O Ensino Musical na Educação Infantil: O uso do corpo nas abordagens de Dalcroze e Willems

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1 O Ensino Musical na Educação Infantil: O uso do corpo nas abordagens de Dalcroze e Willems Luciana Sanches Araújo 1 (UFG) Gilka Martins de C. Campos 2 (UFG) Resumo: O presente trabalho 3 relata o projeto de pesquisa qualitativa de caráter teórico em andamento para realização de monografia de conclusão de curso na graduação em Educação usical habilitação em Ensino Musical Escolar (UFG). Estuda as contribuições das abordagens de Emile Jaques Dalcroze e Edgar Willems no ensino musical na educação infantil especificamente na faixa etária de 4 a 6 anos e trata do desenvolvimento psicomotor e sua relação com as referidas abordagens. Tendo como base os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, este trabalho investigará como Dalcroze e Willems podem contribuir não só para o desenvolvimento musical da criança como também potencializar seu desenvolvimento psicomotor. Para tanto será feito levantamento bibliográfico e estudo comparativo entre as referidas abordagens, além de apontar o desenvolvimento psicomotor da criança nesta etapa de desenvolvimento. Palavras-chave: educação infantil; psicomotricidade; corpo; Dalcroze; Willems. Este trabalho tem uma abordagem qualitativa e é de caráter teórico. Inicialmente foi feito o levantamento bibliográfico do material existente relativo ao movimento corporal infantil na faixa etária de 4 a 6 anos, à relação entre música e psicomotricidade e uma análise das abordagens metodológicas de Dalcroze e Willems. Analisamos também os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, com especial atenção à referida faixa etária. Posteriormente fez-se uma análise comparativa das abordagens de Dalcroze e Willems, verificando-se ainda sua possível adequação às propostas dos Referenciais Curriculares para a Educação Infantil 1 Graduanda em Educação Musical Habilitação em Ensino Musical Escolar pela Universidade Federal de Goiás. Professora de Musicalização Infantil, Teoria Musical e Instrumento Musical violino, atuando também como violinista na Orquestra Sinfônica Jovem do Ministério da Educação - Goiás. 2 Bacharel em Piano e Licenciada em Educação Artística pela UFG, Professora da Escola de Música e Artes Cênicas desta mesma unidade. Especialista em Música do séc. XX pela UFPB, mestre em Educação Brasileira pela faculdade de Educação da UFG. 3 Trabalho apresentado no XVI Encontro Anual da ABEM e Congresso Regional da ISME na América Latina 2007

2 explicitando os benefícios para a mesma. Atualmente o trabalho encontra-se em fase de redação. A Rítmica de Emile Jaques Dalcroze é uma abordagem em educação musical na qual o conhecimento se dá através da vivência corporal do ritmo musical. É um método ativo e global que parte dos movimentos e expressões espontâneas buscando estabelecer relações entre ritmos corporais (instintivos e racionais) e os ritmos musicais. Porém, ela não está limitada apenas ao estudo do ritmo através do corpo, engloba essencialmente a relação entre música e indivíduo. Dalcroze baseia-se na escuta musical, dando atenção à mesma como forma de vivenciar a música. Segundo Rodrigues a rítmica é antes de tudo um método de educação geral, uma espécie de solfejo corporal, que permite observar as manifestações físicas e psíquicas dos alunos dando a possibilidade de analisar seus efeitos e de buscar o meio de corrigi-los (2005, p.17). Para Dalcroze os ritmos musicais são paralelos aos ritmos da vida e têm sua fonte nos ritmos locomotores naturais do corpo humano. Antes mesmo de nascer a criança já tem o ritmo presente em sua vida (batimentos cardíacos, circulação do sangue) e nos seus primeiros anos tudo o que faz, vê e ouve envolve descobertas e experiências onde o ritmo está presente e é desenvolvido, ainda que inconscientemente (Campos, 1988). Desde seu nascimento a criança age no mundo à sua volta conhecendo-o através de seu corpo, essa ação parte da percepção de si mesma e de suas expressões motoras. Dalcroze enfatiza o fato de o corpo e a voz serem os primeiros instrumentos musicais do bebê, daí a necessidade de estímulo às ações das crianças desde tenra idade, e da maneira mais eficiente possível (Fonterrada, 2005, p.118). Segundo a teoria de Piaget é através da ação sobre o objeto que o bebê vai formando os esquemas sensório-motores, sendo esta ação modificada e modificadora ao longo de vários estágios do desenvolvimento, até chegar então nas operações formais no pensamento. Ou seja, de uma ação preponderante do corpo, o ser humano vai passando por um desenvolvimento até alcançar um tipo de ação onde prepondera à atividade da mente (Beyer, 1999, p. 13). Sendo assim, através do uso do corpo em atividades musicais a criança vai compreender melhor a proporção rítmica e musical. Partindo dessa vivência é possível

