A visão da OIT sobre o Trabalho Decente

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1 Boletim Econômico Edição nº 61 maio de 2015 Organização: Maurício José Nunes Oliveira Assessor econômico A visão da OIT sobre o Trabalho Decente 1

2 1. CONCEITO DE TRABALHO DECENTE O conceito de Trabalho Decente foi introduzido pela Organização Internacional do Trabalho - OIT em 1999 e visa a traduzir o objetivo de garantia a todas as pessoas oportunidades de emprego produtivo, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade. Entende-se como oportunidade de emprego produtivo a garantia a todos que queiram trabalhar da chance de efetivamente encontrar um emprego, o qual seja instrumento que permita o alcance de um nível de bem-estar aceitável ao trabalhador e sua família. Emprego em condições de liberdade refere-se ao fato de que o trabalho deve ser livremente escolhido e o direito de participação dos trabalhadores em organizações sindicais. Emprego em condições de equidade traduz a necessidade de tratamento justo e equitativo aos trabalhadores, respeitando-se as diferenças, repugnando-se as discriminações, além de possibilitar a conciliação entre trabalho e família. Já emprego em condições de segurança sublinha a preocupação com a proteção à saúde dos trabalhadores, assim como sua proteção social, em caso de problemas nessa área. Por fim, emprego em condições de dignidade pressupõe o respeito aos trabalhadores e a possibilidade de participação nas decisões relativas às condições de trabalho. Importa destacar que cada uma dessas dimensões do conceito de Trabalho Decente sempre foi objeto de recomendações e ações da OIT. No entanto, a importância do conceito é permitir uma visão conjunta das diversas dimensões do trabalho, através de um só marco, além de se tratar de um conceito universal, que abarca todos os trabalhadores. Em outras palavras, a principal novidade do conceito de trabalho decente é ser multidimensional, ou seja, o conceito de trabalho decente acrescenta, à dimensão econômica representada pelo conceito de um emprego de qualidade, novas dimensões de caráter normativo, de segurança e de participação e representação. 2

3 2. TRABALHO DECENTE E DIGNIDADE HUMANA Em qualquer aspecto, o Trabalho Decente está umbilicalmente relacionado à dignidade humana. Desta forma, o Direito ao Trabalho Decente é reconhecido como o direito a um trabalho adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna aos trabalhadores e sua família. Trata-se, portanto, do direito a um trabalho que permita satisfazer as necessidades pessoais e familiares de alimentação, educação, moradia, saúde e segurança. É também o direito a um trabalho que garanta proteção social nos impedimentos de seu exercício (desemprego, doença, acidentes, entre outros), assegura renda ao chegar à época da aposentadoria e no qual os direitos fundamentais dos trabalhadores e trabalhadoras são respeitados. Por isso, trata-se de condição fundamental para a superação da pobreza, para a redução das desigualdades sociais, para a garantia da governabilidade democrática e do desenvolvimento sustentável. Ou seja, através das discussões em torno do tema Trabalho Decente, busca-se promover uma estratégia que visa a superar as situações de pobreza e desigualdade que caracterizam atualmente a maior parte das nações e, por essa via, propiciar uma vida digna para homens e mulheres. Além disso, o trabalho decente é também um mecanismo que estimula a produtividade das empresas, o dinamismo das economias e a promoção do desenvolvimento econômico e social. É assim que, para a OIT, o trabalho é a via fundamental para a superação da pobreza e da exclusão social. E não qualquer trabalho, mas sim um Trabalho Decente. 3. PILARES ESTRATÉGICOS DO TRABALHO DECENTE A noção de trabalho decente se apoia em quatro pilares estratégicos: a) respeito às normas internacionais do trabalho, em especial aos princípios e direitos fundamentais do trabalho (liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; eliminação de todas as formas de trabalho forçado; abolição efetiva do trabalho infantil; eliminação de todas as formas de discriminação em 3

