Professora Sandra Bozza, você é a favor da alfabetização através do método fônico?

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1 Professora Sandra Bozza, você é a favor da alfabetização através do método fônico? Não! A concepção de linguagem na qual acredito é a que tem como pressuposto que a linguagem (tanto oral, quanto escrita) é uma forma de interação humana e como tal deve ser ensinada. Dizendo de outra forma: creio que se deve ensinar a ler e a escrever lendo, escrevendo e pensando sobre questões fundamentais da língua escrita. As questões às quais me refiro são três: a) o que é a escrita (é um sistema de representação de segunda ordem, pois já representa outra forma de representação que é a fala)? b) qual sua importância (é através dela que todo conhecimento humano foi registrado, tem o poder de superar o tempo e o espaço e é uma forma de um número maior de pessoas terem acesso às nossas idéias e sentimentos) c) como a escrita se organiza (seus conteúdos socialmente convencionados) Para que isso aconteça em sala de aula, fica muito limitante e superficial iniciar-se o processo de aquisição da escrita pela menor unidade que compõem a língua escrita: o som! Justamente o que tem menor valor de comunicação e menos prestígio social. Afinal, na relação cotidiana entre os homens o que é utilizado são enunciados carregados de significação e intencionalidade e dificilmente percebem-se nessas relações societárias sons isolados, onomatopéias ou ruídos enfatizando determinado fonema. Defendo o princípio de se iniciar o processo de alfabetização pelo texto porque somente neste há possibilidades de se estudar, concomitantemente, a relação código x significado. Todavia há outra contundente razão para que se inicie esse complexo processo pelo texto: para bem alfabetizar é necessário que se demonstre, o tempo todo, para a criança, que tudo o que se fala pode ser escrito e que tudo está escrito pode se transformado em fala. A consolidação desse conceito linguístico (relação entre oralidade x escrita) não pode ser trabalhado através do método fônico. Por outro lado, há que se entender que apenas o trabalho com o texto não dará subsídios para a criança compreender as relações grafema-fonema (letra-som). Assim, depois de se refletir sobre os conteúdos utilizados para produzir o texto (lúdico, informativo, narrativo, poético), é necessário concluir o estudo de cada texto com o trabalho para a aquisição da consciência fonológica, que é defendido no método fônico. Para clarificar o que foi exposto, segue um exemplo da abordagem aqui defendida.

2 (Sandra Bozza - faixa 7) I) IV) NÃO SEJA BOCÓ, TEM NO POMAR E NO MEU PALETÓ? POIS NÃO SOU BOCÓ UMA MANGA É FRUTA E HÁ DUAS NO PALETÓ. II) V) NÃO SEJA CARETA, ESTÁ NAS PAREDES E EM SUA CANETA? III) NÃO SEJA BOBÃO, TEM NO JARDIM E CABE NA MINHA MÃO? POIS NÃO SOU CARETA, O PINTOR USA TINTA DIFERENTE DA CANETA. VI) POIS NÃO SOU BOBÃO, FLOR E CAMISA: AS DUAS TÊM BOTÃO 1) Encaminhe a discussão sobre o gênero, muito comum em algumas regiões do Brasil, e seus produtores, os repentistas. 2) Apresente o texto escrito, lendo com ritmo e fluência, enfatizando a entonação adequada de pergunta e resposta. 3) Através de várias leituras coletivas, divida a classe em dois grupos e estimule a leitura dialogada: um grupo pergunta e o outro responde. 4) Discuta o que poderiam significar as palavras BOCÓ, CARETA e BOBÃO?