3 desenvolver suas habilidades cognitivas, fazendo com que perceba a si mesma em relação ao espaço e a seu próprio corpo. A utilização do corpo no conhecimento rítmico musical proporciona uma coordenação maior das faculdades corporais e mentais facilitando a consciência e a ação, proporcionando uma educação múltipla, indo desde o desenvolvimento da psicomotricidade ao desenvolvimento da criatividade. A prática de movimentos corporais despertam no cérebro imagens. Quanto mais fortes são as sensações musculares mais claras e precisas são essas imagens e por conseqüência o sentimento nasce da sensação (Dalcroze apud Rodrigues, 2005, p.18). A Rítmica de Dalcroze interfere em cada exercício de três componentes da base da natureza infantil: instrumento físico (corpo), capacidade de pensar, refletir e na imaginação (ligada ao desenvolvimento da sensibilidade, estética e expressão). A abordagem de Dalcroze permite o pleno desenvolvimento das capacidades sensóriomotoras, sensíveis, mentais e espirituais da criança (Fonterrada, 2005, p.115). Edgar Willems assim como Dalcroze desenvolve sua abordagem de forma essencialmente humana e atual indo ao encontro das necessidades de nossa época. O método sistematizado por Willems parte de três princípios básicos: as relações psicológicas estabelecidas entre a música e o ser humano, a não utilização de recursos extra-musicais e o enfoque na necessidade do trabalho prático da vivência musical antes do ensino musical teorizado. Ele não buscou na matéria ou nos instrumentos musicais, considerados como meios pré-musicais o principio de sua abordagem, mas partiu do movimento corporal e da voz inata a vida humana. Para Willems existe uma forte ligação entre a música e a natureza humana. A arte de educar encontra sua base racional de conhecimento nas relações estritas, vitais, que existem entre os elementos fundamentais da matéria a ensinar, e as próprias da natureza humana (Willems apud Fonterrada, 2005, pg.125). Willems afirma que o professor poderá adaptar o ensino ao seu próprio temperamento, às suas possibilidades, desde que sua metodologia parta de elementos de vida, pois somente através da utilização das verdadeiras forças vitais, a música poderá favorecer o despertar das faculdades humanas (Rocha, 1990, p.16). Como Dalcroze, ele se ocupa de todos elementos musicais como harmonia, solfejo, improvisação entre outros, porém enfocaremos aqui o ritmo e o uso do corpo no estudo do mesmo. Ele estabeleceu graus pedagógicos que geralmente consistem nas

4 seguintes idades: primeiro grau 3-4 anos, segundo 4-5 anos, terceiro grau 5-6 e o quarto grau 6-7. Porém é importante enfatizar que estes graus são flexíveis, ou seja, não baseados essencialmente na idade e sim na maturidade e musicalidade dos alunos. Em cada grau Willems utiliza o movimento corporal correspondente ao desenvolvimento dos alunos. Partindo também, como Dalcroze de movimentos do cotidiano tais como marchas, saltos e movimentos giratórios, propõe a sistematização das disciplinas do ritmo musical. Willems grande pedagogo afirma que o verdadeiro ritmo é inato e está de fato presente em todo ser humano normal. O andar, a respiração, as pulsações, os momentos mais sutis provocados por reações emotivas, por pensamentos, todos esses movimentos são instintivos e é esse movimento que o educador deve recorrer a fim de obter, seja na criança, do aluno virtuose o verdadeiro ritmo vivo interior, criador no pleno sentido do termo (Rocha, 1990, p.31). Nos últimos graus estabelecidos por Willems estes elementos iniciais aparecem de forma mais elaborada como temas de estudos rítmicos como compassos, ostinatos, frases e canções, indo até a manipulação e domínio dos conteúdos pelos alunos. Trabalhado de acordo com os movimentos naturais do corpo inteiro Willems abre espaço para a espontaneidade da criança. Os batimentos espontâneos, adotados pelo método na primeira fase da iniciação, permitem a participação ativa das crianças, pois podem empregar as mãos de formas variadas: realizam movimentos de alternância que facilitam a coordenação e independência motora; utilizam uma variedade de exercícios de rapidez dos movimentos que vão facilitar enormemente uma futura técnica instrumental (Rocha, 1990, p.31). O ritmo deve ser vivenciado fisiologicamente pela ação motora buscando o sentido de tempo. Daí a importância do trabalho corporal na iniciação musical, pois o movimento do aluno é a resposta da audição musical, de seu sentido de tempo. O trabalho de Willems é de grande valor musical e humano, pois, exercita o dinamismo, a motricidade, a sensorialidade e a audição, fortalecendo, sobretudo a capacidade volitiva do aluno (Rocha, 1990, p.32). Tanto Dalcroze como Willems partem do desenvolvimento natural da criança onde buscam as expressões naturais que proporcionam um melhor contato com a

