ALUNOS SURDOS E INTÉRPRETES OUVINTES NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO COMO PRÁTICA DISCURSIVA

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1 00929 ALUNOS SURDOS E INTÉRPRETES OUVINTES NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO COMO PRÁTICA DISCURSIVA SANTOS, Joaquim Cesar Cunha dos 1 Universidade Federal do Espírito Santo UFES NOGUEIRA, Fernanda dos Santos 2 Chocolates Garoto S.A. Resumo: Neste artigo procuramos destacar a educação de surdos na contemporaneidade vista na perspectiva da inclusão tendo a presença de profissionais intérpretes da língua brasileira de sinais. Neste início de século, no Brasil, surgem estes novos profissionais no âmbito escolar para atender a demanda de sujeitos surdos em salas de aula, dando visibilidade a inclusão. Os debates sobre este tema são objeto de atenção por parte de muitos outros que também estão interessados na educação inclusiva, uns procurando compreender, outros se aprofundando mais sobre a inclusão como prática discursiva. A sociedade ao aceitar a inclusão conforme discurso do Estado acredita que se efetivará o ideal da universalização dos direitos individuais. Ao problematizarmos a educação de surdos tendo os intérpretes de libras em sala de aula, apresentamos outro olhar sobre estes profissionais da educação. Surdos e intérpretes de Libras se interessarão por este artigo em que apresentamos os intérpretes em uma perspectiva no discurso da inclusão. Para isso, trazemos os conceitos de dispositivo, norma, normalização, normalidade, operações de normalização, governamento e biopoder segundo Michel Foucault, apresentados por outros autores que também dialogam sobre o tema e que nos possibilitaram entender as estratégias atuais que fazem os protagonistas acreditarem que estão sendo sujeitos de uma inclusão, sendo ao mesmo tempo marcados em suas diferenças e através de ações biopolíticas que objetivam o controle e a regulação dos indivíduos, usados como dispositivos normalizadores. Nossa atuação como professores, tradutores e intérpretes de libras permite-nos trazer tais reflexões, de como a inclusão nos constitui sujeitos que segundo determinados critérios passamos também a estar dentro de uma norma. Palavras-chaves: Inclusão. Surdos. Intérpretes. 1 Graduação em Letras/Libras, Licenciatura em Língua Portuguesa, Pós-Graduando em Curso de Especialização em Educação Especial na Perspectiva da Inclusão pela Universidade Federal do Espírito Santo, Mestrando em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo, Tradutor e Intérprete de Libras no Núcleo de Acessibilidade na Pró- Reitoria de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil na Universidade Federal do Espírito Santo. Membro do GIPLES Grupo Interinstitucional de Pesquisas em Libras e Estudos Surdos. 2 Graduação em Letras/Libras, Licenciatura em Língua Portuguesa, Pós-Graduanda em Curso de Especialização em Educação Especial na Perspectiva da Inclusão na Universidade Federal do Espírito Santo, Tradutora e Intérprete Profissional de Libras na Chocolates Garoto S.A. na Área de Recursos Humanos e Produção. Membro do GIPLES Grupo Interinstitucional de Pesquisas em Libras e Educação de Surdos.

2 00930 No início do século XXI, começam a surgir novos profissionais na área da educação. O Governo brasileiro reconhece a Libras i, a Língua Brasileira de Sinais pela Lei /02 e a regulamenta através do Decreto 5.626/05. O Governo Federal cria a prova de proficiência em Libras, conhecida como Prolibras e o Curso de Graduação em Letras/Libras. A demanda de sujeitos surdos ii e outros da educação especial aumenta, fazendo com que todos sintam que está ocorrendo uma educação inclusiva no Brasil. A inclusão como prática discursiva faz-nos crer que tal estratégia efetivará o ideal da universalização dos direitos individuais. Todavia, como funciona este processo que pode tanto incluir como excluir? Inicialmente precisamos considerar o que se entende por inclusão. Passamos de uma sociedade excludente para uma sociedade includente, na perspectiva que os sujeitos estavam fora sem as oportunidades educativas e sociais. Hoje, devido às políticas públicas vivemos uma sociedade includente. Todos defendem que o Estado está incluindo e dando as oportunidades e usando de mecanismos para uma efetiva inclusão. Entretanto, isso não significa que esteja assegurada uma inclusão nesta atual sociedade. Falarmos sobre inclusão é um tema de grandes debates devido à falta de clareza por alguns sobre o assunto, sem, contudo deixar de ser interessante para aqueles que se debruçam em sua significação. Todavia, abordar o assunto de inclusão neste artigo é abrir a oportunidade para se tratar dos mecanismos utilizados que dizem respeito à educação de sujeitos que segundo as politicas públicas da educação especial tem garantido o ensino. Iremos fazer tal abordagem com base em Michel Foucault e problematizaremos sobre tais mecanismos na educação de surdos. Introduzindo novamente nossa pergunta, trazemos VEIGA-NETO (2006) com as seguintes considerações. [...] ao tratarem a diferença como diversidade, as políticas de inclusão nos modos como vêm sendo formuladas e em parte executadas no Brasil parecem ignorar a diferença. Com isso, elas defendem a inclusão do diferente, entendendo-o como um único estranho, um exótico, um portador de algo que os outros, normais, não possuem. (Veiga-Neto, 2006) Pode parecer estranha nossa pergunta, pois, uma vez que há a inclusão, como pode ocorrer a exclusão? A partir da norma que é possível incluir e excluir. Uma vez se estabeleçam ou se convencionem a norma, buscam-se aqueles que estão de acordo, e estes são incluídos, quanto aos demais são excluídos. LOPES E FABRIS (2013) escrevem que, [...] a norma, ao operar como uma medida e um princípio de comparabilidade, age no sentido de incluir todos, segundo determinados

