Gênero: Temas Transversais e o Ensino de História

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1 Gênero: Temas Transversais e o Ensino de História Thayane Lopes Oliveira 1 Resumo: O tema Relações de gênero compõe o bloco de Orientação Sexual dos temas transversais apresentados nos parâmetros curriculares nacionais. O objetivo deste trabalho consiste em perceber como se dá a abordagem dessas relações a partir dos PCNs, percebendo em que aspectos essa discussão se torna relevante para as crianças e jovens da nossa sociedade e de que maneira nós, professores de História, podemos inserir tais reflexões dentro das nossas aulas. Palavras-chave: Gênero Ensino de História PCN 1- Introdução O presente texto é resultado do trabalho desenvolvido para conclusão do curso de licenciatura em História pela Universidade Federal do Ceará. O tema escolhido, relações de gênero e o ensino de História, surgiu no contato com o espaço escolar nas disciplinas de estágio supervisionado. Ao conhecer o texto dos PCNs e tentar relacioná-lo com o cotidiano escolar, percebemos a distância e a dificuldade existente nessa combinação. Portanto, nesse trabalho, pretendemos analisar o espaço reservado ao tema dentro dos parâmetros curriculares, além de verificarmos como essa discussão é proposta por esse documento e quais as possibilidades que são apresentadas aos professores de História para inserir dentro de suas aulas a abordagem das relações de gênero. 1 Graduanda em História pela Universidade Federal do Ceará.

2 2- Gênero: Novos objetos para pesquisa histórica O alargamento do campo da pesquisa historiográfica permitiu que novos objetos e novos olhares fossem incorporados aos estudos históricos. Dessa forma, percebemos a inserção dos estudos de gênero dentro desse movimento de transformação. Admitindo a historicidade das palavras, faremos aqui um breve resumo de como e quando o termo gênero emerge como conceito e as transformações pelas quais o seu uso passou. Foi no seio do movimento feminista que se ouviu primeiramente o uso desse termo diferenciado daquele existente nos dicionários. No feminismo de primeira onda, vemos nítidas as preocupações referentes à conquista de direitos sociais e políticos, como o direito ao voto, à educação e à participação no mercado de trabalho. Será a partir dos anos 60 do século XX, na chamada segunda onda do feminismo, que as questões de cunho teórico irão também participar dos debates feministas. O termo foi então inserido no discurso feminista com a finalidade de se contrapor a polaridade masculino/feminino que se embasava em um determinismo biológico. Acreditava-se que ao inserir o termo gênero, trazia-se a tona o caráter de construção cultural das diferenciações sexuais. De acordo com Louro (2008:21), o conceito serve, assim, como uma ferramenta analítica que é, ao mesmo tempo, uma ferramenta política. O intuito deste trabalho ao lidar com a categoria de análise gênero não é fazer um estudo centrado no papel específico das mulheres na sociedade. Pretende-se aqui uma abordagem relacional, sabendo-se que a história da humanidade se fez e ainda se faz nessa relação de homens e mulheres. Assim como deixa claro Teles (2007:56), É necessário entender que o enfoque dos estudos e políticas sob a perspectiva de gênero não significa dividir a questão humana, fragmentando-a em partes desconectadas e alienadas. Pelo contrário, propomos o enfrentamento do desafio de participar ativa e construtivamente do processo de redefinição do ser humano em geral, promovendo conteúdos

3 políticos capazes de identificar cada uma das especificidades e, ao mesmo tempo, inseri-las num contexto histórico e transformador da sociedade humana. Portanto, pretende-se fornecer aos estudantes condições para a percepção de que as relações de gênero possuem caráter histórico no sentido que são construções sociais e como tais, precisam ser analisadas criticamente a fim de não permitir o equívoco da naturalização de algo que foi e é construído culturalmente pelas sociedades. 3- Os PCNs, a transversalidade e a questão de gênero A educação para a cidadania requer, portanto, que questões sociais sejam apresentadas para a aprendizagem e a reflexão dos alunos. (...) O conjunto de temas aqui proposto (Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde e Orientação Sexual) recebeu o título geral de Temas Transversais, indicando a metodologia proposta para sua inclusão no currículo e seu tratamento didático. (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998) Corpo: matriz da sexualidade, Relações de Gênero e Prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDS compõem o bloco Orientação Sexual dos temas transversais dos PCNs. Estes justificam a escolha dos temas que compõem os blocos de Temas Transversais da seguinte maneira: (...) por serem questões sociais, os Temas Transversais têm natureza diferente das áreas convencionais. Tratam de processos que estão sendo intensamente vividos pela sociedade, pelas comunidades, pelas famílias, pelos alunos e educadores em seu cotidiano. São debatidos em diferentes espaços sociais, em busca de soluções e de alternativas, confrontando posicionamentos diversos tanto em relação à intervenção no âmbito social mais amplo quanto à atuação pessoal. São questões urgentes que interrogam sobre a vida humana, sobre a realidade que está sendo construída e que demandam transformações macrossociais e também de atitudes pessoais,

