24 O uso dos manuais de Matemática pelos alunos de 9.º ano

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1 24 O uso dos manuais de Matemática pelos alunos de 9.º ano Mariana Tavares Colégio Camões, Rio Tinto João Pedro da Ponte Departamento de Educação e Centro de Investigação em Educação Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Resumo. Este trabalho pretende investigar o modo como os alunos do 9.º ano de escolaridade usam o manual escolar em Matemática e os factores subjacentes à sua relação com o manual. A metodologia usada é qualitativa, sendo os dados recolhidos através de entrevistas semiestruturadas realizadas a alunos com diferentes níveis de desempenho e de escolas com diferente nível sociocultural. Neste artigo apresentamos resultados preliminares relativos a dez entrevistas. Estes resultados sugerem que, tanto na aula como em casa, os alunos utilizam sobretudo o manual para realizar exercícios e só muito secundariamente o usam para esclarecimento de eventuais dúvidas. Estes modos de uso parecem fortemente relacionados com as indicações que sentem receber da professora. Palavras-chave. Manual escolar, Hábitos de estudo, Aprendizagem Segundo o relatório Matemática 2001 (APM, 1998), o uso do manual escolar pelos alunos, apesar de ser um aspecto importante do processo de ensino-aprendizagem da disciplina de Matemática, tem sido pouco ou nada estudado. Com este trabalho, propomo-nos contribuir para conhecer melhor esta questão, Incidimos o nosso estudo nos alunos do 9.º ano de escolaridade, o último ano do ensino básico, procurando compreender os hábitos de estudo que adquiriram neste ponto da sua formação escolar. Assim, temos por objectivo perceber como é que estes alunos usam o seu manual de Matemática, com que intuito e razão o fazem e quais os motivos subjacentes à sua relação com o manual.

2 Mariana Tavares & João Pedro da Ponte As funções do manual relativamente ao aluno Segundo Gérard e Roegiers (1998), o manual escolar pode ter as seguintes funções relativamente ao aluno: Transmissão de conhecimentos, sendo esta a sua função mais conhecida; Desenvolvimento de capacidades e competências tal como o ensinar métodos de estudo; Consolidação de aquisições, através da realização de exercícios; Avaliação de aquisições, por exemplo, por intermédio de testes formativos. Destas funções, a primeira e a terceira são as mais notórias, podendo a segunda e a quarta surgir ou não de forma explícita. É de notar que as quatro funções referidas dizem respeito a aprendizagem escolar mas o manual também pode ter funções relativas à ligação entre a aprendizagem escolar e a vida quotidiana ou até mesmo profissional. Deste modo, o manual pode ter uma função de auxiliar o aluno a relacionar o que aprende na escola com a sua vida quotidiana, uma função de referência e uma função de educação social e cultural. Não conhecemos estudos realizados em Portugal referentes ao modo como os alunos usam os manuais na disciplina de Matemática. Num inquérito a professores da Zona Centro do país, Cabrita (1999) questionou-os sobre a sua opinião sobre como os seus alunos utilizariam o manual de Matemática. A grande maioria respondeu que os seus educandos utilizavam o manual para a resolução de exercícios propostos para o trabalho de casa. Dos professores inquiridos, apenas 17% julga que os seus alunos utilizam o manual para aprofundar alguns conceitos abordados, 8% pensa que eles o usam para estudar previamente os conceitos e 10% considera que os estudantes usam o manual para resolver tarefas diversas antes da abordagem dos conceitos. No entanto, não se sabe se estas respostas dos professores têm de facto alguma correspondência real com as práticas de estudo dos alunos. 2

3 O uso dos manuais de Matemática pelos alunos de 9.º ano Metodologia do estudo Para este estudo seleccionámos três escolas da cidade do Porto onde se lecciona o 9.º ano de escolaridade. Procurámos que essas escolas servissem alunos com nível sócio cultural diverso, cada uma com um manual adoptado diferente. De cada uma das escolas, com o auxílio de um professor, seleccionámos 12 alunos do 9.º ano, perfazendo assim um total de 36 alunos. Procuramos escolher os alunos de modo que um terço tivesse aproveitamento Bom ou Muito Bom (níveis 4/5), outro terço agrupasse os alunos com aproveitamento Médio (nível 3), e um último grupo fosse constituído por alunos de aproveitamento Reduzido (níveis 1/2). Visto o nosso objectivo ser entender com o maior detalhe possível as razões que levam o aluno a usar ou não o manual, optámos por uma metodologia qualitativa recorrendo à entrevista presencial semi-estruturada. Construímos então um guião de entrevista organizado nos seguintes pontos: (i) Dados gerais sobre o aluno; (ii) Interesses, hábitos de estudo; (iii) Uso de manuais na escola e noutros locais; (iv) Manuais e outros intervenientes; e (v) Relação do aluno com o manual de Matemática. Resultados preliminares Neste artigo fazemos uma análise preliminar de dez entrevistas realizadas a alunos de um colégio particular, maioritariamente provenientes de famílias com elevado nível sociocultural. Apesar de alguns destes alunos serem de turmas diferentes, têm todos a mesma professora de Matemática. Uso do manual na escola Todos os alunos, quando questionados sobre se utilizam o manual de Matemática na sala de aula, responderam afirmativamente. Metade dos alunos afirma usá-lo para a resolução de exercícios e os restantes declaram que o utilizam não só para ver os enunciados dos exercícios mas também para acompanhar a matéria que está a ser leccionada no momento. À pergunta Trazes sempre o manual para a escola?, todos afirmaram que sim. Quando questionados sobre as razões desse facto, responderam: 1) Para não ter falta de material 4 alunos. Exemplo: Porque temos falta e depois vai p ra casa e temos um ( ) resmungo dos pais (E3) 3

