Introdução à literatura negra Professora Doutora Márcia Maria de Jesus Pessanha. Do silêncio ao canto épico do negro na literatura brasileira

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1 Introdução à literatura negra Professora Doutora Márcia Maria de Jesus Pessanha Do silêncio ao canto épico do negro na literatura brasileira Palavras iniciais Sementes antes do plantio O presente trabalho originou-se da necessidade de visualização do negro na literatura brasileira e do nosso compromisso, enquanto educadores, de dar-lhe visibilidade e de manifestar nosso interesse em valorizar sua presença nas produções literárias não como simples objeto, mas como sujeito de seu discurso e de sua identidade. Do silenciamento, dos sussurros e dos gritos há histórias que precisam ser desveladas para que se alcance a epopéia da negritude. Observamos que a omissão sistemática das camadas socialmente desfavorecidas como portadoras de um discurso próprio têm profundas implicações ideológicas. Assim, o pobre, o negro e a mulher quase sempre foram vistos de maneira adversa, subalterna ou de falsa comiseração. Suas vozes não tinham ressonância nas elites letradas, nas antologias e nos currículos escolares. Como inseri-las então nesta cultura literária lacunar, onde só os autores e obras consideradas canônicas tinham o direito de serem lidos e analisados? A este respeito cabe citar a obra organizada por Roberto Shwarz Os pobres na literatura brasileira, onde no prefácio ele questiona sobre como se define e representa a pobreza nas letras brasileiras....haverá possibilidade de socializar um pouco a força de pesquisa e de reflexão dos professores, de chamá-la às questões estéticas que a realidade propõe, e que, contrariamente ao preconceito, são importantíssimas? (SCHWARZ, 1983, p.7-8) No que concerne à esfera educacional, a pedagogia do oprimido do educador Paulo Freire apresenta alguns questionamentos e caminhos em busca de uma melhor compreensão dos que vivem na periferia do dito primeiro mundo, da esfera dos letrados e dos meios de produção e da sociedade em geral excludente. No campo literário, um dos possíveis acessos é a localização de obras de autores até então olvidados, mas que possuem uma produção literária valiosa e trabalham com a temática em pauta. Por isso, estabelecemos alguns objetivos: 1

2 Objetivos: Apresentar e discutir textos literários, pontuando a presença estigmatizada do negro e/ou sua ausência no contexto da literatura brasileira. Destacar as diferentes contribuições de afro-brasileiros nas diversas fases dos movimentos literários Justificar a importância da literatura também como espaço de criação de identidade étnico-cultural Comparar obras de autores com visões diferenciadas sobre o negro. Incentivar a leitura de textos que apresentem personagens negras, sujeitas de seu próprio discurso. Contribuir para a formação de leitores críticos e reflexivos sobre as questões de discriminações e preconceitos, freqüentemente expressas em produções literárias e didáticas. Colaborar para a discussão/inclusão de autores negros nas antologias literárias, utilizadas nas escolas, nos livros didáticos e nos currículos escolares. Iniciando o diálogo Com os objetivos propostos partimos para discutir a literatura pátria no contexto de nosso processo identitário nacional, buscando identificar a presença de autores e de personagens negros (as) nas produções literárias, referentes aos estilos de época, que compõem a divisão da História da Literatura Brasileira, correlacionando-a, também, com o panorama histórico mundial, conforme quadro apresentado em anexo. ¹ Cumpre ressaltar, de forma sucinta, que os estilos de época correspondem a movimentos que, em determinado contexto históricocultural, apresentam características genéricas tanto no plano formal quanto no plano das idéias. Desse modo, podemos perceber nas obras, além de seu valor artístico, também uma certa ideologia e uma postura do autor diante da realidade e das aspirações humanas. E sendo a linguagem o material da literatura, o escritor trabalha com a palavra. Palavra como manifestação do belo artístico, palavra como transmissão de saberes, como forma de resistência, de denúncia e de combate, daí resultando diversos conceitos e modalidades do fazer literário. A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras, seguindo a evolução política e econômica do país: a era colonial e a era nacional, distinguidas por um período de transição, equivalente à emancipação política do Brasil. Estas duas eras apresentam suas subdivisões, denominadas escolas literárias ou estilos de época. Assim 2

