PELAS ESQUINAS DOS ANOS 70. Utopia e poesia no Clube da Esquina. por. Francisco Carlos Soares Fernandes Vieira

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1 PELAS ESQUINAS DOS ANOS 70 Utopia e poesia no Clube da Esquina por Francisco Carlos Soares Fernandes Vieira Dissertação de Mestrado em Poética apresentada à Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientador: Prof. Dr. Frederico Augusto L. de Góes. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Faculdade de Letras Julho de 1998

2 EXAME DE DISSERTAÇÃO VIEIRA, Francisco Carlos Soares Fernandes. Pelas esquinas dos anos 70: utopia e poesia no Clube da Esquina. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 1998, 132 fl. mimeo. Dissertação de mestrado em Poética. BANCA EXAMINADORA Professor Doutor Frederico Augusto Liberalli de Góes Orientador Professora Doutora Nízia Villaça Professor Doutor Antônio Lauro de Oliveira Góes Professor Doutor André Luiz Bueno Professora Doutora Ana Maria Alencar Defendida a Dissertação: Conceito: Em: / /1998

3 Para Maristela, minha estrela, e Clarice, minha pequena luz. A meu pai (in memoriam): Longe, longe ouço essa voz que o tempo não vai levar. À Minha mãe, Yvone, a meus irmãos Lygia Maria, Ana Cristina, Elisa Maria e José Alberto pela força, carinho e união. Aos sobrinhos Raphael, Guilherme, e quem mais chegar.

4 A todas as crianças e jovens, principais responsáveis por novas utopias para o século XXI. A todas as pessoas que, como eu, apreciam a poesia, seja lida, recitada ou cantada. A todos que viveram e acreditaram (e aos que, apesar de tudo, ainda acreditam) se possível transformar a utopia em topia. A todos que, juntos comigo, passaram por esquinas, ruas, estradas de terra, vales, montanhas, avenidas, praias, pedras, rios, mares, marés e minas, contribuindo, direta ou indiretamente, para esta pesquisa.

5 Agradecimentos especiais às pessoas que contribuíram mais concretamente: Professor Dr. Fred Góes, por ter aberto caminho para pesquisas referentes à canção na Faculdade de Letras e pela orientação segura e tranqüila; Professor Dr. André Bueno, pelo grande estímulo à pesquisa; Professor Dr. Lauro Góes, pelo redimensionamento da teoria literária através do teatro; Professora Doutora Beatriz Resende, pela contribuição para minha formação acadêmica; Professora Doutora Nizia Villaça, por ter aberto meus horizontes em relação à comunicação; Professora Doutora Maria da Graça Aziz Cretton, uma das maiores incentivadoras para o meu ingresso no mestrado; Professor Doutor Sérgio M. Gesteira, por me fazer gostar ainda mais da literatura brasileira; Professora Doutora Marta de Sena, pelo grande apoio quando era coordenadora de Ciência de Literatura na Pós-Graduação; Funcionários da Pós-Graduação que, nos momentos difíceis, sempre me deram força e resolveram problemas burocráticos; Maristela, pelas sugestões dadas para aperfeiçoamento do texto; Elisa, pelos toques, dicas, correções e revisões no texto; Toda a minha família, pelo apoio e compreensão em momentos nos que não pude estar presente; Rafael, amigo de tantas viagens e pé na estrada, pelas sugestões e socorros na luta com o computador; Luiz Carlos, compadre e amigo desde a graduação, pela força e incentivo ao ingresso na pós-graduação; Denise, por possibilitar o contato com os músicos e compositores Márcio Ramos e Ana Antoun e pela tradução do resumo; Marly, Márcio e Ana, pelas conversas agradáveis sobre o Clube da Esquina, sobre música e, ainda, por terem me apresentado a Nélson Ângelo; Nélson Ângelo, um dos músicos e compositores que passaram pelo Clube da Esquina, pelas agradáveis e elucidativas conversas sobre música, poesia e anos 70, registradas em fita cassete para esta pesquisa.

6 SINOPSE A importância do Clube da Esquina como resistência cultural, através da música e poesia, durante os anos 70, período mais intenso da ditadura militar no Brasil. Poesia e utopia através das canções do Clube da Esquina, revelando a união fundamental de ambas para o homem. Revitalização da poesia cantada; MPB: Um dos principais veículos da poesia na atualidade.

7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 1.1 Nas esquinas da poesia Minhas esquinas ESQUINA: CRUZAMENTO DA VIA POÉTICA E DA VIA MUSICAL Semeando as canções no vento De tudo se faz canção ANTES DA ESQUINA Pré-68: de minha garganta as canções explodem A travessia de Milton O CLUBE DA ESQUINA Da sombra eu tiro o meu sol Nuvem Cigana Saídas e bandeiras A NOITE E O SONHO NO CLUBE DA ESQUINA: RESISTÊNCIA CULTURAL PELAS ESQUINAS DOS ANOS A noite Milagre dos Peixes: censura nas esquina O sonho não acabou FIM DO MILÊNIO; FIM DAS UTOPIAS? BIBLIOGRAFIA DISCOGRAFIA...131

8 A História é um carro alegre Cheio de um povo contente Que atropela indiferente Todo aquele que a negue É um trem riscando trilhos Abrindo novos espaços Acenando muitos braços Balançando nossos filhos (PABLO MILANES E CHICO BUARQUE Canción por la unidad de Latino América) estão velhos ou mortos os homens que acreditam nos homens? Os justos estarão no fim? Não e não. Assim como a injustiça, a violência e o ódio se espalham e deixam seu rastro de miséria por onde passam a semente de amor, dignidade e justiça que recebemos frutifica e também estende seus braços. Está plantada no coração dos jovens. (...) Debaixo de nosso abençoado sol tropical, junto com nossos maiores e nossa juventude (mãos dadas com nossa infância) apostamos tudo na utopia. (FERNANDO BRANT A caminho da utopia )

