A questão ambiental no Brasil do futuro

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1 A questão ambiental no Brasil do futuro Por Eduardo Reimann, associado do Instituto de Estudos Empresariais Impossível folhear qualquer periódico brasileiro e não se deparar repetidas vezes com palavras e expressões ligadas diretamente à questão ambiental. Em uma razão geométrica, nos são infundidas ideias como sustentabilidade, responsabilidade ambiental, produtos e serviços verdes ou carbono neutro, que, repetidas como mantras, se tornam inquestionáveis e unânimes, se impondo como imperativos categóricos à vida das pessoas. Soma-se a essas ideias o conhecido afã legislativo brasileiro que, ansioso para capitalizar politicamente o ideário em voga, faz brotar códigos, regulamentos, leis e órgãos que tornam ainda mais densa e espinhosa a caatinga burocrática em que o empreendedor é obrigado a se embrenhar. A mesma coisa acontece, proporcionalmente, com o cidadão, mesmo que pretenda apenas proceder a uma poda em seu próprio quintal. Para a cultura ocidental, talvez com exceções pontuais, o ideário verde é absoluto, impermeável e intransigente, incidindo com força e de forma inclemente sobre os desviantes. Porém, cabe questionarmos sua validade e razoabilidade e pesarmos o que oferecemos em contrapartida. Impõe-se a necessidade de reflexão e de um estudo desapaixonado e objetivo, sob pena de seguirmos como uma manada por um caminho que pode não ser aquele que gostaríamos de trilhar. O momento para empreendermos tal esforço se apresenta. Com esse intuito, semeiam-se pelos parágrafos seguintes algumas ideias e conceitos que podem contribuir para alterar a abordagem dada à questão ambiental e servir para a construção do Brasil em que queremos viver. 1

2 Compreendendo o status quo Fundamental para construirmos ideias novas que venham a alterar a maneira como se lida com o tema atualmente é conhecermos a base sobre a qual foi erigido o edifício que hoje se dá como estabelecido. E no seu âmago, a corrente abordagem entende que é negativo o impacto que o homem vem causando ao planeta, trazendo, dentre outros problemas, a diminuição da biodiversidade, o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio e a produção e o descarte excessivos e danosos de resíduos. Portanto, o tratamento dispensado à questão ambiental é firme, dando-se principalmente por meio da criação estatal de parques e reservas nacionais, da limitação e regulação do uso de biomas e recursos naturais, além do estabelecimento de leis e padrões que limitem a geração de resíduos poluentes. O método de cercar, multar e taxar é naturalmente limitado pela capacidade restrita dos agentes de fiscalizar o bom cumprimento das medidas, bem como pela sempre crescente inventividade dos indivíduos, que buscam satisfazer seus objetivos econômicos. Mesmo com o apelo incessante à consciência das pessoas para que tomem jeito e respeitem a natureza, e com a pressão constante para a expansão e o aparelhamento estatal dirigidos ao combate do dito problema, a sensação é de fracasso. Havendo esse sentimento persistente de derrota e de que caminhamos em marcha acelerada e prestes a cruzar um ponto sem volta, o movimento verde toma contornos ainda mais dramáticos, ganhando mais apelo e espaço na sociedade. Alguns conservacionistas apelam para medidas radicais e desesperadas, como ecoterrorismo e sabotagem, enquanto grupos mais pragmáticos buscam criar arranjos locais com comunidades de poucos recursos que explorariam sustentavelmente o objeto que se deseja preservar. Os meios citados objetivam alcançar um equilíbrio ambiental impreciso, difuso, na maioria das vezes por meio da arena política, trazendo as decisões sobre a conservação de recursos ambientais para serem tomadas pela via do voto, transformadas em legislação, ou por ações pontuais ou organizadas de grupos de bons samaritanos que esperam que seu comportamento se propague feito um vírus. 2

