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1 Potencial das entrevistas narrativas no estudo de experiências traumáticas a partir das narrativas de mulheres vítimas de violência nas relações de intimidade (short title: entrevistas narrativas em estudo com vítimas de violência) Bárbara Martins 1, Virgínia Ferreira 2 1 Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal. 2 Centro de Estudos Sociais/Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal. Resumo. Este artigo propõe- se apresentar uma metodologia de investigação qualitativa aplicada num estudo envolvendo dois grupos de mulheres vítimas de violência: um grupo que passou por Casas de Abrigo e outro que não teve esse percurso. O estudo, de natureza exploratória, teve como objetivo perceber quais eram os principais suportes na (re)construção do seu projeto de vida com que contavam as mulheres de cada um dos grupos. A principal fonte de informação é constituída por dez entrevistas narrativas, cujo conteúdo foi submetido a uma análise temática e estrutural. Depois de uma breve introdução em que apresentamos a entrevista narrativa como estratégia de produção de informação, exploramos as particularidades da sua operacionalização e algumas das estratégias de análise usadas. Nas conclusões, apontamos as vantagens e as desvantagens das entrevistas narrativas, tal como as percebemos nesta pesquisa sobre vivências traumáticas, como é o caso da violência contra as mulheres nas relações de intimidade. Palavras- chave: entrevistas narrativas; análise temática e estrutural; violência contra mulheres nas relações de intimidade; atores nas redes formais e informais. Potential of narrative interviews in the study of traumatic experiences from the narratives of women victims of violence in intimate relationships Abstract. This article proposes to introduce a qualitative research methodology applied in a study involving two groups of women who were victims of violence: one group has received the support from Shelter homes and the other did not. The exploratory study aimed to understand which are the main supports facilitating women s (re)construction of life projects in each group. The primary source of information is based on ten narrative interviews were the primary source of information, whose content was subjected to a thematic and structural analysis. After a brief introduction in which we present the narrative interview as a methodological tool for the production of information, we explore the ways we used to put the study in practice and some of the strategies of analysis used. As a conclusion, we point out the advantages and disadvantages of narrative interviews in studies as this one, about traumatic experiences, such as violence against women in their intimate relationships. Keywords: narrative interviews; thematic and structural analysis; violence against women in intimate relationships; actors of formal and informal networks. 1 Introdução A pesquisa realizada enquadrou- se num plano de investigação qualitativa, orientada por um paradigma interpretativo ou qualitativo, uma vez que o objetivo era compreender quais os apoios que as mulheres recebem em situação de violência e identificar as situações que mais as reforçam na sua autonomia para (re)construir o seu projeto de vida. Foi, assim, necessário entrar no mundo pessoal das entrevistadas, com o intuito de percecionar e interpretar, num dado contexto social, os 619

2 significados construídos (Coutinho, 2013), as ações e as relações humanas. Utilizámos como método de pesquisa o estudo fenomenológico, que enfatiza a subjetividade das pessoas participantes, sendo que o que se pretendia era o conhecimento e a compreensão da experiência vivida pelas mulheres vítimas de violência nas relações de intimidade, na perspetiva de quem descreve os factos da forma como os vivencia. Para compreender e interpretar a subjetividade de cada mulher, optámos por realizar entrevistas narrativas. 