ALTERIDADE - IMPLICAÇÕES NA FORMAÇÃO DO ALUNO

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1 ALTERIDADE - IMPLICAÇÕES NA FORMAÇÃO DO ALUNO Hélio de Moraes e Marques 1 Resumo: O ensino da filosofia possui características muito peculiares quanto ao seu método. Refiro-me à exposição pelo professor de um filósofo e do pensamento central do mesmo com as circunstâncias históricas que promoveram ou contribuíram para aquele desiderato. O aluno, via de regra, percebe aquele pensamento em questão e com o auxílio de anotações de sala de aula, compêndios de História da Filosofia, e das obras principais do filósofo acrescidas de comentadores se intera de seu pensamento. Considero esta prática importante e necessária. Nossa pesquisa vem comprovar uma didática complementar do processo ensinoaprendizagem. Não sugerimos a abolição da prática usual, mas questionamos sua efetiva validade e propomos um método que complementa sua eficácia. Palavras-chave: Alteridade. Formação. Nossa fundamentação foi de estabelecer na relação com o outro ou no seu reconhecimento uma referência para a formação do aluno uma vez que o lúdico, enquanto experiência desenvolvida, se dá numa dimensão que implica o coletivo e neste diapasão, com a natureza humana além das manifestações corpóreas do outro. Uma espécie de intuição afetiva (Einfuhlung). A partir de própria auto-avaliação, percebi que o resultado deste processo de ensino tido como convencional poderia ser melhorado se algumas alterações importantes fossem implementadas no mesmo. Tradicionalmente o ensino da filosofia se dá através da exposição e explicação pelo professor do tema central do pensador em tela. O aluno de posse daquelas explicações caminha para suas leituras de aprofundamento retirando delas, a partir de suas reflexões, conclusões que poderão ser-lhe úteis na vida. Há, entretanto que se considerar o aluno não somente como uma mente puramente intelectual, mas dar importância à sua natureza interior levando em conta a complexidade de sua pessoa com suas dimensões emocionais e espirituais. Questionamos: - E a outra parte da estrutura do homem? Ela tem sido considerada meeira ou essencial na concepção dos currículos, conteúdos programáticos, ementas, etc.? 1 Mestrando em Educação Universidade Católica de Santos UNISANTOS

2 2 Constatamos que esta dimensão não tem sido buscada com o seu devido valor e ela é tão essencial neste fim, dado o seu aspecto formativo ou de formação no pisado binômio: formação x informação. Conduzimos nossas ações pelos valores que temos como referência. Sabemos que os valores não são coisas, mas estão nas coisas. Se considerarmos os valores que norteiam nossas ações e que moldam nosso caráter percebemos que eles se fundam quase que exclusivamente no aspecto da natureza material do homem. Em outras palavras, se ao invés de sermos informados para o sucesso ou êxito profissional material formos formados para um fim concernente com a nossa natureza interior então a base para nossa educação será mudada. Nisso compartilhamos a idéia de Sócrates que via na educação a arte de despertar as Virtudes da alma. O modelo de educação herdado da Grécia clássica foi alterado. O século XVII foi marcado por uma transição no paradigma científico. A revolução científica da qual Copérnico, Galileu e Newton foram precursores representa uma revolução. A revolução no modo de ver o mundo e de investigá-lo é, uma última análise, uma revolução no saber e seus fins. Desencadeada por Bacon e René Descartes tal transição redirecionou o método, o modelo e o objeto de educação. Esta revolução epistemológica significou uma verdadeira mudança de paradigma e com ela o objeto da educação foi alterado. De uma visão mais abrangente, humana e universal caracterizada pelo ensino das artes e das matemáticas, o saber humano passa por uma revisão e cartesianamente assume um caráter com marca de especificidade e de saber cumulativo. Ora, essa característica da educação mais informativa do que formativa não se deu por acaso, mas em função das características típicas do saber científico e de seus métodos. Portanto, em determinado momento histórico se redirecionou o método, o modelo e o objeto da educação. Se levarmos em conta a natureza complexa do homem, podemos considerar a possibilidade de outros modos de ensinar que valorizem a natureza interior humana incluindo suas emoções. Esse estudo considera a importância dessa dupla natureza para a educação do homem. A identificação da natureza humana por parte do educador é fundamental para um ajuste de foco. A qualificação do objeto deve ser de tal modo identificada para que a relação com o sujeito educador permita através do que Fichte afirma em sua Doutrina Moral (1798) o