3 temos a ERA COLONIAL ( de 1500 a 1808), com predomínio das escolas literárias : Quinhentismo (1500 a 1601); Seiscentismo ou Barroco ( de 1601 a 1768); Setecentismo ou Arcadismo ( de 1768 a 1808). A seguir temos o período de transição ( de 1808 a 1836) e a ERA NACIONAL ( de 1836 até nossos dias), assim compreendida: Romantismo ( de 1836 a 1881); Realismo ( de 1881 a 1893); Simbolismo ( de 1893 a 1922) e Modernismo (de 1922 em diante já com prolongamento para o pós-modernismo). Vale informar que as datas limítrofes entre as diferentes épocas são marcações, quase sempre, pontuadas pela publicação de obras paradigmáticas, que condensam as idéias, o estilo e conceitos literários do período. Movem-se nas fronteiras, pois apresentam fases de ascensão e outras de esgarçamento, quando começam a surgir os embriões dos novos movimentos. Por isso, ao final do Arcadismo tivemos um pré- Romantismo, ao final do Romantismo, um pré- Realismo, e assim por diante. Fizemos este breve intróito para pontuar na história da literatura brasileira os autores e obras, bem como os momentos mais significativos da ocultação, da discriminação e da revelação do negro, quer como ser submisso, quer como sujeito de seu discurso, refletindo o contexto histórico, social, cultural e político das referidas épocas. Segundo Antônio Cândido a ligação entre literatura e sociedade é percebida de maneira viva quando tentamos descobrir como as sugestões e influências do meio se incorporam à estrutura da obra, de modo tão visceral que deixam de ser propriamente sociais, para se tornarem a substância do ato criador (CÂNDIDO,1987, p. 163) Podemos ilustrar a citação acima com o poema do escritor Oswald de Andrade que, ao referir-se, ironicamente, ao processo de colonização no Brasil, assim escreveu : História Pátria Aventureiros Bacharéis Cruzes de Cristo Donatários Espanhóis Paga prenda Prenda os espanhóis! Flibusteiros Governadores 3

4 Holandeses Lá vem uma barquinha cheinha de índios Outra de degradados Outra de pau tinta Até que o mar inteiro Se coalhou de transatlânticos E as barquinhas ficaram Jogando prenda côa raça misturada No litoral azul de meu Brasil! O texto oswaldiano expressa uma crítica à forma de colonização em terras brasílicas, o que demonstra o poder da linguagem, como dissemos anteriormente, de revelar não apenas os efeitos expressivos e poéticos da escrita literária, mas também o de manifestar ideologias, de se reportar ao contexto histórico etc. Ressalte-se também que neste texto aparece a expressão raça misturada. Primeiros passos literários na terra brasileira No Quinhentismo, aconteceu no Brasil a introdução da cultura européia, com a vinda dos colonizadores e dos jesuítas que aqui encontraram os indígenas. Desse modo, podemos dizer que tivemos uma literatura no Brasil ou sobre o Brasil, que refletia a cosmovisão, os interesses e os ideais do homem europeu com duas grandes preocupações distintas: a conquista material, resultante da política das Grandes Navegações e a conquista espiritual, decorrente, no caso português, do Movimento de Contra-Reforma. E refletindo o mesmo momento histórico vivido pela Península Ibérica, tivemos uma literatura informativa, voltada para a descrição das terras descobertas e de suas riquezas materiais ( ouro, prata, ferro, madeira, etc.) e uma literatura dos jesuítas, direcionada para o trabalho de catequese, como as principais manifestações literárias no século XVI. É consabido que o primeiro documento da literatura no Brasil foi a carta de Pero Vaz de Caminha, seguida de crônicas, relatos de viagens, pois esta literatura foi também chamada de literatura dos viajantes ou dos cronistas. Cumpre ressaltar que não há ainda a presença do negro marcando a literatura, mas só a do índio, como nativo da terra brasílica. Com relação à literatura jesuítica, pode-se dizer que foi a melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro, pois além da poesia de devoção, os jesuítas cultivaram o teatro de caráter pedagógico e enviavam cartas informativas aos seus superiores sobre o Brasil. 4

