DO CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE) Bom-dia, Excelentíssimo. Senhor Ministro-Presidente, bom-dia aos demais integrantes

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1 O SR. FRANCISCO BATISTA JÚNIOR (PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE) Bom-dia, Excelentíssimo Senhor Ministro-Presidente, bom-dia aos demais integrantes da nossa Mesa que, neste momento, estão dividindo a responsabilidade de fazer as exposições. Cumprimento todas as convidadas, todos os convidados, técnicos, trabalhadores, usuários e demais pessoas. Nós do Conselho Nacional de Saúde, a partir de janeiro próximo passado, resolvemos deflagrar em todo o País um grande debate, tendo como instrumento fundamental desse debate uma caravana em defesa do Sistema Único de Saúde, no entendimento inicialmente de que o Sistema Único de Saúde, sem a menor sombra de dúvidas, é a política pública mais democrática, mais inclusiva, mais transformadora que a população brasileira ganhou, conseguiu nesses últimos vinte anos. Agora, ao mesmo tempo em que nós estamos reafirmando essa fantástica política pública, estamos dizendo que, durante esses vinte anos, foram longos anos de resistência, foram longos anos de sobrevivência, e talvez enfrentemos, neste momento, o momento mais difícil. Por entender que este talvez seja o momento mais difícil da sua história é que entendemos também a necessidade de uma grande mobilização em todo o País, envolvendo os diversos atores, para que as dificuldades que

2 nós enfrentamos possam ser revertidas, possam ser superadas. Para essa apresentação que diz respeito à responsabilidade dos três entes da Federação e do financiamento, resolvi resgatar, muito rapidamente, alguns conceitos que nós temos garantidos na nossa legislação, apenas para subsidiar um pouco o nosso momento final da intervenção. Inicialmente, fazendo questão de lembrar o que nós temos garantido na Constituição Federal no que diz respeito ao conceito de saúde, e que deixa muito clara a necessidade do estabelecimento de políticas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos, do acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Eu fiz questão, nesse resgate da legislação, de citar, frisar, chamar a atenção para alguns aspectos que para nós do Conselho Nacional de Saúde são muito importantes. Ainda na Constituição Federal, no seu artigo 198, as diretrizes do Sistema de Saúde pautadas na descentralização, no atendimento integral e na participação da comunidade. Avançando um pouco mais ainda na Constituição Federal, no 1º do artigo 198 e no que diz respeito ao financiamento do sistema, o estabelecimento

3 claro da responsabilidade do financiamento das três esferas de governo, tendo como eixo estruturante e fundamental o orçamento da seguridade social. Ainda no artigo 199 da Constituição Federal, no seu 1º, que se refere à assistência à saúde como sendo também uma prerrogativa da iniciativa privada, mas o 1º chama a atenção para a necessidade de que, no Sistema Único de Saúde, o sistema privado é complementar. Na Lei nº 8.080, a nossa Lei Orgânica do Sistema Único de Saúde, o artigo 3º, que para nós é absolutamente fundamental e que estamos debatendo em todo o País: Art. 3º A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; (...) Ou seja, tudo que pensado na reforma sanitária, tudo que garantido na Constituição Federal é motivo de anseio da população brasileira. Ainda na Lei nº e no quesito que se refere à responsabilidade dos entes da Federação, tive a preocupação de pinçar aquilo que achei mais relevante para subsidiar a nossa conversa aqui.

4 No artigo 16, que diz respeito às atribuições da direção nacional do Sistema, o inciso III que define e coordena os sistemas: a) de redes integradas de assistência de alta complexidade; b) de rede de laboratórios de saúde pública; c) de vigilância epidemiológica; e d) de vigilância sanitária; À direção estadual: I- promover a descentralização (...); II - acompanhar, controlar e avaliar as redes hierarquizadas do Sistema Único de Saúde (SUS); III - prestar apoio técnico e financeiro (...); Ainda em relação aos Estados, coordenar e, em caráter complementar, executar ações de vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, alimentação e nutrição e saúde do trabalhador. do Sistema: E, no que diz respeito à direção municipal I - planejar, organizar, controlar e avaliar as ações e os serviços de saúde e gerir e executar os serviços públicos de saúde; II - participar do planejamento, programação e organização da rede (...); IV - executar serviços: a) de vigilância epidemiológica; b) vigilância sanitária; c) de alimentação e nutrição; d) de saneamento básico; e e) de saúde do trabalhador;

