O ESTADO DA ARTE DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO A PARTIR DA DECADA DE 1990

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1 O ESTADO DA ARTE DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO A PARTIR DA DECADA DE 1990 BATISTA, Keila Cristina (UNIOESTE) ZANARDINI, Isaura Monica Souza (Orientadora/UNIOESTE) Pelas leituras realizadas para a elaboração do presente projeto de pesquisa, o Projeto Político-Pedagógico (PPP) começou a ser discutido a partir do processo de redemocratização do Brasil, principalmente após a promulgação da Constituição Federal de Nossa intenção nessa pesquisa é analisar o referencial teórico produzido a partir dos anos de 1990, no campo da pesquisa em educação a respeito do Projeto Político- Pedagógico. Os objetivos desse estudo são: identificar como os autores que pesquisam essa temática tem tratado o PPP, qual a concepção de PPP que expressam, como entendem o seu processo de elaboração, quais as dificuldades que apontam no processo de elaboração do projeto e se apresentam reflexões a respeito dos limites de elaboração frente às políticas educacionais implementadas, sobretudo a partir da década de A pesquisa será realizada a partir da análise de artigos produzidos e divulgados em periódicos científicos, livros e anais de eventos de caráter nacional. Como o estudo que nos propomos fazer, refere-se à análise do referencial teórico produzido no campo da pesquisa com relação ao projeto político-pedagógico, consideramos importante ressaltar que o PPP tem sido discutido por autores como Veiga (1995), Vasconcellos (2009), Padilha (2001), Gadotti (1997), Zanardini (1998) como um documento que necessita ser elaborado pelos sujeitos envolvidos no contexto escolar, ser o norteador das práticas educativas no âmbito da gestão escolar e uma forma de superação da fragmentação do trabalho pedagógico. Nessa perspectiva, Zanardini (1998, s/p) afirma que: É no PPP que os sujeitos que atuam concretamente na escola pensam a sua forma de organização e gestão, representando não uma elaboração formal e burocrática, mas um constante planejamento/avaliação da 1

2 prática da escola, à medida que oportuniza a reflexão e discussão das dificuldades e a busca de alternativas passíveis de realização e concretização da intencionalidade política da escola. Partindo da análise da autora é possível perceber a importância do projeto político-pedagógico, no contexto escolar como norteador das práticas escolares. Desse modo, nosso estudo tem em vista compreender como os autores que pesquisam essa temática tem tratado o PPP, sendo um estudo que poderá ser tomado como um estado da arte a respeito do Projeto Político Pedagógico. Essa forma de trabalho, partindo da análise das publicações, o estado da arte permite-nos [...] reconhecer e identificar o conhecimento produzido, as áreas de tensão e possíveis avanços na compreensão do tema em estudo (CASTRO & WERLE, 2004, p. 1045). Estudamos a produção da década de 1990, porque, dentre outros aspectos, temos a Constituição recém-promulgada e a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 9394/96. Ambos os documentos discutem a gestão democrática. Conforme exposto na Constituição Federal de 1988, no Art. 206, o ensino será ministrado com base nos princípios de: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006);VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII - garantia de padrão de qualidade eviii - piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) (BRASIL, 1988). Em relação ao processo de elaboração e execução do PPP, conforme a Lei de Diretrizes e Bases n. 9394/96: Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: I- elaborar e executar sua proposta pedagógica; Art. 13. Os docentes incumbir-se- 2

3 ão de: I - participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; II - elaborar e cumprir o plano de trabalho, segundo proposta pedagógica do estabelecimento de ensino (BRASIL, 1996). E, também em conformidade com a LDB, Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II - participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. Segundo expresso na LDB os docentes devem participar da elaboração do PPP e organizar seu plano de trabalho conforme o documento da instituição. Veiga (1995) discute que o PPP não deve ser entendido como um documento acabado, mas sim, em construção, tendo em vista, que com o passar dos tempos algumas práticas precisam ser revistas e modificadas, pois a cada ano surgem diferentes necessidades. Vasconcellos aponta que o projeto implica em novas práticas, novos desejos, desde que tenha a participação de todos, o que permitirá refletir sobre o que se faz em sala de aula e realizar as mudanças consideradas pertinentes, sendo que o Projeto Pedagógico [...] é um instrumento teórico-metodológico que visa ajudar a enfrentar os desafios do cotidiano da escola, só que de uma forma refletida, consciente, sistematizada, orgânica e, o que é essencial, participativa. É uma metodologia de trabalho que possibilita re-significar a ação de todos os agentes da instituição (VASCONCELLOS, 2009, p.143). Na análise dos autores projetar, inovar, requer disponibilidade, desejo de mudança. Reformular o Projeto Político-Pedagógico não significa atualizá-lo de acordo com as novas teorias educacionais. Implica em rever a sala de aula, as características dos educandos e a influência da sociedade que vai além dos muros da escola, pois, Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova 3

