QUALIDADE DE VIDA. Qualidade de vida veio no embalo

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1 QUALIDADE DE VIDA A qualidade de vida é um novo produto de consumo, objeto do desejo de milhões de pessoas em todo o mundo, da mesma forma que o modo americano de viver dos anos 50, ou o país das maravilhas, hollywoodiano, dos anos 60, hoje substituídos em parte pela magia da TV, os anos noventa trouxeram um novo sonho a ser vendido. Sucesso de vendas destinado a ser o campeão de consumo das classes menos abastadas. O nome desse produto é Qualidade de Vida e está muito mais relacionado a padrões de consumo e comportamento ditados pelos mercados, que aos valores humanos e sociais que propiciam a saúde, o desenvolvimento sócio cultural e a felicidade das pessoas. Qualidade total Com o fim do modelo de produção em massa, paradigma para a produção industrial até a segunda metade do século 20, e a introdução da produção enxuta como modelo produtivo hegemônico, estabeleceu-se uma nova maneira de pensar a qualidade. A terceirização e o just-in-time, carros chefes do novo modelo, exigiram que a qualidade deixasse de ser uma atribuição do produto para ser uma política presente em cada etapa da produção. Para isso, criaram-se normas e certificações como, por exemplo a ISO 9000, baseadas em rígidos protocolos de procedimentos produtivos, frequentemente auditorados e que não têm como finalidade principal à qualidade do produto como atributo de durabilidade, aparência, ou bom funcionamento. Essa nova maneira de olhar a qualidade diz respeito à garantia de que o processo de fabricação, em cada uma de suas etapas, obedeça rigidamente o que está planejado, prescrito e projetado. Tem como princípio garantir que se um determinado produto é fabricado dentro das normas de qualidade ISO 9000, ele terá exatamente os mesmos padrões de qualidade do restante do lote. Será igualmente, bom ou ruim, a todos os demais produtos daquele lote, nada mais, nada menos. Foi isso que possibilitou o amplo processo de terceirização e de re-divisão das fabricações e pré-montagens, ficando eventuais problemas de mau funcionamento para serem corrigidos nos famosos recall. Aí consumidores de um determinado lote de produtos serão convocados para a correção de um defeito, encontrado nas amostras daquele lote. Mais tarde, essa nova maneira de pensar a qualidade se estendeu também à produção de serviços, os mais variados, abrangendo desde serviços bancários aos serviços de saúde através de uma norma conhecida como ISO Qualidade de vida veio no embalo

2 Assim como início do século passado a proposição de Fayol, para a organização da estrutura administrativa das empresas, se difundiu rapidamente na sociedade, a cultura empresarial continua sendo até hoje um modelo para o comportamento social. Essa cultura originada das organizações, apoiada no processo de globalização e na hegemonia neoliberal, precarizou as relações de trabalho e reduziu significativamente os níveis de emprego aumentando a exclusão social. Como contrapartida, para gerar um sentimento positivista, conter o descontentamento e a insegurança em relação ao futuro, e principalmente, para conseguir padronizar e submeter aos interesses do capital, comportamentos, aspirações e culturas tão diversas, fez surgir rapidamente uma resposta aos anseios por uma vida melhor. Essa resposta veio na forma de um novo produto chamado qualidade de vida, e passou a ser grande sucesso de venda, ajudado por uma enorme inserção na mídia e por uma necessidade crescente da classe trabalhadora, ávida por auto-afirmação e inclusão e na chamada sociedade de consumo. Objetivos claros e perversos Os objetivos principais dessa enorme operação mercadológica chamada qualidade de vida são: Criar nas pessoas motivação para trabalhar mais, com menores exigências e a troco de menores recompensas. Obter dos trabalhadores não apenas força de trabalho durante uma jornada específica, mas, o envolvimento e comprometimento total com as metas e os objetivos da organização ainda que isso signifique abrir mão de sonhos, desejos e objetivos pessoais. Determinar padrões de consumo e comportamento a serem perseguidos e conquistados como recompensa. Gerar na população uma competição desenfreada pela conquista de símbolos de status e posições sociais que sejam sinais de inclusão e de sucesso profissional. Padrões coletivos estão presentes no nosso dia a dia. Como numa norma ISO, já podemos ver vários padrões indicativos de qualidade de vida criados pelo sistema. Qualidade de vida, entre outras coisas, significa ser magro, fazer pelo menos quinze minutos de atividade física três vezes por semana, vestir-se na moda,

