PARA TODXS: POR UMA NOVA MARCAÇÃO DE GÊNERO NA LÍNGUA PORTUGUESA.

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1 PARA TODXS: POR UMA NOVA MARCAÇÃO DE GÊNERO NA LÍNGUA PORTUGUESA. Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro Vilhagra 1 ANIMA X ANIMUS A mulher é o reflexo invertido da mulher interior do homem O homem é o reflexo invertido do homem interior da mulher A mulher é a miragem do caminho do homem em busca de si mesmo O homem é a miragem do caminho da mulher em busca de si mesma A mulher que se busca está dentro de cada homem O homem que se busca está dentro de cada mulher Transpaixão, Waldo Motta. Resumo: Com os estudos de gênero de Butler (2008), podemos observar que a expressão da sexualidade vai além do biformismo homem/mulher, demonstrando-se como plural, histórica e construída performaticamente, combatendo os vários discursos heteronormativos vigentes. Aliás, segundo Foucault (1993,) a sexualidade contemporânea pode ser examinada por meio dos mecanismos de poder e do saber que lhes são próprios e pelos quais os indivíduos se reconhecem como sujeitos sexuados. Dentre tais mecanismos heteronormativos, podemos identificar na área da linguística, mais especificamente na marcação de gênero no Português Brasileiro - os morfemas a e o -, como um exemplo disso. Contudo, devido às outras formas de manifestações de sexualidades (transgêneros, transexuais, homossexuais etc.), houve também novas modalidades de marcação de gêneros que acompanharam tal processo identitário. Logo, este trabalho objetiva analisar o emprego do x e em substantivos da língua portuguesa na linguagem verbal escrita, como novas variantes linguísticas de representações da sexualidade. Palavras-chave: Gênero; Lexicologia; Heteronirmativismo. Ao problematizar o movimento feminismo, Butler (2008) foca a maneira pela qual esse grupo concebe a relação gênero e sexo. Para algumas feministas da época, inspiradas, principalmente, em Simone de Beauvoir e Betty Friendan, a opressão das mulheres se alicerçava em uma distinção entre sexo (característica biológica/natural) e gênero 1 Graduando de Letras Português da Universidade Federal do Espírito Santo.

2 (característica social/cultural) associados a um determinismo fisiológico (vagina x pênis), os quais são categóricos para a construção das identidades sexuadas na nossa sociedade. Porém, a autora não se limita nesses quesitos e vai além. Consoante a Butler (2008), o gênero não deve ser encarado como a fonte do determinismo sexual, mas sim como construções sociais e culturais as quais dão origem a naturalização das categorias masculino e feminino. Esse bimorfismo (homem/mulher) nada mais é do que um discurso forjado, edificado e, principalmente, repetido ao longo do tempo, a fim de legitimar a sua condição de norteador identitário sexual. Aliás, Butler aponta a heterossexualidade e o falocentrismo como as categorias pelas quais o poder e o discurso moldam o gênero, no momento em que a categoria das mulheres só alcança estabilidade e coerência no contexto da matriz heterossexual (BUTLER, 2008, p. 23). A partir disso, os comportamentos se desenvolvem: Crianças meninos brincam de carrinhos e crianças meninas brincam de boneca; Jovens meninos usam calça e jovens meninas usam saia; Adultos homens se relacionam com mulheres, adultos mulheres se relacionam com homens etc. O conceito de gênero, neste contexto, legitima essa ordem, aprisionando o sexo em uma categoria invulnerável, distante de qualquer crítica. O gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado, [...] tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos (BUTLER, 2008, p. 25). O emprego do gênero, por conseguinte, realizaria uma falsa sensação de segurança, de fixação cuja matriz heterossexual firmaria os dois grandes polos, homem e mulher. Promoveria, assim, um discurso de verdade, que fornece inteligibilidade e lógica, proporcionando a conservação de tal ordem de maneira compulsória. Nesse contexto, inclusive, podemos nos perguntar: Como tal lógica se perpetua e se estabelece? Pois bem, existem inúmeras maneiras de se reafirmar e reforçar essa modalidade de pensamento. Para Butler (2008), encontramos em nossas roupas, em nossas cores, em nosso comportamento diário, gesticulando, nos processos simbólicos. Ou seja, trata-se de uma performatividade. Paralelamente a isso, devemos, também, recorrer ainda aos estudos de Foucault, rememorando os conceitos de discurso, poder e a heteronormatividade, os quais, junto com a visão de Butler (2008), são essenciais. Para o filósofo francês, o discurso é uma atividade que