9 1 INTRODUÇÃO 1.1 Nas esquinas da poesia O presente trabalho pretende analisar a produção poética do Clube da Esquina na década de 70, época em que o Brasil vive o momento do milagre econômico e sob intensa ditadura militar. Todavia, é um período em que, apesar das adversidades, surgem vários poetas, compositores, músicos, dos quais se destaca o grupo mineiro. O objeto central de estudo vai do disco Milton Nascimento (1969) até o de Lô Borges, A Via Láctea (1979), por ser o período compreendido por estas obras o mais intenso e o mais marcante de criação, produção, arranjo e execução coletiva dos principais participantes do Clube da Esquina. Antes, porém, será necessário voltar um pouco aos anos sessenta a fim de que se possa entender como surge este grupo mineiro e quais as relações existentes com movimentos importante dessa década, como a Bossa Nova, Tropicalismo, os festivais da canção, as canções de protesto, os CPCs. O ponto de partida será o ano de 1967, mesmo ano da explosão tropicalista, pois é quando se estabelece a união do quinteto central deste estudo: Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant. Contudo, serão necessárias algumas referências aos anos antecessores que possibilitaram e desencadearam este frutífero encontro para podermos entender o ideal destes autores, relacionado-as com a produção poético-musical do grupo.

10 O período de surgimento do grupo corresponde ao momento mais obscuro do regime militar instaurado em 1964, que não deixou opções para os opositores do regime e, principalmente, para jovens cheios de sonhos e idéias para mudar o mundo, como os compositores do Clube da Esquina e tantos outros da época. É bom lembrar que esse era o momento da contracultura e da ebulição do poder jovem em todo mundo, e que, no Brasil, apresentava uma especificidade devido ao endurecimento do regime em No entanto, havia uma tônica geral neste movimento, um inconsciente coletivo: a luta contra a falta de liberdade política, social, sexual, comportamental. Por isso, algumas das saídas possíveis para enfrentar tal situação foram usadas pelos jovens de então: a luta armada, as drogas, o desbunde (que é uma denominação específica do Brasil, é a contracultura aclimatada), muitas vezes de forma camuflada. Em alguns instantes, estas saídas aparecem lado a lado em pessoas que não concordavam com a truculência do regime militar e com a falta de liberdade política, cultural e artística. O ano de 1968 foi um ano marcante, um divisor de águas em nossa história recente. Não só aqui no Brasil, como na Europa, especialmente França e Inglaterra, nos Estados Unidos, na China e em outros países. Em matéria recente do jornal Folha de São Paulo, há uma série de artigos, cujo título principal é A Última Utopia, 1 que reanalisaram e revêem o ano de em nosso estudo, também verificaremos se este movimento de 68 foi realmente o último momento utópico do século, principalmente agora que se fala em fim da história, fim do socialismo, fim da utopia, fim da poesia, fim de tudo. observaremos ainda a relação da produção poético-musical do Clube da

11 Esquina com o ideal de 1968 e que conseqüências os movimentos da década de 60 geraram para estes autores. É justamente a partir deste ano (1968) que começaram a florescer as parcerias entre Milton, Fernando, Lô e Márcio, embora Milton e Márcio tenham iniciado a compor em A década de sessenta, período de grande efervescência política, social, cultura e artística, certamente influenciou e deixou marcas nas suas composições, assim como a década subseqüente de extremo cerceamento da liberdade de expressão fez com que estes outros autores tentassem fazer com que alguma contestação passasse pela fresta. 2 Afinal de contas, utopia e poesia muitas vezes caminham juntas. Podemos até afirmar que uma não existe sem a outra, portanto, se a utopia acaba, a poesia acaba também. E se a poesia acaba, conforme disse Octavio Paz, o homem reduz-se à metade. À medida que o poeta se desvanece como existência social e se torna mais rara a circulação em plena luz de suas obras, aumenta seu contato com isso que, à falta de menor expressão, chamaremos a metade perdida do homem. 3 Trinta anos se passaram. Esta poesia de esquina, logicamente sem valor pejorativo, deixou para a nossa cultura uma rica herança e, com certeza, contribuiu para o amadurecimento de nossa poesia, em especial, em sua modalidade cantada. Estas contribuições serão ressaltadas ao longo do trabalho. Para analise de nosso objeto, foram pesquisados e analisados, em primeira instância, os discos dos principais intérpretes das canções do Clube da Esquina Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e ainda alguns dos 14 Bis, do Flávio Venturini, do Boca Livre, lançados, em sua maioria, no

12 período de Recorremos a alguns discos e cd s lançados após esse período quando foi preciso estabelecer esta relação com a década de 70 e a vigente ou para ouvir regravações de canções do período assinalado acima. Para atingir os objetivos, foram consultados livros, jornais, revistas e entrevistas de rádio que se referiam diretamente ao objeto de estudo, tais como o livro Os Sonhos não Envelhecem 4, um relato de histórias do Clube da Esquina feito por Márcio Borges, um de seus integrantes primordiais. Como embasamento teórico, devido ao tema, utilizamos uma biografia interdisciplinar com textos de Poética, Semiologia, Comunicação, História, Cultura, Música. Octavio Paz, Umberto Eco, Walter Benjamim e Heloísa Buarque de Hollanda são alguns dos estudiosos que mais deram sustentação às nossas reflexões. Outra fonte importante foi a entrevista realizada com um dos músicos e compositores que participou do Clube da Esquina, Nélson Ângelo. Devido à amplitude de temas e canções e para reforçar o caráter coletivo e de convergência de ideais nas composições dos autores em estúdio, optamos em centralizar a pesquisa em alguns núcleos teóricos mais relevantes e coincidentes, tais como: noite, sonho, utopia, resistência. Embora reconhecendo a especificidade da canção e que sua plena realização enquanto arte depende de sua audição, o enfoque predominante será o poético, já que consideramos a letra de música uma forma de poesia. Contudo, sempre que necessário e possível, iremos nos referir à parte musical, pois a canção é um conjunto letra/música.

