ANÁLISE DE INDICADORES SOCIOECONÔMICOS NO TERRITÓRIO DE IDENTIDADE RECÔNCAVO, ESTADO DA BAHIA: O GEOPROCESSAMENTO APLICADO AO PLANEJAMENTO TERRITORIAL

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1 ANÁLISE DE INDICADORES SOCIOECONÔMICOS NO TERRITÓRIO DE IDENTIDADE RECÔNCAVO, ESTADO DA BAHIA: O GEOPROCESSAMENTO APLICADO AO PLANEJAMENTO TERRITORIAL Israel de Oliveira Junior 1 ; Diego Rebouças Costa 2 1 Geógrafo, professor auxiliar do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF), Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), 1 Graduando em Geografia, DCHF, UEFS, RESUMO: Por meio deste estudo objetivou-se aplicar técnicas de geoprocessamento na análise de indicadores socioeconômicos no contexto do território de identidade do Recôncavo, para subsidiar as discussões sobre as contradições espaciais baianas e as referentes ao planejamento territorial. Construiu-se um referencial teórico sobre indicadores sociais, planejamento territorial, geoprocessamento, nas circunstâncias da Bahia. Elaborou-se um banco de dados SIG para a inclusão de informações espaciais georreferenciadas, no intuito de aplicar e espacializar os indicadores socioeconômicos, como população absoluta, PIB, PIB per capita, IDH e alfabetização. As classes dos mapas foram definidas pela técnica de quebras naturais, as quais possibilitaram analisar as contradições sociais e econômicas entre os municípios do território. A aplicação dos indicadores por meio das técnicas de geoprocessamento possibilitou averiguar as discrepâncias entre os dados econômicos e sociais entre os municípios do Recôncavo, pois existem aqueles que se posicionam com altos índices econômicos e sociais e outros, entre os menores da Bahia. Há diversas situações contraditórias, que demonstram que o progresso econômico não é acompanhado por desenvolvimento social, como foi o caso de São Francisco do Conde, que possui o alto PIB per capita, mas tem um baixo IDH. PALAVRAS-CHAVE: SIG, contradições socioeconômicas, desigualdades municipais. INTRODUÇÃO: A definição da regionalização território de identidade adotado pelo governo do estado da Bahia no âmbito do Plano Plurianual PPA (BAHIA, 2007, 2011) assimila, teoricamente, princípios básicos da democratização de políticas públicas, como a proposta de descentralização das decisões, da regionalização das ações e da corresponsabilidade na aplicação de recursos, além da execução e avaliação de projetos. Entretanto, passado quase oito anos da configuração regional território de identidade há indícios de permanência das contradições espaciais estaduais. Com isso, por meio deste estudo buscou-se utilizar o Geoprocessamento para aplicar e analisar os indicadores socioeconômicos e diagnosticar os problemas espaciais no contexto baiano do território de identidade Recôncavo e delinear caminhos para o planejamento. O território de identidade Recôncavo localiza-se em torno da Baía de Todos os Santos, estado da Bahia (Figura 1), é integrado por 19 municípios, com uma área de 5,2 mil km 2 e possui uma população de habitantes (IBGE, 2010b). Os municípios do Recôncavo representam uma região marcada por grandes diferenças espaciais desde o início da colonização, apresentando-se com intensa complementaridade econômica e continuidade cultural, resultantes dos efeitos da história colonial que lhe conferem características peculiares e complexas. O território de identidade Recôncavo foi de fundamental importância para a formação e consolidação da economia da Bahia desde o ciclo do pau-brasil até o do petróleo, o que acarretou em impactos nos diversos momentos da urbanização e industrialização baiana, com alterações nas redes integradoras estaduais e nacionais (BOMFIM, 2006). Apesar de estar localizada na região a maior parte do capital formado na Bahia durante os últimos 50 anos, o território de identidade Recôncavo é majoritariamente um bolsão de estagnação econômica, profunda desigualdade e pobreza crítica (BOMFIM, 2006). 63