3 Pesa notar que virtualmente nenhum grupo que tenha como objetivo a preservação ambiental se utilize de uma abordagem de mercado para atingir seu fim. Valor subjetivo É importante que nós consideremos a questão do valor intrínseco de preservar o meio ambiente ou de ser ecologicamente correto, por exemplo. Como podemos afirmar que atitudes nesse sentido sejam boas em si mesmas? Como julgar esse valor? Seria possível apurá-lo objetivamente, para que seja possível tomar uma decisão política e racional, por assim dizer? No caso, provável, de ser impossível essa quantificação e ponderação objetiva do que é mais valioso e de qual ação deva ser tomada, como se pode tomar uma decisão política a respeito do assunto? A forma como a questão ambiental é tratada impossibilita raciocínios sobre o seu mérito. Não se pensa na forma se quero atingir tal resultado, devo utilizar tal meio, que são condicionais, colocando em subordinação o meio utilizado ao fim almejado. A argumentação se dá de forma categórica e inapelável: é preciso salvar o planeta porque é preciso. Não se subordinando a nenhum fim, tem valor em si mesmo. Porém, o julgamento moral sobre algo ser bom ou ruim é coisa humana e individual. A manutenção de um equilíbrio ambiental que possa suportar vida humana neste planeta só pode ter valor para um indivíduo ou um grupo de indivíduos. Uma pessoa que, em vez de pensar que preservar o planeta é preciso, pense querer preservar o planeta por achar um objetivo nobre e importante, assume que isso é algo da sua liberalidade, podendo não ser o mesmo caso para outra pessoa. Indivíduos diferentes têm escalas de preferências e valores diferentes. Parece claro que uma pessoa mais imediatista valorizará menos a questão verde do que uma pessoa bem estabelecida na vida, com necessidades básicas satisfeitas e com uma família a caminho. Somente havendo liberdade de escolha e um mercado onde negociar esses valores é que se chega a um resultado que poderia ser considerado justo ou natural. 3

4 Hierarquia das necessidades Mesmo que as pessoas valorizem cada uma das escolhas da vida de forma diferente, individual, é possível organizar essas vontades em grandes grupos que, de forma recorrente, seguem padrões e nos permitem fazer algumas reflexões acerca da forma como as pessoas aplicam suas energias. Theory of Human Motivation é o título do estudo divulgado no ano de 1943 pelo psicólogo americano Abraham Maslow, em que ele busca empreender a tarefa de descrever as etapas do crescimento humano e suas motivações. A forma clássica em que o resultado desse trabalho é apresentado é uma pirâmide com as maiores e mais fundamentais necessidades na parte de baixo da figura. São as necessidades fisiológicas como respiração, alimentação, sono, homeostase e excreção. São literalmente requisitos para a sobrevivência. A segunda camada da pirâmide é formada pelas necessidades de segurança, como segurança do próprio corpo, do emprego e da situação financeira, segurança da família e da propriedade. Estando as necessidades da segunda camada da pirâmide satisfeitas, são as necessidades sociais no terceiro nível da figura que entram em pauta. São relações como amizades, relações familiares e de intimidade. São as necessidades de pertencer e ser aceito, seja em grandes grupos, como no trabalho, em grupos de amigos, em clubes, seja em pequenas conexões sociais. As duas camadas no topo da pirâmide são, em ordem ascendente, estima e realização pessoal. São necessidades que envolvem autoestima e respeito, o desejo de ser aceito e valorizado pelos outros, o reconhecimento e a sensação de que contribui para algo, que deixa algo para a posteridade. No topo, é a vontade de realizar plenamente seu potencial. É possível, e mesmo provável, que a hierarquia das necessidades das pessoas tenha formatos diferentes, como as pirâmides etárias dos diversos países, sendo algumas necessidades mais ou menos importantes para alguns do que para a média das pessoas. Mas é possível tomar como base que o indivíduo médio deve organizar suas vontades de forma razoavelmente parecida como a proposta pelo estudo do psicólogo americano. Imaginemos também que, na maioria dos casos, as pessoas somente passem a se preocupar com as necessidades de um nível superior da escala, no caso de ter os níveis inferiores suficientemente atendidos. Também é de se presumir que unidades marginais de níveis já suficientemente 4