13 1.2 Minhas esquinas Apesar de já existirem outras pesquisas e trabalhos que consideram a letra de música uma manifestação literária, a destacar a Tese de Doutorado de Fred Góes 5, ainda há preconceito, algumas vezes de forma direta; outras veladamente, de algumas pessoas da área de Literatura em aceita-la como uma forma poética. Contrariando estas últimas opiniões, também defendo a tese de que letra de música é, de fato, poesia. Esta polêmica me instiga e me mobiliza desde a época da graduação, quando pela primeira vez ensaiei discutir o assunto, ainda que de forma muito ingênua e simples, apresentando uma monografia intitulada Letra de música é poesia à professora Beatriz Resende, no final do curso de Teoria Literária IV. Dessa época de graduação, destaco como fundamentais, para o aprofundamento destas questões e para minha formação, os cursos optativos ministrados pelos professores Fred Góes e André Bueno nos quais elas sempre foram tratadas sem preconceitos e com muita discussão teórica e prática. Preconceitos de lado, hoje tenho certeza de que foram, principalmente, as letras de música que me levaram a gostar tanto de poesia e, posteriormente à Faculdade de Letras. Sempre gostei muito de música e, habitualmente, tinha (ainda tenho) o costume de ouví-las com atenção, analisando-as e não apenas consumindo-as como produtos industriais vazios e sem poeticidade. Percebia que várias canções possuía valor poético e foram, sem dúvida, as canções de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Chico Buarque, Vinícius de Morais, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e tantos outros nomes da MPB que me levaram a gostar e querer conhecer outros poetas. Ou seja, foram estes que me levaram ao encontro de tantos outros

14 poetas excelentes, como Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa. Lembro-me de que, durante a década de 70, adorava ficar no meio das rodas de violão de meus irmãos mais velhos e seus amigos. Fui tendo um contato cada vez maior com a MPB: através do rádio, ouvia, de preferência, a FM-NACIONAL; através dos discos de minhas irmãs mais velhas; indo a vários shows no final dos anos setenta e início dos oitenta nos mais variados lugares. Isso sem falar nas inesquecíveis rodas de violão em 1982 com colegas da terceira série do segundo grau do Instituto Guanabara onde estudava e que aconteciam na hora do recreio, em passeios e em bares de Vila Isabel, Tijuca e adjacências. Rolavam músicas de cantores e compositores variados: Milton Nascimento, Chico Buarque (Já na época, para mim, um dos maiores poetas brasileiros), Lô Borges, Beto Guedes, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, João Bosco, etc. Dentre as músicas que faziam parte do repertório, sempre eram pedidas e desde então ficaram em minha memória estão: Um Girassol da Cor de seu Cabelo (de Lô e Márcio Borges), Cais (de Milton Nascimento e Fernando Brant), Admirável Gado Novo (de Zé Ramalho), Andança (de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), Apesar de Você (de Chico Buarque), Não Chores Mais (Versão de Gilberto Gil), O Bêbado e a Equilibrista (de João Bosco e Aldir Blanc). Estas três últimas tidas como espécie de hinos pela liberdade democrática e pelo fim total da ditadura militar. Um sinal significativo de como o LP Clube da Esquina já me impressionava (e a outros de minha geração) pela sua qualidade poético-musical é a presença de duas músicas deste disco entre as minhas preferências de então. Já conhecendo este LP duplo, pois tínhamos o disco em casa, passei a me

15 interessar cada vez mais pela obra de Milton e dos outros mineiros, destacando-se entre eles Lô Borges. Na verdade, esta questão da letra de música já me intrigava e me motivava antes de começar a Faculdade de Letras, pois via os compositores mencionados acima também como autênticos poetas e não entendia e nem aceitava essa discriminação pelo simples fato do veículo da poesia ser outro. A escolha de trabalhar com as canções dos participantes do Clube da Esquina se dá, então, por vários motivos: o prazer de ouvir e analisar seu conteúdo poético-musical, o grande interesse pelas manifestações culturais e artísticas da década de 70 e pela produção poética coletiva, uma das especificidades do texto poético-musical. Embora muitas das pessoas engajadas politicamente encarassem a contracultura e o ideal hippie como uma alienação, sempre vislumbrei ali um inconformismo com a situação vigente no país, mesmo sabendo que o movimento hippie vagava por vários países e não era só brasileiro. Na verdade, o ideal hippie e de contracultura encontra no Brasil um ambiente exatamente favorável para sua perpetuação, visto que as formas diretas de contestação política estavam fechadas. Temos, pois, uma série de grupos tentando viver e lutar contra o regime, uns mais e outros menos alternativos. O Clube da Esquina se insere neste contexto.

16 NOTAS: 1 FOLHA DE SÃO PAULO. Caderno Mais. A última utopia. São Paulo. 10/05/ VASCONCELLOS, G (1977). PAZ, O. (1972) p.85. BORGES, M (1996) GÓES, F (1993)

17 2 ESQUINA: CRUZAMENTO DA VIA POÉTICA E DA VIA MUSICAL O reaparecimento da palavra falada não implica numa volta ao passado: o espaço é outro, mais vasto, e, sobretudo em dispersão. A espaço em movimento, palavra em rotação; a espaço plural, uma nova frase que seja como um delta verbal, como mundo que explode em pleno céu. Palavra ao ar livre, pelos espaços exteriores e inferiores: nebulosa contida em uma pulsação, pestanejo de um sol. (OCTAVIO PAZ Signos em rotação) 2.1 Semeando as canções no vento* Como esta pesquisa pretende analisar a poesia produzida na década de 70 pelos letristas (ou melhor, poetas) integrantes do Clube da Esquina, quando o Brasil vivia o momento do milagre econômico e a ditadura militar, antes de iniciarmos propriamente o tema, fez-se necessário estabelecermos algumas diferenciações em relação a alguns termos que serão usados durante o desenvolvimento do texto. Em primeiro lugar, usaremos o termo poesia em seu sentido mais amplo, a arte poética. Por isso, mesmo sabendo das diferenças existentes entre poema e letra de música, assunto que será abordado adiante, esse termo será empregado ora para a letra de música, ora para o poema, pois todo o texto que trabalha artisticamente a palavra, privilegiando a função poética da linguagem, é um texto poético; daí a denominação genérica poesia. A questão letra/poesia será tratada, já que o âmago da pesquisa são letras de música e, embora com diferenças em relação aos poemas, estas são, como tentaremos demonstrar, formas poéticas, e isso é inalienável, a canção que existe para ser cantada tem um texto: e é nele que está evidente a função