4 matéria de emprego e ocupação); b) promoção do emprego de qualidade; c) extensão da proteção social; d) diálogo social. Quanto à dimensão dos direitos do trabalho, o enfoque são as normas internacionais do trabalho (convenções e recomendações da OIT). Em relação à definição do trabalho decente, são as oito convenções e recomendações que fazem parte da Declaração Relativa aos Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho, adotada em junho de 1998: liberdade de associação e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva, eliminação de todas as formas de trabalho forçado, abolição efetiva do trabalho infantil e eliminação de todas as formas de discriminação no emprego e na ocupação. Fazem parte da Declaração relativa aos princípios e direitos fundamentais nos trabalhos as seguintes convenções: Convenção sobre o trabalho forçado, 1930 (n 29) e a Recomendação sobre a imposição indireta do trabalho, 1930 (n 35); Convenção sobre a liberdade sindical e a proteção do direito de sindicalização, 1948 (n 87); Convenção sobre o direito de sindicalização e de negociação coletiva, 1949 ( n 98); Convenção sobre a abolição do trabalho forçado, 1957 ( n 105); Convenção sobre igualdade de remuneração, 1951 ( n 100) e a Recomendação sobre o mesmo tema, 1951 (n 90); Convenção sobre discriminação (emprego e ocupação), 1958 (n 111) e a Recomendação sobre o mesmo tema, 1958 (n 111); Convenção sobre a idade mínima, 1973 (n 138) e a Recomendação sobre o mesmo tema, 1973 (n 146); Convenção sobre a proteção à maternidade, 2000 (n 183) e a Recomendação sobre o mesmo tema, 2000 (n 191). No que se se refere ao aspecto da promoção do emprego de qualidade, o importante não é apenas gerar postos de trabalho, mas garantir um padrão mínimo de qualidade do emprego gerado. Isso abarca uma "combinação complexa de fatores que inclui tanto aspectos das relações sociais de trabalho, como o caráter mais ou menos estável e permanente dos contratos de trabalho ou o nível das remunerações, quanto os aspectos da segurança material com que se realizam as tarefas e as atividades de trabalho" (OIT, 1999, apud OIT, 2002:79). Com relação à terceira dimensão do Trabalho Decente, a extensão da proteção social, tem-se que muitas ocupações são inseguras porque são irregulares ou provisórias, porque a sua remuneração é instável, porque envolvem riscos físicos ou expõem trabalhadores e trabalhadoras a diversos tipos de enfermidades físicas ou psíquicas. Dessa forma, a proteção social especialmente os direitos associados à maternidade, à saúde, à aposentadoria e à proteção em situações de desemprego e de procura de emprego é fundamental para assegurar a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. 4

5 Já o quarto aspecto da noção de Trabalho de Decente é o diálogo social. para que haja trabalho decente é necessário que trabalhadores e empregadores tenham voz e representação em relação às questões que lhes dizem respeito e que o diálogo social seja adotado como método para compor e equilibrar diferenças e chegar a novos acordos produtivos e de convivência no trabalho. As formas pelas quais as pessoas podem fazer valer a sua voz constituem um aspecto essencial do trabalho decente. Para os trabalhadores e trabalhadoras, a via clássica de representação e expressão é a organização sindical. Mas como o trabalho decente diz respeito também aos trabalhadores e trabalhadoras da economia informal, deve-se também pensar em outras possibilidades, por exemplo, na organização dos trabalhadores autônomos ou na organização em nível comunitário. A organização empresarial também é muito importante e uma condição fundamental para o diálogo social. Cada um desses quatro pilares estratégicos do conceito de Trabalho Decente tem suas características próprias, mas todos estão estreitamente relacionados. O avanço obtido em cada um deles potencializa o avanço nos demais. 5. TRABALHO DECENTE COMO POLÍTICA DE GOVERNO A promoção do Trabalho Decente é considerada prioridade política do Governo Brasileiro e dos demais governos do hemisfério americano. Essa prioridade foi discutida e definida em 11 conferências e reuniões internacionais de grande relevância, realizadas entre setembro de 2003 e novembro de Entre estas se destacam a Conferência Regional de Agenda Nacional de Trabalho Decente Emprego do Mercosul (Buenos Aires, abril de 2004), a XIII e a XIV Conferências Interamericanas de Ministros do Trabalho da Organização dos Estados Americanos (OEA) Salvador, setembro de 2003, e Cidade do México, setembro de 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) Nova York, setembro de 2005 e a IV Cúpula das Américas Mar del Plata, novembro de Em junho de 2003, a promoção do Trabalho Decente passou a ser um compromisso assumido entre o governo brasileiro e a OIT. Nesta data, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula a Silva, e o Diretor Geral da OIT, Juan Somavia, assinaram o Memorando de Entendimentos que prevê o estabelecimento de um Programa Especial de Cooperação Técnica para a Promoção de uma Agenda Nacional de Trabalho Decente, a qual foi elaborada depois de consultas a organizações de empregadores e trabalhadores e divulgada em maio de

6 A Agenda Nacional é estruturada a partir de três prioridades: gerar mais e melhores empregos, com igualdade de oportunidades e de tratamento; erradicar o trabalho escravo e eliminar o trabalho infantil, principalmente as piores formas; e fortalecer os atores tripartites e o diálogo social como um instrumento de governabilidade democrática. A Agenda Hemisférica do Trabalho Decente, por sua vez, reflete o reconhecimento no continente americano de que o trabalho decente, tal como definido pela OIT, constitui a principal via de superação da pobreza. 6

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