3 3 reconhecimento dos outros eus. Esta identificação é uma busca constante na humanidade pensante porque dela derivaria a resposta para o pisado binômio - Formação x Informação. Esse problema não é novo. Foi identificado desde a Grécia Clássica. Questionando o assunto Werner Jaeger em sua Paidéia dá-nos a dimensão do que a educação enquanto conhecimento do mundo exterior e interior é capaz para uma existência melhor, para um mundo melhor. Diz Jaeger: Uma educação consciente pode até mudar a natureza física do Homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a um nível superior. Mas o espírito humano conduz progressivamente à descoberta de si próprio e cria, pelo conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de existência humana. A natureza do Homem, na sua dupla estrutura corpórea e espiritual, cria condições especiais para a manutenção e transmissão de sua forma particular e exige organizações físicas e espirituais, ao conjunto das quais damos o nome de educação. Na educação, como o homem a pratica, atua a mesma força vital, criadora e plástica que espontaneamente impele todas as espécies vivas à conservação e propagação do seu tipo. É nela, porém, que essa força atinge o mais alto grau de intensidade, através do esforço consciente do conhecimento e da vontade, dirigida para a consecução de um fim. (1) (grifo nosso) Será que a educação tem atingido este fim? Será que a premissa de base tem sido considerada? Ou seja: A dupla estrutura humana. Parece-nos que a educação nos dias de hoje contempla, sobretudo uma parte desta natureza: a corpórea ou física. A informação é dada para a assimilação de um conteúdo com fins úteis e num contexto particular e de aplicação mediata e imediata. É sem dúvida um pragmatismo. A despeito da dificuldade de um consenso sobre o tema central, qual seja, a educação, nossa abordagem implica numa investigação sobre a natureza do homem, pois desta fundamentação é que emergirá o argumento central de nossa pesquisa. Considerando a natureza humana como dual podemos entendê-la como um complexo. Além do componente físico e intelectual reconhecemos a componente psíquica e emocional. Com efeito, a componente física adquire seu saber pelo uso do aparelho cerebrino onde os sentidos são indispensáveis ao processo de percepção do Real, de sua interpretação e assimilação. Por sua vez, a natureza psíquica percebe, processa e labora o saber pelo uso da emoção. Através desta sensibilidade psíquica incorpora-se um novo significado (elaborado) pela participação emotiva no processo.

4 4 Considerando esses aspectos em uma pesquisa quantitativa e qualitativa podemos afirmar que a experiência é peça-chave no processo cognitivo. Não a experiência pura e simples, mas a experiência vivenciada através de expressões estéticas como o lúdico, o teatro, a imagem, em que o outro recebe seu devido dimensionamento. Por conseguinte, desenvolver um método de ensino da filosofia que contemple esse aspecto é, no mínimo, atentar para a natureza dual do homem e, a nosso ver, cria um diferencial. A experiência não é dispensável, porém com a participação emocional traz um saber diferenciado. Investigar a assimilação, apreensão dos conteúdos filosóficos e o amadurecimento conseqüente do processo de seminários foi o foco de nossa pesquisa. O processo de desenvolver um tema filosófico de forma vivencial através do teatro, da imagem, da relação estabelecida com o outro, exige do aluno uma criatividade que contribui inequivocamente para sua formação em contraste com a usual informação. O que se tem observado é que o ensino da filosofia, sobretudo no ensino superior é via de regra através de aulas expositivas e leitura, muita leitura. Não dispensamos a leitura, mas acreditamos que a educação do adulto, dada a sua natureza mais paradigmática, reveste-o de uma robustez intelectual prejudicial ao seu desenvolvimento. Diríamos, quanto mais informado, mais impermeável se torna. Então, quando trabalhamos sua natureza mais sutil alcançamos resultados mais surpreendentes. Daí a necessidade da percepção do outro enquanto ser distinto que permite a identificação do próprio eu. O lúdico auxilia este processo básico de nossas premissas. Em recente avaliação junto aos alunos do 1º ano de Administração e Comex confirmamos nossas premissas de ver o aluno além do intelecto, mas como um ser de emoções e reflexões a partir desta consciência. As imagens e vivencias permitiram uma melhor assimilação dos conteúdos aprendidos. Partindo da avaliação monitorada de alunos do 1º ano do curso superior objeto da pesquisa de Administração e Comex nossa investigação teve por objetivo; arrazoar cientificamente o valor da emoção, do jogo e, sobretudo do relevante papel do outro no processo de educar. Aqui se justifica a relação estabelecida com o princípio de alteridade no início dessa pesquisa. Se o eu conhece de modo imediato só a si mesmo e os seus estados interiores, ou seja, tem acesso privilegiado ao conhecimento interior do eu nasce o problema de ver como uma