18 poética da linguagem. 1 por isso chamaremos os ditos letristas de poetas por também considerá-los artistas da palavra. Não pretendemos, contudo, igualar poema e letra de música, nem estabelecer uma hierarquia de valores a afirmar que uma é superior à outra. Como foi muito bem definido por Fred Góes em sua Tese de Doutorado, a letra de música possui uma especificidade, não podendo ser analisada isoladamente da música. (...) Letra e música formam um contexto indissolúvel; não se trata de um texto subordinado à música (ou ao contrário disso). Há simultaneamente em sua produção e na perspectiva de suas relações, dada a necessidade de coadunar o ritmo, a melodia e a letra. 2 Então, se na letra de música há poeticidade, é evidente que ela também é uma forma poética. 3 Há críticos que consideram a letra de música um simples produto da indústria cultural, sendo algo que é feito para ser consumido superficialmente e sem qualquer análise ou discussão. Ou seja, descartam a possibilidade de uma letra de música vir a ser considerada uma forma literária. Na realidade, os que assim pensam produzem velhas estratificações da literatura e da arte: poema menor, poema maior; poeta maior e poeta menor; cultura superior e cultura inferior; nível alto, médio e baixo. 4 Estes críticos não aceitam que a arte literária, no caso a palavra poética cantada, seja consumida por um grande número de pessoas ao mesmo tempo, independente de sua qualidade, pois desta forma não pode ser considerada literatura, sendo somente um produto da cultura de massa. Não podemos concordar com que pensa assim, pois o simples fato de ser largamente disseminado pelos meios de

19 comunicação de massa não invalida poeticamente um texto. Será que todas as letras de música são meros produtos industriais sem valor estético? Quem pensa que sim esquece de uma coisa: da capacidade múltipla da arte, da possibilidade semiótica da arte. Ademais, classificações e estratificações como essas são variáveis no tempo e no espaço, como bem lembrou Teixeira Coelho: (...) frequentemente, na história, a passagem de um produto cultural de uma categoria inferior para outra superior é apenas questão de tempo. É o caso do jazz, que saiu dos bordéis e favelas negras para as platéias brancas dos teatros municipais. (...) 5 Portanto não se pode rotular ou enquadrar definitivamente um texto em um nível sem refletir o que está por trás disso, pois o que determina se um texto é poesia não é a sua origem, classe social, meio de disseminação ou forma e sim um conjunto de valores tais como: grau de poeticidade, universalidade, ambigüidade que, como veremos a diante, estão presentes nos textos das canções do Clube da Esquina. Na verdade, estas tentativas de classificar e dividir os textos literários tem o objetivo de separar e ratificar a divisão clássica entre a arte erudita e a arte popular, onde a primeira sempre é vista como superior pela elite. Vale lembrar aqui a oposição estabelecida por Umberto Eco: de um lado, os apocalípticos ; do outro, os integrados. 6 É preciso considerar estas duas visões antagônicas para podermos tirar algumas conclusões. Não da para aceitar a posição dos apocalípticos que simplesmente atacam e desconsideram o valor artístico da poesia cantada, por acharem que as letras de músicas apenas repetem formulas e imagens, são meros produtos

20 industriais que visam só ao lucro, estando a reboque das grandes empresas do disco e do entretenimento. O fato de reproduzir uma obra artística em série não tira seu valor estético, embora altere a concepção de arte. Caso contrário, desde que foram inventados os vários meios de reprodução de obras de arte em diferentes modalidades, não poderíamos mais falar em arte. Na era da reprodutibilidade técnica, segundo Benjamin, a concepção de arte altera-se e deixa de ter um valor apenas de culto. A arte perde sua aura primitiva e caráter de contemplação individual, assumindo um aspecto cada vez mais social e plural. A reprodução técnica da obra de arte, em suas diferentes formas, muda a relação do indivíduo com a obra. Em relação à canção, a pessoa pode ouvila em vários ligares e fruí-la de diversos modos. Ou seja, há uma refuncionalização da arte 7. No caso da literatura, esta teria acabado com a invenção da tipografia, depois com a invenção do fonógrafo e do gramofone; com a invenção do rádio, depois da televisão e, mais recentemente, a sua morte definitiva com a invenção do computador. Na realidade, o que temos são adaptações da literatura aos vários meios, sem, no entanto, uma ser melhor do que a outra; são formas diferentes que podem coexistir perfeitamente. Desde a Grécia antiga que a literatura manifestava-se principalmente pela via oral, só deixando de sêlo a partir da invenção da reprodução tipográfica. Hoje temos a literatura coligada a outros códigos, contudo, como já foi dito, isto não lhe tira o valor, ou melhor, não é este fato por si só que vai determinar se é ou não literatura. Por outro lado, não se pode também aceitar tudo passivamente como os integrados e achar que tudo que é transmitido pelos meios de comunicação de massa é poesia e literatura, porque é falado e usa linguagem poética. Se assim

21 fosse, propaganda e outros textos que utilizam a função poética seriam textos literários. Não é isso que defendemos, pois é notório e sabido que estes textos e muitas letras de música realmente só visam ao consumo fácil e aceitação passiva dos ouvintes e leitores, por vezes, de fato, sem qualquer poeticidade. Ou seja, não pretendemos dizer que todas as letras de música são grandes obras literárias, visto que algumas realmente repetem chavões e fórmulas, mas boa parte o são. Contudo, estas redundâncias não são exclusividade dos textos das canções populares, podendo aparecer em outras modalidades literárias, como: romances, contos, poemas. 8 Umberto Eco, no livro citado acima, elabora duas listas com possíveis ataques e defesas que a cultura de massas (ou como ele prefere: cultura dos mass media ou comunicações de massa ) recebe. Estes dois pólos radicalmente contrários devem ser considerados em análises do fenômeno poético em canções, visto que é possível encontrarmos, entre estas, textos altamente poéticos ao lado de outros desprovidos ou com grau reduzido de poeticidade. 9 Logicamente, não são estes textos o centro de nossa discussão e sim uma grande parte de textos da MPB que usam a palavra poeticamente sem repetir fórmulas. Ou seja, usando termos utilizados por Umberto Eco, temos de um lado as canções gastronômicas e de outro, as canções diferentes, entre as quais estão inseridas as canções do Clube da Esquina e de tantos outros nomes da MPB. 10 É importante ressaltar quer o fato de uma canção diferente ser executada maciçamente não lhe tira o valor poético, pois o fator determinante deste valor não é a quantidade de vezes que uma música é tocada, e sim o seu grau de poeticidade, algo difícil de ser medido. Essa dualidade também é percebida por Geraldo Carneiro quando afirma que é