5 atendidos sejam praticamente negligenciadas. Dessa forma, então, façamos o esforço de tentar analisar as escolhas feitas por determinados grupos hipotéticos: a massa de trabalhadores chineses que negligencia condições laborais e cuidados ambientais em troca de ganhos materiais, e os alemães eleitores do partido verde que pedem o fechamento de usinas nucleares e a adoção de fontes de energia limpa. O primeiro grupo estaria recém satisfazendo as necessidades da segunda camada da pirâmide, e, ainda de forma precária, se preocupando com sua estabilidade no emprego e a segurança financeira no médio prazo o que os torna praticamente cegos a qualquer coisa mais alta na hierarquia das necessidades. Os indivíduos do segundo grupo, tendo atendidas satisfatoriamente suas necessidades até o quarto degrau da pirâmide, agora se sentem tentados a empreender seus esforços e dirigir seus recursos para causas nobres e altruístas, sentir que fazem algo certo e que contribuem para algum objetivo mais elevado. O tratamento que o segundo grupo daria ao problema comumente seria culpar a ignorância do primeiro grupo, pelo fato de ele não ver algo certo e bom como eles julgam ser o objetivo do seu grupo. O fato de os dois grupos estarem em estágios diferentes dessa escada do crescimento humano e de motivação faz com que eles valorizem de formas diferentes as escolhas que se apresentam. Quando fazemos uma ligação entre a hierarquia das necessidades e o indivíduo racional que pensa na margem, na unidade incremental de um bem, temos que, para o segundo grupo, a unidade incremental de bem-estar material que o primeiro grupo busca vale perto de nada, por ele já ter essa necessidade satisfeita. A unidade incremental de bem-estar ambiental, por assim dizer, que o segundo grupo busca pode ter um alto valor para esse grupo e ter um valor irrelevante para o outro. Se, nesse caso, houvesse uma decisão política em que o direcionamento de recursos fosse decidido para todos os dois grupos, impossibilitando uma escolha individual, haveria muito certamente uma transferência de bem-estar de um dos grupos para o outro uma injustiça. 5

6 Nada é de graça O pensamento do grande público no tocante à preservação ambiental falha ao não levar em conta que, para toda escolha feita por um indivíduo, existem custos de oportunidade. Para uma dada decisão, existe sempre um preço expresso em termos de outras opções possíveis que deixam de acontecer. Como diz o ditado, não se pode ter o bolo e comer o bolo. É o fundamento que norteia o estudo de economia, em que os recursos produtivos são limitados, e as vontades humanas, virtualmente intermináveis o princípio da escassez. Não podemos ter tudo o que queremos na quantidade que gostaríamos; portanto, somos obrigados a fazer escolhas dentre as alternativas disponíveis. Racionalmente, direcionamos nossos esforços e recursos para os fins que mais valorizamos. Se refletirmos, por exemplo, sobre a questão da reserva legal a ser preservada por lei no Brasil, vemos como é interessante a avaliação sob o ponto de vista da escassez. Segundo o Código Florestal, os proprietários são obrigados a reservar uma parte de seu domínio para que a vegetação natural siga intocada, podendo essa fração variar, de acordo com o bioma em questão, entre 20% e 80% da área de terra (não incluídas aí outras áreas também de preservação obrigatória). Como hipótese para o nosso estudo, vamos imaginar que, por vontade do povo, sejam aumentados os percentuais anteriormente citados para entre 40% e 100% de área de preservação, dependendo do bioma. Se, para todos os efeitos, imaginarmos que a hipotética nova lei fosse cumprida à risca, o que poderíamos deduzir que ocorreria como efeito dessa medida? Que aumentariam as áreas preservadas, melhorando os biomas, a fauna e a flora, a qualidade do ar e outros elementos ambientais, evidentemente. E a maioria das pessoas pararia sua análise por aí e não teria dificuldade de julgar como positiva a medida tomada. Porém, se imaginarmos do que abrimos mão, esse julgamento não seria tão fácil. Pensemos nos diversos usos que eram dados a essas frações e que agora não mais ocorrerão, ou terão de ser realocados. No caso dessas atividades não mais poderem ser exercidas, não havendo outras áreas adequadas, diminui-se a oferta e há aumento de preço, por consequência. Podendo essas atividades ser deslocadas para outras regiões, certamente sua produtividade será inferior ou seus custos serão mais elevados, razão pela qual estavam instaladas na área de onde seriam removidas 6