3 não só legitima e produz verdades, mas também é um mecanismo significativo das relações de poder, ele ainda reafirma que o poder não é um instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica e complexa numa sociedade determinada (FOUCAULT, 1993, p. 103) Logo, a partir disso, é válido afirmar que a atividade discursiva molda a realidade circundante, articulando as hierarquias sociais e a diferenciações entre os sujeitos. Neste viés, o discurso deixa de ser um conjunto de signos e ganha uma qualidade de práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam (1987, p. 56). Abrange-se, assim, a prática discursiva, indo desde uma conversa fiada despretensiosa até uma palestra acadêmica. Contudo, devemos considerar que essa atividade é efetuada não de maneira aleatória, e sim de forma controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos (FOUCAULT 1999, p. 8). Levando em consideração a contribuição de Foucault, podemos inferir tais características ao discurso heteronormativo vigente. Segundo Weeks (2010), a legitimação da heteronormatividade ocorrida entre os séculos XIX e XX se sustentou em discursos de identidades sexuais normais e anormais. Ou seja, as outras manifestações de sexualidade são marginalizadas. Louro (2010) também corrobora com isso. Para ela, a sociedade busca, intencionalmente através de múltiplas estratégias e táticas, fixar uma identidade masculina ou feminina normal e duradoura. Esse intento articula, então, as identidades de gênero normais a um único modelo de identidade sexual: a identidade heterossexual (LOURO, 2010, p. 26) Logo, notamos que o discurso heteronormativo, na sua condição de produtor de verdade e um regulador das estratégias de poder, além de reforçar a matriz heterossexual, exclui as outras manifestações da sexualidade humana. E, como vimos anteriormente em Butler (2008), o gênero não se atém ao determinismo do bimorfismo fisiológico humano. Ele, pois, é uma construção sociocultural reafirmada historicamente e que vai muito além do binômio homem/mulher. Contudo, dentre as várias formas, modalidades e nos mais diversos âmbitos sociais desse fato apresentado aqui, este trabalho ater-se-á na investigação do nível linguístico, isto é, no patamar da linguagem, de um novo fenômeno da língua portuguesa que não apenas acompanha a teoria da concepção de Gênero de Butler (2008), como também rompe com o