22 preciso distinguir pelo menos duas formas de utilização do texto na música popular. Em relação ao primeiro tipo de música, ele diz que o texto desempenha uma função industrial precisa procurando originalidade na banalidade ; enquanto no segundo grupo de canções, o propósito do texto é a invenção. 11 É preciso apagar o preconceito existente que menospreza qualquer forma de literatura que não seja livresca e aceita pela elite. É o que pretendemos com uma análise poética das canções dos membros do Clube da Esquina, sempre que possível relacionando com a música já que são inseparáveis. Tudo depende da visão do que se considera arte e as suas funções. Por exemplo, Charles Lalo sugeria cinco funções possíveis da arte: função de diversão, função catártica, função técnica, função de idealização e função de reforço ou duplicação. 12 No decorrer da história da literatura, algumas dessas funções eram valorizadas em detrimento de outras; depois, em outro momento, alterava-se a hierarquia. E, assim essas e outras funções foram revezando-se. Não cabe aqui nos estendermos neste assunto, mas apenas ressaltar que a arte pode ter várias funções simultâneas na sociedade moderna. Para provar que também a letra de música é um termo literário, estamos recorrendo a alguns teóricos da literatura, arte e cultura que, ao longo dos anos se preocuparam em discutir o texto poético, passando por Aristóteles, Octavio Paz, Umberto Eco, Massaud Moisés e outros. Observaremos se o que esses teóricos discutiam e disseram sobre a poesia também pode se aplicar à letra de música e de que maneiras.

23 Por exemplo, seguindo a classificação dos gêneros proposta por Massaud Moisés, a Letra de Música, embora ressaltando seu caráter semiótico, pode ser considerada uma das formas poéticas do gênero literário Poesia, podendo aparecer nas duas espécies propostas pelo referido autor Lírica e Épica já que os autores destes tipos de textos também trabalham artisticamente com palavras, ora alargando o eu até o limite do nós: na subjetividade do poeta se reflete um povo, uma raça e mesmo toda a humanidade (o poeta épico); ora desprezando ou amoldando a si o plano exterior, se dobra para dentro de si numa autocontemplação narcisista e solitária (o poeta lírico). 13 Para comprovar isso, podemos citar como exemplo deste a canção Um girassol da cor do seu cabelo e, do outro, San Vicente, conforme podemos perceber nos fragmentos abaixo: UM GIRASSOL DA COR DO SEU CABELO (Lô Borges e Márcio Borges) Vento solar e estrelas do mar a terra azul da cor do seu vestido Vento solar e estrelas do mar você ainda quer morar comigo Se eu cantar não chore não É só poesia Eu só preciso ter você por mais um dia (...) Vento solar e estrelas do mar Um girassol da cor do seu cabelo (...) SAN VICENTE (Milton Nascimento e Fernando Brant) Coração americano Acordei de um sonho estranho Um gosto de vidro e corte Um sabor de chocolate No corpo e na cidade Um sabor de vida e morte Coração americano (...)

24 Por conseguinte, também podemos chamar os ditos letristas de poetas, uma vez que assim chamamos genericamente todos os autores de sonetos, odes, canções, rondeis, baladas, rondós, poemas, poemetos, epopéias. Isto, contudo, não descarta denominações específicas para o produtor de algumas dessas formas, como sonetista, poeta épico, menestrel, rapsodo, trovador, letrista. Ou seja, todo produtor de poesias é chamado genericamente de poeta; conseqüentemente, só por preconceito ou menosprezo por formas poéticas populares, com a letra de música, os letristas não são considerados poetas por boa parte dos teóricos da literatura que nem a consideram texto literário; quando muito, dizem que fazem parte do folclore, que é paraliteratura ou subliteratura. O próprio Massaud Moisés se contradiz, pois não considera a canção e outras manifestações orais literatura. Embora ele descarte o caráter oral da literatura ao afirmar que somente procede falar em literatura quando possuímos documentos escritos ou impressos, dizendo que a rigor, trata-se de transmissão de comunicação oral do texto literário escrito ou impresso: depois que este surge, é que se processa a sua manifestação em voz alta 14, podemos subsidiar a defesa da letra de música como uma forma poética em seu próprio texto. Massaud, ao definir literatura, prende-se muito ao caráter escrito, deixando de lado o aspecto oral: (...) Por mais generosa que seja a idéia romântica duma literatura oral, popular, esta não passa de folclore, e só adquire status literário quando escrita, pelos próprios autores ou pelos interessados na matéria; em suma, quando oferecida à leitura. Esta é, inquestionavelmente, a primeira condição para que uma obra possua caráter literário. 15

25 Depois, em nota ele cita dois autores em posições antagônicas, contudo, mais uma vez, desconsidera-as, tentando menosprezá-las. Alfonso Reyes 16 : A rigor, [a literatura é] oral por essência (e não só por sua origem genérica) visto que o caráter gráfico se refere à palavra falada e nela cobra sentido, e a palavra só é escrita por acidente, para ajuda da memória. Richard Chase 17 : não há povo que não tenha literatura. Após citar estes dois autores Massaud diz: Parece que se confundem atividades limítrofes, mas não idênticas, o Folclore e a Literatura, e está-se conferindo a populações iletradas uma atividade que pressupõe, necessariamente, o ato de escrever. 18 Mais uma vez Massaud repete um preconceito existente desde que o homem associou a arte literária à letra, sinal gráfico, esquecendo-se de que esta não existe se o som; é apenas uma representação gráfica dos sons das palavras. E ainda ressalta o caráter elitista da arte literária ao dizer que esta não pode ser feita por iletrados. Parta ressaltar a posição aqui defendida, observamos o que diz McLuhan: Dir-se-ia que a grande virtude da escrita é o poder de deter o veloz processo do pensamento para a contemplação e analises constantes. A escrita é a tradução do audível para o visual. 19 Na verdade, o que Massaud diz ser inquestionável e primeira condição para uma obra ser literária é uma consolidação de uma postura elitista que desconsidera manifestações literárias orais e esquece o fato de que a literatura se faz com palavras. Estas não são apenas sinais impressos em papéis, são, acima de tudo, combinações de poemas, possuindo ritmo, intensidade, musicalidade. Aqui vale lembrar Fernando Paixão: Ler com os ouvidos/ Ler com o nariz/ Ler com a boca/ Ler com a pele. 20 Não podemos, então, esquecer a capacidade múltipla da literatura, de se realizar de diferentes modos.