7 pela nova medida. Ainda temos de considerar a questão do custo imposto ao proprietário, visto que ele deve adquirir 100% de uma área para desenvolver sua atividade em no máximo 60% da propriedade. Portanto, o custo das benesses anteriormente listadas é, muito certamente, vegetais menos frescos e mais caros, madeira em menor quantidade, pior qualidade e preço mais alto, carne menos farta e mais cara. Esse tipo de raciocínio se aplica de maneira irrestrita a qualquer de nossas escolhas, das mais simples às mais graves, e foi extraordinariamente tratado pelo brilhante economista e membro da assembleia francesa Frédéric Bastiat em seu ensaio Ce qu on voit et ce qu on ne voit pas, de Nele o autor demonstra como custos de oportunidade e consequências não antecipadas afetam a atividade econômica de maneiras não percebidas, ignoradas. Especialmente interessante é a breve passagem que ficou conhecida como A Parábola da Janela Quebrada, na qual é imaginado um cenário onde uma criança brincando quebra o vidro de uma loja. O responsável pela criança fica zangado com o prejuízo que terá, no que é consolado pelos passantes que assistem a cena e dizem que são acidentes como aquele que fazem a economia girar. Perguntam retoricamente: o que seria do vidraceiro se ninguém quebrasse janela alguma? Segue com a visita do profissional que conserta a janela a um custo de seis francos, dinheiro esse que será empregado na compra de recursos e ferramentas que movimentarão outros setores da economia, seguindo uma cadeia interminável. Concluir-se-ia que quebrar janelas é positivo, pois incentiva a circulação de dinheiro e a economia como um todo. Bastiat então aponta que o fato que não se vê nesse caso é como o responsável pela criança que quebrou a janela utilizaria seus seis francos se ele não incorresse nessa despesa inesperada. Ele talvez comprasse novos sapatos ou livros. Ele colocaria seus recursos para outros usos, mas movimentaria da mesma forma a economia. O autor calcula então que o resultado para a indústria é de empate nos dois cenários em que seis francos movimentam a indústria do vidro ou de outro bem. Já do ponto de vista da pessoa que dispende os seis francos, em um cenário ele desfrutaria de um calçado novo, além de uma janela; no outro, tendo ele que substituir a janela quebrada, só teria esse bem. Depreende-se que haveria um prejuízo com a destruição indesejada. 7

8 Pense na situação em que uma fábrica é obrigada a adotar um sistema de redução das suas emissões de gases. Os recursos investidos por essa empresa para esse fim necessariamente são recursos que não estarão disponíveis para outras aplicações, como pesquisa e desenvolvimento de produtos ou investimento em uma nova máquina. É necessário apurar o resultado econômico levando em conta as oportunidades de que se abre mão ao tomar uma dada decisão. Existe uma curva de possibilidades de produção com infinitas formas de alocação dos recursos disponíveis, mas sempre que nos movimentamos sobre essa fronteira recebemos algo em detrimento de outras coisas. Mesmo quando não fazemos nada, o que é defendido por alguns grupos que dizem que se deve consumir menos e viver de forma mais simples, abrimos mão do que poderíamos estar fazendo. A importância de incentivar adequadamente Outra questão a considerar é como a decisão é tomada. Se conseguíssemos ver, mesmo que muito imprecisamente, os benefícios e os custos que dada medida traz, poderíamos tomar uma decisão sobre se é do nosso interesse seguir esse caminho. Mas veja como os custos da aplicação da medida que discutimos no parágrafo anterior se distribuem de forma muito díspar. Por um lado, o proprietário que teve seu direito diminuído e perderá a possibilidade de empreender como anteriormente fazia arcará com custos maiores. Ele terá mais capital imobilizado na forma de terras proporcionalmente à sua produção e terá sua produtividade diminuída por ter de usar recursos menos produtivos, como terras menos férteis e mais distantes. Além disso, ele também terá de arcar com os preços mais altos dos produtos, que terão oferta menor e custo de produção mais alto. Por outro lado, o não proprietário arcará somente com os últimos custos mencionados. Fica claro então que a avaliação que cada grupo fará sobre a medida diferirá grandemente. Essa diferença tão marcante entre o grupo que paga a conta e o grupo que se beneficia do resultado cria incentivos poderosos que trabalham de forma contraproducente e que se realimentam. Assim, aumenta-se a disparidade, e o resultado econômico alcançado afasta-se, de forma sempre crescente, daquilo que seria normalmente demandado pelos indivíduos se arcassem cada um com o custo 8