4 estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o presente(gadotti 1997, p.37): Nessa direção, Veiga (1995) diz que o PPP possibilita ampliar as possibilidades de melhorar as práticas educacionais no âmbito escolar e que através desse documento há uma possibilidade de vivência democrática, pois sua construção possibilita a participação dos sujeitos envolvidos com a escola e oportuniza uma relação entre as dimensões política e pedagógica. Para a autora quando o PPP constitui-se num processo democrático de tomada de decisões para a organização do trabalho pedagógico, certamente os conflitos, as relações competitivas, autoritárias, corporativas serão minimizadas. Nas discussões de Veiga (1995, p.14) O projeto político-pedagógico tem a ver com a organização do trabalho pedagógico em dois níveis: como organização da escola como um todo e como organização da sala de aula, incluindo sua relação com o contexto social imediato, na busca da preservação da visão de totalidade, buscando assim, a organização do trabalho pedagógico na sua globalidade. Quando a escola age no contexto de busca de sua autonomia a partir da construção do projeto políticopedagógico, também delineia sua própria identidade, dando indicações importantes para o trabalho pedagógico, que envolve a dinâmica de sala de aula e outras práticas escolares. Nesse sentido, para a autora a construção do PPP deve partir de uma necessidade, de um desejo que precisa contemplar tanto as formas de organização e gestão da escola, como o planejamento e avaliação das práticas realizadas. Permite também refletir e discutir as problemáticas que possivelmente surgem no contexto escolar, além de buscar novas alternativas, para atingir os objetivos traçados pelos sujeitos presentes na escola. Igualmente, construir o projeto político-pedagógico coletivamente implica a busca de uma gestão democrática. Para Lima (2001, p.47) A democracia é um processo, e como tal não é um fim em si mesma. Logo, necessita estar fundada em uma participação constante e ampla para que este processo se realize sob a determinação, controle e construção da sociedade civil organizada. A democracia está atrelada à concepção de participação, que é um princípio da democracia. 4

5 Na análise desse autor, decidir o que se quer fazer, as práticas pedagógicas, os elementos que possivelmente serão referências para as atividades cotidianas, são passos iniciais para a construção de uma gestão democrática. Cabe ressaltar, que o cotidiano da escola muitas vezes apresenta inúmeros problemas, mas segundo os autores, certamente os maiores desafios são reordenar a gestão e conquistar/construir a autonomia escolar. Partindo das leituras realizadas podemos dizer que o projeto político-pedagógico da escola pode ser entendido como um processo de mudança, de organização do trabalho pedagógico, nele estão estabelecidos princípios, diretrizes, propostas de ação com a finalidade de organizar, melhorar e sistematizar as atividades desenvolvidas no âmbito escolar. Ou seja, buscar uma construção participativa, de forma que possa envolver os diversos segmentos escolares, bem como a comunidade local onde a escola está inserida. Nessa direção, conforme exposto pelos autores que estamos analisando, quando o desenvolvimento do projeto político-pedagógico, acontece por meio de um planejamento participativo, os atores que fazem parte da escola podem reinventar suas experiências, resgatar valores, refletir sobre suas praticas cotidianas, demonstrar seus saberes, dar um sentido mais amplo aos projetos coletivos, além de buscar novos/outros caminhos, possibilidades e ações. Nesse espaço há grande possibilidade de transformação, principalmente se tal desejo se manifestar coletivamente e tiver como intenção organizar o trabalho pedagógico escolar com base nas concepções de educação, sujeito, sociedade, conhecimento. Para enfrentar o desafio de construir o projeto político-pedagógico, se faz necessário analisar o contexto em que a escola está inserida e quais são suas intenções. Ao buscar conhecer este contexto é importante identificar os indivíduos que interagem com a escola e quais são as influências que poderão sofrer das instâncias geográficas, econômicas, culturais e políticas presentes nas instituições de ensino. Veiga (1998) comenta que quando a construção do PPP acontece no âmbito escolar e com a participação dos sujeitos envolvidos no processo educacional é possível refletir sobre a ação educativa, decidir coletivamente o que se almeja na escola, ter autonomia, identidade própria e uma nova organização do trabalho pedagógico. 5

