A educadora avalia a formação de nossos professores para o ensino da Matemática e os caminhos para trabalhar a disciplina na Educação Infantil.

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1 Matemática na Educação Infantil: é possível A educadora avalia a formação de nossos professores para o ensino da Matemática e os caminhos para trabalhar a disciplina na Educação Infantil. Nas avaliações oficiais a Matemática é a disciplina que apresenta os mais baixos indicadores de aproveitamento pelos alunos, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio. Entretanto, pesquisas em Educação e Educação Matemática têm sinalizado que as crianças pequenas têm condições de desenvolver diferentes processos do pensamento matemático. Elas realizam processos de contagem interessantes, fazem inferências, buscam resolver problemas com base em estratégias não convencionais, observam e descrevem formas, estabelecem formas de comunicação das mais variadas, dentre outros processos. O trecho faz parte da apresentação do livro Matemática e Educação Infantil Investigações e possibilidade de práticas pedagógicas, lançamento da Editora Vozes, organizado por Mercedes Carvalho e Marcelo Almeida Bairral. Mercedes é doutora em Educação Matemática e mestra em Educação: Currículo pela PUC-SP, além de professora-adjunta II da Universidade Federal de Alagoas e líder do Grupo de Pesquisa em Educação Matemática (Gpem). Nesta entrevista à Direcional Educador, ela avalia justamente o trabalho matemático com crianças pequenas e a necessária formação dos professores que atuam nesse segmento da educação. A educadora frisa que alguns professores demonstram resistência em trabalhar com problemas matemáticos com crianças da Educação Infantil por elas não estarem ainda alfabetizadas e não conseguirem ler os enunciados dos problemas. Propor problemas matemáticos favorece o processo de contagem e o desenvolvimento do raciocínio matemático. Não há motivos para que as crianças primeiro aprendam a ler, a escrever e as operações aritméticas, para depois resolverem problemas matemáticos. Quanto mais problemas elas resolverem, maior será a possibilidade de compreensão dos conceitos matemáticos, afirma Mercedes no livro. Acompanhe a seguir as ideias de Mercedes Carvalho. 1 / 6

2 DIRECIONAL EDUCADOR - Como professora universitária, como a senhora percebe as principais carências na formação de professores em relação ao ensino da Matemática, especialmente para a Educação Infantil? MERCEDES CARVALHO - O que venho percebendo é que os alunos que ingressam no curso de Pedagogia, mesmo que durante o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio tenham estudado matemática com um professor licenciado em Matemática, apresentam fragilidade em seus conhecimentos elementares acerca dos conteúdos matemáticos. Um exemplo: quando desenvolvo o conceito de multiplicação nas minhas aulas do curso de Pedagogia, apresento atividades acerca do pensamento combinatório (combinar roupinhas, brinquedos, calcular quantas combinações diferentes podem fazer, etc.) trabalhados na Educação Infantil pois a combinação é uma das ideias da multiplicação. Entretanto, a maioria dos alunos, futuros pedagogos, não relaciona o conteúdo matemático combinação com o conteúdo probabilidades, tal como eles estudaram no Ensino Médio. Há relação entre alfabetização e ensino da Matemática? Sim, inclusive há estudos sobre a alfabetização matemática, porém não são muitos. Há pesquisadores que utilizam o termo numeramento e outros alfabetização matemática, pessoalmente prefiro alfabetização matemática porque considero mais abrangente. Entendo alfabetização matemática como um processo em que vamos nos apropriando dos conceitos aritméticos, geométricos, algébricos ao longo de nossa escolarização básica e o termo numeramento nos dá a ideia de se trabalhar apenas com os números. Como é possível perceber essa questão é uma discussão que também permeia as pesquisas sobre alfabetização e letramento. Entretanto, aprender sobre os números é mais complexo porque para as crianças ao se apropriarem dos números deverão entender a regularidade do Sistema de Numeração Decimal, mesmo que trabalhem somente com 10 símbolos enquanto que com o alfabeto trabalham com 27 símbolos. Vejamos: o primeiro conjunto numérico com o qual as crianças irão trabalhar é o conjunto dos Números Naturais, que são positivos e só resolvem os problemas que envolvem contagem de objetos discretos. O SND tem implícita a operação de adição +1 (1 + 1 = 2, = 3, = 4...) e a operação de multiplicação (1 unidade x 10 unidades = 10 unidades que é igual a 1 dezena, 10 unidades x 10 unidades = 100 unidades que é igual a 10 dezenas ou 1 centena) o que implica nos valores absolutos e relativos dos números naturais, ou seja, 123 é diferente de 312, que é diferente de 132, 231, 213. Já o alfabeto tem 27 letras que compõem as sílabas, as palavras, as frases, os textos, mas o som da vogal a, por exemplo, é sempre o mesmo, independente da consoante que compõe a sílaba. Porém, as crianças podem se apropriar do código numérico e alfabético, concomitantemente, inclusive a resolução de problemas favorece aos alunos desenvolverem a leitura, a escrita e o pensamento matemático, já que os enunciados de problemas são um tipo de texto e é comum as crianças durante seu processo de alfabetização misturarem números e 2 / 6

