ASSISTÊNCIA SOCIAL: UM RECORTE HORIZONTAL NO ATENDIMENTO DAS POLÍTICAS SOCIAIS

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1 ASSISTÊNCIA SOCIAL: UM RECORTE HORIZONTAL NO ATENDIMENTO DAS POLÍTICAS SOCIAIS Mônica Abranches 1 No Brasil, no final da década de 70, a reflexão e o debate sobre a Assistência Social reaparecem e surge uma retomada da temática das políticas, principalmente no campo da previdência, que fortaleceu as condições para um debate crítico e necessário sobre a Assistência Social no país. Nas décadas de 80 e 90, os movimentos de discussão sobre esse tema se multiplicaram, fortalecendo-se dentro das várias profissões, o que culminou em uma nova concepção de assistência no país e uma maior cobrança para que o Estado assumisse as responsabilidades por estas questões. O reconhecimento da Assistência Social enquanto política social representa o ponto de referência para o início para o início da mudança no trabalho de intervenção social, principalmente do Estado, e um avanço na proposta de melhoria da qualidade de vida e de garantia dos direitos dos cidadãos, entendendo-se que a Assistência Social pode se constituir, na conjuntura atual, como um espaço de resistência frente a gestão dual operada pelo Estado que, antes, considerava essa política como gestora paralela da pobreza. O Estado, durante anos introduziu uma relação dual na administração das desigualdades sociais, consequentemente, garantindo a extensão dos processos de dominação e controle social dos excluídos. A Assistência Social atuava apenas nas bordas de outras políticas para administrar as necessidades sociais dos despossuídos, excluídos e discriminados, e se estruturava sob uma perspectiva assistencialista. No Estado Contemporâneo, a Assistência Social vai surgindo na agenda de discussão dos mais variados sujeitos sociais, até se constituir como um componente básico da política de Seguridade Social e tendo como sua face oficial caracterizada como direito inalienável da população, como dever do Estado, para garantir os mínimos sociais aos cidadãos que não conseguem atingi-los devido às condições adversas postas pelo capital/estado/sociedade: A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que através de um conjunto integrado de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. (art. 1º LOAS) 1 Assistente Social pela PUC Minas, professora do Curso de Serviço Social do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas. Mestre em Educação pela UNICAMP-SP e Doutora em Tratamento da informação Espacial pela PUC Minas. Atualmente, é Coordenadora de Programas e Projetos de Extensão na PUC minas e assessora da Pró-reitoria de Extensão Universitária.

2 A luta pela assistência, enquanto direito, se concretizou com a Constituição de 1988 e posteriormente com a regulamentação da Lei Orgânica de Assistência Social em dezembro de 1993, a partir de uma nova proposta de trabalho com a realidade social, via um sistema assistencial, público ou privado orientado, agora, para uma intervenção efetiva e concreta. O tema da Assistência Social permitiu então, discussões importantes para a conquista da cidadania e da universalidade de acesso a bens e serviços necessários à reprodução social dos cidadãos, e enquanto política social constitui um espaço de luta, confronto e expansão de direitos das classes menos favorecidas. O assistencial passou então, para além de uma política autônoma, a representar um mecanismo presente nas diversas políticas sociais, revelando-se como caminho para a inclusão aos bens de serviço prestados direta ou indiretamente pelo estado, seja na saúde, educação, habitação, transporte, etc. A assistência social aparece como demanda nas diversas áreas de proteção social e de garantia de direitos, pois em um projeto de sociedade onde a erradicação da pobreza é prioridade, todas as políticas públicas devem comportar uma fatia assistencial como mecanismo estratégico de garantia da equidade e redistribuição de riqueza e serviços a todos os cidadãos. Na conjuntura atual, percebe-se que as políticas sociais em geral possuem uma demanda urgente por procedimentos que amenizem a situação de miséria e necessidades de seus usuários. As políticas de habitação precisam responder às grandes massas que se aglomeram em favelas, com todo o tipo de problema social ou populações que residem em condições sanitárias precárias ou em situação de rua que se relacionam aos problemas do déficit habitacional. As políticas de saúde, nutrição, segurança alimentar e saneamento, por exemplo, estão atuando em grande parte no atendimento às doenças da pobreza (alimentação insuficiente, problemas com higiene, acúmulo de lixo, condições de moradia precária, exclusão de sistemas de saúde, etc.). As políticas de educação não podem mais se restringir à elaboração de currículos, projetos pedagógicos e gestão escolar diante de problemas que invadem a escola e a família, como a violência, a fome, uso de drogas, questões essas que fazem parte do cotidiano da sala de aula, hoje. Assim, a Assistência Social, tendo como missão garantir a oferta de mínimos sociais e de proteção básica dos indivíduos de segmentos específicos da população, e se esses fazem parte de outras esferas de atuação dos governos e do terceiro setor, ela tem então, um corte horizontal que abarca todas as demais políticas. Por outro lado, as Políticas sociais, independente do setor do qual emergem, tem sempre como pano de fundo a discussão sobre a questão social, que trás em seu bojo o problema das desigualdades sociais e da vulnerabilidade de parte da população que não tem acesso aos direitos sociais. Entende-se, aqui, por políticas sociais, não um processo de atendimento assistencialista do Estado, mas um meio pelo qual o indivíduo desfavorecido pode