5 5 parte da experiência do eu possa referir-se a um outro eu e ainda mais contundentemente que garantia essa referencia oferece da existência efetiva do outro eu. Neste ponto que a questão da alteridade imbrica no aspecto formativo do aluno, pois a presença de uma natureza psíquica, em que possa reconhecer o em-si e o outro permite direcionar o saber e desenvolvê-lo na prática considerando uma espécie de intuição afetiva (Einfuhlung) que nos coloca em relação com o que está além das manifestações corpóreas do outro, isto é, com a alma do outro. Na esteira das considerações anteriores, nossa pesquisa é útil, pois, a partir de algumas reflexões fundamentais, instamos a consciência de certas categorias, da relação e da percepção afetiva (Einfuhlung) e redirecionamos a prática do ensino de forma diferenciada. Desenvolvemos nossa investigação seqüencialmente: A educação tem privilegiado o aspecto mais informativo e portanto técnico do aluno. Identificamos o momento histórico em que isto se acentua. Fundamentamos a existência desta natureza psíquica do aluno que será objeto de atenção na formação do mesmo. Avaliamos a experiência do ensino da filosofia nos cursos propostos através de imagens, teatro a partir das relações estabelecidas e da consciência do próprio eu. Comprovamos por pesquisa qualitativa a eficácia do ensino da filosofia de forma diferenciada como elemento chave para a formação do graduando. Em última análise, nossa pesquisa objetivada através da coleta de relatórios/depoimentos destes alunos permitiu justificar a nossa tese de que o ensino será sempre um meio de desencadear um descobrimento de verdades intrínsecas emergentes tal qual uma maiêutica socrática por um processo específico de vivência. Assim, nossa reflexão nos remete à questão de base: direcionamos a educação para o saber cumulativo, informativo, imediato e pragmático? Ou, perspectivamos a areté do homem no sentido do fim para o qual ele foi constituído segundo o estagirita e focamos o desenvolvimento de suas virtudes das quais a alteridade tem um papel relevante. Em sua Política, Aristóteles - Livro V, cap. 1; observamos a concordância do estagirita tendo a educação como um fim (teleológico) nas preocupações do homem: [...] não podemos esquecer a questão de como é que a educação deve ser e como deve ser posta em marcha, porque nos tempos modernos há pontos de vista opostos sobre o exercício da pedagogia. Não há um consenso geral sobre o que os jovens devem aprender, seja em relação à virtude ou em relação a uma vida melhor, tão pouco está claro se a

6 educação deve se dirigir mais ao intelecto ou para o caráter da alma. O problema complicou-se pelo que aconteceu diante dos nossos olhos, e não estamos seguros se a formação deve dirigir-se as coisas úteis da vida ou às de simples adornos. Cada uma destas opiniões tem os seus respectivos partidários, e não há consenso sobre o que em realidade nos leva à virtude; variam os princípios sobre a essência; e se não há unanimidade no essencial, é natural que sejam diferentes as opiniões quanto os meios de praticá-las (Grifo meu). 6

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