2 Entrevistas Narrativas em contexto As entrevistas narrativas enquadram- se num plano de investigação de cariz qualitativo, do tipo descritivo. Esta metodologia de recolha de dados identifica- se com as tradições teóricas provenientes da psicologia social, da sociologia fenomenológica, do interacionismo simbólico e da etnometodologia, em que se procura interpretar e compreender histórias complexas, tendo em conta os significados, as experiências e as emoções num determinado acontecimento ou contexto social (Prokkola, 2014, p. 442). Esta metodologia é utilizada sobretudo nas seguintes situações: estudos que investiguem acontecimentos que geram uma certa controvérsia (ex. políticas locais); estudos onde várias perspetivas estão em análise, levando a uma compreensão plena e geral do acontecimento; estudos que combinam histórias de vida e contextos socio- históricos (Jovchelovitch & Bauer, 2002: ). As entrevistas narrativas possuem uma característica colaborativa, na medida em que a história emerge a partir da interação, da troca, do diálogo entre entrevistador e participantes (Muylaert, Gallo, Neto, & Reis, 2014: 194), em que a pessoa participante conta a história que viveu e o/a entrevistador/a utiliza esta metodologia para (re)construir as histórias pessoais e sociais, tendo em conta o modelo interpretativo dos acontecimentos narrados (Riessman, 2002). Em vez de apresentarmos a técnica no abstrato, fá- lo- emos no contexto do estudo realizado junto de mulheres vítimas de violência nas suas relações de intimidade. Começaremos pelos critérios a que obedeceu a escolha das pessoas a entrevistar. Estando interessadas em comparar dois grupos, realizámos as entrevistas narrativas a cinco mulheres que passaram por Casas de Abrigo e a outras cinco que tinham tido um percurso diferente. Não considerámos como critério excludente o terem ou não filhos/as. A entrevista narrativa procurava proporcionar o enquadramento para que cada mulher pudesse contar a sua própria história e experiência quotidiana (Prokkola, 2014), descrevendo a sua trajetória desde a rutura com a situação de violência até à (re)construção do novo projeto de vida, tendo em conta os apoios que receberam tanto da rede formal Casa de Abrigo como da rede informal, ou seja de pessoas dos seus círculos familiares, de amizade e de vizinhança. É um método de pesquisa qualitativa, não- estruturada e de profundidade (Jovchelovitch & Bauer, 2002), uma vez que leva a entrevistada a recorrer à sua memória (Schütze as cited in Herz, Peters & Truschkat, 2015: 11), recordando- se de acontecimentos, experiências pessoais que tendem a ser detalhadas em forma de sequência de acontecimentos ligados entre si (Loo, Cooper, & Manochin, 2015), que lhe confere uma lógica temporal específica, com princípio- meio- fim, localizando- a no tempo e no espaço (Pentland, 1999), tendo em conta as suas perspetivas e representações. Nas entrevistas narrativas não há um esquema de pergunta- resposta, mas sim um conjunto de perguntas abertas e de tópicos de investigação que levam a que as pessoas entrevistadas narrem a sua história nos seus próprios termos, utilizando uma linguagem própria. Para proceder a esta técnica de recolha de informação, devem ser tidos em conta alguns critérios, uma vez que esta pressupõe uma preparação prévia, ou seja, deve haver uma ampla compreensão do fenómeno, uma familariedade ou proximidade com as pessoas entrevistadas para que se desenvolva um ambiente de confiança, uma linguagem acessível para uma melhor comunicação. Durante a 620

3 entrevista devem mostrar- se sinais de estímulo, gestos, olhares e sinais verbais de incentivo. A pessoa entrevistada é levada a narrar os acontecimentos passados e é importante que, no momento da entrevista, haja uma reciprocidade na escuta ativa e visual. De seguida, apresentamos um quadro com informações tidas em conta nas várias fases em que se desenvolve a entrevista narrativa. Fases Preparação Iniciação Narração Central Fase de Questionamento Fase Conclusiva Quadro 1 Fases e critérios da entrevista narrativa Critérios Exploração do tema leituras exploratórias, consulta de documentos (ex: processo das vítimas). Escolha de participantes. Determinação dos objetivos da pesquisa. Formulação de questões que reflitam os interesses da pesquisa. Clima propício e informal, ausente de distrações e interrupções. Formulação do tópico inicial para a narração. Emprego de auxílios visuais (ex: fotografias). Lançar uma única questão Por favor, conte- me a sua história de violência, todos os acontecimentos e experiências pessoais importantes para si. Comece por onde quiser. Escutar ativamente. Não interromper. Mostrar sinais não- verbais de encorajamento (ex: sim, hum hum, pois ). Moderar o grau de contacto visual. Deixar a pessoa entrevistada expressar as suas emoções. Estimular a pessoa entrevistada a contar a sua história. Manter o processo de narração com perguntas abertas Que aconteceu então?, Explique- me melhor esse momento., Pode descrever- me essa situação., Como é que se sentiu?, Pode falar- me mais sobre, Como é que lidou