3 5) Levante outras palavras ou expressões que poderiam ser utilizadas para dizer a mesma coisa? 6) Entregue o texto impresso para as crianças refletirem sobre alguns aspectos estruturais do texto, como: contar o número de estrofes; identificar a estrofe resposta; contar o número de versos; envolver as palavras que rimam; colorir de uma só cor os sinais que estão nos finais de cada verso; destacar os sinais que estão sobre as palavras 7) Depois de possibilitada esta intimidade com o texto, proceda à mais uma leitura apontada, para que os alunos se localizem no texto. 8) Sugira a pintura dos 3 primeiros versos das estrofes da coluna esquerda do texto (). 9) Depois de refletir sobre a repetição do verso, induza os alunos a lerem em voz alta os versos que pintaram. 10) Auxilie-os a escreverem o que falaram. 11) Proponha, agora, a troca de cor do lápis para que sejam pintados os primeiros versos das três estrofes da direita do texto. 12) Encaminhe a leitura em voz alta e o registro do que foi lido (falado). 13) Encaminhe a comparação entre os versos e a contagem do número de palavras de cada verso. 14) Proponha o registro desse número no final de cada um. 15) Encaminhe a leitura e a escrita na menor palavra dos versos estudados. EU

4 B) ANÁLISE DAS RELAÇÕES (grafema/fonema) NO INTERIOR DA PALAVRA As atividades a seguir se propõem a refletir sobre as questões ortográficas da Língua Portuguesa, trabalhando a CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA sempre com o auxílio de referenciais significativos para o aluno: rótulos, nomes e palavras já contextualizadas. Dessa forma, completa-se a análise e as possíveis relações em todas as instâncias da língua oral e escrita: o texto com função social, os conteúdos de Língua Portuguesa, o nome das crianças, o nome da letra, o som que ela pode representar naquele contexto e o alfabeto. 2) Proceda à reflexão sobre a palavra repetida nos versos lidos e escritos. DEPRESSA 3) Após comparação, proponha o destaque das letras diferentes utilizadas para escrever as palavras: R E S P O N D A R E S P O N D O 4) Escrevendo seu nome no quadro (ou de alguma criança), reflita com os alunos sobre o fato de as letras A ou O também fazerem parte daquela palavra. B Á R B A R A R O G É R I O 5) Através de nova leitura, saliente que na letra da música aparecem quatro palavras que terminam com ÃO. Auxilie a localização e o registro dessas palavras. 6) Encaminhe a cópia das mesmas e enfatize os segmentos responsáveis pelas rimas:

5 BOBÃO NÃO BOTÃO MÃO 7) Proponha um jogo com algumas palavras do texto: Vamos brincar de BOCÓ, CARETA ou BOBÃO? REGRAS DO JOGO PARA O PROFESSOR o Coloque as crianças sentadas em círculo. o Mostre 3 cartões com as palavras BOCÓ, CARETA e BOBÃO escritas e auxilie os alunos a reconhecerem-nas. o Com o auxílio de uma bola, desafie o aluno que pegar a bola a pronunciar uma rima para a palavra escrita no cartão exibido. o Troque de cartão sempre que houver muita demora na resposta. o Incentive a turma auxiliar o companheiro só depois dele se esforçar para dar a resposta. 8) Auxilie o registro das palavras faladas no momento do jogo. BOCÓ CARETA BOBÃO CIPÓ VARETA FOGÃO MACEIÓ CHUPETA SABÃO POCOTÓ MAÇANETA LOBÃO

6 9) Depois de leitura e reflexão sobre as rimas do quadro acima, comente sobre o que ocorreu com o final das palavras faladas e escritas? 10) Encaminhe a cópia das palavras que rimam, na letra da música. 11) Auxilie a observação e o destaque do que há de diferente na escrita das palavras: C A N E T A B O B Ã O C A R E T A B O T Ã O 12) Com o alfabeto móvel, demonstre a possibilidade da formação de novas palavras com a substituição da terceira letra das palavras, sempre desafiando os alunos com referenciais já contextualizados. CA ETA BO ÃO 13) Desafie os alunos a lerem e a ilustrarem as palavras do quadro a seguir: CAPETA BOCÃO CARRETA BORRÃO

7 14) Organize a classe em grupos para que haja um desafio através da leitura com entonação adequada. NÃO SEJA BOBÃO, TEM NO JARDIM E CABE NA MINHA MÃO? POIS NÃO SOU BOBÃO, FLOR E CAMISA: AS DUAS TÊM BOTÃO. 15) Encaminhe a representação das estrofes por meio de desenhos.

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