26 Não pretendemos, contudo, retirar a importância da disposição espacial das palavras no papel, importantíssima para a poesia; nem esquecer que existem formas literárias contemporâneas que dependem fundamentalmente da escrita, como o romance; mas sim reiterar a possibilidade de definirmos Literatura de uma forma mais abrangente e despreconceituosa. Ademais, mesmo sem a presença do texto escrito, é possível realizarmos o ofício de críticos e fruidores do texto literário. Isto é possível ao ouvirmos um poema, um repente ou desafio, uma história, uma canção; ao assistir a uma peça de teatro e ao presenciarmos outras manifestações literárias orais. É óbvio que, se tivermos o texto em mãos, poderemos nos deter mais detalhadamente em aspectos não percebidos somente pela oralidade. Enfim, reiteramos o que disse Alfonso Reyes: a arte literária existia mesmo antes de haver a reprodução tipográfica e até antes de haver a escrita; por isso, a literatura é oral em sua essência, sendo a letra responsável, principalmente, pela perpetuação dos textos. A escrita tem a função essencial de registro, sendo impossível imaginar a literatura e a sociedade atual sem ela, porém o fato de tal texto não estar escrito não invalida seu caráter literário, nem impede sua fruição como arte. Apesar de reconhecida como forma autônoma e poética por alguns críticos, a letra de música ainda hoje é vista por muitos teóricos, professores, estudiosos de literatura como uma forma menor, sem valor estético, mero produto de massa, paraliteratura, fato abordado e discutido na Tese de Doutorado de Fred Góes:...inúmeras classificações que aqui se sintetizam na de Jean Tortel paraliteratura que pela própria etimologia, já deixa bem clara

27 a posição defendida por muitos, isto é, má literatura, aquilo que está à margem do literário. 21 Vários teóricos procuram rotular e desqualificar modalidades literárias não convencionais, não livrescas como sendo formas menores, marginais. Foi assim com a poesia concreta, com a poesia produzida pelos poetas alternativos da década de 70, também chamados marginais, foi e é assim com os nossos letristas da MPB e tantos outros que não seguem o cânone literário. Trabalhar com um grupo de artistas literários que foram tachados de desbundados e que optaram em trabalhar a palavra poética na música durante a década de 70 é algo muito estimulante. Não pretendemos, contudo, inverter o preconceito e considerar a poesia cantada superior à poesia escrita ou falada, nem muito menos afirmar que toda letra de música é uma obra-prima. O objetivo é mostrar que a poesia cantada é literatura, visto que trabalha artisticamente a palavra. A canção é uma forma poética que apresenta diferenças em relação ao poema, pois, como vimos é a união de letra e música e, por isso, sua plena realização só acontece a partir da interação das duas. Assim como o gênero dramático só se realiza plenamente quando encenado e acrescido de elementos extraliterários (o palco, a encenação, o figurino, o cenário, as luzes, etc), a canção só se realiza plenamente quando a letra, parte literária, está associada à música. No caso da literatura brasileira deste século, é inconcebível imaginar uma antologia poética ou estudo sobre a poesia deste período que não contenha textos poéticos advindos da música popular. Um painel da poesia brasileira dos últimos trinta anos tem que conter textos de Milton Nascimento, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Fernando Brant, Chico Buarque, Caetano Veloso,

28 Gilberto Gil, Djavan, Capinam, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, entre tantos outros que trabalham poeticamente a palavra associada à música; assim como um amplo painel da literatura brasileira da primeira metade do século, sem preconceitos quanto ao meio de disseminação poética, deve conter textos de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Orestes Barbosa, Cartola, Ari Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e muitos outros. Na verdade, o preconceito em relação à letra de música e outras manifestações poéticas mais populares data de muito tempo. Basta observarmos o preconceito que sofreram vários de nossos compositores populares da primeira metade deste século: Ainda era muito forte o preconceito contra a música popular. Segundo os padrões moralistas da época, o mundo da música era ocupado por homens e mulheres que não mereciam, sequer, ser recebidos em casas de família. 22 Aqui se percebe claramente a oposição entre cultura popular e cultura erudita. A primeira seria uma arte menor e, por isso, não merecia uma boa aceitação por parte da sociedade da época, enquanto a segunda seria a Arte. Neste trecho de seu livro A MPB na era do rádio, Sérgio Cabral relata o episódio em que Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, escondeu-se sob um pseudônimo para que os amigos não o identificassem como autor e cantor ao mesmo tempo, sendo um recurso utilizado por outros autores. Ou seja, se a sociedade da época não aceitava a música popular, considerando-a algo feito por malandros e pela classe mais baixa, como iria aceitar que alguém dissesse que textos das canções poderiam ser considerados poesia e, portanto literatura. Os compositores/poetas do Clube da Esquina deixaram músicas e versos inesquecíveis e belos, ao mesmo tempo em que nos dão uma síntese de como