com, Haveria alguma coisa que gostasse de acrescentar?. Livre argumentação da pessoa entrevistada. Não dar opiniões ou fazer perguntas sobre atitudes. Não discutir sobre contradições. Não fazer perguntas do tipo Porquê. Lançar tópicos de acontecimentos que ainda não foram narrados pela entrevistada. Tirar notas de campo. Parar de gravar. Podem ocorrer conversas informais, em que a pessoa entrevistada fornece mais informações relevantes para a pesquisa. Fazer breves apontamentos após a entrevista, como forma de aprendizagem pessoal e individual. Fonte: Jovchelovitch & Bauer, 2002; Wengraf & Chamberlayne, Com base nos objetivos delineados para esta investigação, foi estruturado um guião orientador para a realização das entrevistas narrativas a mulheres vítimas de violência nas relações de intimidade que tinham passado pelas Casas de Abrigo e às que não tinham tido essa experiência. As leituras exploratórias acerca da temática e as investigações já desenvolvidas na área da violência sobre as mulheres e dos apoios prestados pelas redes de apoio formal e informal foram importantes na elaboração de critérios orientadores, assim como nos levaram a formular uma única questão inicial que permitisse às entrevistadas a reconstituição dos factos passados. 621

4 No momento da realização das entrevistas narrativas, quem entrevista deve adotar uma postura empática: apresenta- se e descreve o teor da investigação, solicita a colaboração e autorização para gravação da entrevista. Depois de formalizar os procedimentos, deve escutar as pessoas entrevistadas de forma interessada e ativa, sem limite de tempo. Deve ainda ser capaz de ativar o esquema da história e de manter o processo da narrativa, a intervenção deve ser mínima e só deve envolver- se para esclarecer ou aprofundar determinados aspetos, para melhor compreensão da história de cada uma na sua individualidade. As condições necessárias à realização das entrevistas devem ter em conta um ambiente propício e informal, ausente de distrações e interrupções, que permita um à vontade das entrevistadas no momento da narração (Muylaert, Gallo, Neto, & Reis, 2014). Contudo, a entrevistadora deve assumir o controlo da situação e ter cuidado com o clima de descontração. As narrativas devem ser entendidas com clareza, sendo por isso necessário um bom equipamento de gravação, um guião com os tópicos orientadores e um bloco de notas para anotações breves. As entrevistas devem ser transcritas na íntegra, tal como foram expressas. As informações conseguidas permitiram compreender o fenómeno em estudo pela descrição e análise das narrações, orientadas pelo significado dos acontecimentos reais (Loo, Cooper, & Manochin, 2015). Importa referir que as narrativas não estão disponíveis para comprovação, ou seja, não podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas ou para discussão/debate das respostas e dificilmente podem ser generalizáveis pois visam a compreensão de um acontecimento ou experiência particular (Muylaert, Gallo, Neto, & Reis, 2014; Riessman, 2002), que diz respeito à vida e trajetória de cada vítima, desde a rutura com a situação de violência, à passagem ou não por uma Casa de Abrigo e a (re)construção de um novo projeto de vida. 3 Dificuldades na aplicação da metodologia Todas as entrevistas decorreram bastante bem, com as entrevistadas a ganharem confiança e a demonstrarem à vontade. Duas delas, no entanto, não quiseram começar a contar a sua história, preferindo que lhes fossem feitas perguntas. Nestes casos recorremos aos critérios elaborados, para conseguir que todos os tópicos fossem abordados de uma ou outra forma, mas mesmo assim, mostraram- se pouco à vontade, dando respostas sucintas, recusando- se a recordar e relatar certos episódios daquele período das suas vidas. Uma das entrevistadas mostrou- se de certa forma incomodada com a presença do gravador, mas uma vez desligado, começou por mencionar episódios interessantes e por isso nesta entrevista foram tiradas mais notas. Para além desta entrevista, nas restantes, não foram tomadas notas tão exaustivas, tendo- se optado por manter um contacto visual com as entrevistadas mais efetivo, porque embora muitas delas não olhassem diretamente para a entrevistadora havia uma ligação na escuta ativa e visual. Após as entrevistas, foram então feitas muitas notas sobre o ambiente, a postura das pessoas entrevistadas e os sentimentos expressos, ou seja, tudo o que não podia ser captado pela gravação, mas que foi observado durante a entrevista e nos permitiu uma melhor interpretação da subjetividade inerente a cada caso, tal como nos sugere Loo, Cooper, & Manochin (2015). 4 Análises Temática e Estrutural de enredos e atores Reconhecemos, na esteira de Riessman (2002) e de Wengraf & Chamberlayne (2006), que a transcrição das entrevistas é um processo de interpretação das informações obtidas, por isso, logo após a realização de cada entrevista e de elaborados os apontamentos necessários para complementar a 622

