DISTRIBUIÇÃO DO CAPITAL SOCIAL NO BRASIL: UMA ANÁLISE DOS PADRÕES RECENTES

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1 DISTRIBUIÇÃO DO CAPITAL SOCIAL NO BRASIL: UMA ANÁLISE DOS PADRÕES RECENTES Barbara Christine Nentwig Silva Professora do Programa de Pós Graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social / Universidade Católica do Salvador Diversos estudos, realizados em diferentes contextos e escalas, têm destacado a grande importância, para toda a sociedade, da organização social em associações civis, em termos de eficácia e de introdução de inovações. Assim, o presente trabalho realiza um mapeamento da distribuição geográfica do capital social na escala do Brasil, das Grandes Regiões e dos Estados. O capital social é definido por Putnam (1996, p.177) como o conjunto de características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuem para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas. Para tanto, adota se como um abrangente indicador do capital social a distribuição das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos (FASFIL) no Brasil, tal como fornecida pelo IBGE, em parceria com o IPEA, a ABONG e o GIFE (22). As análises efetuadas caracterizam, inicialmente, a estrutura nacional deste capital social e sua dinâmica entre 1996 e 22, quando ocorreu um crescimento de 157%. 1. Análise geral das informações Os tipos de fundações privadas e associações sem fins lucrativos levantados pelo IBGE são os seguintes: Este trabalho contou com a colaboração de Araori Silva Coelho, Bolsista de Iniciação Científica CNPq.

2 2 Habitação Quadro 1 Tipos de fundações privadas e associações sem fins lucrativos Saúde Cultura e recreação Educação e pesquisa Hospitais; Outros serviços de saúde Cultura e arte; Esportes e recreação Educação infantil; Ensino fundamental; Ensino médio; Educação superior; Estudos e pesquisas; Educação profissional; Outras formas de educação/ensino Assistência social Religião Associações patronais e profissionais Meio ambiente e proteção animal Desenvolvimento e defesa de direitos Associações empresariais e patronais; Associações profissionais; Associações de produtores rurais Associações de moradores; Centros e associações comunitárias; Desenvolvimento rural; Emprego e treinamento; Defesa de direitos de grupos e minorias; Outras formas de desenvolvimento e defesa de direitos Outras fundações privadas e associações sem fins lucrativos não especificadas anteriormente Fonte: IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24. Já a tabela 1, mostra o número total de fundações privadas e associações sem fins lucrativos por ano de criação e por setores de atuação: No período de a 198, foram criadas em média fundações e associações por ano, entre e 199, por ano, já sob o efeito da redemocratização (1985) e da implantação da nova Constituição (1988), entre e 2 o número sobe para /ano e entre 21 e 22, o número de novas fundações e associações por ano cresce para Deve se salientar, como resultado, que em 22, o Brasil tinha 25 vezes mais fundações e associações que em 197, o que expressa um importante indicador da ampliação da capacidade organizacional da sociedade brasileira.

3 3 Tabela 1 Brasil Fundações privadas e associações sem fins lucrativos por ano de criação 22 Destaca se que, em termos absolutos, o setor Habitação apresenta com 322 fundações o menor valor, seguido pelo setor de Meio Ambiente e Proteção Animal com fundações ou associações, o que não deixa de ser surpreendente em um período de tantas discussões e ações sobre questões ambientais. Religião, com fundações ou associações, representa o maior número. Já a tabela 2 permite analisar a proporção do crescimento das fundações e associações entre 197 e 22, classificadas por setores de atividade. Assim, o setor que mais cresceu, em termos relativos, foi o de Desenvolvimento e Defesa de Direitos que aumentou 198,7 vezes no período analisado. O do Meio Ambiente teve uma ampliação de 93,59 vezes entre 197 e 22. Por outro lado, o setor Saúde conheceu um crescimento de somente 4,26 vezes.