4 discurso heteronormativo. Ele seria a eclosão de uma nova marcação de gênero nos substantivos da língua portuguesa. Ora, se tal lógica heteronormativa se manifesta em diferentes níveis, por que não no linguístico? Ademais, talvez seja uma das manifestações mais sutis e também uma das mais impetuosas, afinal, segundo Foucault (2012), a anatomia política está no detalhe, no pormenor, tal qual em uma simples letra. Estamos falando aqui do surgimento de palavras, como: políticxs, garotx etc. A princípio, quando nos deparamos com elas, pensamos se tratar de um desvio de grafia. Elas, no entanto, representam uma revolução no tratamento linguístico do gênero, além de um ativismo político transgressor em relação à matriz heterossexual. Há nelas uma desconstrução do gênero na língua portuguesa, acrescentado, agora, um terceiro gênero, aos já existentes masculino e feminino. Inclusive, não é um caso exclusivo da língua portuguesa, podendo ser constatado também no Latim e no Espanhol, por exemplo. Antes de aprofundarmos no assunto, todavia, é mister considerar que esse comportamento flexível, mutável e plástico da palavra não é por acaso. Ela é produto das transformações da realidade e do ser humano as quais também são flexíveis, mutáveis e plásticas. A matéria prima de nossa comunicação verbal é o mundo que nos cerca. Nele, encontramos pessoas, coisas, lugares, ideias etc. Para que nós nos direcionemos a isso tudo, contudo, dependemos de algo que faça esse papel de mediador entre o que queremos enunciar e aquilo que enunciamos. Neste contexto, encontramos o léxico. Segundo Basilio o léxico é uma espécie de banco de dados previamente classificados, um depósito de elementos de designação, o qual fornece unidades básicas para a construção dos enunciados. O léxico, portanto, categoriza as coisas sobre as quais queremos nos comunicar, fornecendo unidades de designação, a palavra, que utilizamos na construção dos enunciados (BASILIO, 2011, p. 9). Dentro de qualquer língua natural, é inegável a presença da sintaxe, da semântica, fonética e fonologia e outros campos do saber que a compõe. No entanto, necessita-se de uma unidade constitutiva que proverá o enunciado de cada falante. Daí a importância do léxico. Contudo, com o passar do tempo, o mundo, e tudo que nele está contido, passa por transformações e mudanças. Novas fronteiras são demarcadas, o conhecimento é atualizado,

5 mentalidades são questionadas. À medida que o mundo é modificado, o léxico também o é. Logo, percebemos um caráter dinâmico dele, não estático. Essa visão transformadora é confirmada por Basilio. Para ela, o léxico não é apenas um conjunto de palavras. Como sistema dinâmico, apresenta estruturas a serem utilizadas em sua expansão. Essas estruturas, [...], permitem a formação de novas unidades no léxico como um todo e também a aquisição de palavras novas por parte de cada falante. (BASILIO, 2011, p. 9). As mudanças das palavras, enfim, acompanham as transformações do mundo. E, nesse viés, temos as mudanças das marcações de gênero na língua portuguesa. Com as novas manifestações da sexualidade fora da matriz heterossexual (homossexuais, transgêneros etc.) houve a necessidade de uma nova marcação de gênero diferentemente da existente. Assim, neste trabalho, pretendemos analisar como as novas formas x se estabelecem nos substantivos da língua portuguesa. Para isso, revela-se a importância de compreender como se sucede a marcação do gênero na língua portuguesa, investigando como isso ocorre, para, depois, analisarmos as implicações dessa nova marcação e como ela se comporta em relação às outras. Para Bechara (2009), a língua portuguesa concebe dois gêneros: Masculino e Feminino. Uma das maneiras de evidenciar isso é a anteposição do artigo o e a. Ou seja, cada substantivo está em um desses grupos, como, o sol é masculino, devido ao artigo o estar antes do substantivo sol. Já a casa é feminina, pois o artigo a se posiciona primeiro do que o substantivo casa. Outra maneira é pela flexão por meio da Desinência de Gênero a qual representa o morfema sufixal, conforme Zanotto (1986) afirma. Ela elenca seis casos nos quais esse processo acontece. 2 R DG R VT + DG R VT + alternância /ê/ para /é/ + ditongação /é/ para /éy/ + DG Cantor / Cantor-a Pat-o / Pat-a Europeu (Europêu) / Europeia (Européi-a) Ateu (atêu) / ateia (atéi-a) 2 R: Radical; VT: Vogal Temática e DG: Desinência de Gênero.