4 exigindo, portanto, ensino e aprendizagem de conteúdos relativos a essas duas dimensões. (Brasil, 1998 p.26). Vemos então que os temas tratados possuem em comum o caráter de demandas urgentes da sociedade, atestando, assim, a sua inclusão dentro do ensino. Mas como esses temas são apropriados pelo discurso curricular que visa estabelecer alguns direcionamentos na educação nacional? Será que os apontamentos feitos pelo PCN visam estabelecer delimitações ou controlar a maneira pela qual essas temáticas podem e devem ser abordadas dentro do espaço escolar? Essas questões são complexas e merecem a reflexão dos profissionais envolvidos na educação, evitando, assim, que o texto do documento oficial seja apenas reproduzido no ambiente escolar. Sendo assim, a apropriação utilizada neste trabalho dos PCNs visa conceber esse documento apenas como um conjunto de ideias e possibilidades que criam condições para a melhoria do ensino brasileiro. A inserção desses temas no universo escolar permite aos estudantes o contato com informações diversas sobre questões delicadas e importantes para todo e qualquer indivíduo. Assim, existe a possibilidade de discussão das temáticas longe do ambiente familiar em que prevalece o silêncio sobre temas considerados tabus e íntimos demais para serem discutidos com crianças e adolescentes. Entendemos como temas transversais, conteúdos que não estão presentes na grade curricular obrigatória, mas que podem ser trabalhados na sala de aula e em qualquer aula, não existindo uma disciplina específica para abordar determinados temas. Os temas transversais constituem temas de relevância social e que estão presentes nos debates atuais. Como dito, A transversalidade diz respeito à possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender na realidade e da realidade de conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real (aprender na realidade e da realidade). 2 De acordo com a proposta dos PCNs, a discussão sobre gênero propicia aos estudantes o questionamento de papéis rigidamente estabelecidos a homens e mulheres na sociedade. Os temas propostos como transversais podem atravessar os diferentes campos de conhecimento. A sua metodologia estabelece que essa discussão possa ser 2 BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares nacionais: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, p. 31

5 feita a qualquer momento da aula, caso se perceba a oportunidade e necessidade de trabalhar essas questões. Mas também é possível planejar uma aula específica para os temas. Sendo assim, a escolha de como se dará a metodologia da abordagem fica a escolha do professor. 4- Uso e possibilidades da abordagem de gênero nas aulas de História Capacitar os estudantes para perceber a historicidade de concepções, mentalidades, práticas e formas de relações sociais é justamente uma das principais funções das aulas de História. (Carla Bassanezi, 2010) Qual a relevância de trabalhar as relações de gênero dentro do espaço escolar? Partiremos da ideia que ao possibilitar aos estudantes o contato com novos temas e novas abordagens na sala de aula, estamos ajudando-os a perceber que os modelos de ser homem e ser mulher, os direitos femininos e vários outros aspectos passaram por transformações ao longo da história. Chamaremos atenção para a construção cultural que envolve as características tidas como femininas ou masculinas. Portanto, demonstraremos o caráter histórico das questões sociais. A percepção crítica desses fatores permite aos estudantes atuar conscientemente como cidadãos na esfera política-social. Entramos aqui em um ponto fundamental abordado pelos PCNs, a formação cidadã dos indivíduos. O ensino no geral e, especificamente, o ensino de História pautado pelos PCNs visa à formação cidadã e crítica dos indivíduos para que eles possam atuar ativamente na esfera social e política do país. Trabalharemos com a possibilidade de fazer essas discussões a partir de metodologias diferentes. O tema pode ser abordado durante a exposição do conteúdo da aula e também pode ser trabalhado a partir de uma atividade extra. A escolha da metodologia é feita de acordo com a realidade das turmas. Finalmente, algo não abordado neste trabalho, mas merecedor de atenção é a questão da formação dos educadores em geral para trabalhar com os ditos Temas Transversais. A quem cabe a responsabilidade de formação desses educadores? Essa iniciativa é individual de cada professor ou deveria também fazer parte dos objetivos do Ministério da Educação? Cabe salientar que um momento pertinente para abordar os

6 temas transversais seria no surgimento de dúvidas dos estudantes. Assim, os professores poderiam desenvolver a temática partindo de um questionamento vindo dos próprios estudantes. Mas será que os professores que atuam hoje nas redes municipais e estaduais de ensino sentem-se preparados para essa possibilidade? Vemos a partir de tais questionamentos que a aplicabilidade dos PCNs no espaço escolar requer leituras, pesquisa e responsabilidade, sem os quais incorremos no perigo de reafirmar concepções institucionalizadas do que compreendemos como sendo feminino e masculino e das relações de poder que permeiam as relações sociais entre os sexos.

7 5- Referências Bibliográficas BRAGA, Andréa Vieira. Temas transversais, identidade sexual e cultura escolar: uma crítica à versão de sexualidade contida nos PCN. Disponível em Acesso em Junho de BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: 3º e 4º ciclos: Apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, HAHNER, June E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas ( ). São Paulo: Editora Brasiliense, LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma perspectiva pósestruturalista. 10 ed. Rio de Janeiro: Vozes, PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, São Paulo, v. 24, n.1, Disponível em Acesso em Julho de PINSK, Carla Bassanezi (org). Novos temas nas aulas de história. 2 ed. São Paulo: Contexto, SCOTT, Joan W. Prefácio a Gender and politics of history. Cadernos Pagu, nº. 3, Campinas/SP, Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez TELES, Maria Amélia de Almeida. O que são os direitos humanos das mulheres. São Paulo: Brasiliense, Sítios visitados:

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