6 Em relação ao Projeto Político-Pedagógico Silva (2003) comenta que algumas escolas tem elaborado seus projetos, mesmo que tenham dificuldades, outras recebem o documento pronto e há as que simplesmente fazem pequenas alterações no documento existente na escola. Silva (2003, p.296) define o PPP como: Um documento teórico-prático que pressupõe relações de interdependência e reciprocidade entre os dois pólos, elaborado coletivamente pelos sujeitos da escola e que aglutina os fundamentos políticos e filosóficos em que a comunidade acredita e os quais deseja praticar; que define os valores humanitários, princípios e comportamentos que a espécie humana concebe como adequados para a convivência humana; que sinaliza os indicadores de uma boa formação e que qualifica as funções sociais e históricas que são de responsabilidade da escola. Para a autora o projeto é um documento que organiza as ações educacionais, o trabalho educativo e as ações reflexivas presentes no fazer pedagógico e que A construção coletiva deve considerar a história da comunidade escolar, afirmar os fundamentos políticos e filosóficos e os valores, assegurar uma boa formação e processos constantes de vivências democráticas, a capacidade de mediar dos conflitos existentes nas relações interpessoais, primar pela capacidade inventiva e criativa de todos, conduzir com presteza processos de avaliação processual e revitalizar a gestão democrática com efetiva participação de todos os membros da escola e da comunidade onde a escola está geograficamente situada. (SILVA, 2003, p.297). Na análise dessa autora, nos anos de 1980 e 1990, ocorreram alguns movimentos que defendiam a construção coletiva do PPP, mas as discussões perderam força com as negociações feitas pelo governo brasileiro com o Banco Mundial. Ao aprovar empréstimos para o governo federal o Banco determina critérios, principalmente relacionados à tomada de decisões. Silva aponta que:... o governo federal subscreveu a política dos gestores do Banco Mundial, e utiliza o MEC e os secretários de Educação para viabilizá-las na prática (2003, p. 297). Segundo a autora, nessa orientação, as ações realizadas no âmbito escolar são modificadas, as avaliações não estão relacionadas ao processo ensino/aprendizagem, são utilizadas para alcançar resultados, desconsiderando os conhecimentos adquiridos. A 6

7 escola passou a oferecer uma formação aligeirada para atender as propostas dos órgãos governamentais e ao mercado de trabalho. Neste sentido, para atender as exigências feitas pelos órgãos governamentais e determinadas pelo Banco Mundial as ações pedagógicas são modificadas dentro da escola, conforme afirma Silva (2003) [...] as ações do Banco Mundial modificam as ações pedagógicas no interior da escola, que aparentemente vem da secretaria (p.298). A autora analisa três exemplos das ações que são modificadas, e aponta a forma de avaliação, que segue normas da Secretaria da Educação, a ausência de um tempo para aprendizagem e aquisição dos saberes e um terceiro exemplo [...] é o projeto políticopedagógico da escola pública, eixo norteador e integrador do pensar e fazer do trabalho educativo (SILVA, 2003, p. 298). A autora considera que esse é o documento norteador do trabalho desenvolvido na escola, e não um documento que fica arquivado na secretaria escolar. A partir do PPP é possível conquistar a autonomia, a gestão democrática e avaliar o trabalho desenvolvido na escola. Silva destaca que as discussões em torno do PPP, [...] estão hibernadas e que as escolas públicas participam de outros projetos, programas e planos sem ter clareza de suas origens e intenções. Pior, migram rapidamente para outros projetos, programa e planos e arquivam em gavetas o projeto político-pedagógico (2003, p.299). No contexto atual da escola, a discussão sobre o PPP precisa ser inserida no cotidiano, de modo a pensar uma educação que atenda a formação integral do aluno e as práticas relacionadas à gestão educacional. Silva (2003, p.299) afirma: Eis o nosso desafio, recolocar o projeto político-pedagógico no centro de nossas discussões e práticas, concebendo-o como instrumento singular para a construção da gestão democrática. Para compreensão do tema proposto, faremos uma pesquisa bibliográfica que será realizada a partir do levantamento de artigos em periódicos científicos, livros sobre a temática e anais de eventos de caráter nacional produzidos a partir dos anos de 1990 que discutam o PPP. Em um segundo momento, serão analisados estes referenciais teóricos com intuito de identificar como os autores que pesquisam essa temática tem tratado o PPP. 7

