A LEI /03 E UMA PROPOSTA DE IMPLEMENTAÇÃO ATRAVÉS DA LITERATURA

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1 A LEI /03 E UMA PROPOSTA DE IMPLEMENTAÇÃO ATRAVÉS DA LITERATURA Gisele Ferreira da Silva 1 - INTRODUÇÃO Diante da complexidade de nossa história e sociedade, medidas e políticas afirmativas tornaram-se necessárias para atender a demanda característica da população negra brasileira. Diversas lacunas foram acumuladas no que tange ao conhecimento das diferentes populações que compuseram o Brasil. Deste modo, muitas medidas, leis e políticas públicas visam atender e preencher tais lacunas. O sujeito aprendente necessita se reconhecer neste processo educacional, uma vez que a primeira etapa da educação básica será o princípio da construção do alicerce de estudos do aluno. Sendo assim, políticas públicas de ações afirmativas são previstas para esta etapa de ensino e precisam ser aplicadas de forma ativa, de modo que as várias histórias, culturas, valores sejam reconhecidos numa escola multicultural conforme orienta os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997). De acordo com Piovesan (2008, p.01): (...) busca- se a transformação social, para que cada pessoa possa exercer suas potencialidades sem violência e discriminação, vendo no outro um ser merecedor de igual consideração e respeito, dotado do direito de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre autônoma e plena. Neste contexto, no ano de 2003 é promulgada a Lei que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) ao incluir como obrigatório nos currículos paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

2 escolares do Ensino Fundamental e Médio, Redes pública e privada, o ensino da História e Cultura Afrobrasileira, com destaque para as áreas de História, Literatura e Artes. Isto representa trabalhar na perspectiva de abranger outros conhecimentos e requer, portanto, uma desfamiliarização, ou seja, uma mudança na forma de analisar a realidade, propiciando novos pontos de vista. Decorre daí a espiral dos processos de conhecimento, um movimento que permite a convivência de novos e antigos conteúdos (conceitos, teorias). (SPINK e FREZZA, 2004, p. 10) A Lei se insere nesta nova construção ou a familiarização com questões raciais, formação da sociedade e problematização dessa temática. Trata-se de uma lei para ser trabalhada com todos e assim propiciar abertura para a discussão sobre o fenômeno do racismo e do preconceito na sociedade brasileira. Deste modo, o presente projeto caminha no sentido de buscar espaços nas disciplinas de Língua Portuguesa e de Literatura para contribuir com a temática afrobrasileira, entendendo o aprendizado de forma multidisciplinar. Assim, a proposta destina-se ao Ensino Fundamental, quinto ano de escolaridade. Sugere-se que o projeto aconteça numa duração de quatro semanas. 2 O PROJETO Objetivos: Contribuir com a implementação da Lei no campo da Literatura; Trabalhar aspectos relacionados à língua e seu contexto social na sociedade brasileira; Explorar questões relacionadas à escrita de biografia, diário e relatos de experiência; Promover a reflexão crítica, articulando o tema proposto com a realidade vivida socialmente pelos alunos (analisando semelhanças e diferenças); paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

3 Promover a reflexão sobre o fato de que todos nós podemos ser escritores em diferentes contextos de comunicação. 1ª Etapa: Leitura coletiva e individual do livro Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus (Trechos disponíveis no Site Literafro). Procedimentos: Exploração a partir da reflexão sobre os tipos de escrita possíveis encontrados no nosso cotidiano, uma vez que o trecho apresentado faz parte de um diário que posteriormente foi publicado como um livro; Abordagem destes aspectos para que os alunos opinem, tragam experiências ou situações semelhantes que possam conhecer; Exploração se a escrita de diários ainda é comum, fazendo conexões com a escrita no papel e a escrita nas ferramentas tecnológicas. 2ª Etapa: Promover debate na turma sobre a linguagem utilizada, o conteúdo lido, a vida da autora, tendo os seguintes procedimentos: Indagação se os estudantes a conheciam e apresentar a biografia de Carolina Maria de Jesus, abordando aspectos sobre por que alguns autores são mais conhecidos, valorizados e outros não; Identificação em sua escrita o contexto social, tempo, espaço, explorando se ainda há marcas do que ela descreve na atualidade; Exploração da condição de negra e favelada (como ela própria se descrevia) e com pouca escolarização, o que não a impediu de ser autora; Debate em grupo sobre as populações moradoras de favelas atualmente: ponto de vista dos alunos, perfil destes moradores, escolaridade, se são negros ou não, etc (conforme as demandas trazidas pela turma). paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