5 informação recolhida, procedeu- se à transcrição textual do que foi gravado no momento da entrevista, sendo fiel ao vocabulário e às expressões das entrevistadas. As entrevistas narrativas são compostas por informações dispersas, vagamente ordenadas ou estruturadas e difíceis de reter (Boutin, Goyette, & Lessard- Hébert, 1994: 118), deste modo, a análise vai permitir- nos organizá- las e atribuir- lhes significado. Riessman (2002) aponta quatro métodos para a análise de narrativas, nomeadamente: a análise temática, a análise estrutural, a análise dialógica/performativa e análise visual. Na nossa investigação o procedimento adotado foi a análise temática e a análise estrutural tendo em conta os enredos e atores. A análise temática é um método útil e flexível em investigações qualitativas que trabalha com o que foi dito (told) e não com a maneira de dizer (telling) (Zaccarelli & Godoy, 2013: 27). Este método analítico consiste na construção de um referencial de codificação, através do procedimento de redução do texto qualitativo até chegar às palavras- chave e, posteriormente, desenvolve- se um sistema de categorias em que os textos podem ser codificados. Esta metodologia permite reunir a informação necessária de forma esquemática e, deste modo, relacionar classes de acontecimentos ordenados (Coutinho, 2013). Segundo Braun & Clarke (2006), este tipo de análise não parte apenas dos dados das entrevistas, mas também de documentos de arquivo, da observação e de notas de campo. Na análise temática realizada no estudo aqui referido, seguimos as seis fases aconselhadas por estas duas autoras, começando por fazer várias leituras de todo o material reunido, para numa segunda fase criar um referencial de codificação. Os temas foram construídos para responderem à diversidade de códigos. Estas autoras aconselham uma orientação que também seguimos no sentido de nos envolvermos com a literatura antes de ir para o terreno, uma vez que descremos da ideia de que os temas emergem dos dados. Com alguns assim acontece, desde que estejamos com atenção a outros temas que não apenas os que presidiram à formulação dos próprios objetivos do estudo. Verificámos, com efeito, que as leituras feitas a priori nos permitiram ter mais conhecimento sobre a realidade em causa e facilitaram a realização das entrevistas narrativas, assim como nos permitiram a elaboração de categorias e de subcategorias. Após a elaboração do referencial de codificação, ou seja, a partir do todo narrativas, identificámos palavras- chave, que a posteriori transformámos em categorias de análise, que por sua vez foram divididas em subcategorias, para melhor facilitar a compreensão dos discursos dos dois grupos de mulheres entrevistadas. Quadro 2 Algumas das categorias e subcategorias criadas na pesquisa Categorias Estratégias de proteção adotadas pela própria vítima com o apoio da rede informal e formal Rutura com a situação de violência Tipos de apoio formal prestado às vítimas de violência nas relações de intimidade Individual Social Subcategorias Pedido de ajuda Situação de explosão Preparação da saída Tempo de espera Saída de casa Tempo de permanência Social Psicológico Material Jurídico Policial Financeiro 623

6 Tipos de apoio informal prestado às vítimas de violência nas relações de intimidade (Re)construção do projeto de vida através da capacitação Fonte: elaborado pelas autoras, com base em dados da pesquisa. Social Psicológico Material Financeiro Individual Profissional Social A análise estrutural das narrativas permitiu- nos refinar a análise, identificar locais estruturais pertinentes para a compreensão e interpretação dos conteúdos e dos sentidos expressos nos discursos das entrevistadas (Herz Peters & Truschkat, 2015). Segundo Barthes, compreender uma narrativa não é somente seguir o esvaziamento da história, é também reconhecer nela «estágios», projetar os encadeamentos, horizontais do «fio» narrativo sobre um eixo implicitamente vertical; ler (escutar) uma narrativa não é somente passar de uma palavra a outra, é também passar de um nível a outro (1981: 26-27). Para proceder a esta análise, o autor afirma que as narrativas têm diferentes níveis o das funções, das ações e da narração devendo a análise procurar na articulação destes diferentes níveis (de sequências, atores e argumentos) aceder à lógica interna da narrativa. A temporalidade passado, presente e futuro é também um aspeto a considerar na análise estrutural das narrativas, ao identificar aspetos cronológicos e aspetos não- cronológicos. Os aspetos cronológicos traduzem- se numa sucessão de episódios narrados que destacam atores, ações, contextos locais e temporais. Os aspetos não- cronológicos de uma narrativa correspondem a explicações dadas aos acontecimentos, dotados de sentido e significado. Para compreender a narrativa não se segue apenas a sequência cronológica dos eventos que são contados por quem narra, é também necessário reconhecer a sua dimensão não- cronológica expressa pelas funções e significados do enredo. O enredo é parte constituinte desta estrutura e a sua função é ligar episódios numa história coerente, bem como proporcionar o contexto em que a ação se desenvolve, os atores mencionados e os respetivos papéis (ações) desempenhados (Jovchelovit & Bauer, 2002). Tudo isto tendo em conta que os significados sobre o passado são construídos em função do presente e das expectativas para o futuro. A narrativa é organizada de acordo com uma sequência lógica e temporal de eventos. William Labov propôs que a narrativa seja analisada segundo uma estrutura de enredo que permita ordenar aquilo que nos parece estar desorganizado uma vez que os episódios não têm uma coerência lógica (as cited in Flannery, 2011), já que são narrados sem começos e fins precisos (Prokkola, 2014). Deste modo, Labov para dar sentido aos eventos da vida, delineou critérios sequencialmente ordenados: Quadro 3 Análise Estrutural das narrativas segundo os critérios de Labov Critérios de Labov 1) Exposição - início da história; - estabelece o contexto; - introduz os atores; - posiciona o/a observador/a; - estabelece pontos de vista. Excertos das transcrições das entrevistas Ent. 4 Mulher que passou por uma Casa de Abrigo Bem eu conheci o meu ex- marido na terra dele, que era a terra da minha mãe, hã começámos a namorar, juntámo- nos passados três meses, passados três meses tive a minha filha, engravidei hã depois tive um tempo com ele hã junta, depois quando a minha filha nasceu e teve um ano e meio Ent. 10 Mulher que não passou por uma Casa de Abrigo Casei- me com vinte e três anos ( ) um casamento não muito, mas foi um casamento já estava grávida do menino de vinte e quatro anos. Depois tivemos um casamento de quatro anos que ele bebia, era alcoólico ( ) e dava muitos ouvidos à mãe, só a mãe é que mandava, eu não prestava para nada. 624

7 2) Início do Conflito - identificação de crises e conflitos. 3) Ação Crescente - sucessão de acontecimentos seguintes; - dificuldades após o conflito. 4) Clímax - momento de maior tensão; - o conflito chega ao seu ponto máximo. 5) Ação Decrescente - efeitos dos acontecimentos. 6) Resolução - o incidente crítico dissolve- se; - o problema é solucionado 7) Desfecho - modo como se vai lidar com os acontecimentos; - conclusão da história. hã fizemos casamento e batizado, a gente casou- se por Igreja. ( ) e passado um mês de me ter casado já estava a apanhar. ( ) Hã continuei nessa situação durante quatro anos, hã ele batia- me por tudo e por nada, chegou a bater- me hã (...) Batia por bater! ( ) Hã ele chamava- me todos os nomes e mais algum, hã ( ) Hã depois pedi ajuda na escola da minha filha ( ). Hã cheguei à escola comecei a chorar e disse: sofro de violência doméstica e venho aqui falar porque eu já não aguento muito mais. Porque o meu marido o que me fez vir aqui falar foi uma frase que o meu ex- marido me disse: que com cocaína e heroína tínhamos a casa pronta num ano. E isso fez- me pensar no fim- de- semana muita coisa, e fez- me pensar vir aqui e pedir ajuda. Entretanto cheguei lá à escola e disse que sofria maus- tratos, violência doméstica e ele disseram que já sabiam, que não me tinham dito nada ainda porque queriam que fosse eu a dizer e através de uma assistente social que chamaram de lá da zona ( ) Mas ainda tive um tempo, mais um mês com o meu ex- marido sem ele saber de nada ( ). Ela [Assistente Social] disse que ia falar com uma Casa Abrigo, se Ah, ela perguntou- me: atão em vez de você ir pa uma Casa Abrigo como você quer ir, porque que é que não vai pa casa do seu pai e frequenta um psicólogo no hospital? E