5 música, explorando o corpo e o espaço em função do ensino musical que influi diretamente no seu desenvolvimento psicomotor. Estas abordagens são essenciais na educação infantil já que esta é uma fase em que a criança está apurando sua forma de olhar para si mesma e para o mundo, construindo referências através do desenvolvimento psicomotor. O corpo é formado de tantas partes, de tantas especificidades que uma criança se surpreende todos os dias com tais descobertas. Assim, devemos proporcionar a cada criança que viva plenamente estas descobertas (Almeida, 2006, p. 99). É uma fase de constante desenvolvimento que deve ser aproveitada, trabalhando e instigando as habilidades cognitivas, sociais, motoras e psicológicas inerentes a psicomotricidade. A relação corpo-movimento-sentidos é de crucial importância para o amadurecimento global do homem, para que ele possa assumir-se como ser no mundo (Louro, Alonso, Andrade, 2006, p.53). Esse pensamento condiz com a Lei de Diretrizes e Bases do MEC sobre a educação infantil que discorre sobre o desenvolvimento integral da criança. A educação infantil, primeira etapa da educação básica tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. A educação infantil é oferecida para : creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade (LDB art. 29 e 30). E ainda no que cabe ao desenvolvimento das abordagens de Dalcroze e Willems, encontramos subsídios no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil do Ministério da Educação e do Desporto, onde são explicitados os objetivos estabelecidos para a faixa etária de 4 a 6 anos relativo ao ensino musical. O gesto e o movimento corporal estão intimamente ligados e conectados ao trabalho musical. A realização musical implica tanto em gesto como em movimento, porque o som é, também, gesto e movimento vibratório, e o corpo traduz em movimento os diferentes sons que percebe. Os movimentos de flexão, balanceio, torção, estiramento etc., e os de locomoção como andar, saltar, correr, saltitar, galopar etc. estabelecem relações diretas com os diferentes gestos sonoros (MEC, 1998, p.61).

6 Ao se referir às crianças de quatro a seis anos este documento discorre sobre as capacidades que devem ser desenvolvidas nessa faixa etária. Explorar e identificar elementos musicais para se expressar, interagir com os outros e ampliar seu conhecimento do mundo, perceber e expressar sensações, sentimentos e pensamentos por meio de improvisações, composições e interpretações musicais. (MEC, 1998, p.55). Nas abordagens de Dalcroze e Willlems explora-se o desenvolvimento global da criança onde estas capacidades são contempladas. Visto que as dinâmicas musicais se pautam na vivência e nas atividades grupais onde, além das já citadas capacidades exploradas os alunos interagem entre si. O mais importante resultado deste tipo de trabalho é eliminação de problemas inibitórios de caráter psico-físico e o acrescentamento e livre exteriorização das faculdades criadoras (Rodrigues, 2005, p.22). A organização para o trabalho na área de Música nas instituições de educação infantil deverá, acima de tudo, respeitar o nível de percepção e desenvolvimento (musical e global) das crianças em cada fase (MEC, 1998, p.57). Essa afirmação vai ao encontro das propostas desenvolvidas por Dalcroze e Willems, partindo de objetivos musicais que também exploram o desenvolvendo global da criança. Foi constatada através de análise bibliográfica a correlação entre as abordagens de Dalcroze e Willems no que se refere ao desenvolvimento global da criança de 4 a 6 anos especificamente no seu desenvolvimento pisicomotor, através do uso do movimento corporal na vivência musical.

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Geraldo Peçanha. Teoria e prática em Psicomotricidade: jogos, atividades lúdicas, expressão corporal e brincadeiras infantis. Rio de Janeiro: Wak, BEYER (org.), Esther. Cadernos de Autoria: Idéias em educação musical. Porto Alegre: Mediação, CAMPOS, Gilka M. C. A metodologia de Emile Jacques-Dalcroze. In: CAMPOS, Gilka M. C. Análise dos métodos de iniciação musical de Dalcroze e Orff sugestão de aplicação combinada. Trabalho Final do Curso de Especialização em Música do Século XX Universidade Federal da Paraíba, FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira. De tramas e fios: Um ensaio sobre música e educação.são Paulo: UNESP, LOURO (org.), Viviane dos Santos. Educação Musical e Deficiência: propostas pedagógicas. São Paulo: Estúdio, Brasil, Ministério da Educação e do Desporto.Secretaria da Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: volumes I, II e III.Brasília: MEC/SEF, ROCHA, Carmen Maria Mettig. Educação Musical: Método Willems. Bahia: Faculdade de Educação da Bahia, RODRIGUES, Iramar. A Rítmica de: Emile Jaques Dalcroze Uma educação por e para a música. Apostila do curso A Rítmica de Dalcroze, 2005, Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás.

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