29 foi este período Aqui vale lembrar Octavio Paz quando estabelece a relação entre poesia e história. Esta é uma das funções da poesia: o resgate de um período histórico, fazendo-nos reviver o momento. A poesia não descreve o momento ou relata-o como a história, revive-o, recria-o. Os textos das canções do Clube da Esquina fazem tão bem este papel, que, portanto, evidentemente são poesia De tudo se faz canção** O preconceito com a letra de música é o mesmo que, em geral, acompanhou e acompanha as formas literárias que não são da cultura letrada desde que a poesia deixou de ser predominantemente manifestada pela via oral. Podemos dizer que, após a Idade Média quando ainda era bastante valorizado o seu caráter oral, a literatura se elitiza, passando a se supervalorizar a modalidade escrita em detrimento da oral, seja falada, seja cantada. O século XX trouxe várias inovações que, no seu decorrer, foram acarretando mudanças na vida das pessoas e, dentre essas, alterações diversas na arte, e em especial, na literatura. Portanto a arte moderna incorporou e vem incorporando as inovações tecnológicas, utilizando-as como instrumentos. A poesia cantada começa a recuperar um pouco de espaço, não de seu valor, com a modernidade, quando os novos meios de reprodução fonográfica são criados e vão se sofisticando ao longo do século. Pode-se localizar esta tímida revitalização da poesia no início do século com o advento do modernismo, quando as audições de música começam a se deslocar do espaço privado para o espaço público, ainda que com um limite de propagação restrito

30 às classes mais privilegiadas. Este aspecto é muito bem discutido por Nicolau Sevcenko em seu livro Orfeu extático na metrópole. Não foram só salões, clubes e bailes pagos que vieram mudar a cena. Por trás deles estava a universalização da indústria fonográfica, com o grande destaque das distribuidoras americanas. O ano de 1919 assinalou justamente a transição tecnológica do obtuso gramofone para a moderna vitrola: mais versátil, mais potente e sobretudo mais acessível. (...) Por isso, se o gramofone estivera associado com as audições privadas, no lar, em família, de música erudita ou óperas, a vitrola se oferecia para audições públicas de jovens excitados com o frenesi de bandas estridentes (...). 24 As invenções do fonógrafo e do gramofone possibilitaram uma ampliação, ainda tímida, das audições musicais que antes era restrita aos concertos em teatros, às músicas tocadas pelas orquestras como fundo nos cinemas e em suas salas de espera ou em casa, principalmente, através do piano. Ainda no fim do século XIX, o fonógrafo já aparecia como a grande invenção que reproduzia sons variados: Grande exposição da máquina norteamericana O fonógrafo Que fala! Canta! Ri! Ladra! Mia! E toca solos de pistom! 25 Na década de 20, teremos o início das gravações elétricas e a evolução no rádio ampliando a audição de música popular, sendo, segundo Sergio Cabral, o símbolo deste novo modo o cantor Mário Reis ( ). (...) Era algo muito novo para um público que se acostumara a ouvir a nossa música geralmente mais gritada do que propriamente cantada. Agora, dispondo de um sistema de som capaz de registrar qualquer tipo de voz, por meio de microfones, amplificadores e agulhas eletromagnéticas de leitura, ninguém precisava berrar mais. Cantando de maneira coloquial, muitas vezes quase recitando, Mário Reis tornouse o pai da moderna apresentação da música popular brasileira. (...) 26

31 Temos ainda nesta época a instalação, modernização e evolução tecnológica das gravadoras no Brasil. Foram instaladas no Brasil as multinacionais Parlophon, Columbia, Brunswick e a Victor todas com equipamento elétrico. foi uma época de muitas gravações na música popular brasileira. Uma das conseqüências é a possibilidade de, assim como no poema, acompanhar pelas letras das músicas a evolução dos acontecimentos políticos 27, ou seja, de revivermos a história de um período, algo que é uma das características fundamentais do texto literário. Esta é uma função muito bem desempenhada pela crônica e incorporada ao poema pelo Modernismo, que passa a apresentar uma linguagem mais próxima do cotidiano e temas do dia-adia. Dentre os compositores deste período podemos destacar Noel Rosa, um poeta e tanto que nos faz viver um momento histórico com belas imagens. E já na década de 30, segundo Sérgio Cabral, os aparelhos de reprodução fonográfica começam a ser adquiridos pela classe média, dando início a uma era em que o rádio se destacaria cada vez mais como o principal veículo da música popular brasileira e da poesia cantada: O mercado foi contemplado com a venda a crédito, o que levou a classe média, já nos primeiros anos da década de 30, a substituir o velho piano da sala de visitas pelo aparelho de rádio e pela vitrola, ou pelo gramofone. 28 Após esta fase, teremos a canção popular cada vez mais ocupando espaço nos meios de comunicação, por meio dos programas de rádio e dos festejos de carnaval, que eram seus principais divulgadores. Posteriormente, além do rádio, que ocupa um espaço relevante na cultura brasileira desde os anos 30, embora a primeira estação brasileira de rádio a Rádio Sociedade

32 tenha surgido em 20 de abril de 1922 no Rio de Janeiro, teremos a televisão, os festivais e shows difundindo a poesia cantada. O desenvolvimento da radiofonia foi o principal instrumento para revigorar a poesia em sua modalidade cantada. Sendo o elemento fundamental de divulgação de grandes mestres da nossa MPB, como Noel Rosa, Pixinguinha, Silvio Caldas, Orestes Barbosa e tantos outros, o rádio continua exercendo esta função, auxiliado pela televisão, sobretudo a partir dos anos 60. Embora Sergio Cabral marque como o fim da era do rádio o ano de , o rádio continua fazendo parte do dia-a-dia do brasileiro, porém de outra forma. Não mais os músicos e cantores ai vivo nas rádios, embora isso tenha se prolongado pelo início da década de sessenta. A partir dos anos 60, temos uma nova era do rádio, cabendo a este veículo a propagação da poesia cantada através das músicas gravadas em LPs. Na verdade, não temos a morte deste veículo de comunicação, apenas uma alteração no seu modo de execução proporcionada pela chegada da televisão ao Brasil em É lógico que esta alteração não se dá repentinamente, mas sim de forma gradativa durante os anos 50. A frase que se ouvia na rádio Nacional-FM (décadas de 70 e 80) brasileiro não vive sem rádio expressa muito bem a relação que o brasileiro continuou tendo com este veículo de comunicação e a música popular propagada por ele. Assim como a rádio não acabou com a chegada da televisão, ele continua tendo seu espaço próprio após a chegada do computador e com um papel fundamental da propagação da música e da poesia cantada de hoje e de outros tempos. Assim como a poesia escrita tem e continuará a ter seu espaço mesmo com todas as inovações tecnológicas.

