A ETNOMATEMÁTICA EM DIFERENTES ESPAÇOS SOCIOCULTURAIS

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1 A ETNOMATEMÁTICA EM DIFERENTES ESPAÇOS SOCIOCULTURAIS Fernanda Geofre de Brito 1 Keilane Barbosa Moura 2 Maria de Fátima Coelho Souza 3 Eixo Temático: Etnomatemática e as relações entre tendências em educação matemática. Resumo Este presente resumo expandido tem como objetivo relatar um pouco sobre três pesquisas (pesquisa F, pesquisa K e pesquisa M) que estão sendo realizadas junto a Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Araguaína, por acadêmicas do curso de Licenciatura em Matemática. A pesquisa F está sendo realizada com professores do Ensino Médio participantes de um projeto com enfoque etnomatemático e vem apontar a postura e o compromisso do professor mediante sua participação no projeto, bem como as contribuições que um projeto que se fundamenta na Etnomatemática pode trazer para a formação docente do grupo pesquisado. A pesquisa K está sendo realizada com os próprios professores do curso de Licenciatura em Matemática da UFT que escolheram a Etnomatemática como área de formação e linha de pesquisa, e tem como proposta buscar entender o porquê desta escolha e compreender quais as possíveis contribuições da Etnomatemática para a formação de professores-formadores de professores. A pesquisa M está sendo realizada com um grupo de artesãos da cidade de Ananás TO e tem como proposta de estudo tentar compreender as técnicas etnomatemáticas utilizadas por estes artesãos na fabricação dos artesanatos. Palavras Chave: Etnomatemática; Formação de professores; Cultura. Introdução Considerando que as pesquisas em Educação Matemática abrangem uma gama de temáticas e ambientes de investigação diversas, este presente resumo expandido tem como proposta apresentar três Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) em andamento com enfoques temáticos e ambientais diferenciados, mas que se configuram como pesquisas qualitativas, tendo como solo teórico o mesmo campo de pesquisa: o Programa Etnomatemática. O primeiro deles, indicado como pesquisa F, de caráter etnográfico, vem se desenvolvendo junto ao Centro de Ensino Médio Paulo Freire, uma escola do centro de Araguaína TO. Onde o público alvo está sendo os professores da educação básica, 1 Universidade Federal do Tocantins, campus de Araguaína, 2 Universidade Federal do Tocantins, campus de Araguaína, 3 Universidade Federal do Tocantins, campus de Araguaína,

2 participantes do projeto de extensão e pesquisa Releitura do Cotidiano: um olhar etnomatemático, desenvolvido recentemente pelo professor-orientador Adriano Fonseca, com professores e alunos do Ensino Médio desta instituição de ensino. O projeto Releitura do Cotidiano: um olhar etnomatemático teve desenvolvida sua primeira etapa entre agosto de 2011 e abril de 2012, período este em que houve encontros teóricos com o grupo de professores participantes do projeto e divisão em subgrupos da turma de alunos (as) do 2ª Série A 4. Essa turma de alunos (as) deveria escolher um tema para que fosse trabalhado e depois deveria ser realizada a socialização do conhecimento construído através de apresentações de cada subgrupo para os demais. Assim, as informações presentes neste texto sobre a pesquisa F vão abranger informações captadas com a coleta de dados realizada durante e logo após o termino desta primeira etapa. Quanto ao segundo TCC, indicado aqui como pesquisa K, que se caracteriza como pesquisa participante, que vem se desenvolvendo com professores-formadores de professores, do curso de Licenciatura em Matemática, da UFT-Araguaína. Assim, busca-se investigar porque o grupo pesquisado escolheu a Etnomatemática como área de formação, bem como compreender o que esta traz de contribuição para a prática docente do professor universitário sabendo que ele já possuía um conhecimento adquirido em sua vida, considerando os três eixos trabalhados no curso: ensino, pesquisa e extensão. E por fim, o terceiro TCC aqui apresentado como pesquisa M, também de caráter etnográfico como a pesquisa F, vem se desenvolvendo com um grupo de artesãos 5 da cidade de Ananás-TO. O grupo faz diversas miniaturas com materiais do serrado como o jatobá, braço de buriti, arame, madeira, coco babaçu, coco anajá, caroço de manga, saco de estopa, cipó de titica e para a fabricação dessas miniaturas não realizam cálculos matemáticos conhecidos por nós na academia ou na escola. Assim, a pesquisa M busca compreender quais são os procedimentos utilizados pela cultura artesã durante a fabricação das miniaturas. Referencial Teórico O pesquisador tendo definido que na sua pesquisa há necessidade de ir à campo, antes disto é preciso ter embasamento teórico. Assim, nas três pesquisas foi realizado o estudo teórico de trabalhos que se fundamentam na Etnomatemática como linha de ação, para que os 4 5 Turma que em 2012 passou a ser 3º ano A Grupo Arte no Fruto