eu disse que não, que não estava em condições de ir pa casa do meu pai, preferia uma Casa Abrigo onde tivesse pessoas competentes pa prontos pa eu arrebitar. ( ) Hã vou tentar arranjar trabalho lá, já estou a fazer os currículos para enviar. Se arranjar trabalho lá, saio da casa do meu pai e vivo autónoma, sozinha. Tenho o meu trabalho, tenho a minha E depois veio aqueles casos de uma bofetada hoje, um empurrão amanhã e também me defendia. ( ) Chamava- me muitos nomes e doía, dizia coisas que não eram e doía. ( ) Houve uma ocasião que ele me aleijou bastante deu- me em cheio e eu estava assim bastante pisada e mostrei à polícia e a polícia disse: não podemos fazer nada, você não tem testemunhas, não tem nada. ( ) Não podemos fazer nada! Ele vinha pra me dar com o ferro e ele vai ( ) E eu não tenho mais nada disse: vou- te assustar! Mando prás telhas, assusto- te! Tu nunca mais me metes as mãos. Mas não assustei! Ele subiu eu tinha nove degraus e ele subiu três, ao mesmo tempo que ele subiu três eu apanhei- o. Depois chamei- o e ele já não me falou. Fui pôr a arma ao carro, embrulhei o menino num robe e fui entrega- lo à minha mãe, aos meus pais e disse pra eles tomarem conta do menino que eu não sabia quando é que vinha (Choro). ( ) E fui- me entregar! Quando cheguei lá à GNR eles viram e um senhor que era meu amigo disse assim: já fizeste asneiras! Entreguei- lhe a arma, nunca mais saí do domínio deles. Quatro anos! Ao fim de quatro anos não sei o que é que me deu. Sinceramente, não sei o que é que me deu se calhar já tinha o problema que tenho e os nervos. ( ) Fizeram- me fiz o que fiz! ( ) não sei o que me passou pela cabeça dei- lhe dois tiros. Fui parar à cadeia! ( ) Como foi em legítima defesa e como eu me entreguei, era de quinze a vinte e eu só levei catorze. Mudou a minha forma de ser! Mudou mudou porque cresci mais, tanto por dentro prontos. Aprendi muita coisa. Hã ( ) e a gente tanto se porta bem como se porta mal. Tanto estamos bem como há uma balburdia e a gente tem que 625

8 filha, tenho o meu companheiro, depois vou viver com ele. (...) Fonte: elaborado pelas autoras, com base em dados da pesquisa. se defender. Hã mas graças a Deus aguentei! Por o meu filho! É de salientar que nem todas as narrativas contêm estes critérios e podem ocorrer em sequências diferentes e a sua interpretação exige um processo complexo, mas que facilita a análise em termos estruturais (Riessman, 2002; Loo, Cooper, & Manochin, 2015). O quadro acima apresentado dá- nos uma perspetiva de como as entrevistadas nos foram descrevendo as suas trajetórias de vida, tendo a preocupação de começar as suas histórias a partir do momento em que conheceram os seus companheiros e como foi evoluindo a relação, passando, no entanto, logo para a situação de violência e para os fatores desencadeadores desta. Os atores envolvidos na ação devem também ser identificados na análise das narrativas (Pentland, 1999), uma vez que formam um plano de descrição necessário, fora do qual as «pequenas ações» narradas deixam de ser inteligíveis, de sorte que se pode bem dizer que não existe uma só narrativa no mundo sem «personagens», ou ao menos sem «agentes» (Propp as cited in Barthes, 1981: 43). Ou ainda como propôs Greimas, os atores devem ser vistos pela forma como atuam e não pelo que são (as cited in Barthes, 1981: 44). As entrevistadas referiram vários atores e as respetivas ações nos apoios que lhes deram ou não. A rede de apoio formal, após o pedido de ajuda da vítima, avalia a situação para perceber qual a melhor solução para o seu caso específico. As vítimas, que não têm uma rede de apoio informal que as possa ajudar a romper com a situação de violência, são encaminhadas para uma Casa de Abrigo, se esta for a sua vontade e se aceitarem as regras impostas para o bom funcionamento da instituição. Os apoios são providenciados a nível social, psicológico, material, jurídico, policial e financeiro. As narrativas dão- nos conta, porém, de que os apoios formais nunca ocorrem em exclusivo, e é por isso que nelas surgem também referências a familiares (pai, mãe, filhos/as, irmã e cunhada), que durante o processo de rompimento da relação e de reconstrução dos projetos de vida das entrevistadas as apoiaram a nível psicológico, material e financeiro. 