33 Enfim, um meio não anula necessariamente outro, podem coexistir perfeitamente: reunião de signos em rotação, espaço plural. 30 Através do rádio a poesia cantada se espalha por todo território nacional, colocando belos versos nos ouvidos e lábios de milhões de brasileiros, para desespero dos conservadores da literatura que valorizam somente a poesia escrita e não consideram a letra de música manifestação literária ou criam rótulos para diminuí-la, como, por exemplo, paraliteratura. Embora fazendo parte da vida brasileira desde que se popularizou nos anos 30, a MPB ganha fôlego novo a partis da década de 60 e 70 com a expansão dos meios de comunicação de massa e a poesia invade lares e bares via música popular brasileira. Temos, então, boa parte dos nossos melhores poetas produzindo poesia para ser cantada. Isso não quer dizer que não tenha existido poesia livresca neste período, porém boa parte dos textos poéticos da época estavam na música popular, seja na bossa nova, na canção de protesto, no tropicalismo, seja nas canções dos festivais ou, posteriormente, no Clube da Esquina e outros. (...) É importante salientar que, neste momento, a música se torna um item fundamental na pauta de consumo de boa parte da juventude das camadas médias das áreas urbanas. A música veiculava não apenas informação estritamente musical, mas também poética e comportamental e, tudo isso, de modo especialmente integrado. (...) 31 Originalmente, a literatura era iminentemente um ato social, passando depois a ser um ato predominantemente individual, mesmo considerando que continuaram existindo, como até hoje, audições públicas, recitais de poemas, histórias contadas em rodas familiares e de amigos. O enfoque principal passa a ser o texto escrito em detrimento da oralidade.

34 Em sua origem, a poesia, a música e a dança eram um todo. A divisão das artes não impediu que durante muitos séculos o verso fosse ainda, com ou sem apoio musical, canto. Em Provença os poetas compunham as músicas de seus poemas. Essa foi a última ocasião em que a poesia do ocidente pôde ser música sem deixar de ser palavra. Desde então, toda vez que se tenta reunir ambas as artes, a poesia se perde como palavra, dissolvida nos sons. A invenção da imprensa não foi a causa do divórcio, mas acentuou-o de tal modo que a poesia em vez de ser algo que se diz e se ouve converteu-se em algo que escreve e se lê. Certo, a leitura do poema é uma operação particular: ouvimos mentalmente o que vemos. Não importa: a poesia nos entra pelos olhos, não pelos ouvidos. E ademais, lemos para nós mesmos, em silêncio. Trânsito do ato público ao privado: a experiência se torna solitária. (...) 32 Realmente, a partir da invenção da reprodução tipográfica, a poesia afasta-se de suas origens e passa a ser mais vista e lida em silêncio do que ouvida, falada e cantada. Posteriormente, há uma mudança em seu formato proporcionada pelo século XX e a modernidade: a recuperação e a revalorização do som da poesia, principalmente através da música popular, contudo, agora, é um som amplificado. Na verdade, a poesia não se perde e fica dissolvida nos sons quando acompanhada da música, apenas há mudanças significativas no pronunciamento das palavras influenciadas pela melodia, ritmo, arranjo e harmonia da linguagem musical. A música reforça a palavra e seu conteúdo poético, obviamente de forma diferente do poema. Pode ser que antes que antes do advento do Modernismo houvesse isso, porém este começa a revitalizar a poesia cantada, ainda que de forma tímida. Todavia, a partir dos anos 60, esta revitalização torna-se irrevogável com a poesia cantada dominando, muitas vezes, a cena poética brasileira. Há, então, um revigoramento da poesia com seu deslocamento para o espaço público.

35 (...) Hoje a situação transformou-se de novo: voltamos a ouvir o mundo, embora não possamos vê-lo. Graças aos novos meios de reprodução sonora da palavra, a voz e o ouvido recobram seu antigo lugar. Alguns anunciam o fim da era da imprensa. Não creio. Mas a letra deixará de ocupar um lugar central na vida dos homens. O espaço que a sustentava já não é esta superfície plana da física clássica, na qual se depositavam todas as coisas, desde os astros até as palavras. (...) hoje o espaço se move, incorpora-se e torna-se rítmico. Assim, o reaparecimento da palavra falada não implica numa volta ao passado: o espaço é outro, mais vasto, e, sobretudo, em dispersão. A espaço em movimento, palavra em rotação; a espaço plural, uma nova frase que seja como um delta verbal, como um mundo que explode em pleno céu. Palavra ao ar livre, pelos espaços exteriores e interiores: nebulosa contida em uma pulsação, pestanejo de um sol. 33 Ainda sobre a relação música-poesia, podemos refletir sobre o que Octavio Paz diz: A poesia ocidental nasceu aliada à música; depois, as duas artes se separaram e cada vez que se tentou reuni-las o resultado foi a querela ou a absorção da palavra pelo som. Assim não penso em uma aliança entre as duas. A poesia tem a sua própria música: a palavra. E esta música, como Mallarmé demonstra, é mais vasta que a do verso e da prosa tradicionais. De uma maneira algo sumária, mas que é testemunho de sua lucidez, Apollinaire afirma que os dias do livro estão contados: la typografye termine brillament as carrière, à l aurore des moyens nouveaux de reproduction qui sont lê cinema et lê phonographe. Não creio no fim da escritura; creio que cada vez mais o poema tenderá a ser uma partitura. A poesia voltará a ser palavra pronunciada. 34 Há aqui duas posições aparentemente contraditórias, mas que, no fundo, não são excludentes. Primeiro, Paz afirma não crer numa aproximação da poesia com a música, defendendo que a poesia possui a sua própria música e que esta acaba por absorver a musicalidade latente do texto poético. Já Apollinaire dizia que a poesia escrita estava com os dias contados, devido aos novos meios de reprodução fonográfica que permitiriam uma divulgação muito maior da poesia cantada. O próprio Paz conclui dizendo que não crê no fim da

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