6 R - VT + alternância /ê/ para /i/ + DG Judeu (judêu) / Judi-a (judía) R VT + alternância /é/ ou /a/ para /ô/ + DG Sandeu (Sandêu) / Sandi-a (Sandía) Ilhéu / Ilho-a (Ilhôa) R VT + Consoante Nasal + Desnasalização + DG Tabaréu / tabaroa (tabarôa) Solteirã-o / solteiron-a Leã-o / Leo-a Outra maneira que isso ocorre é através da Derivação, baseado nos sufixos derivacionais nos radicais dos substantivos. Ela enumera três casos: R VT + Sufixo Derivacional Gal-o / Gal-inha R Sufixo Derivacional Cond-e / Cond-essa Czar / Czar-ina R VT Cônsul / Consulesa Réu / Ré Irmão / Irmã Aliás, segundo Luft (2008), ainda temos os substantivos de gênero único, os quais são divididos em sobrecomuns e epicenos. Estes apresentam um só gênero gramatical para designar animais: o albatroz, a águia, o jaguar, a borboleta. Já aqueles são substantivos que apresentam um gênero gramatical para representar pessoas: o cônjugue, a criança, o indivíduo. Contudo, embora haja toda essa distinção na marcação do gênero nos substantivos, e na língua portuguesa em geral, existe o que Bechara (2008) denomina como Inconsistência do gênero gramatical. Para ele, a tradição do gênero nos substantivos não tem fundamentos racionais, exceto a tradição fixada pelo uso e pela forma (BECHARA, 2008, p. 133 grifos nossos). De maneira similar, encontramos isso em Costa (2010). Para o autor, ao se referir a um objeto cheio de páginas com letras e imagens grafadas nele, haveria uma escolha lógica para nomeá-lo como livro? Comentando sobre o legado de Saussure, ele ainda arremata:

7 Afirmar que o signo linguístico é arbitrário, como fez Saussure, significa reconhecer que não existe uma relação necessária, natural, entre a sua imagem acústica (seu significante) e o sentido a que ela nos remete (seu significado). Isso significa dizer que o signo linguístico não é motivado, e sim cultural, convencional, já que é resultado do acordo implícito realizado entre os membros de uma determinada comunidade. Trata-se, portanto, de uma convenção (COSTA, 2010, p ). Percebemos, dessa maneira, que a marcação de gênero dentro de uma língua é sim um produto social e convencionada pelos seus falantes e, por sua vez, na língua portuguesa também. Inclusive, resgatando as contribuições iniciais de Butler (2008), Foucault (1987, 1993, 2005 e 2007), Louro (2010) e Weeks (2010), observamos que esses processos de marcação do gênero da língua portuguesa apresentados anteriormente não só se caracterizam como fenômenos históricos, socioculturais, alicerçados em um discurso e tradição heteronormativo, como também não representam as outras formas de expressão de gênero além do masculino/feminino. É nesse contexto que a meta deste trabalho se insere. Com a recente afirmação dos grupos LGBT, através de uma forte militância e ativismo político, além de outros eventos a favor desse grupo minoritário, como a retirada, em 17 de maio de 1990, do homossexualismo da lista internacional de doenças, passando a se denominar homossexualidade 3 e, em um contexto brasileiro, a formulação da PL 5002/ 2013, ou Projeto de Lei João W Nery, a qual permite mude de nome de acordo com o gênero, conforme ela se identifica e também concede aos maiores de idade a cirurgia de mudança de sexo sem a obrigação de análise psicológica, ou autorização judicial, a afirmação desse grupo se consolidou significativamente. Concomitantemente, surgiram no âmbito da linguagem, mais especificamente na língua portuguesa não se sabe dizer quando as novas marcações de e x, principalmente, no meio virtual. Podemos ilustrar esse fenômeno nos exemplos abaixo: 1º exemplo: * Estamos considerando culturais, ou seja, profissionais que atuam em áreas de relacionamento com a população Policiais, etc.) Vale lembrar que o sufixo ismo representa, dentre outros sentidos, patologias, como, Alcoolismo. Porém, com o tempo, alguns grupos feministas, LGBT e teóricos da área utilizam homossexualidade, com sufixo idade, por se tratar de um sufixo que, dentre outros significados, representa expressões do ser humano. 4 Acesso em 29 de junho de 2014.