9 de suas decisões. O grupo de proprietários que perdem com a implementação da medida tenderá a dirigir mais recursos para a arena política, de modo a diminuir seus prejuízos ou prevenir que eles sejam aumentados; tenderá ainda a buscar outra atividade em que estejam ausentes as inseguranças e a baixa margem econômica, tudo isso levando, portanto, a uma diminuição da oferta que antes havia. Como consequência de não arcar com os custos da medida, o grupo não proprietário tende a demandar demasiadamente esse bem, justamente pelo fato de perceber os benefícios que auferirá sem contrapartida. Chegar-se-ia então a uma quantidade demandada muito acima do que ocorreria naturalmente se a decisão fosse tomada individualmente, ao invés de coletivamente. É justamente nesse ponto que fazemos nossa crítica: se a questão ambiental não é intrinsicamente positiva, mas sim uma avaliação individual, esses incentivos distorcidos fazem com que as pessoas não situem corretamente o problema dentro de sua escala de valores. Se a pessoa decide algo sem custo, sem abrir mão de outra possibilidade de escolha, isso não reflete sua ordem de preferências. Se pudéssemos levar a vida dessa forma, é claro que todos escolheriam tudo. O que impede, nesse cenário, que se atinja esse extremo é o fato de haver um grupo que paga pelas escolhas do outro e que já está com as costas na parede. Não há mérito em fazer algo que se considera bom ou moral sem abrir mão de nada. Exemplo interessante a ser analisado sobre a questão da importância dos incentivos é o problema da eficiência no uso de recursos. O que vemos normalmente sendo advogado na mídia é que a utilização mais eficiente de um recurso seria um atributo verde, por assim dizer, que colaboraria com o objetivo de diminuição do consumo. Isso é particularmente claro no caso de automóveis e eletroeletrônicos, que são avaliados pelos consumidores nesse quesito e devem seguir normas de desempenho próprias. Entretanto, um postulado econômico formulado inicialmente por William Stanley Jevons em seu livro The Coal Question, de 1865, estabelece que ganhos de eficiência, dependendo da elasticidade da demanda, tendem a resultar em aumento no uso do recurso. Naquela época, muitos na Inglaterra se preocupavam com a diminuição rápida dos estoques de carvão e argumentavam que melhorias de eficiência no uso do recurso ajudariam a diminuir esse ritmo. Jevons observou que, ao introduzir tecnologias que incorporavam esse 9