4 3ª Etapa: Escrita Escrita autobiográfica por cada aluno da turma, trabalhando sua identidade, formação enquanto pessoa, desejos, como se vê na questão racial na sociedade brasileira, mostrando que todos nós temos uma biografia em construção. As biografias poderão formar o livro da turma; Construção do diário da turma. Cada dia um aluno será o escritor, registrando como foi aquele dia na escola no aspecto que o aluno desejar destacar (aprendizado, vivências, amizades). Paralelos entre o diário de Carolina e o diário da turma. Aprofundando: Portal Literafro (UFMG). Fornece índice de autores afrobrasileiros, obras, vídeos, biografia. Apresenta informações sobre Carolina Maria de Jesus ampliando a temática; Site da Biblioteca Nacional. Em seu acervo online constam os manuscritos de Carolina Maria de Jesus (Caderno n o 11). Os alunos podem visualizar a escrita da autora e ter contato com a sugestão do acervo digital. 3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Destaca-se que não se objetiva privilegiar apenas uma visão do conhecimento, mas dar espaços a diferentes construções e vozes no processo educacional, sejam elas negras, brancas, indígenas, enfim, vozes de pessoas que compõem a história do Brasil. Muitos outros autores africanos e afrobrasileiros podem ser trabalhados na perspectiva de se abranger outros conhecimentos além do cânone tradicional. Além disso, é possível trazer à tona a integração com outras áreas do conhecimento e disciplinas. Em História, pode-se estudar comparativamente aspectos paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

5 da realidade e sociedade do estado do Brasil onde Carolina Maria de Jesus vivia, numa contextualização de tempo e espaço de acordo com a realidade social onde os alunos estão inseridos. Em Geografia recomenda-se buscar dados e mapas sobre a população moradora da favela, montando-se gráficos e tabelas o que já permite também uma ponte com a disciplina de Matemática. Na Língua Portuguesa, conforme foi exposto, trabalham-se aspectos relacionados à produção escrita, a autoria por parte do aluno, a necessidade de revisar o que se escreve para poder ser lido por outros. Deste modo, são apresentadas sugestões que serão enriquecidas de acordo com a realidade vivida por cada docente que aplique a proposta apresentada. paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

6 4 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Lei n o , de 9 de janeiro de Altera a Lei n o 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003, p. 01. Disponível em <: Acesso em: 12 dez Parâmetros Curriculares Nacionais: Pluralidade Cultural. Secretaria de Educação Fundamental, Brasília, JESUS, Maria Carolina de. Manuscrito, Caderno n o 11. Disponível em: <http: Acesso em 20/01/2015. LITERAFRO, Índice de Autores. Carolina Maria de Jesus. Disponível em: <http: Acesso em 15/01/2015. PIOVESAN, F. Ações Afirmativas no Brasil, Desafios e Perspectivas. [S.I.], Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.phpscript=sci_arttext&pid=s x &lang=pt>. Acesso em: 20 jan SPINK, M J P.; FREZZA, R M. (Edição Virtual 2013). Práticas Discursivas e Produção de Sentido: A perspectiva da psicologia social. In: SPINK, M. J. (Org.). Práticas Discursivas e Produção de Sentidos no Cotidiano: Aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

7 Gisele Ferreira da Silva Mestranda do Programa de Pós-graduação em Relações Etnicorraciais (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca CEFET RJ). Graduanda em Letras (Universidade Estácio de Sá- RJ). Possui graduação em Normal Superior pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ). Especialista em Psicopedagogia Institucional e Orientação Educacional/ Pedagógica (Universidade Cândido Mendes). Possui experiência na área de Educação, em diferentes atuações. Atualmente é professora regente concursada - Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, atuando na Educação de Jovens e Adultos. paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 5 nº

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