5 A ambigüidade do discurso religioso e satírico sobre o negro : Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos Quando surgem argumentações relativas à presença dos negros na literatura jesuítica, podemos questionar a finalidade de tal presença, pois no momento inicial das letras brasileiras, havia um discurso ambíguo que transitava entre a catequização e a pacificação dos negros, assim como a consolação deles, o que pode ser apreendido nos "Sermões" do Padre Antônio Vieira ( ). Louvando os sofrimentos dos escravos, os males da escravidão ganham um sentido sacrificial da morte cristã. Os negros, ali, são conclamados para se rejubilarem com as amarguras do engenho, com o fardo cotidiano, pois obedecendo à vontade do Pai/Senhor, alcançariam um dia as plenitudes da vida eterna, já que na terra experimentavam as agruras, como Cristo experimentou. Ou seja, os negros aparecem para confirmar a servidão ao senhor de engenho e a Deus. No Seiscentismo ou Barroco, no panorama brasileiro tivemos no espaço histórico as invasões holandesas e no literário o surgimento do Grupo Baiano. O Barroco teve seu marco no Brasil com a publicação em 1601 do poema épico Prosopopéia de Bento Teixeira. Tal estilo caracterizou-se pela crise de valores renascentistas, provocada pelas lutas religiosas e pela crise econômica, oriunda da falência do comércio com o Oriente. Neste período, o homem vive em constante conflito, o que se reflete na arte barroca, no jogo entre o bem e o mal, entre o material e o espiritual, entre a sombra e a luz, entre o pecado e o perdão e assim por diante. Um nome de destaque desta época e que se define como poeta brasileiro é o do baiano Gregório de Matos Guerra. Fez seus primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas, formou-se em Direito em Coimbra e viveu alguns anos em Lisboa, exercendo a profissão. Por suas sátiras foi apelidado de boca do inferno e obrigado a retornar à Bahia, passou a trabalhar como tesoureiro-mor na Companhia de Jesus. Continuando com suas críticas ao governo, aos costumes da época e à própria religião é degredado para Angola e já bastante doente retorna ao Brasil, mas é proibido de pisar no solo baiano e de escrever suas sátiras. Lidando mal com a mestiçagem brasileira, que já se fazia notar desde o Brasil-Colônia, o poeta Gregório de Matos ( ) busca na vida popular de Salvador, matéria para a sua criação poética. Satirizando os costumes e a colonização portuguesa, o "Boca do Inferno", como era chamado, exalta a sedução erótica da mulata, menosprezando-a ao mesmo tempo. E faz do homem mulato objeto de críticas e insultos. Gregório de Matos, como outros da época, revela um profundo mal-estar para com "os 5

6 mulatos desavergonhados, termos com os quais o poeta-deixa transparecer o despeito de muitos brancos diante do crescente número de mestiços, filhos de senhores, que na condição de alforriados, ocupavam um espaço social intermediário, conforme observa José Maurício Gomes de Almeida (2001, p.91). Pelo exposto, ainda não tínhamos condições de apresentar um escritor nascido no Brasil, escrevendo sobre o Brasil, sem a influência direta da cultura européia e sem mordaças. Quase todos estudavam em Colégios dos Jesuítas e se formavam na Europa, principalmente em Portugal, na Universidade de Coimbra. Mais uma vez registramos que a presença do negro ainda não se manifestava como expoente na literatura brasileira. 6

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