10 aspecto, o contrário acontecia. A despeito de ser necessário menos carvão para ser feita a mesma quantidade de trabalho, essa quantidade aumentava mais do que proporcionalmente, fazendo com que não se atingisse o objetivo do ganho de eficiência. Para entendermos essa ideia contraintuitiva, devemos olhar como os ganhos obtidos pela nova tecnologia incentivam os agentes a utilizar seus recursos. Imaginemos, por exemplo, uma tecelagem que usa mão de obra para desenvolver uma determinada atividade em que o custo do trabalho por unidade de produto é de cinco centavos. Nesse cenário, pensemos que o custo do mesmo trabalho feito à máquina movida a carvão fosse de seis centavos por unidade de produto, e diminuísse para quatro centavos com a introdução da nova tecnologia. Cria-se um incentivo econômico para que o empreendedor aja no sentido de substituir seus trabalhadores por máquinas nessa atividade, reduzindo assim em 20% o seu custo nessa rubrica. Existiriam também os casos em que já se utilizavam máquinas, mas nos quais, com o ganho de eficiência, os produtos seriam barateados, aumentando a demanda, por tabela, e fazendo a oferta correr para acompanhar esse movimento. De toda a forma, o que se percebeu com o paradoxo de Jevons é que, independentemente do intentado com a introdução da tecnologia, o resultado é influenciado de forma decisiva pelos incentivos econômicos que fazem os indivíduos agir. A forma inteligente de trabalhar, nesse caso, é verificar como é possível criarmos incentivos que guiem as pessoas a agirem no mercado de maneira a buscarem seus resultados colaborando para um desfecho positivo, mesmo que involuntariamente. Um modo muito eficiente de se alcançar esse objetivo é criarmos um sistema de atribuição e manutenção dos direitos de propriedade que ofereça segurança e responsabilidade aos agentes. Em um capítulo bastante curto de seu livro The Machinery of Freedom, David Friedmann toca com bastante clareza nesse ponto. O autor afirma que o problema da poluição existe justamente por certas coisas não serem propriedade de ninguém, e que, por isso, as pessoas se sentem livres para disporem indevidamente delas. Diz ele que, quando a poluição ocorre em algo sobre o qual há direitos de propriedade atribuídos a alguma parte, esta não permitiria sua ocorrência, a não ser que houvesse compensação mais do que satisfatória. Se o próprio poluidor fosse o detentor da propriedade, ele somente 10

11 exerceria seu direito de poluir se o custo de evitar a poluição fosse maior do que o dano que ela causa. O autor explica que a ideia se aplica da mesma forma ao modo como as pessoas em geral tratam o descarte de seu lixo, pagando para descartá-lo em outro local ao invés de fazê-lo em seus quintais. Nesse sentido, vemos que, havendo direitos de propriedade claramente atribuídos e assegurados, a poluição e o descarte só ocorreriam quando o custo de evitar sua ocorrência fosse mais alto do que o dano causado e quando existirem incentivos para que as pessoas procurem a maneira menos prejudicial de fazê-lo, assim incorrendo no menor custo. Outro autor que segue na mesma linha é Walter Block, em seu livro Defending the Undefendable. Em determinado capítulo, ele distingue o lixo descartado em ambientes privados do lixo depositado em lugares públicos. Afirma que, no mercado, a decisão sobre se e quando o lixo é produzido e descartado se baseia principalmente na necessidade dos consumidores, sendo um sistema flexível, que desenvolve políticas específicas para cada situação. Exemplos seriam estádios e cinemas, onde o descarte de lixo dentro do ambiente é aceito pelos proprietários porque entendem que essa é uma necessidade de seu cliente; oferece-se a facilidade de descarte para limpeza posterior como parte do serviço. Exemplos no outro lado do espectro das políticas para com o lixo seriam hospitais e cozinhas de restaurantes, onde a rigidez com a limpeza é tida como atributo essencial e é assim tratada pelos proprietários, sob pena de perda de clientes e das consequências decorrentes. Essa dinâmica só não tem lugar no domínio público, no qual, não havendo fins lucrativos, as demandas das pessoas são tratadas com restrições, ameaças de sanções e banimento. Quando pensamos na produção de resíduos residenciais no País, vemos que os incentivos trabalham no sentido contrário ao que gostaríamos quando pensamos em bem-estar ambiental. Sendo o público atendido necessariamente por empresas, por via de regra públicas, que detêm o monopólio de exploração dos serviços em determinada região, o consumidor paga o mesmo preço independentemente do tipo de resíduo gerado variando em poucos casos o valor em função da quantidade gerada. Assim, o cliente que faz a triagem do seu lixo, que se policia para produzir menos resíduos e que se preocupa com o descarte adequado recebe o mesmo tratamento e normalmente incorre na mesma despesa com a coleta e o descarte que 11