3 dados coletados não sejam meras descrições de situações vividas e/ou vivenciadas pelo pesquisador. Pois como afirma Fantinato (2004, p. 180) [...] um dos cuidados do pesquisador em etnomatemática é não realizar uma mera descrição das práticas cotidianas dos sujeitos investigados [...]. Para o desenvolvimento das pesquisas, foram traçados roteiros de investigação flexíveis para ajudar a subsidiar as atividades que deveriam ocorrer. Pois, como afirma Goldenberg (2005, p. 53) Os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos. Estes dados não são padronizáveis como os dados quantitativos, obrigando o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade no momento de coletá-los e analisá-los. Não existindo regras precisas e passos a serem seguidos, o bom resultado da pesquisa depende da sensibilidade, intuição e experiência do pesquisador. Portanto, todas as três pesquisas apresentam uma abordagem qualitativa, isso porque nossa preocupação [...] não é com a representatividade numérica do grupo pesquisado, mas com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, de uma instituição [...] Goldenberg (2003, p.14). Para que a pesquisa possa se desenvolver também é necessário a aceitação do pesquisador pelo grupo que se pretende pesquisar. Logo, conseguindo estabelecer uma boa relação entre os membros do grupo, onde o grupo aceita o pesquisador que fará a coleta de dados a partir de observações, conversas, questionários e entrevistas, onde um grande número de dados podem ser coletados. Por parte do pesquisador é necessário que este reconheça e respeita que a cultura do outro também é válida. Logo o pesquisador deve se aproximar ao máximo da realidade do grupo e se necessário, se desligar de seus costumes para que os dados coletados não sejam meras descrições do ambiente em estudo que geralmente reforçam o que o pesquisador quer que seja visto. Como afirmar Junker (1971, p.65) sobre a pesquisa de Malinowski. [...] parece ter se aproximado tanto quanto possível de participante como observador explorando assim uma oportunidade de não tornar-se nativo mas de adotar o papel no qual os nativos analfabetos tornaram-se relativamente indiferentes a ele como participante. Constatando semelhanças em diferentes enfoques

