fundamentais para o incentivo de práticas dialógicas e de fortalecimento da cultura popular. Ao optar em coordenar e participar de projetos de extensão que articulam a Comunicação e a Educação Popular, o GECEPop parte do princípio de que todo o processo de implementação e andamento dos projetos de extensão, além de ser uma proposta que visa fortalecer a comunidade, também se torna um espaço de construção do conhecimento de forma dialógica, colocando frente a frente e lado a lado saberes científicos e saberes populares que, juntos, caminham para um processo de democratização dos meios de expressões, estimulando a apropriação crítica e criativa de tais meios. Neste sentido, é fundamental fortalecer a extensão

6 universitária no campo da Comunicação Popular, integrando práticas curriculares de cursos de graduação em comunicação com propostas de comunicação e cultura popular. Referências FREIRE, Paulo (1983). Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra. FREIRE, Paulo (2005). Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. GAJARDO, Marcela (1986). Pesquisa participante na América Latina. São Paulo: Editora Brasiliense. KAPLÚN, Mario. Una pedagogía de la comunicación. Madri: Ediciones da la Torre. SANTOS, Boaventura de Sousa (2005). A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Cortez.

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