3 00931 critérios que são construídos no interior e a partir dos grupos sociais. (FABRIS, 2013). Todos estão incluidos na norma. É a partir dela que tanto se inclui como exclui e são usados dispositivos para isso. Para entender melhor este processo, Maura Corcini (Lopes, 2013) fala-nos do conceito de normalidade, que não é uma condição permanente, mas ser compreendida como um campo móvel, [...] em que desafios se impõem como convites para sermos constantemente outros ou para sermos diferentes do que éramos, mas coerentes com as tramas em que nos encontramos e nos balizamos. Assim, por normalidade naquilo que alguns autores denominam de sociedade de normalização, temos que entender não ações de imposição sobre os individuos, mas ações dos sujeitos sobre si mesmos. (LOPES, 2013, p.46). Nas salas de aula, a presença de intérpretes de Libras como dispositivos da inclusão na prática discursiva, os surdos a partir da norma são identificados como diferentes, e nessa perspectiva a presença de intérprete de Libras irá aproximá-los da normalidade. Considera-se dispositivo como conceito de vigilância disciplinar e controle social a partir do conceito de governamento. VEIGA-NETO (2006) considera [...] mais apropriado usarmos a palavra governamento, e não governo, para designar todo o conjunto de ações de poder que objetivam conduzir (governar) deliberadamente a própria conduta ou a conduta dos outros ou, em outras palavras, que visam estruturar o eventual campo de ação dos outros (Foucault, 1995,p. 244). Ao entendermos como o Estado objetiva conduzir deliberadamente a própria conduta e a de outros, acrescentamos do mesmo autor citado o seguinte, como as ações biopolíticas objetivam o controle e a regulação dos indivíduos. Desse modo, entendendo as políticas públicas de inclusão escolar como manifestações da governamentalização do Estado moderno, é fácil compreendê-las como políticas envolvidas com (e destinadas a) uma maior economia entre a mobilização dos poderes e a condução das condutas humanas. O que elas buscam é atingir o máximo resultado a partir de uma aplicação mínima de poder (Goldstein, 1994, p. 198). E, na medida em que aquilo que se coloca em jogo são condutas humanas que preservem e promovam a própria vida, entra-se diretamente no conceito de biopoder. Com essa palavra, Foucault designou os procedimentos que, mesmo tomando cada indivíduo em suas particularidades espaciais e temporais, têm como objetivo promover a vida da coletividade na qual o indivíduo se insere; tratase de uma coletividade que a partir daí vai ser entendida como uma população. (Veiga-Neto, 2006) As politicas de inclusão escolar são uma intervenção do Estado com o propósito de materializar os discursos que buscam convencer a todos que tantos os pensados como normais e anormais sejam colocados juntos em um mesmo espaço. Tal intervenção diferencia-se das campanhas públicas. VEIGA-NETO (2006) a este respeito diz:

4 00932 No caso das políticas de inclusão escolar, é fácil ver que a intervenção do Estado é bem maior do que costuma acontecer quando este promove campanhas públicas, mesmo que estas se utilizem da escola como ambiente de aplicação e propagação. As campanhas públicas funcionam como pedagogias culturais e, por isso, buscam o governamento sobretudo pelo discurso; elas pretendem ensinar o melhor comportamento e o que é melhor ou mais correto fazer, usar etc. (Veiga-Neto, 2006, p. 958) O Estado ao assumir para si a responsabilidade de governar para promover a vida busca conformar as pessoas a um modelo, a norma. Assim, é dito normal aquele está em conformidade com a norma e anormal aquele que não se enquadra. Entretanto, não é a partir da norma que se identifica tais sujeitos. Segundo VEIGA-NETO (2006) a [...] norma funciona como um princípio de comparação, de comparabilidade, de medida comum, que se institui na pura referência de um grupo a si próprio, a partir do momento em que só se relaciona consigo mesmo. Além de ser instituída no, e a partir do, próprio grupo ao qual se refere, a norma é primária e fundamentalmente prescritiva. Foucault explica que tais tentativas de conformar as pessoas, segundo padrões prévios constituídos no próprio grupo ao qual tais pessoas pertencem, devem ser compreendidas mais [como] uma normação do que uma normalização (Foucault, 2006, p.76). Esta última palavra Foucault reserva para designar um processo inverso ao primeiro: ao invés de se partir da norma para, em seguida, distinguir-se o normal do anormal normação, na normalização parte-se do assinalamento do normal e do anormal, um assinalamento das diferentes curvas de normalidade (Foucault, 2006, p. 83). Desta forma, os intérpretes de Libras, como dispositivos normalizadores contribuem para uma inclusão que é a de colocar os surdos sob uma norma. Podemos entender os intérpretes como tais dispositivos normalizadores pois [...]... [são] aqueles que buscam colocar (todos) sob uma norma já estabelecida e, no limite, sob a faixa de normalidade (já definida por essa norma) (Veiga-Neto,2006a, p ). Lopes (2013, p. 46) acrescenta mais sobre este conceito. Com o objetivo de normalizar o sujeito ou de naturalizar a sua presença na população entre aqueles que compõem o gradiente social em que participa, o indivíduo, além de ser tratado a partir do referencial de normalidade oriundo da norma (normação), é quantificado e mostrado como mais um que está enquadrado em uma zona de normalidade determinada pela noção de inclusão. (LOPES, 2013, p. 46) Tal reflexão contribuirá para o desenvolvimento de todos os protagonistas neste processo atual de inclusão pois, é importantissimo examinar tudo que está em jogo e sobre o que estamos falando, a inclusão. Não queremos com tal artigo negar ou rejeitar o que está sendo feito na política de inclusão e nem apresentar algo diferente. Todavia, entender que as politicas públicas de inclusão são as manifestações do Estado moderno em tentar conformar os sujeitos a um modelo, tido como a norma. Esta reflexão permite pensarmos na educação de surdos nesta perspectiva.

5 00933 As práticas nos quais somos testemunhas estão postas como algo inédito, como verdades, impostas a todos. Nossa atuação como professores, tradutores e intérpretes de Libras permite-nos trazer tais reflexões. Do ponto de vista de alguns, que precisam refletir mais profundamente no tema inclusão, está ocorrendo uma grande mudança. Para eles, do seu ponto de vista, não resta dúvida que a inclusão efetivará o ideal da universalização dos direitos individuais. A inclusão e a exclusão ocorrem dentro da norma, e esta permite que tenha sentido a prática inclusiva. O Estado objetiva pelo conjunto de ações de poder (governamento), governar a conduta de outros, e para tal controle social e disciplinar usar os dispositivos normalizadores (intérpretes de libras), buscando colocar os surdos sob a norma, aproximando-os da normalidade. Ao trazermos o assunto sobre alunos surdos e os intérpretes ouvintes na perspectiva da inclusão como prática discursiva, busca-se outro olhar sobre os intérpretes de Libras na área da educação. Todos que estão nesse jogo são levados a refletir sobre suas práticas e com isso entender a prática discursiva da inclusão. Referências LOPES, M. C. (2013). Inclusão e Educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora Ltda. FOUCAULT, M. (2013). A ordem do discurso (23ª ed.). São Paulo: Loyola. VEIGA-NETO, A. Dominação, violência, poder e educação escolar em tempos de Império. In: RAGO, M.; VEIGA-NETO, A. (Org.). Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006a. p i LIBRAS Sigla de Língua Brasileira de Sinais, segundo a Lei /02. Usaremos a partir daqui a sigla Libras, libras. ii Surdo é aquela pessoa que compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua de Sinais - Libras (Decreto nº de 22 de dezembro de 2005).

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