5 Ou seja, a partir dessa breve e rápida explanação, podemos perceber e isso nós estamos dialogando em todo o País que temos com certeza, no Brasil, uma legislação para dar suporte ao tema Saúde das mais avançadas que podemos imaginar. Com certeza, no mundo, talvez existam poucas experiências com essa abrangência, com esse avanço, com essa amplitude. Agora, o que acontece então? Porque temos uma legislação das mais avançadas, uma legislação talvez perfeita naquilo que diz respeito à complexidade que significa o tema Saúde. E como explicar o entendimento do Conselho Nacional de Saúde de que enfrentamos dificuldades, estamos sobrevivendo e estamos talvez no pior momento? E, aí, nós avaliamos que existem equívocos. E eu coloquei, muito rapidamente, financiamento como sendo o eixo central, porque, afinal de contas, está no nosso debate. Mas nós queremos chamar a atenção para a questão que não diz respeito apenas ao financiamento. É óbvio que o financiamento tem sido burocratizado, tem sido feito de forma conservadora através de pagamento por procedimentos; não é regulamentado ainda e é despolitizado. É verdade tudo isso. Mas é verdade também que tudo aquilo que eu falei para vocês há pouco tempo e que está na nossa legislação, que dá suporte à nossa legislação, no nosso entendimento, infelizmente, não vem acontecendo de fato. Se nós fizermos

6 um paralelo, traçarmos um paralelo entre o que existe na legislação e o que tem acontecido durante esses vinte anos, nós percebemos uma distância enorme entre uma coisa e outra. E quais são as consequências disso? Primeiro, uma descentralização que nós consideramos inconsequente, uma descentralização sem obediência aos requisitos que deveriam fundamentá-la, e que se convencionou chamar, inclusive, de prefeiturização; uma descentralização burocrática sem atender àquilo que nós entendemos como efetivamente sendo a descentralização e a municipalização de acordo com os princípios do SUS. Segundo, uma desresponsabilização importante dos entes estaduais e federal. Nós percebemos uma sobrecarga muito grande nos municípios. Nós percebemos uma certa omissão no que diz respeito a vários eixos estruturantes dos entes estaduais e federal, com comprometimento, com sobrecarga dos municípios. Terceiro, um aprofundamento da lógica assistencialista, totalmente na contramão do que preconiza a nossa legislação. Nós pensamos, nós elaboramos, nós aprovamos a construção de uma grande rede de proteção, uma grande rede de promoção com responsabilidade tripartite e permanecemos com exacerbamento, com aprofundamento da lógica assistencialista pautada nos hospitais, pautada nos medicamentos, pautada nos exames de alto custo.

7 Quarto, uma precarização do trabalho com comprometimento do serviço e das ações. Poucas gestões de trabalho no serviço público, principalmente, foram tão afetadas pela desregulamentação, pela precarização, como no caso da saúde. Excessiva privatização do sistema através da contratação de serviços e da terceirização da mão-de-obra e de gestão. Esse é um ponto, para nós, absolutamente vital. Enquanto temos na Constituição e na Lei Orgânica o dispositivo que estabelece o setor privado como sendo complementar e está correto -, nós temos, na prática, um sistema onde o privado é absolutamente o principal. Naquilo que diz respeito ao alto custo, naquilo que diz respeito aos procedimentos especializados, hoje a dependência é total, a dependência é absoluta do setor privado, que avança, inclusive, na gestão através das organizações sociais, das OSCIPs e fundações. Então, esse para nós é um ponto que está inviabilizando o sistema como um todo. A absoluta dependência do setor privado contratado, dos profissionais especializados, dos procedimentos e medicamentos de alto custo, inclusive, é um dos motivos de debate nesta nossa Audiência aqui. Mas quais são os caminhos que, no nosso entendimento, no entendimento do Conselho Nacional de Saúde, podem ser trilhados para que esse quadro possa ser revertido?