3 letras em seus registros. A senhora considera que há uma prevalência da preocupação com a alfabetização, muitas vezes precoce, e do trabalho com a linguagem escrita em detrimento do ensino da Matemática, na Educação Infantil? Considero que há prevalência na alfabetização. Porém, não considero que seja precoce pois as crianças de hoje pertencem a uma realidade muito diferente da época dos seus pais e de seus professores. Elas estão expostas a inúmeras situações em que decifram certos códigos com mais facilidade. Ainda há no imaginário dos professores que se o aluno não estiver alfabetizado, não saberá resolver problemas ou trabalhar com a localização, com a linha do tempo ou fazer uma experiência. Em outras palavras, primeiro alfabetizar e depois trabalhar outras áreas do conhecimento. Infelizmente ainda há prevalência da alfabetização em detrimento de outras áreas do conhecimento e assim a alfabetização se torna cansativa e pouco desafiante para as crianças. Sabemos que há diferentes tipos de textos, como: enunciados de problemas, informações de localização, receita de um bolo, contidos em diferentes portadores textuais com os quais as crianças podem entrar em contato e, consequentemente, favorecer seu processo de leitura e escrita. Por que para os professores da Educação Infantil é difícil trabalhar com problemas com suas crianças pequenas? Justamente porque os professores pensam que se a criança não souber ler não vai entender o enunciado e se não entender enunciado não vai saber resolver o problema. Devemos considerar que o enunciado do problema é um tipo de texto e para tanto deve ser interpretado. Em meus livros trabalho várias estratégias de resolução de problemas e em uma delas o enunciado do problema é um recurso para a construção de um texto que propicia os processos de leitura, escrita e interpretação dos enunciados dos problemas matemáticos. Em crianças não alfabetizadas como é feito o trabalho de registro da resolução de problemas? É feito por meio dos desenhos, o que chamamos de registros iconográficos. É a forma como as crianças elaboram os registros de suas soluções para os problemas que lhes são 3 / 6

4 apresentados. No meu livro Números conceitos e atividades, explico o trabalho de Hughes (1986) sobre os registros de crianças de 3 a 7 anos sobre as quantidades entre 1 e 9 elementos que ele classificou em quatro fases. Esse trabalho ajuda a entender os registros das crianças para os problemas matemáticos. Crianças muito pequenas tendem a fazer rabiscos para resolver o problema e geralmente somente elas entendem a solução. O professor costuma perguntar como a criança resolveu o problema e escrevem a solução dada por ela. Em uma segunda fase, o desenho da criança vai ficando mais sofisticado e ela costuma representar com bolinhas e/ou quadradinhos as quantidades presentes no enunciado e, via de regra, consegue escrever a quantidade correspondente. Quando seu processo de leitura e escrita dos números está mais elaborado, ela muitas vezes utiliza símbolos como risquinhos para representar as quantidades, porém, já está registrando operações simples até que abandone os desenhos e consiga registrar as soluções por meio dos algoritmos. A partir de que idade as crianças podem e devem aprender a contar? Penso que não há uma idade definida em que se aprende a contar, porém alguns professores entendem que se seus alunos falam a sequência numérica corretamente eles sabem contar, o que pode não ser verdadeiro. O processo de contagem implica em adicionar 1, +1 (iteração de um) e fazer a correspondência termo a termo, cada objeto contado corresponde a uma palavra número. É uma aprendizagem que demanda tempo para a criança compreender. Via de regra, são privilegiadas atividades em que se desenvolve a função ordinal do número em detrimento da função cardinal. Em consequência elas aprendem a recitar a sequência numérica, criando-se a ilusão que elas sabem contar. Aprender a contar é importante para a criança compreender o conceito de adição, favorecer a compreensão da iteração de 1 (+ 1), das ordens numéricas (centena, dezena, unidade) e das classes numéricas (simples, milhar, milhão...). Compreender essas regularidades é fundamental para que as crianças realizem as operações aritméticas nos anos posteriores. Como utilizar os jogos e as brincadeiras no ensino da Matemática na Educação Infantil? Pode dar alguns exemplos? Jogos e brincadeiras podem ser usados para desenvolver qualquer área do conhecimento. Há uma corrente de pesquisadores que advogam que as brincadeiras e os jogos devem acontecer na escola sem a preocupação de ensinar outra área do conhecimento. Penso que há momentos em que as crianças devem se reunir para brincar e jogar simplesmente pelo prazer de brincar e jogar e há outros momentos em que as brincadeiras e jogos podem favorecer o conhecimento matemático. Um exemplo: se o professor está desenvolvendo conteúdo numérico, ele pode propor às crianças jogos que envolvam a contagem dos pontos (quantos 4 / 6