8 2º exemplo: Posso não ter mais sua mão, mas não quero parar / Me nego, renego a este ciclo de merda!! / Continuarei unx meninx utopistx marchando, / Olhos baixos, sem receio de um último tombo!!!. 5 Tendo em vista isso, portanto, passaremos a analisar as características dessa nova marcação de gênero e como ela se manifesta no português brasileiro. A primeira característica que observamos é que ambos os fenômenos se sucedem, essencialmente, na linguagem verbal escrita. Ou seja, no plano da fala, não existiria por hora, até o presente momento da configuração deste trabalho. Isso se deve a não associação de um fonema característico dessas duas desinências a uma letra. Segundo Malberg (1954), A linguagem constrói-se com pequenas unidades que se agrupam para formar outras unidades cada vez maiores. O que nós ouvimos quando escutamos e o que nós produzimos ao falar são cadeias de som mais ou menos longas, mas sempre complexas e capazes de serem analisadas em unidades muito pequenas. As consoantes juntam-se com as vogais para formar sílabas. As sílabas, juntas; formam grupos, frases e períodos (MALMBERG, 1954, p. 101). Reparamos que a linguagem é constituída de unidades menores que vão formando outras unidades maiores até atingirem níveis mais complexos. Tal comportamento das línguas é denominado, segundo Martelotta (2010), como Dupla Articulação. Dupla articulação, pois existem dois tipos diferentes de unidades: os morfemas e os fonemas (MARTELOTTA, p. 39, 2010). Os morfemas compreendem a menor unidade significativa da estrutura gramatical de uma língua, podendo interferir no sentido da combinação para formar uma palavra qualquer. Eles são os radicais, vogais temáticas, afixos e desinências. Ilustrando melhor isso, podemos ver, como exemplo, a palavra garotos. Dividindo-a conforme seus morfemas, teremos o seguinte: garot o s Garot = Radical / o= desinência de gênero / s= desinência de número. 5 Acesso em 29 de junho de 2014.

9 Já os fonemas são as estruturas fonológicas das línguas. Elas que dão corpo sonoro ao vocábulo e contém valor distintivo. Fracionando a mesma palavra a partir deles, temos o seguinte caso: garotos: /g/ /a/ /r/ /o/ /s/ /t/ /o/ /s/ Isso também é confirmado por Higounet (2003). Ao falar sobre a história da escrita na humanidade, Higounet (2003) define que, até alcançar o sistema alfabético que se tem hoje, as línguas grafas necessitaram ascender três etapas: A escrita sintética, a escrita analítica e a escrita fonética. A primeira seria que um sinal, ou desenho, exprimisse uma frase inteira, ou ideias de uma frase. A escrita analítica foi quando cada sinal notaria uma palavra isoladamente. A última, por fim, é a fonética, a qual seria a escrita que representasse o som de letras contidas em uma determinada língua. Aliás, a língua portuguesa se encontra nessa última etapa. É conveniente, retomando Martelotta (2010), que, embora a troca de um fonema acarrete na mudança de sentido, o fonema não é um morfema, pois aquele não indica informação alguma acerca do sentido ou da estrutura gramatical (MARTELOTTA, p. 39, 2010). Falando a respeito do fonema, aliás, isso nos leva a outra singularidade dessas novas marcações de gênero. A segunda característica é a respeito da tonacidade. quanto x são áfonos. A condição de afonia desses morfemas se deve ao fato que não há até o presente momento um som associado a eles na língua falada, diferentemente dos processos de marcação de gênero nos substantivos vistos anteriormente em Bechara (2009) e em Zanotto (1986). Como essas novas marcações preenchem os espaços das desinências de gênero tradicionais ou garotx) acabam, ainda que não possuam fonemas, assumindo o papel de marcador de gênero dos substantivos utilizados para designação as manifestações da sexualidade além da matriz heterossexual humana. A afonia dessas desinências de gênero abre espaço para a última característica: a representação inter-semiótica do signo. Em Jakobson (1995), o autor principia seu texto sinalizando sobre os aspectos linguísticos da tradução. Nele, informa-se que o significado das palavras não depende de um fato nãolinguístico, pois necessita do auxílio do código da