2 Figura 1 Localização da área de estudo polo regional de Guanambi, estado da Bahia-Brasil MATERIAL E MÉTODOS: A definição do geoprocessamento aponta para o papel dele nas pesquisas geográficas, pois possibilita a produção de informações espacializadas, em função dos métodos, técnicas, conceitos, dados e análises. Para o desenvolvimento deste estudo, buscou-se construir um referencial teórico sobre indicadores sociais (IBGE, 2010c; JANNUZZI, 2001, 2005; MILLÉO, 2005), planejamento territorial (BAHIA, 2007, 2011; BRITO, 2008; BOMFIM, 2006; SILVA; SILVA, 2006), geoprocessamento (LANG; BLASCHKE, 2009; LOBÃO; SILVA, 2013; LONGLLEY et al., 2013; SILVA, 2007) no contexto do estado da Bahia. Concomitantemente, selecionou-se dados e informações sociais para a construção de um banco de dados em ambiente Sistema de Informações Geográfico (SIG), no intuito de aplicar os indicadores sociais. Os principais dados constituíram em formatos vetoriais (shapefile) e alfanuméricos, referentes à demografia, produto interno bruto (PIB), alfabetização (IBGE, 2010b), Índice de desenvolvimento humano IDH (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2013) e limite político administrativo municipal (IBGE, 2010a). A partir da integração dos dados no SIG, espacializou-se as informações e classificou os mapas com a técnica de quebras naturais, em função de essas diminuírem a variância intra-classes e maximizar a variância entre as classes. Com a construção e finalização dos mapas, analisou-se as informações para reconhecer os impactos das políticas de planejamento territorial baianas no contexto do território de identidade Recôncavo. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Os municípios do território de identidade do Recôncavo com o maior contingente populacional são Santo Antônio de Jesus ( habitantes), Cruz das Almas ( habitantes) e Santo Amaro ( habitantes); os demais municípios possuem população inferior a 43 mil habitantes. A densidade demográfica de grande parte dos municípios é alta, 64

3 destacando-se Cruz das Almas (402,11 hab/km2), Santo Antônio de Jesus (348,21 hab/km 2 ) e Muritiba (323,61 hab/km 2 ); em uma situação oposta têm-se Castro Alves (35,70 hab/km 2 ) e Dom Macêdo Costa (40,16 hab/km 2 ) Figura 2. A taxa populacional entre os 18 e 39 anos dos municípios do território encontra-se acima dos 35%; superior aos 41% é localizada em São Félix, São Francisco do Conde e Santo Antônio de Jesus. Identificou-se que, na região, Cachoeira, Cruz das Almas, Maragogipe, Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, São Francisco do Conde e São Sebastião do Passé possuem o maior número de habitantes entre 18 e 39 anos, nos quais totalizam pessoas nessa faixa etária (Figura 2). No Brasil, a industrialização nacional resultou a partir da aglomeração polarizada (SILVA; SILVA, 2006) o que marcou uma nova divisão territorial do trabalho e redefiniu as relações de poder estabelecidas, em função das necessidades industriais de minérios e petrolíferas. Esse foi o momento que se observou uma maior instalação dos complexos industriais em diversas regiões do país e na Bahia a industrialização alterou profundamente a configuração espacial no Recôncavo, criando uma zona de concentração polarizada de um lado e zonas marginalizadas e atrasadas do outro lado. Nesse momento, inaugurou-se um padrão de organização socioespacial no conjunto Salvador e Recôncavo com o engajamento de trabalhadores no setor formal e no informal, criando também uma contradição entre a modernização emergente Salvador e São Francisco do Conde e a estagnação econômica no restante dos municípios do Recôncavo (BOMFIM, 2006). Alguns municípios de relevância históricocultural, tais como