Boletim Econômico Edição nº 59 abril de 2015 Organização: Maurício José Nunes Oliveira Assessor econômico

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1 Boletim Econômico Edição nº 59 abril de 2015 Organização: Maurício José Nunes Oliveira Assessor econômico Economia informal e transição para a economia formal e as ferramentas da OIT 1

2 Perfil da economia informal A economia informal desenvolve-se num contexto de elevadas taxas de desemprego, subemprego, pobreza, desigualdade de género e trabalho precário. Desempenha um papel significativo nessas circunstâncias, especialmente na criação de rendimento, devido à relativa facilidade de entrada e aos baixos requisitos de educação, qualificações, tecnologia e capital. Mas a maioria das pessoas entra na economia informal, não por escolha, mas por uma necessidade de sobreviver e para ter acesso a atividades que lhes permitam obter um rendimento básico. A economia informal caracteriza-se por défices elevados de trabalho digno e por uma parte desproporcionada de trabalhadores pobres. Uma ampla pesquisa empírica demonstrou que os trabalhadores na economia informal enfrentam maiores riscos de pobreza do que aqueles da economia formal. Enquanto algumas atividades oferecem meios de subsistência e rendimentos razoáveis, a maioria dos trabalhadores da economia informal está exposta a condições de trabalho inadequadas e inseguras, e tem níveis elevados de analfabetismo, níveis de baixa qualificação e oportunidades de formação desajustadas; tem rendimentos inferiores, mais incertos e mais baixos do que aqueles na economia formal, trabalha mais horas, não está coberta pela negociação coletiva e não tem direitos de representação e, muitas vezes, possui um estatuto de emprego ambíguo ou dissimulado; e está física e financeiramente mais vulnerável porque o trabalho na economia informal está fora, ou efetivamente para além do âmbito dos regimes de segurança social, de segurança e de saúde, maternidade e outra legislação de proteção no trabalho. 2

3 Os custos sociais e econômicos da informalidade Pela sua própria natureza, as características da economia informal são essencialmente negativas. Ela pode prender indivíduos e empresas numa espiral de baixa produtividade e pobreza. Uma estratégia nacional coerente para facilitar transições para a formalidade precisa de reconhecer que os custos de trabalhar informalmente são altos para as empresas, trabalhadores e a comunidade. Impacto para os trabalhadores Na perspectiva dos trabalhadores desprotegidos, os aspetos negativos do trabalho na economia informal são muito superiores aos seus aspetos positivos. Eles não são reconhecidos, registados, regulamentados ou protegidos pela legislação do trabalho e de proteção social e, portanto, não podem desfrutar, exercer ou defender os seus direitos fundamentais. Dado que geralmente não estão organizados, a representação coletiva junto dos empregadores ou autoridades públicas é insuficiente ou nula. Os trabalhadores da economia informal caracterizam-se por diferentes graus de dependência e vulnerabilidade. Mulheres, jovens, migrantes e trabalhadores mais idosos são especialmente vulneráveis aos mais graves défices de trabalho digno na economia informal. Eles são vulneráveis à violência, incluindo assédio sexual e outras formas de exploração e abuso, incluindo corrupção e suborno. O trabalho infantil e o trabalho por servidão também se encontram na economia informal. 3

4 A maioria das unidades económicas da economia informal não beneficia de direitos de propriedade seguros, o que as priva de aceder ao capital e ao crédito. Elas têm dificuldade de acesso ao sistema jurídico e judicial para fazer valer os contratos e têm acesso limitado ou não têm acesso a infra-estruturas públicas e mercados públicos. A informalidade também pode inibir Transição da economia informal para a economia formal o investimento em empresas maiores e impedir o comércio, porque às empresas informais lhes falta, muitas vezes, a dimensão necessária para explorar economias de escala. A dimensão da empresa, o aumento da produtividade e as oportunidades de exportação estão intimamente ligados. Impacto para as empresas As grandes empresas não só se beneficiam de economias de escala, como também têm acesso mais fácil à mão de obra mais altamente qualificada e ao crédito bancário (incluindo o crédito comercial). Elas tendem a ser mais fiáveis do que as empresas de menor dimensão no cumprimento de contratos, que uma vantagem apreciável para o estabelecimento do relacionamento a longo prazo com o cliente. As micro e pequenas empresas na economia informal não têm a capacidade de gerar lucros suficientes para recompensar a inovação e riscos, que são duas condições essenciais para o sucesso económico a longo prazo. Estudos demonstram que altas taxas de informalidade conduzem os países para os patamares mais baixos e mais vulneráveis das cadeias de produção globais e atraem fluxos de capital relacionados com a existência de uma grande oferta de mão de obra de baixos salários. As empresas não registadas nem regulamentadas não pagam muitas vezes impostos nem prestações ou outros direitos aos trabalhadores, o que não só priva a proteção dos trabalhadores, mas também significa uma concorrência desleal com outras empresas. A falta de pagamento de impostos e contribuições, que às vezes é muito significativo, coloca uma carga injusta sobre as empresas registadas. Além disso, quando estão privados de receitas públicas, os governos estão limitados no seu espaço fiscal e na capacidade de alargarem os regimes de proteção social e de outros sistemas que são vitais para o desenvolvimento nacional, tais como sistemas de saúde e educação e de infraestruturas. 4