8 Nessa perspectiva, destacamos que a definição da análise temporal torna importante à medida que nos permite identificar os estudos e produções num dado período histórico, permitindo uma análise sobre as produções a respeito do PPP. Conforme afirmam Castro & Werle (2004, p. 1048) a [...] distribuição temática e temporal possibilita o relacionamento com o momento histórico abrangido e com outras produções temáticas significantes. Desse modo, podemos dizer que a partir dos estudos e análise dos acontecimentos históricos o pesquisador compreende a realidade existente e produz conhecimentos de modo a transformá-la. Para Evangelista (s/a, p.4): Se compreendermos a empiria como gestada na história, como manifestação humana na história, e se a tomamos como passível de conhecimento pelo sujeito histórico podemos considerar que conhecêla é conhecer a própria consciência do homem. Pelo seu conhecimento é articular outras formas de consciência. Em síntese, expressam vida, conflitos, litígios, interesses, projetos políticos -história. Na efervescência dessas determinações se encontram pesquisador, documento e teoria. Cabe ao pesquisador selecionar, investigar, ler, interpretar e analisar as fontes, para atingir a intencionalidade da pesquisa. Ele necessita ter uma metodologia adequada que permita uma análise clara dos dados encontrados. Neste contexto, estão as fontes primárias que tem uma determinação histórica, as fontes secundárias, que são interpretadas em seu tempo e o pesquisador que se relaciona com as fontes e as analisa, [...] o conhecimento do produzido pelo pesquisador em seu tempo será mediado pela analise da produção do período e sobre o período. Fontes e pesquisador sofrem objetivações que lhes são específicas, e precisam estar claras para o sujeito (Evangelista (s/a, p. 6). Partindo da análise dos textos sobre o projeto político-pedagógico é que nos propomos a atingir os objetivos indicados nessa pesquisa. REFERÊNCIAS BRASIL. Senado Federal. Constituição da República Federativa do. Brasília,

9 . Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96. Brasília, DF: MEC, ARAÚJO, L. A. de O. Projeto político pedagógico: um novo paradigma da gestão democrática escolar. Florianópolis: UDESC, CASTRO, M. L. S. de.; WERLE, F.O.C. Estado do Conhecimento em Administração da Educação: Uma análise dos artigos publicados em periódicos nacionais Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.12, n.45, p , out./dez, DE ROSSI, V. L.S. Gestão do Projeto Político-Pedagógico: entre corações e mentes. São Paulo: Moderna, GADOTTI, M. Projeto Político-Pedagógico da Escola: fundamentos para a sua realização. In: GADOTTI, M. e ROMÃO, J.E. (orgs.). Autonomia da Educação: princípios e propostas. São Paulo: Cortez, LÜDKE; ANDRÉ. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, PADILHA, P. R. Planejamento dialógico: como construir o projeto políticopedagógico da escola. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, SILVA, M. A. Do projeto político do Banco Mundial ao projeto político-pedagógico da escola pública brasileira. Cadernos CEDES, n.61 Campinas dez VASCONCELLOS, C. S. Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico. 15ª ed. São Paulo: Libertad, VEIGA, I. P. A.(org.). Projeto Político-Pedagógico da Escola: uma construção possível. Campinas: Papirus,

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