12 aqueles clientes que não agem da mesma forma. É, claramente, um grande desincentivo ao comportamento que se gostaria de ver nessas situações. Uma situação com a qual podemos traçar um paralelo é a forma como a construção civil trata seus descartes. Em um primeiro momento, vemos que a busca por resultados econômicos leva à entrada de diversos agentes no mercado; a concorrência que daí resulta leva à busca por tecnologias que usem mais eficientemente os recursos e gerem menos resíduos. Estes últimos são despesas do processo de construção, pois, além de não serem mais úteis no processo em que seriam empregados, devem ser descartados, e as empresas pagam tanto pelo transporte quanto pelo destino final dos materiais. Quem recebe esses resíduos tem espaço limitado, uma vizinhança a respeitar; quantifica também a utilidade do espaço para outros usos, quando não for mais possível acondicionar resíduos na área. Todos esses componentes fazem parte do custo que o recebedor cobra do descartador. Dessa forma, os incentivos são para que o primeiro receba o lixo menos danoso e mais fácil de acondicionar ou recondicionar, e para que o segundo produza menor quantidade e resíduos menos danosos, bem triados e reaproveitáveis. É fácil perceber, então, que, na medida em que aumentamos a esfera na qual funcionam os direitos de propriedade privada bem atribuídos e respeitados, e na qual se permite que as trocas voluntárias ocorram livremente, a sociedade sai ganhando. Mão invisível e conclusão Adam Smith, em seu livro An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, de 1776, afirma, em uma passagem célebre, que cada indivíduo está continuamente procurando a maneira mais vantajosa de empregar o capital de que dispõe. Mais vantajosa para si, isto é. Porém, para tanto, ele é levado a empregar seu capital necessariamente no uso mais valorizado e vantajoso para toda a sociedade. Ele busca sua própria satisfação, mas, como que conduzido por uma mão invisível, ele promove um fim que não era diretamente sua intenção. Ao estudar o que o autor escreveu, vemos que a busca por lucro, o incentivo criado às pessoas para buscar a satisfação individual, faz com que os objetivos mais valorizados pela sociedade sejam perseguidos. Nesse sentido, em um mundo no qual as 12

13 necessidades mais básicas estão cada vez mais plenamente satisfeitas e as pessoas passam a almejar fins mais nobres e altruístas, como um mundo melhor, sustentável e verde, cria-se o cenário perfeito para que indivíduos egoístas na sua busca privada por satisfação ofereçam soluções para essas vontades. A busca por lucro é o motor mais poderoso que dirige a atividade humana para as atividades mais valiosas para a sociedade. É o incentivo mais eficaz para comandar os esforços dos indivíduos para as necessidades mais bem ranqueadas na escala de preferência das pessoas. É fundamental, então, que nós permitamos que essas relações se desenvolvam o mais plenamente possível, sem amarras e entraves, e com os menores custos de transação e informação. Isso se dá por meio do capitalismo em sua acepção mais pura: um sistema de trocas voluntárias e propriedade privada. Devemos limitar a participação do Estado e a tomada de decisões políticas a questões muito pontuais e sempre da forma mais descentralizada possível, de modo a evitar alocações ineficientes de recursos e transferências injustas de bem-estar. O Brasil é um país de enormes potencialidades e grandiosos recursos naturais, no qual o apelo verde também é superlativo. Mas é preciso compreender que pessoas valorizam as possibilidades de modos diferentes, que esse julgamento é individual e que essa escolha deve ser feita voluntariamente. Quem deseja se beneficiar de algo deve pagar por isso. Utilizando uma expressão estrangeira talvez mal traduzida, deve-se colocar seu dinheiro onde está seu discurso (1). 13

14 (1) Expressão em inglês: To put your money where your mouth is. Referências BASTIAT, F. Selected Essays on Political Economy. 6. ed. Estados Unidos: Foundation for Economic Education, BLOCK, W. Defendendo o Indefensável. 2. ed. São Paul: Instituto Ludwig von Mises Brasil, FRIEDMAN, D. The Machinery of Freedom: Guide to a Radical Capitalism. 2. ed. Estados Unidos: Open Court Publishing Company, FRIEDMAN, M. Free to Choose: A personal statement. Estados Unidos: Harcourt, PAUL, R. Liberty Defined: 50 essential issues that affect our freedom. Estados Unidos: Grand Central Publishing,

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