PERFIL VOCAL DA PESSOA COM DISFONIA: ANÁLISE DO ÍNDICE DE DESVANTAGEM VOCAL.

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1 PERFIL VOCAL DA PESSOA COM DISFONIA: ANÁLISE DO ÍNDICE DE DESVANTAGEM VOCAL. Marina Bizigato Faculdade de Fonoaudiologia Centro de Ciências da Vida Iara Bittante de Oliveira Grupo de Pesquisa em Voz PUC-Campinas Centro de Ciências da Vida Resumo: Introdução: Pessoas com problemas de voz, freqüentemente referem limitações, dificuldades e até impedimentos de diferentes ordens, emocional, física, social ou profissional. Sendo assim os estudiosos da área de Voz em Fonoaudiologia vêm desenvolvendo protocolos com a finalidade de melhor compreender o impacto dos distúrbios de voz na qualidade de vida das pessoas disfônicas e normatizar a utilização destes para verificação da efetividade da terapia. Objetivo: Analisar e comparar os resultados de um Protocolo de Índice de Desvantagem Vocal IDV idealizado por Jacobson, Johnson Grywalski, Sibergleit, Jacobson, Benninger e Newman (1997) traduzido e adaptado por Behlau (2001) aplicado a pessoas disfônicas. Método: Foram estudados 16 indivíduos com distúrbios de voz, idades entre 17 e 71 anos, sendo 13 mulheres e três homens, participantes do projeto de pesquisa da orientadora deste estudo. As pessoas responderam a um protocolo validado, nomeado Protocolo de Índice de Desvantagem Vocal IDV, contendo 30 itens que buscam descrever o efeito que vozes alteradas podem acarretar na qualidade de vida de pessoas com disfonia. Os sujeitos assinalaram todas as afirmativas que no entender deles, traduzem suas dificuldades em enfrentar o dia a dia, tendo limitação de comunicação decorrente de seu distúrbio de voz. Resultados: os dados obtidos foram analisados e comparados qualitativa e quantitativamente intra instrumento e, ainda, com o Protocolo QVV Mensuração de Qualidade de Vida e Voz. Revelam que houve tendência a maior concentração de comprometimento da qualidade de vida no domínio físico, no caso do QVV e no domínio orgânico no caso do IDV. Conclusão: A melhor compreensão do impacto vocal na qualidade de vida pode ser obtida por meio da aplicação dos dois protocolos que tendem a se completar. Palavras-chave: Voz, Disfonia, Saúde Vocal. Área do Conhecimento: Saúde Fonoaudiologia. 1. INTRODUÇÃO O homem é um ser social e a comunicação é a grande responsável pela formação dos relacionamentos interpessoais (Kosama, Brasolotto, 2007). A fala e a voz são importantes para estabelecer o contato com o outro e com o mundo, por meio da exteriorização de sentimentos e pensamentos. A perda da voz, a rouquidão, ou até mesmo sintomas vocais de dor ao falar, garganta ardendo constantemente, etc. afligem as pessoas que tem problema de voz. Se pensarmos que a pessoa necessita da voz para viver e muitas vezes para trabalhar, podemos então, compreender o seu desespero (Oliveira, 1999). Por outro lado a auto-avaliação ou autopercepção vocal tem sido muito valorizada, pois tenta captar a percepção do paciente com relação a sua voz. Por ser uma medida subjetiva, é muito utilizada para realizar a comparação com as medidas objetivas realizadas durante a avaliação (Kasama e Brasolotto, 2007). A Fonoaudiologia, em sua área de especialidade de voz, vem desenvolvendo estudos no sentido de construir protocolos com o objetivo de medir o impacto dos problemas de voz nas pessoas. Neste sentido Jacobson, Johnson Grywalski, Sibergleit,Jacobson, Benninger e Newman (1997) idealizaram o Protocolo do Índice de Desvantagem Vocal IDV, adaptado por Behlau (2001), que vem sendo utilizado em vários países, cujos objetivos principais são compreender o impacto da disfonia na vida de uma pessoa e desenvolver a conscientização dos efeitos de um problema de voz verificando a efetividade do