5 Conclusões Esta metodologia de investigação qualitativa permitiu- nos compreender o fenómeno em estudo através das descrições e análises das narrativas das mulheres vítimas de violência nas relações de intimidade, orientadas pelo significado que detinham da experiência vivida. A metodologia seguida não foi vista apenas como um modo de transmitir conhecimento sobre uma realidade, mas também uma forma de construí- lo (Prokkola, 2014), uma vez que se obteve uma visão holística do fenómeno possibilitada pela integração das análises temática e estrutural. A complementaridade entre a categorização e a análise vertical de cada narrativa permitiu- nos fazer comparações e ter acesso a lógicas subjacentes aos processos de capacitação por parte da rede formal e informal para a (re)construção do projeto de vida, que era o objetivo do estudo. No decorrer da investigação verificámos vantagens, mas também desvantagens ao utilizar esta técnica de produção de informação. As vantagens prendem- se com o facto de esta metodologia poder ser aplicada a qualquer grupo de pessoas, de diferentes contextos, uma vez que a competência de contar histórias é universal (Bauer, 1996); as entrevistadas tiveram o tempo necessário para narrar as suas trajetórias de vida, sendo possível utilizarem a comunicação quotidiana e foi- lhes dadas a abertura para aprofundar certos acontecimentos da sua vida, com o intuito de melhor se compreender o seu ponto de vista. A partir da análise temática e estrutural enredos e atores podemos comparar 626

9 diferentes trajetórias de vida, tendo em conta sempre a individualidade de cada uma e o desenrolar dos acontecimentos e dos atores que as marcaram. Quanto às desvantagens das entrevistas narrativas, podemos apontar a morosidade do processo de seleção e análise da informação pertinente; a dificuldade de ganhar a confiança necessária para o desfiar das narrativas (subprodução) no curto espaço de tempo de uma entrevista, em especial quando se trata de temáticas de grande sensibilidade e verdadeiramente traumáticas, como é o caso da violência nas relações de intimidade, ou pode ocorrer o oposto, a entrevistada pode contar a sua história de forma compulsiva ou imaginativa, afastando- se dos factos reais (superprodução) (Jovchelovitch & Bauer, 2002); outro risco a que há que prestar atenção é o de ausência de questões que levam algumas pessoas entrevistadas a desviarem- se do objetivo da pesquisa. Todas estas dificuldades são atenuadas com o recurso a uma estratégia simultaneamente indutiva (a lógica subjacente à entrevista narrativa) e dedutiva (substanciada nas questões específicas da pesquisa), que obriga a introduzir questões que contemplem algumas palavras- chave, tal como sugerido por Witzel (2002). Neste tipo de entrevistas não- estruturadas, a correlação de forças está claramente do lado das pessoas entrevistadas que decidem que histórias querem contar, pelo que quem conduz as entrevistas terá que recorrer a uma escuta muito ativa e a questões ad- hoc, que ajudem à compreensão das narrativas e à comparabilidade dos dados. Donde concluímos que, apesar de reconhecermos o potencial das entrevistas narrativas, pelo facto de evitarem uma imposição da problemática por parte de quem conduz a investigação, é necessária a adoção de uma postura flexível, dado que, no caso de entrevistas incidentes sobre experiências traumáticas, como são as situações de violência sobre as mulheres em relações de intimidade, algumas das regras revelaram- se claramente irrealistas. Referências Barthes, R. (1981). Introdução à Análise Estrutural da Narrativa. In R. Barthes, A. J. Greimas, C. Bremond, H. Eco, J. Gritti, V. Morin, C. Metz, T. Todorov & G. Genette. Análise Estrutural da Narrativa (pp ). Petrópolis: Vozes. Bauer, M. W. (1996). The narrative interview Comments on a technique for qualitative data collection. LSE Methodology Institute Discussion Papers Qualitative Service. London School of Economics and Political Science Methodology Institute. Boutin, Gérald, Goyette, Gabriel & Lessard- Hébert, Michelle (1994) [1990]. Investigação qualitativa: fundamentos e práticas. Lisboa: Instituto Piaget. Braun, V. & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psyclology. Qualitative Reserach in Psychology, 3 (2), Coutinho, C. P. (2013). Metodologia de Investigação em Ciências Sociais e Humanas: Teoria e Prática. Coimbra: Almedina. Flannery, M. R. de S. (2011). Reflexões sobre as abordagens linguísticas para o estudo da narrativa oral. Letras de Hoje, 46 (1), Herz, Andreas; Peters, Luisa & Truschkat, Inga (2015). How to do qualitative structural analysis? The qualitative interpretation of network maps and narrative interviews [52 paragraphs]. Forum 627

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