3 gestar uma consciência política de sua necessidade, e por meio de sua atuação organizada, alcançar sua autonomia e sua cidadania. Segundo Pedro DEMO (1999): Política social emancipatória é aquela que se funda na cidadania organizada dos interessados (...) não trabalha com objetos manipulados, mas com sujeitos coparticipantes e co-decisores (p.37) A Assistência Social, como política social, e como componente básico de outras políticas, deve ser também um processo que colabore para um caminho de conquista de emancipação, emancipação que se dá a partir de estruturas participativas e metodologias de interação indivíduo/sociedade nas suas dimensões política, econômica, social e cultural. A partir dessas considerações, deve-se entender que a pobreza não é só carência material, mas o não acesso ás vantagens sociais. Portanto, não é possível enfrentar essa situação sem o pobre, pois a assistência não é só sustentar os grupos que não podem se prover sozinhos, mas deve ser entendida e estruturada como um projeto emancipatório que vise, nos seus fins, a inclusão na sociedade e a sua cidadania. Portanto, Assistência Social, na sua organização, não tem só como atribuição os benefícios (eventuais e continuados), mas propõe projetos de enfrentamento da pobreza, programas de capacitação, geração de renda, formação cidadã, que contribuem para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos, sua organização social e a defesa de seus direitos. Prevê ainda, a elaboração a participação ativa da sociedade civil na elaboração e controle das políticas públicas, através de instrumentos como os Conselhos municipais, estaduais e federais. È importante ressaltar esta dimensão da política social que permite à população excluída de acesso aos direitos sociais ou seus representantes, participarem das instâncias de decisões que afetam diretamente a vida da população. A pergunta é: como os usuários das políticas sociais podem começar a participar da transformação da sociedade? Como fazer? Os serviços recebidos pela população estimulam e impulsionam os usuários para novas ações de defesa e garantia de seus direitos? Partindo dessas considerações, acredita-se que uma das estratégias mais efetivas para consolidar um projeto de participação da sociedade na condução das políticas públicas é o papel educativo, político e mobilizador dos profissionais que estão ligados à área da assistência social e ao público mais vulnerável e com maiores necessidades sociais. Através de ações socioeducativas e de mobilização é possível sensibilizar e discutir com penetrabilidade sobre a conquista de direitos, defesa da cidadania, construção de identidades políticas e culturais, consciência crítica e justiça social.

4 Nessa experiência, o trabalho da Assistência Social cabe e é necessário nas demais políticas sociais no que se refere ao atendimento de indivíduos em situação de vulnerabilidade, famílias que precisam de orientação e encaminhamentos para outros atendimentos, ações educativas e de organização social, pois o objetivo maior da política de Assistência Social é a inclusão e a equidade de seu público alvo. É a Política de Assistência Social que vai se preocupar com esse público específico para promover uma ascensão social que possa refletir em igualdade de acesso aos direitos. Na atuação da Assistência Social, dentro dessas políticas, também se deve destacar a atuação direta com a comunidade e a expertise de ação com grupos e famílias. Nessa proximidade, os profissionais da Assistência Social podem trabalhar com um projeto político de atuação, procurando conciliar a formação do trabalhador social com o conhecimento sobre as diversas políticas sociais, dedicando maior atenção ao trabalho de socialização, sensibilização, informação, capacitação e organização da comunidade, ou seja, é possível realizar uma ação política junto aos usuários sem se perder nas relações necessidades/benefícios ou situação emergencial/atendimento. CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta de assegurar programas sociais de qualidade para todos trazendo para a esfera pública a questão da pobreza e da exclusão são diretrizes definidas pela Política de Assistência Social enquanto uma política social que busca maior visibilidade à proteção básica dos indivíduos como ação política e como campo para a gestão participativa dos excluídos de aceso aos seus direitos. O que deve ser analisado é como a Assistência Social pretende se politizar de forma que possa viabilizar o processo de alteridade da população que, hoje, vive sem a sua cidadania plena. Cidadania, aqui, entendida por pertença, pertencer à sociedade e, portanto, é cidadão aquele que tem seus direitos sociais plenamente garantidos. Um caminho seria definir a Assistência como um mecanismo na luta pela redistribuição da riqueza social, de recursos e estratégias que garantam os direitos civis, políticos e sociais, sob à luz de uma proposta efetivamente democrática, que apoie e incentive a organização, resistência e luta coletiva de seus usuários, procurando o fortalecimento de um poder popular que efetive o debate e ações capazes de conduzir as mudanças necessárias para o enfrentamento da questão social. É este o projeto política da Assistência Social que deve ser colocado em prática. Para isso, deve estruturar uma proposta de atuação que possa compreender a dinâmica da comunidade onde se insere os serviços assistenciais, e a partir daí proporcionar os recursos (técnico e materiais) para que os indivíduos possam

5 construir uma identidade coletiva, se mobilizarem em prol de suas reivindicações. Esse tipo de trabalho requer disponibilidade e grande investimento, itens que ainda não fazem parte da realidade e do cotidiano dessa política. Ainda assim, conclui-se que a política de assistência social serve a todas as demais politicas sociais que também tem como propósito comum o enfrentamento das questões sociais que prejudicam o desenvolvimento humano e social de nossas comunidades. Estamos considerando a necessidade de que, em todas as políticas sociais, haja uma preocupação com a defesa dos direitos sociais e com a formação de um segmento específico da sociedade que está à margem da cidadania plena, que está desprovida de mínimos sociais e que precisam pensar e agir não só como sujeitos sociais, mas como sujeitos cientes de sua condição social de exclusão que devem se preparar para compreender a importância de sua contribuição e reivindicação para a universalização do acesso à saúde, educação, assistência social, habitação, transporte, etc. Essa diretriz deve ser seguida por todos, poder público e entidades do terceiro setor, políticas sociais e trabalhadores sociais, para que possamos avançar no enfrentamento da pobreza material e política de todas as gerações.

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