2 tratamento realizado, quando aplicado ao início e término de um programa terapêutico. O protocolo em questão compõe três subescalas, a saber, domínios emocional, funcional e orgânico, abordadas. Sendo assim a proposta do estudo em questão é aplicar o Protocolo do Índice de Desvantagem Vocal IDV, em pessoas com disfonia em fila de espera, para atendimento na Clínica de Fonoaudiologia do Centro de Ciências da Vida da PUC Campinas, contribuindo para a composição de um perfil vocal destas. Existem dois protocolos principais para avaliação vocal, ambos desenvolvidos nos Estados Unidos, que foram elaborados especificamente para avaliar o impacto de uma alteração vocal na qualidade de vida dos indivíduos, chamados de VHI e VR-QOL (VHI Voice Handicap Index; VR-QOL Voice related Quality of life), traduzidos por nós para o português, com os títulos de IDV- Índice de Desvantagem Vocal e QVV- Protocolo de Qualidade de Vida e Voz (Behlau, 2001). A aplicação desses protocolos tem-se revelado muito importante, não somente para a compreensão do impacto da disfonia na vida do indivíduo, mas também para desenvolver a conscientização dos efeitos de um problema de voz e verificar a efetividade do tratamento realizado. A aplicação desses testes na sessão de anamnese e ao término do tratamento oferecem uma análise interessante da evolução do caso. O IDV é um protocolo maior, com 30 itens, e trabalha com três subescalas: domínio emocional, funcional e orgânico, cujos itens são identificados pelas correspondentes letras: E, F e O, no próprio questionário. Apesar de vários itens do IDV original terem sido eliminados, ainda assim o protocolo apresenta certa redundância ou sobreposição de situações pesquisadas. Os autores verificaram que é necessária uma mudança de 18 pontos ou mais no escore total entre duas aplicações do questionário, para garantir que os resultados no teste não são eventuais (Jacobson, Johnson, Grywalsky, Silbergleid, Jacobson, Beninger, Newman, 1997). Para Behlau 2001, o QVV é um protocolo minimalista, com apenas 10 itens, de dois domínios: sócio-emocional e físico, sendo um teste resumido e mais rápido. Um aspecto interessante abordado na descrição original deste teste foi a relação entre o grau de melhora vocal com o tratamento e os escores do questionário QVV (Hogikyan, Sethuraman, 1999). Os autores indicaram que incrementos de 15 a 20 pontos no QVV separam os graus de auto-avaliação vocal (de moderada a severa, por exemplo). Em algumas situações, pode ser interessante a aplicação dos dois protocolos para uma descrição melhor do impacto do problema de voz na qualidade de vida do paciente. O objetivo deste estudo foi avaliar por meio do Instrumento de Desvantagem Vocal (IDV) o impacto de um distúrbio vocal na qualidade de vida da pessoa disfônica, estabelecendose análises intra-instrumento, em suas três diferentes dimensões, estabelecendo comparações com o Protocolo de Qualidade de Vida e Voz (QVV), e ainda verificando-se como os sujeitos do grupo classificam suas vozes. 2. MÉTODO Sujeito: Fizeram parte deste estudo, 16 sujeitos, na faixa etária entre 35 e 74 anos, de ambos os sexos, os quais se encontravam em lista de espera para atendimento fonoaudiológico, na Clínica de Fonoaudiologia de uma faculdade de uma universidade particular da cidade de Campinas. Material e Procedimento: Foi aplicado o Protocolo do Índice de Desvantagem Vocal IDV, o qual é considerado como um instrumento importante para compreensão das repercussões dos distúrbios de voz na vida de uma pessoa, composto por 30 itens, que visam identificar o efeito que as vozes alteradas podem acarretar na qualidade de vida diária de pessoas com disfonia. Os sujeitos assinalaram todas as afirmativas que, no entender deles, se aplicavam ao seu problema de voz, ou mesmo, traduziam suas dificuldades em enfrentar o dia a dia, tendo uma limitação de comunicação decorrente de seu distúrbio de voz. O uso do instrumento IDV forneceu dados, de forma ampliada com maiores especificações quanto a domínios emocional,

3 funcional ou orgânico existentes em maior impacto da disfonia na vida do indivíduo. A partir da aplicação do IDV foram realizadas análises e feitas comparações com os resultados do Protocolo de Qualidade de Vida e Voz QVV, de Hogikyan, N.D.; Sethuraman, G. (1999), traduzido e adaptado por Behlau (2000), que foi aplicado pela orientadora, em seu estudo. Ressalta-se que o QVV é considerado como um protocolo minimalista que contém somente 10 questões, mas que possui, como ponto interessante a indicação pela pessoa disfônica de uma auto-classificação de sua voz. Desta forma, a literatura considera que tais protocolos não são excludentes entre si, ao contrário podem se complementar. Conforme afirma a tradutora de ambos os testes e, adaptadora destes para o Brasil, aplicar os dois protocolos poderá haver uma descrição melhor do impacto do problema de voz na qualidade de vida do paciente (Behlau, 2001). Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição sob o número Protocolo 546/06 e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e esclarecido. 3. RESULTADOS O grupo estudado foi composto por sujeitos participantes de um processo clínicoterapêutico da orientadora deste estudo. Compõem um grupo de 16 pessoas, entre 35 e 74 anos, sendo 13 mulheres e 3 homens. Todos os sujeitos apresentavam queixa vocal, sendo que quatro apresentaram diagnóstico de fenda glótica, três de edema de pregas vocais, dois com nódulos, um presbifonia, para quatro o exame foi dado como condições anatômicas dentro da normalidade com diagnóstico de disfonia funcional e dois sujeitos afirmaram terem buscado tratamento fonoaudiológico, por indicação otorrinolaringológica, mas não portavam laudo médico, nos momentos de avaliação. DOMÍNIOS FUNCIONAL, EMOCIONAL E ORGÂNICO Funcional Emocional Orgânico Gráfico 1 Demonstração dos resultados do IDV por Domínios Com base na análise dos resultados das respostas ao Protocolo de Índice de Desvantagem Vocal (IDV), apresentado no foi possível observar, como demonstrado no Gráfico 1, que as questões relacionadas ao domínio orgânico foram as mais apontadas pelo grupo, seguidas dos domínios emocional e funcional. Tabela 1 Protocolo de Índice de Desvantagem Vocal: Respostas dos Sujeitos Domínio Funcional Questões - Domínio Funcional Sujeitos F1 F3 F5 F6 F8 F11 F12 F16 F19 F22 N % 1 sim sim não sim não não não sim não sim não não não sim não não não sim não não não não não não não não sim não não não não sim não sim sim não não sim não não sim sim sim não não não sim sim não não sim sim não não não não sim sim não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim não sim sim não sim não sim não não não não sim não não não não não sim não não sim sim sim sim sim não sim não não sim não sim não não não não sim não não não sim sim não sim não sim sim não não não não não não não não não não não não não não não não não não não sim sim não não não sim não não sim não sim sim não não sim sim não não sim não sim não não não 4 40 totais