10 linguagem em questão. Ademais, para ele, o significado linguístico nada mais é do que a sua tradução por outro signo que lhe pode ser substituído. Nesse viés, Jakobson (1995) determina três espécies de tradução de um signo. A tradução referente à meta desse trabalho é a tradução inter-semiótica. Ela consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais (JAKOBSON, 1995, p. 65). As desinências de e x são produtos dessa tradução. Isso é constatado a partir da forma gráfica pela qual cada uma é constituída. A desinência de é oriunda do símbolo arroba, o qual, a partir de uma evolução tipográfica desde a idade média, passou a ser utilizada nos teclados das máquinas de escrever inglesas do século XIX. Já no século XX, Roy Tomlinson, ao criar o programa de correio eletrônico (o ), usou o (simbolizando at da língua inglesa, que significa a preposição em ) no meio do nome do usuário e do nome do provedor. Daí que surgiu isto é, usuário no provedor X. Porém, com a tradução inter-semiótica efetuada pelos usuários da língua, esse signo passou a ser uma desinência de gênero devido a sua duplicidade gráfica. A imagem (linguagem nãoverbal) do seria o englobamento da letra a pela letra o, aquela estaria inserida nesta. Tradicionalmente, na língua portuguesa, a se refere ao feminino e o ao simboliza não só a união de ambos, mas também a representação das outras manifestações dos gêneros sexuais. Essa imagem se tornou, assim, um morfema, mais especificamente, uma desinência de gênero (linguagem verbal), configurando a tradução inter-semiótica. De maneira similar ocorre com a desinência de gênero x. No momento da tradução intersemiótica, esse signo passou a ser uma desinência de gênero por causa de sua neutralidade gráfica. A imagem (linguagem não-verbal) do x invoca, entre outros sentidos, um sentido de exclusão. Cruzar duas linhas da mesma maneira que à letra x produz o significado de eliminar. Logo, colocando x no lugar das tradicionais desinências de gênero (linguagem verbal), ocorre o apagamento da distinção do gênero do substantivo. Sem ela, o substantivo acaba sendo neutro, abrangendo, assim, as outras manifestações da sexualidade humana. Vale resaltar, inclusive, que ambas possuem o mesmo papel: fazer a marcação de gênero fora do padrão masculino/feminino. O emprego de cada uma fica a critério dos usuários da língua.

11 Logo, sabendo-se dessas características, agora, vamos observar o funcionamento desses morfemas. Relembrando Bechara (2009) e em Zanotto (1986), existem vários tipos de marcação do gênero nos substantivos. Todavia, devido às qualidades específicas e de x vistas anteriormente, notamos que apenas em dois casos aparecem tais fenômenos. O primeiro caso é na antecipação do substantivo. Coloca-se, no ou x onde antes colocar-se-iam os artigos a e o : O estudante As estudante Xs estudantes Nota-se que estudante é um substantivo epiceno que, resgatando Luft (2008), são substantivos que apresentam um gênero específico determinado pelo artigo anteposto. Em outros substantivos não epicenos, contudo, essa nova marcação também é possível. Como no seguinte caso: Cantor Cantora Cantorx Examina-se que, nesse caso, preserva-se o radical da palavra e as novas desinências de gênero são acrescentadas, proporcionando outra forma além da dita masculina/feminina. As novas marcações de gênero do substantivo na língua portuguesa são, por conseguinte, frutos da nova realidade da língua portuguesa, tratando-se de uma variável linguística, ou seja, uma forma alternativa de expressão de uma forma pré-existente. Ela, segundo Mollica (2010) é concebida como dependente no sentido que o emprego das variantes. Não é aleatório, mas influenciado por grupos de fatores de natureza social ou estrutural (MOLLICA, 2010, p.11). Logo, conforme visto anteriormente, com a reafirmação do grupo minoritário LGBT no cenário brasileiro e mundial, houve o surgimento dessas variáveis dentro da língua, indicando uma inovação no tratamento linguístico do gênero sexual fora da matriz heterossexual. As novas variáveis vieram não para excluir as tradicionais, mas sim coexistir com elas, no sentido de ser outro modo de representar pessoas que, historicamente, ficaram taxas como detentoras de um comportamento desviante moral e socialmente. Aliás, tal fator excludente das línguas é atestado por Bagno.