Cachoeira, Santo Amaro, Maragogipe configuram-se com sinais de degradação e estagnação econômicas, pois constituíram áreas de deficiência nos fluxos econômicos e de menos valorização, fatores observáveis nos dados do PIB (Figura 2). Houve uma melhoria em relação ao sistema de transporte rodoviário aproximando as cidades do Recôncavo do mercado de Salvador, mas, inicialmente, para privilegiar os interesses da Petrobras (BRITO, 2008). Tal aproximação tornou os municípios do território mais vulneráveis, assim como o alto contingente populacional de 18 a 39 anos, às variações de emprego, principalmente no agravamento do subemprego rural. Esse fato comprovou a existência das contradições regionais na Bahia, com a crescente modernização de Salvador e uns poucos municípios, em detrimento de outras regiões; os municípios do Recôncavo que possuem economia estática sofrem os efeitos negativos da diminuição de atividades econômicas expressos nos dados do PIB (Figura 2). A melhoria no setor de transporte é notada a partir da década de 1950 com algumas rodovias estaduais sendo asfaltadas com recursos da Petrobrás, por meio do programa de financiamento rodoviário estadual, aplicado para a execução de abertura de estradas (BOMFIM, 2006; BRITO, 2008). Entre as décadas de 1950 e 1970 foram asfaltadas estradas de acesso aos campos de petróleo em várias partes do Recôncavo, ligando-as ao município de Salvador (BRITO, 2008). Dessa maneira, possibilitou um amplo acesso rodoviário entre a capital e as áreas produtoras do Recôncavo e um dinamismo urbano, dando maior acessibilidade aos trabalhadores, comércio e também para escoar a produção (BRITO, 2008). Deve-se salientar que no estado da Bahia o sistema rodoviário predomina de forma quase absoluta em detrimento do sistema ferroviário e hidroviário. Dentre as rodovias mais importantes da rede de integração do Recôncavo destacam-se as BR 101 e BR 116 (Figura 1), fundamentais para escoar a produção industrial e agroindustrial. O Recôncavo configura-se com um aprofundamento das diferenças entre as suas sub-regiões, onde se evidenciou uma concentração industrial ao norte, uma grande diferenciação entre as regiões de exploração agroindustriais e os grandes espaços de pequena produção, como resultado de uma política de industrialização seletiva e concentrada (SILVA; SILVA, 2006). Com a redução da área plantada com a cana-de-açúcar e o fumo houve progressivamente uma desativação do antigo sistema econômico da região. O território de identidade Recôncavo tem vantagens por causa da localização e, consequentemente, pela facilidade em escoar a produção, mesmo assim a sua infraestrutura apresenta condições precárias. Entre os municípios do território, a renda concentra-se em São Sebastião do Conde (Figura 2), que apresenta o maior PIB (3,5 bilhões de reais) e PIB per capita (107,7 mil), devido à exploração de petróleo e gás natural. Em lado oposto encontram-se os demais municípios, todos com PIB inferior a 1,1 bilhões de reais (Figura 2) e PIB per capita abaixo de 12,1 mil reais. Analisou-se, inclusive, que o Recôncavo é marcado por diferenças marcantes no IDH, pois existem municípios que estão entre os primeiros na lista dos melhores índices do estado, como Santo Antônio de Jesus (8ª posição) e Cruz das Almas (9ª posição), e outros posicionados entre os últimos, a exemplo de Cabaceiras do Paraguaçu (249ª posição) (PNUD, 2013) Figura 2. O caso mais evidente de contradição socioespacial identificou-se no município de São Francisco do Conde, onde é encontrado o PIB per capita elevado e IDH médio. Isso indicou que a sociedade não se beneficia das receitas 65