5 Além disso, a informalidade é frequentemente associada a disposições institucionais débeis e estruturas de governo inadequadas e, por conseguinte, suscetíveis de levar a práticas de corrupção. No entanto, a ausência de legislação não significa ausência de regras e de quem as faça cumprir. Os meios privados de imposição da ordem na economia informal são frequentemente muito dispendiosos para as empresas e trabalhadores e por vezes dependem de ameaças de violência e corrupção. Se os custos de transição para a formalidade puderem ser facilitados, muitas empresas poderão voluntariamente pagar seus impostos, observar as leis laborais e beneficiar da segurança que o acesso à justiça pode dar aos direitos de propriedade e aos contratos. Transição para a economia formal Face aos déficts de trabalho digno existentes na economia informal, a fuga à informalidade é cada vez mais, vista como o principal desafio do desenvolvimento em todas as regiões e como sendo central para perceber o trabalho digno como um objetivo de desenvolvimento global e para uma globalização justa. O debate sobre a economia informal e estratégias possíveis para a formalização está, portanto, a ganhar novo impulso a todos os níveis e em vários círculos. Nos últimos anos, muitos países têm dedicado uma atenção considerável ao emprego informal, e foram feitas tentativas para compreender os mecanismos através dos quais os benefícios do crescimento podem ou não ser transmitidos às pessoas mais pobres. 5

6 Um novo consenso surgiu em torno da ideia de que se o crescimento económico não estiver associado à criação de emprego formal, uma mudança para melhores oportunidades de emprego na economia formal e uma melhoria das condições de trabalho em atividades informais, continuará a gerar desigualdade, pobreza e vulnerabilidade. A estratégia e ferramentas de apoio da OIT A transição da economia informal para a economia formal é claramente um alvo importante para a Agenda Trabalho Digno, como os quatro objetivos estratégicos da Organização Internacional do Trabalho - OIT são válidos para todos os trabalhadores, mulheres e homens, na economia formal e informal. A Agenda do Trabalho Digno, portanto, ajuda a construir um quadro comum a nível nacional para abordar a diversidade da economia informal. A questão da economia informal tornou-se ainda mais urgente no atual contexto de crise económica global, que conduziu a um interesse renovado pelos responsáveis pela formulação de políticas, os parceiros sociais, os profissionais de desenvolvimento e investigadores no desenvolvimento de políticas eficazes para a transição para a formalidade. No entanto, apenas alguns países desenvolveram uma abordagem abrangente e integrada para conter a disseminação da informalidade. 6

7 O reconhecimento das muitas vias disponíveis para evitar a informalização e promover a formalização, através da coerência entre as medidas políticas diferentes, portanto, permanece um desafio a nível nacional. As respostas políticas ainda tendem a ser descoordenadas, ad hoc ou limitadas a certas categorias de trabalhadores. Em casos onde foi adotada uma abordagem abrangente, houve uma redução significativa da informalidade e um crescimento na criação de emprego formal. Desde 2002, a abordagem global adotada no quadro da Agenda do Trabalho Digno tem vindo a ser aperfeiçoado nas discussões de política, resultando num quadro de politicas e diagnóstico baseado em sete vias principais para a política de formalização (ver figura abaixo). Este quadro realça a importância da integração vertical e coerência em toda a série de políticas para reduzir a informalidade, enquanto a dimensão horizontal se centra na intensificação da ação em cada área de intervenção política. Estas áreas de política são: criação de emprego de qualidade e estratégias de crescimento; enquadramento regulamentar; diálogo social, organização e representação; promoção da igualdade e abordando a discriminação; medidas para apoiar o empreendedorismo, competências profissionais e financiamento, a extensão da proteção social; e estratégias de desenvolvimento local. 7

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