4 Mariana Tavares & João Pedro da Ponte 2) Por necessidade 3 alunos. Exemplo: É tipo material obrigatório. Acho que o manual e o caderno diário são, para uma aula, é essencial levar. (E6) 3) Por hábito 2 alunos. Exemplo: Não sei Uma rotina (E2) Verificamos assim que dos dez alunos, apenas três indicam sentir a necessidade de usar o manual escolar na sala de aula. Uso do manual em casa Todos os alunos entrevistados indicam usar o manual de Matemática fora da sala de aula, variando no entanto as situações em que o fazem: 1) Só para fazer trabalhos de casa 4 alunos. Exemplo: Para fazer os trabalhos de casa (E9) 2) Para fazer exercícios 4 alunos. Exemplo: Em casa, sim, claro, para fazer os exercícios (E10) 3) Para fazer exercícios e estudar a teoria 2 alunos. Exemplo: Pa exercícios, mais nada. De vez em quando, assim, numa matéria posso é ir ver alguns exemplos, se não entendi bem na aula vou ver alguns exemplos para entender melhor (E8) A maior parte dos alunos indica realizar exercícios, propostos ou não como trabalho de casa. São muito poucos os alunos que referem usar o manual para estudar as explicações e exemplos. Incentivo do uso do manual pelo professor Relativamente à questão O teu professor aconselha-te a utilizares o manual nas aulas?, as respostas são diversas. Um aluno afirma Agora não. Já aconselhou mas agora não (E1). Dois alunos são da opinião que a professora aconselha por vezes e, por último, sete alunos consideram que sim. Quando questionados como é que a professora os aconselha e com que intuito o faz respondem: 4

5 O uso dos manuais de Matemática pelos alunos de 9.º ano 1) 5 alunos consideraram que a professora os aconselha a usar o manual quando lhes diz para resolverem exercícios durante as aulas. Exemplos: ( ) Vai dizendo p ra fazer trabalhos na aula e exercícios. (E7) É assim Nós na aula só usamos mesmo para fazer os exercícios Mais nada (E8) 2) 3 alunos afirmaram que lhes é sugerido acompanharem a matéria no decorrer da aula assim como resolverem os exercícios propostos. Exemplo: Ela diz, abram a página não sei quê e vejam o que tem aí (E2) Em resposta à questão se a professora aconselha a utilização do manual fora da sala de aula, quase todos declararam que sim. Exceptua-se uma aluna que afirma que ( ) não aconselha nem deixa de aconselhar (E4). Dos alunos que responderam afirmativamente, somente um considera que a professora aconselha a usar o manual de Matemática fora da sala de aula: Para compreender a matéria, para treinar (E8). Dos restantes oito alunos, metade afirma ser induzida a usar o manual quando a professora marca os trabalhos de casa e a outra metade salienta que são aconselhados a resolver exercícios: Ao nos mandar exercícios está-nos a aconselhar a utilizar o nosso livro e a compreendermos a matéria que ela deu (E10). Relação do aluno com o manual de Matemática Quando questionados relativamente ao seu interesse na utilização do manual, três alunos consideram que sentem muito interesse, quatro afirmam sentir somente algum interesse e três respondem que sentem pouco interesse. Os motivos subjacentes a esse interesse são diversos: 1) Para fazer exercícios 3 alunos. Exemplo: Sinto interesse antes dos testes, para fazer os exercícios. 2) Para ver exemplos 1 aluno. Exemplo: Só mesmo quando tenho dúvidas, ( ) se no outro livro tivesse exemplos como aqui tem acho que dava muito mais jeito 3) Para conseguir um auxílio teórico 3 alunos. Exemplo: ( ) É a matéria resumida, é os meus conhecimentos Se falha alguma coisa recorro a ele 5

6 Mariana Tavares & João Pedro da Ponte 4) Para conseguir auxilio teórico e fazer exercícios 3 alunos. Exemplo: Porque acho que sem manual, para já não se tem exercícios para resolver, e depois a teoria também preciso de alguma coisa que me diga, vou ver ao manual. Estas respostas reforçam a ideia que os alunos utilizam sobretudo o manual para realizar exercícios e só secundariamente o usam para esclarecimento de dúvidas eventualmente existentes. Considerações finais Os resultados apresentados sugerem que a maior parte dos estudantes utiliza o seu manual de Matemática como livro de exercícios e apenas uma pequena parte o usa igualmente para estudar a matéria leccionada. Também nos deixam entrever que um dos motivos que leva os alunos a não usarem o manual para estudar a teoria é o facto do professor colocar tudo o que é importante no caderno diário. O modo como os alunos usam o manual parece fortemente relacionado com as indicações que sentem receber da professora. Estes resultados preliminares levantam a questão de saber se o uso do manual pelos alunos difere substancialmente segundo as práticas dos professores, que será interessante aprofundar em investigações futuras. Referências APM (1998). Matemática 2001: Diagnóstico e recomendações para o ensino e aprendizagem da Matemática. Lisboa: APM. Cabrita, I. (1999). Utilização do manual escolar pelo professor de Matemática. In R. V. Castro (Org.) Manuais escolares: Estatuto, funções, história (pp ). Braga: Universidade do Minho, Instituto de Educação Psicologia. Gérard, F. M., & Roegiers, X. (1998). Conceber e avaliar manuais escolares. Porto: Porto Editora. 6

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