3 consumir alimentos ditos saudáveis, ter comportamento empreendedor, competitivo e sempre disposto a produzir acima dos limites, independente mente dessas coisas todas trazerem algum benefício real para a vida das pessoas. Há também padrões pré-estabelecidos para consumo, lazer e atividades sociais como bares, restaurantes, hotéis, viagens, tudo isso variando de acordo com o nível sócio econômico da pessoa. Além disso, padrões para educação própria e dos filhos, de acesso à informação, Internet banda larga, TV a cabo, convênios médicos etc. Qualidade de Vida no Trabalho segue os mesmos princípios. Enquanto isso na maioria das empresas passam a ser implantados programas de Qualidade de Vida no Trabalho, estabelecidos em protocolos, gerenciados e avaliados como metas a serem atingidas pela administração. Alguns exemplos comumente encontrados são: Ginástica laboral Palestras e cursos de atualização profissional, comportamento e motivação. Controle de peso corporal alimentos balanceados e com indicação do valor calórico e até financiamento de cirurgias para redução gástrica. Programas de controle da hipertensão arterial, saúde bucal e visual. Programas de informação aos familiares (Palestras e cursos diversos) Programas de qualidade total. Programas de melhoria contínua. Programas de redução do absenteísmo Programas de saúde e segurança no trabalho. Vale ressaltar que em todos esses programas implantados pelas empresas há como objetivo final o ganho de competitividade e participação no mercado. Esse ganho obtido às custas da redução do custo produtivo através de expressivo aumento da produtividade individual e coletiva, de melhoria da qualidade no processo eliminando o re-trabalho e o desperdício.

4 Correndo atrás do ideal Bem, tudo isso que descrevemos até aqui são o mais fiel retrato de como a sociedade constrói ideologias, e como essas ideologias passam a impor nas pessoas uma reação ilógica, impensada, mas incorporada e defendida como se fossem a expressão fiel dos sonhos e os desejos mais importantes da existência. custo. Assim sendo, só há um caminho: Correr atrás dessa ideologia. Sem limites. A qualquer Chegamos ao extremo de ficarmos frustrados, deprimidos e infelizes quando não conseguimos seguir a risca todo o receituário capitalista que transforma o ter em algo muito mais importante que o ser. Passa a não ser mais possível ser feliz sem aquele corpo, aquela roupa, aquele carro, e assim por diante com o casamento, a casa, o bairro, a balada, o clube, a bebida, o celular, enfim... O importante é estar dentro dos padrões. A qualidade de vida tão difundida pelas empresas e pela mídia e tão almejada por esmagadora maioria das pessoas, tem muito mais a ver com a marca, o modelo e a cor do carro, da roupa, do sapato e da academia de ginástica que com a realização pessoal, a satisfação, a saúde e a felicidade. Qualidade de vida passou a ser mais importante que a própria vida. Passamos a abrir mão da nossa vida, de profundos valores humanos, sociais e culturais, para nos tornarmos consumidores de qualidade de vida, cada vez mais estressados, deprimidos infelizes doentes e desestruturados enquanto seres humanos. Cumpre-se assim o objetivo do enquadramento e do controle total da sociedade por um sistema excludente e perverso. Para trazer um pouquinho de emoção, e a sensação de um mundo melhor, há sempre um programa, criança, esperança de um futuro diferente, ensinando malabarismo aos futuros pedintes de semáforo. E dá lhe estresse O primeiro preço que pagamos na busca desse ideal é a energia que gastamos para ser o melhor, para ganhar todas as disputas, para conseguir a melhor oportunidade, o melhor emprego, o maior salário, e para isso estudamos mais embora isso não nos torne mais sábios, trabalhamos mais, mais tempo, mais rápidos, mais envolvidos, mais comprometidos, embora isso, não nos garanta salários melhores e nem a manutenção do próprio emprego.

5 Como consequência, nos tornamos apreensivos, inseguros, ansiosos e estressados, entramos em sofrimento psíquico em decorrência da incapacidade de compatibilizar o idealizado para nossas vidas com a realidade que se apresenta. Outros preços ainda mais altos que pagamos pela famigerada qualidade de vida têm relação com a nossa saúde. Doenças, as mais variadas, desde as classicamente relacionadas ao trabalho como as LER ou DORT, até outras, como depressão, distúrbios do sono, fibromialgias, desarranjos gastro-intestinais, hipertensão, dependência química, doenças degenerativas como conseqüência do envelhecimento precoce e até muitos tipos de câncer tem como pano de fundo o estresse a que somos submetidos. Conclusão Como vimos até aqui todos os parâmetros de qualidade de vida, estão relacionados aos interesses do sistema no controle e enquadramento social determinando padrões de consumo e comportamentos e estimulando a submissão, a um trabalho cada vez mais exigente e menos remunerado, tanto em termos financeiros como em satisfação e realização pessoal. Da mesma forma, os parâmetros de qualidade de vida no trabalho estão voltados apenas para a estabilidade do comportamento humano no sistema produtivo e para o aumento da produtividade o que significa aumento da carga produtiva individual, intensificação do trabalho e diminuição da possibilidade de alguma liberdade aos trabalhadores na organização do trabalho, fatores de penosidade e sofrimento. Definitivamente a perspectiva de uma vida melhor e mais saudável dentro e fora do trabalho está intimamente ligada ao respeito às características individuais e sociais das pessoas. Acima disso uma vida melhor é sinônimo de menos trabalho e mais liberdade. Théo de Oliveira

7 CONCLUSÕES A presente dissertação teve como objetivo identificar e compreender o processo de concepção, implantação e a dinâmica de funcionamento do trabalho em grupos na produção, utilizando, para isso,

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