12 existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de comunicar, de transmitir ideais [...] a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade, de manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de emudecimento. Ao lado dele, também existe o mito de que a escrita tem o objetivo de difundir ideias. No entanto, uma simples investigação histórica mostra que, em muitos casos, a escrita funcionou, e ainda funciona, com a finalidade oposta: ocultar o saber, reservá-lo a uns poucos para garantir o poder àqueles que a ele têm acesso (BAGNO, 2009, 158, grifos do autor). Logo, esperamos que, com as análises deste trabalho, não apenas se contribua para uma nova marcação de gênero do substantivo da língua portuguesa, mas também que se possa abrir espaço para um estudo mais aprofundado sobre o tema nos outros âmbitos dela, uma vez que, devido ao tamanho dos desdobramentos que esse fenômeno tem, aqui, esse espaço é limitado. Pretendemos que este seja um passo inicial e não um momento irrefutável ou peremptório. Contudo, o fato - talvez o principal é que, independente das possíveis aceitações e negações, ora integrais, ora parciais, oriundas após a leitura deste artigo, esse novo fenômeno da marcação de gênero nos substantivos da língua portuguesa aconteceu, acontece e, pelo que tudo indica, acontecerá. Embora tenhamos nos empenhado na análise, ele ainda manifestar-seá entre os usuários da língua, o qual, de maneira análoga à diversidade sexual humana, é livre, sem amarras e, essencialmente, não dependente de consentimentx. REFERÊNCIAS BAGNO, Marco. Preconceito linguístico o que é, como se faz. 52ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2009 BASILIO, Margarida. Formação e classes de palavras no português do Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Contexto, BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. 2. ed. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, COSTA, Marco Antônio. Estruturalismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. 1ª ed. 3ª reimpressão. São Paulo: Contexto, FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução: Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo, Edições Loyola, História da sexualidade I: A vontade de saber. 18 ª Ed. São Paulo: Graal, 1993.

13 . Microfísica do poder. Tradução: Roberto Machado. Rio de Janeiro, Edições Graal, Vigiar e Punir: nascomento da prisão. tradução Raquel Ramalhete. 40ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. Tradução da 10ª Ed. corrigida Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, JAKOBSON, Roman. Os aspectos linguísticos da tradução. 20ª ed. In: Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, LOURO, Guacira Lopes. Pedagogia da Sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes. (Org.) O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010, p. 26 LUFT, Celso Pedro. Moderna gramática brasileira. 3ª Ed. rev. e atual. São Paulo: Globo, MALMBERG, Bertil. La phonétique. Presses Universitaires de France, 1954, MARTELOTTA, Mário Eduardo. Dupla articulação. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. 1ª ed. 3ª reimpressão. São Paulo: Contexto, MOLLICA, Marica Cecilia. Fundamentação teórica: conceituação e delimitação. In: MOLLICA, Maria Cecilia; BRAGA, Maria Luiza, (orgs.). Introdução à sociolinguística. 4ª ed. São Paulo: Contexto, WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, ZANOTTO, Normelio. Estrutura mórfica da língua portuguesa. Caxias do Sul: EDUCS, 1986.

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