4 4 Tabela 2 Brasil Proporção do crescimento das fundações privadas e associações sem fins lucrativos Classificação das entidades sem fins lucrativos Proporção do crescimento Total Habitação Saúde Cultura e recreação Educação e pesquisa Assistência social Religião Associações patronais e profissionais Meio ambiente e proteção animal Desenvolvimento e defesa de direitos Outras fundações privadas e associações sem fins lucrativos 25,9 vezes 64,4 vezes 4,26 vezes 19,59 vezes 11,92 vezes 17,25 vezes 22,58 vezes 67,44 vezes 93,59 vezes 198,7 vezes 27,67 vezes Fonte: Calculado com base em IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24. A seguir, uma série de figuras mostrará as fundações privadas e associações sem fins lucrativos por ano de criação. Em todas elas, à exceção de Habitação, o período de maior incremento é o de a 2. Na Habitação, o período de maior crescimento é o de a 199 quando ainda havia o impacto de importantes políticas públicas na área que demandavam que os grupos sociais estivessem organizados. Figura 1 Brasil Fundações privadas e associações sem fins lucrativos por ano de criação 22 Habitação Saúde a 198 a 199 a 2 21 e a 198 a 199 a 2 21 e 22

5 5 Cultura e recreação Educação e pesquisa a 198 a 199 a 2 21 e a 198 a 199 a 2 21 e 22 Assistência social Religião a 198 a 199 a 2 21 e a 198 a 199 a 2 21 e 22 Associações patronais e profissionais Meio ambiente e proteção animal a 198 a 199 a 2 21 e a 198 a 199 a 2 21 e 22

6 6 Desenvolvimento e defesa de direitos Outras fundações privadas e associações sem fins lucrativos a 198 a 199 a 2 21 e a 198 a 199 a 2 Fonte: Elaborado com base em IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, e Análise regional das informações Objetivando conhecer a distribuição geográfica das fundações privadas e associações sem fins lucrativos, a Tabela 2 mostra o total destas instituições pelos Estados da Federação, relativizando as informações com o número médio de pessoas por fundação e associação. Tabela 2 Brasil Unidades da Federação Pessoas por fundações privadas e associação sem fins lucrativos 22

7 7 O resultado expressa simplesmente o cálculo do total da população pelo número de fundações e associações. Isto significa dizer que, em princípio, quanto menor for o número de pessoas por fundações e associações maior será o capital social do Estado. Observa se que os três Estados da Região Sul lideram este levantamento, seguidos por dois do Sudeste e pelo Distrito Federal. Surge aí já uma primeira associação com a idéia de desenvolvimento, a ser mais tarde desdobrada. Uma exceção importante é a presença do Estado de Piauí à frente de vários Estados mais desenvolvidos, o que coloca a necessidade de um aprofundamento posterior para o entendimento da questão. A Figura 2 baseiase nos dados da Tabela 2 com uma classificação em quintis. Figura 2 Brasil Unidades da Federação Pessoas por fundações privadas e associações sem fins lucrativos 22 Pessoas por fundação/associação km Fonte: Elaborado com base em IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24.

8 8 Avançando na análise, várias relações gráficas foram realizadas. Em nível regional, a Figura 3 relaciona o número de pessoas por fundações e associações e o PIB per capita das Regiões brasileiras. Figura 3 Brasil Regiões Relação entre PIB per capita e número de pessoas por fundações sem fins lucrativos 22 Regiões Sul Sudeste Centro Oeste Nortdeste Norte Pessoas por fundações e associações (22) Regiões Sudeste Sul Centro Oeste Norte Nordeste Fonte: Calculado com base em IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24. IBGE. Produto Interno Bruto Municipal 23. PIB p er capita (22) Entre o Sul e o Sudeste há uma inversão do 1º para o 2º lugar, o Centro Oeste permanece nas duas medidas no 3º lugar e o Nordeste, 4º lugar em organização social, cai para o último em PIB per capita, enquanto o Norte sobe do último para o 4 lugar. A Figura 4 mostra a mesma relação hierárquica para os Estados onde aparece uma grande diversidade em função de realidades específicas de cada Unidade da Federação, sobretudo quanto ao PIB per capita. É o caso do Distrito Federal, com o peso de toda a máquina pública que eleva o PIB, e o do Amazonas, com a importância do pólo industrial da Zona Franca de Manaus, também fazendo subir o PIB. Em termos gerais, pode se dizer que não há uma boa relação entre pessoas por fundações e associações e PIB per capita tomando como base as Unidades da Federação.