8 Primeiro, entendemos que a regulamentação da Emenda Constitucional nº 29, contemplando a Contribuição Social para a Saúde, é absolutamente vital. Se temos muito claro que existem distorções e é verdade -, existe, de certa maneira, má utilização dos recursos é verdade e existe a necessidade de priorizar melhor a questão da utilização da execução orçamentária dos entes federados, mas não há a menor dúvida, também, e afirmamos isso categoricamente, explicitamente, o que temos como financiamento para a saúde no País é absolutamente insuficiente para viabilizar minimamente a proposta do Sistema Único de Saúde. E, neste momento, entendemos que essa carência maior recai, principalmente, nos Estados e no Governo Federal. A Contribuição Social para a Saúde, para nós, é muito importante porque tem dois vieses fundamentais: primeiro, é do instrumento de fiscalização, que nós entendemos como sendo importante numa estrutura tributária muito injusta que nós temos no nosso País; segundo, porque não podemos abrir mão de termos para a saúde, especificamente, rubricas voltadas exclusivamente para o seu financiamento. Deixar a saúde à mercê de um financiamento global, numa disputa desigual com outros setores de governo, para nós, é definir a inviabilidade do sistema.

9 Estruturação, ampliação e fortalecimento da rede pública estatal. É impossível. Não existe experiência nenhuma no mundo, nenhum sistema universal viabilizado em que o setor privado abocanhe 80%, 90% e, às vezes, 100% dos custos do sistema, principalmente no alto custo especializado - como é o caso do Sistema de Saúde no Brasil da realidade de hoje. Entendemos que, para superar, é fundamental que o próprio Governo Federal chame para si a responsabilidade de, política e financeiramente, ajudar os municípios a estruturar essa rede de atenção primária, essa rede de promoção, essa rede de proteção social e a rede de referência e contrarreferência também. Democratização e profissionalização da gestão do sistema e da gerência dos serviços com os próprios quadros do SUS. É impossível admitirmos o que acontece hoje: um sistema que ainda tem uma cultura muito autoritária na sua gestão; um sistema que tem ainda na sua gestão a ocupação de grupos organizados, que a inviabiliza técnica e politicamente. Então, para nós, a democratização da gestão, a participação dos atores que constroem o SUS na gerência do serviço é absolutamente fundamental. Autonomia administrativa, financeira e orçamentária dos serviços. É outro item que, inclusive, está garantido na Constituição Federal, necessita apenas de uma regulamentação no Congresso Nacional, que nós do

10 Conselho Nacional de Saúde estamos defendendo e entendendo como sendo estratégia fundamental para que os serviços possam ser mais eficientes e para que, consequentemente, possam cumprir bem o seu papel diante da população usuária. Criação do serviço civil em saúde e da carreira do SUS para todos os trabalhadores, com responsabilidade das três esferas de governo. Nós não concordamos que profissionais possam ser formados à custa no bem sentido do Poder Público, à custa dos recursos públicos e depois se neguem peremptoriamente a prestar serviço aos SUS; e depois optem por trabalhar apenas no setor privado. Entendemos que a carreira do SUS é fundamental, com responsabilidade tripartite, e entendemos que é fundamental, vital para o sistema que profissionais formados nas universidades públicas possam, sim, se entregar, despender parte da sua realização profissional, do seu trabalho profissional, à rede pública em todo o País. Por fim, priorizar a estruturação de uma rede de detenção primária e de ações intersetoriais das três esferas de governo. Vocês devem ter percebido que nada disso é novidade. Tudo isso eu falei inicialmente na nossa legislação. Tudo isso que estou colocando aqui, em certa medida, em maior ou menor grau, está garantido na nossa legislação. É necessário apenas regulamentação de alguns

11 aspectos, em alguns casos, e de decisão política, na maior parte dos casos. Então, é impossível continuarmos com um Sistema que tem um custo elevado, em determinadas áreas, em função da falta de promoção da saúde. É impossível continuarmos com um Sistema que tem um custo significativo e que, em certa medida, inviabiliza financeiramente determinadas gestões - com medicamentos de alto custo, com exames de alta complexidade, com procedimentos especializados - porque não temos infelizmente a rede de promoção, a rede de proteção que possa contribuir para que essa demanda seja paulatinamente diminuída, suprimida e temos insistido nisso no Conselho Nacional de Saúde. Tudo isso na perspectiva de superar uma realidade que temos hoje, que não é condizente com o que construímos. Queremos, sim, um Sistema de Saúde, não um sistema de tratamento de doença, como infelizmente ainda continuamos tendo hoje. Muito obrigado.

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