5 pontos cada um fez, quem fez mais ou menos, qual a diferença...), se estiver trabalhando geometria, ele pode trabalhar com movimento e sombras (como é a forma da sombra? Muda o seu tamanho?...). Neste exemplo essa brincadeira trabalha com conceitos como: posição, tempo, forma, referencial, projeção (Bairral, 2012). São muitas as possibilidades existentes e por isso o professor precisa planejar suas aulas para ter claro quais são seus objetivos com determinados jogos e brincadeiras. Da mesma forma, a literatura infantil pode ser utilizada com objetivos matemáticos? A literatura infantil pode contribuir para o trabalho de resolução de problemas, porém se deve tomar cuidado para não matematizar a literatura infantil. Regina Grando e Kátia Moreira apresentam no livro Matemática e Educação Infantil um capítulo em que desenvolveram uma pesquisa trabalhando com literatura infantil e gibis. Por meio da leitura das histórias infantis elas criaram um ambiente propício para que as crianças possam resolver os problemas presentes nas histórias narradas. Num primeiro momento, as crianças conversaram sobre as várias possibilidades de resolver o problema e ao término da atividade elas fazem o registro da solução que apresentaram para o problema. Esse diálogo é importante para que as crianças observem que um mesmo problema pode ter várias soluções, porém, nem todas são adequadas. Nesse tipo de atividade, as crianças desenvolvem a linguagem e, também, o raciocínio matemático. É possível trabalhar com o pensamento geométrico na Educação Infantil? Sim, podemos trabalhar o pensamento geométrico nesse segmento educacional. Marcelo Bairral, em seu texto O desenvolvimento do pensamento geométrico na Educação Infantil algumas perspectivas curriculares, comenta que o estudo sobre geometria no currículo brasileiro enfatiza a geometria espacial com atividades que privilegiam três tipos de espaço: o topológico (noções de interior/exterior), o projetivo (no qual as propriedades e os elementos variantes são considerados) e o euclidiano (atenção à métrica). Segundo o autor, tais atividades contemplam um espaço manuseado e controlável e, atualmente, há uma corrente que defende o trabalho com geometria com noções de orientação e localização, que favorece, entre outros aspectos, o desenvolvimento da orientação no espaço em três dimensões: 1) a possibilidade de estabelecer e comunicar as relações espaciais entre os objetos, 2) realizar explorações qualitativas entre formas variadas de objetos, 3) aprimorar o senso da medida. Para o pesquisador trabalhar a geometria nessa perspectiva oferece para a criança a possibilidade de trabalhar a matemática escolar em conjunto com o mundo real. 5 / 6

6 Por Luiza Oliva Contatos com Mercedes Carvalho: LEGENDAS: A resolução de problemas favorece aos alunos desenvolverem a leitura, a escrita e o pensamento matemático, já que os enunciados são um tipo de texto. A literatura infantil pode contribuir para o trabalho de resolução de problemas, porém se deve tomar cuidado para não matematizar a literatura infantil. 6 / 6

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