9 9 Figura 4 Brasil Unidades da Federação Relação entre pessoas por fundações privadas e associações sem fins lucrativos (22) e PIB per capita (22) Unidades da federação Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná Minas Gerais Espírito Santo Distrito Federal Piauí Mato Grosso do Sul Mato Grosso São Paulo Rio de Janeiro Ceará Paraíba Rondônia Bahia Tocantins Goiás Acre Rio Grande do Norte Roraima Sergipe Maranhão Pernambuco Pará Alagoas Amapá Amazonas Pessoas por fundações e associações (22) Unidades da federação Distrito Federal Rio de Janeiro São Paulo Rio Grande do Sul Santa Catarina Amazonas Paraná Espírito Santo Mato Grosso do Sul Minas Gerais Mato Grosso Goiás Sergipe Rondônia Amapá Bahia Pernambuco Roraima Rio Grande do Norte Pará Acre Paraíba Ceará Alagoas Tocantins Piauí Maranhão PIB per capita (22) 16.36, , , , , , , , , , , , ,22 5.2, , , ,3 4.19, , ,3 3.77, , , , , , ,21 A melhor relação foi obtida entre as pessoas por fundações privadas e associações sem fins lucrativos e o IDH Índice de Desenvolvimento Humano, o que demonstra o caráter mais social e menos econômico da perspectiva do capital social tomado a partir das fundações e associações (Figura 5). Ressalte se, entretanto, que no cálculo do IDH está presente a renda per capita ao lado da longevidade e da escolarização. Para as onze primeiras Unidades da Federação, a relação é bastante favorável, com exceção novamente do Piauí. Em geral, os Estados do Norte e Nordeste com baixos indicadores de pessoas por fundações e associações têm

10 também baixos valores do IDH, embora com variações nas posições hierárquicas. Figura 5 Brasil Unidades da Federação Relação entre pessoas por fundações privadas e associações sem fins lucrativos (22) e IDH (2) Unidades da federação Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná Minas Gerais Espírito Santo Distrito Federal Piauí Mato Grosso do Sul Mato Grosso São Paulo Rio de Janeiro Ceará Paraíba Rondônia Bahia Tocantins Goiás Acre Rio Grande do Norte Roraima Sergipe Maranhão Pernambuco Pará Alagoas Amapá Amazonas Pessoas por fundações e associações (22) Unidades da federação Distrito Federal Santa Catarina São Paulo Rio Grande do Sul Rio de Janeiro Paraná Mato Grosso do Sul Goiás Minas Gerais Mato Grosso Espírito Santo Amapá Roraima Rondônia Pará Amazonas Tocantins Rio Grande do Norte Pernambuco Ceará Acre Bahia Sergipe Paraíba Piauí Alagoas Maranhão IDH (2),844,822,82,814,87,787,778,776,773,773,765,753,746,735,723,713,7,75,75,7,697,688,682,661,656,649,636 Finalmente, é feita uma comparação entre os salários médios pagos pelas fundações privadas e associações sem fins lucrativos. (Figura 6)

11 11 Figura 6 Brasil Regiões Salários médios mensais pagos pelas fundações privadas e associações sem fins lucrativos Norte 12 Nordeste Salário médios mensais Salário médios mensais Fundações e associações Fundações e associações 12 Sudeste 12 Sul Salário médios mensais Salário médios mensais Fundações e associações Fundações e associações 12 Centro Oeste Salário médios mensais Habitação Saúde Cultura e recreação Educação e pesquisa Assistência social Religião Associações patronais e profissionais Meio ambiente e proteção animal Desenvolvimento e defesa de direitos Outras instituições privadas sem fins lucrativos Fundações e associações Fonte: Elaborado com base em IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24

12 12 Observa se que o Norte e o Nordeste apresentam os mais baixos salários, contrastando com o Sudeste, o Sul e o Centro Oeste. Concluindo, é preciso reconhecer o caráter preliminar desta análise sobre a distribuição do capital social no Brasil através das informações sobre fundações privadas e associações sem fins lucrativos. Há uma grande diversidade na distribuição e nas relações com outros indicadores sociais, o que justifica uma continuidade da pesquisa tentando integrar os resultados obtidos com os contextos históricos, geográficos, sociais, culturais, econômicos e políticos de cada Estado comparativamente aos demais. É possível também detalhar a pesquisa, com base na mesma fonte do IBGE, para os municípios o que possibilitaria instigantes comparações nesta escala de análise. Entretanto, já é possível afirmar que para os Estados com melhor relação entre pessoas por fundações e associações há, em termos gerais, uma correspondência com bons Índices de Desenvolvimento Humano, o que aponta para a relação positiva entre capital social e desenvolvimento social. Referências IBGE. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil ed. Rio de Janeiro, 24. IBGE. Produto Interno Bruto dos municípios Rio de Janeiro: IBGE, 25. IPEA. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Rio de Janeiro, 2. PUTNAM, R.D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. Rio de Janeiro: FGV,1996.

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