4 arrecadas e que muitas mazelas sociais referentes ao acesso a serviços essências como educação, emprego formal, saúde pública, saneamento, dentre outros, ainda não foram sanadas. A taxa de alfabetização evidenciou, também, as desigualdades socioespaciais do território do Recôncavo, onde há municípios com taxa abaixo de 79,4% (Cabaceiras do Paraguaçu, Castro Alves, Maragogipe, Muniz Ferreira, São Felipe e Varzedo) e outros acima de 86% (Cruz das Almas, Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, São Francisco do Conde, São Sebastião do Passé e Saubara) Figura 2. Figura 2 Indicadores socioeconômicos do território de identidade Recôncavo-Bahia CONCLUSÕES: A aplicação e espacialização dos indicadores sociais por meio de técnicas de geoprocessamento possibilitou analisar problemas socioespaciais baianos refletidos nos baixos índices sociais. Pela análise dos dados do território de identidade Recôncavo percebeu-se as contradições econômicas da região e certa homogeneidade dos baixos índices sociais e econômicos entre alguns municípios que o constitui. Os valores de IDH, taxa de alfabetização e PIB são baixos para grande 66

5 parte dos municípios do Recôncavo, sobretudo para Cabaceiras do Paraguaçu. As discrepâncias dos indicadores socioeconômicos entre os municípios do território convergem para denotar a dificuldade de se estabelecer e aplicar políticas socioeconômicas no âmbito regional. Há contradições entre os indicadores sociais e econômicos no território, ratificando a ideia de que as riquezas econômicas muitas vezes não são transferidas para a população, não resultam em políticas de assistência social e não conduzem ao desenvolvimento social, como foi observado no município de São Francisco do Conde, que possui um alto PIB per capita, todavia um médio IDH. Os dados da pesquisa convergem para afirmar a necessidade de políticas sociais e econômicas mais eficazes nas áreas técnicas, administrativas e financeiras, bem como na melhoria e na ampliação do ensino básico, profissionalizante e superior para região, já que há municípios com baixo índice de alfabetização. REFERÊNCIAS: BAHIA. Plano Plurianual 2008/2011. Salvador: Seplantec, Plano Plurianual 2012/2015. Salvador: Seplantec, BOMFIM, M. V. P. A rede urbana do Recôncavo Baiano e seu funcionamento técnico. Dissertação (Mestrado) Pós-Graduação em Geografia. Instituto de Geociências. Universidade Federal da Bahia, Salvador, BRITO, C. A Petrobras e a gestão do território no Recôncavo baiano. Salvador: EDUFBA, IBGE. Limite político e administrativo municipal. 2010a. Disponível em: < >. Acesso em: 9 dez Censo demográfico b. Disponível em: < >. Acesso em: 15 jul Indicadores de sustentabilidade ambiental: Brasil Rio de Janeiro: IBGE, 2010c. JANNUZZI, P. M. Indicadores para diagnóstico, monitoramento e avaliação de programas sociais no Brasil. Revista do Serviço Público. Brasília (DF), v. 56, n. 2, p , Indicadores sociais no Brasil. Campinas: Alinea, 2001 LANG, S.; BLASCHKE, T. Análise da paisagem com SIG. São Paulo: Oficina de Textos, LOBÃO, J. S. B.; SILVA, B. C. N. Análise socioambiental na região semiárida da Bahia: geoprocessamento como subsídio ao ordenamento territorial. Feira de Santana: UEFS Editora, LONGLEY, P. A. et al. Sistema e ciência da informação Geográfica. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, MILLÉO, J. C. A utilização dos indicadores sociais pela Geografia: uma análise crítica. Tese (Doutorado em Geografia) Programa de Pós-graduação em Geografia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Atlas de Desenvolvimento Humano do Brasil: com dados dos censos 1991, 2000 e Disponível em: < >. Acesso em: 11 jan SILVA, S. B. M.; SILVA, B. C. N. Estudos sobre globalização, território e Bahia. 2. ed. Salvador: EDUFBA, SILVA, X. J. Geoprocessamento em estudos ambientais: uma perspectiva sistêmica. In: MEIRELLES, M. S. P.; CAMARA, G.; ALMEIDA, C. M. Geomática: modelos e aplicações ambientais. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica,

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