4 A Tabela 1 apresenta as respostas dos sujeitos com relação às 10 questões voltadas para o domínio funcional do IDV. É possível observar que as questões F1, F3, F12 e F16 foram as mais citadas, relacionadas às dificuldades de produção da voz relacionadas à dificuldade de compreensão, que os sujeitos relatam perceber em seus interlocutores. Nesse domínio a maioria dos sujeitos apresenta menos de 50% de respostas afirmativas, havendo somente dois sujeitos com número de queixas superior a metade das questões, com destaque ao sujeito de número 7, que afirmou ocorrer consigo todos os comportamentos investigados. A Tabela 2 apresenta o percentual de auto avaliação dos sujeitos, em que se observa que 25% avaliaram sua voz como boa e 75% dos sujeitos categorizaram suas vozes entre razoável e ruim. Tabela 2 Apresentação dos Resultados do QVV: percentuais e escores brutos Sujeitos Escore Bruto Domínio Físico Percentual - % Escore Bruto Domínio Emocional Percentual - % , , , , ,5 6 87, , , , , ,0 5 93, , , ,5 8 75, , , ,5 8 75, , , , , , , ,5 9 75, , , , ,8 total Conclusão A melhor compreensão do impacto vocal na qualidade de vida pode ser obtida por meio da aplicação dos dois protocolos que tendem a ser completar. P QVV embora reducionista, pode trazer informações sobre a qualidade de vida da pessoa disfônica e fornecer aspectos do funcionamento de tais limitações. O uso do IDV confirma a literatura de sua tendência à redundância, embora caso de estudos voltados a perfis, demonstra ser um instrumento relevante. REFERÊNCIAS Andrews, M. L. Manual of Voice Treatment, Pediatrics Through Geriatrics. San Diego, Singular Publishing Group, Amir, O.; Ashkenazi, O; Leibovitzh, T; Michael, O, Tavor, Y; Wolf M. Applying the Voice handicap Index (VHI) to Dysphonic and Nondysphonic Hebrew Speakers. Journal of Voice, 2006: vol. 20, Nº 2, pp Berhman, A. Common Practices of Voice Therapists in the Evaluation of Patients, Journal of Voice, Vol.19, No 3, 2005, pp Benninger, M.S.; Ahuja, A.S.; Gardner, G; Grywalski,C. Assessing Outcomes for Dysphonic Patients. Journal o f Voice, 1998: vol 12. Nº 4, pp

5 Behlau, M.(org). Voz, O Livro do Especialista. Rio de Janeiro, Revinter, Oliveira, I.B. Desempenho Vocal do Professor: avaliação multidimensional. Tese de Doutorado, Curso de Pós Graduação em Psicologia, Instituto de Psicologia e Fonoaudiologia, Pontifícia universidade Católica de Campinas, Oliveira, I.B. Avaliação Fonoaudiológica da Voz: reflexões sobre condutas, com enfoques à voz profissional, In Ferreira, L. P.; Befi - Lopes, D. M.; Limongi, S.C.O. Tratado de Fonoaudiologia, São Paulo, Roca, 2004,p Kosama, S.T. Brasolotto, A.G 2007.Percepção vocal e qualidade de vida Pró-fono. (Vol19. nº 1 jan/abri). Grillo, M.H.M.M; Penteado, R.Z. Impacto da voz na qualidade de vida de professores (a)s do ensino fundamental. Pró-fono. Barueri (SP), v.17, n.3, p , set.-dez.2005.

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