4 Nas três pesquisas apresentadas percebe-se claramente que apesar de estarem sendo desenvolvidas em ambientes distintos possuem seus pontos em comum. Como pode ser mencionada a questão cultural dos membros do grupo, onde um respeita a cultura do outro para que haja um diálogo simétrico para a construção de conhecimento. Na pesquisa F, os professores foram reconhecendo que os alunos (as) também possuem seu próprio conhecimento adquirido de suas experiências fora do ambiente escolar como podemos perceber nas palavras do professor C depois da primeira etapa do projeto, quando lhe foi questionado seu entendimento sobre Etnomatemática, respondendo que [...] visa compreender e dar continuidade aos saberes e aprendizados anteriores que o aluno traz de outras experiências [...]. Na pesquisa K os professores-formadores de professores enfatizam que o professor deve conhecer e reconhecer a cultura do aluno de modo que ambos trabalhem juntos para a construção de conhecimento. Na pesquisa M o pesquisador reconhece que o grupo de artesões possui sua cultura e seus conhecimentos matemáticos que devem ser respeitados mesmo que não seja acadêmico ou escolar. Assim, [...] os métodos qualitativos a serem usados enfatizam as particularidades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo pesquisado [...] (Goldenberg, 2003, p.49-50). Através de dados coletados pelas pesquisas F e K voltadas para a Etnomatemática e a Formação de Professores percebe-se que a Etnomatemática pode trazer contribuições para a formação docente. Ao grupo de professores da pesquisa F, um projeto de caráter etnográfico pode contribuir para o melhor entendimento sobre significado de Etnomatemática já que a maioria desses professores ainda não haviam tido contato com a Etnomatemática, e os que haviam tido contato foram em momentos rápidos e/ou passageiros geralmente nos cursos de pós-graduação 6. Ao grupo de professores da pesquisa K, a Etnomatemática tem contribuído para a melhoria da atuação docente que busca formar professores críticos e reflexivos que reconheçam a diversidade cultural existente tanto em sala de aula, quanto na Escola como um todo, mesmo que os professores em formação não venham a seguir como área de formação e linha de pesquisa a Etnomatemática 7. Assim, mesmo que a pesquisa M não está sendo voltada para formação de professores e sim para questões culturais de outros grupos, no caso o dos artesãos, devemos lembrar que a pesquisa está sendo de grande valia para a acadêmicapesquisadora em formação, o que pode ser comprovado pelas palavras da mesma: [...] está 6 Conclusão feita através de relatos realizados pelos professores nos encontros teóricos do projeto e registrados em notas de campo. 7 Conclusão feita através do relato do professor J quando um de seus alunos lhe perguntou: Mas diz aí porque escolher Etnomatemática?.

5 sendo muito bom trabalhar com Etnomatemática porque com ela estou começando a perceber coisas que não tinha parado para perceber antes [...]. Considerações Finais A Etnomatemática é um programa de pesquisa que reconhece as diferenças culturais presentes nos diversos ambientes sendo eles escolares ou não, mas através de pesquisas etnomatemáticas podemos perceber que até mesmo as diferenças culturais possuem semelhanças entre si como está sendo o caso das três pesquisas apresentadas neste artigo. Trabalhar com Etnomatemática pode ser muito trabalhoso, pois requer do educadorpesquisador ou daqueles que se propõem a este trabalho tempo e dedicação, mas cujos resultados obtidos e cuja construção e aquisição de conhecimento são extremamente significativos, enriquecedores. Referências Bibliográficas FANTINATO. M. C. C. B. Contribuições da etnomatemática na educação de jovens e adultos: algumas reflexões iniciais. In: RIBEIRO. M. P. J; DOMITE. S. C. M; FERREIRA. R. Etnomatemática: papel, valor e significado. v.1. São Paulo: Zouk, p JUNKER, B. H. A importância do trabalho de campo: Introdução às Ciências Sociais. 1. Ed. Chicago/Rio de Janeiro: Lidador/Societas, 1971, p GOLDENBERG. M. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. 7 ed. Rio de Janeiro: Record, Referências Consultadas ANDRÉ. Marli. A pesquisa no cotidiano escolar. In: FAZENDA. I. (org). Metodologia da Pesquisa Educacional. São Paulo: Cortez, p SCANDIUZZI. Pedro Paulo. Formar professores indígenas: um caminho a ser feito. In: GRAVILLE.A. M. Teorias e Práticas na Formação de Professores Campinas: Papirus, 2007, p D`AMBROSIO, U. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. Coleção Tendências em Educação Matemática. 2 ed. 2ª reimp. Belo Horizonte: Autêntica, p.. Etnomatemática e Educação. In: KNIJNIK, G.; WANDERER, F.; OLIVEIRA, C. J. Etnomatemática: currículo e formação de professores. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, p

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