XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas

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1 26 PIBIC JÚNIOR COMO POLÍTICA PÚBLICA MEDIANDO A FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA E JORNAL DA CIÊNCIA COMO ATIVIDADE INTERDISCIPLINAR EXTRACLASSE Sidnei Quezada Meirelles Leite Instituto Federal do Espírito Santo/Campus Vitória Maria Geralda Oliver Rosa Instituto Federal do Espírito Santo/ Campus Vila Velha Resumo O Jornal Escolar da Ciência (JEC) é uma atividade interdisciplinar extracurricular de caráter cultural e educativo promovido pelo Programa Estadual de Iniciação Científica Júnior da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Espírito Santo e CNPq. O objetivo desta pesquisa foi analisar o processo de construção da área de Ensino de Ciências a partir da iniciativa política do PIBIC Jr do Estado do Espírito Santo, que ao mesmo tempo busca promover a alfabetização científica nos alunos, a formação continuada dos professores das escolas estaduais, a formação continuada dos professores pesquisadores e formação inicial do aluno de iniciação científica do projeto de extensão/pesquisa Jornal Escolar da Ciência. A equipe deste projeto foi formada por cinco alunos do ensino médio, um aluno de licenciatura, professores de ciências e pesquisadores. Cada número do JEC é composto por um editorial, uma pesquisa desenvolvida no Espírito Santo, uma pesquisa em nível de Brasil/Mundo, um personagem da história da ciência e um acontecimento local. Acreditamos que este projeto contribuir com a alfabetização científica, rompendo paradigmas herdados da visão fragmentada do conhecimento presente nas salas de aula. Por tratar de assuntos relacionados ao desenvolvimento do Estado do Espírito Santo, acredita-se que esse trabalho possa servir como catalisadores para definição do futuro dos jovens, buscando indicar possíveis caminhos a serem percorridos na sua vida pessoal e profissional. Talvez, ao desenvolver esse projeto, a escola passe a se localizar na rota do conhecimento científico nas várias áreas do conhecimento, levando ao jovem a sonhar com um bom curso técnico em uma boa escola ou com sua formação acadêmica em nível de graduação em uma Universidade/Instituto. Palavras-chave: alfabetização científica, jornal escolar, interdisciplinaridade, iniciação científica júnior, CTSA 1. Introdução Em 2011, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Espírito Santo criou o Programa Estadual de Iniciação Científica Júnior com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa. Este programa se constituiu em uma política publica que visava, entre outros objetivos, aproximar as instituições de pesquisa das escolas públicas do estado do Espírito Santo e promover mudanças nas práticas pedagógicas realizadas na sala de aula da educação básica pública, especialmente as situadas em regiões à margem da sociedade. Cada projeto financiado apresentava um pequeno recurso de equipamento e Livro 1 - p

2 27 custeio, bolsas de iniciação científica para alunos do ensino médio e bolsa de iniciação científica para alunos de cursos de graduação. O Grupo de Pesquisa Educação Científica e CTSA aprovou dez projetos de Pic Jr que estão sendo desenvolvidos nas escolas estaduais do Espírito Santo (Quadro I). Com isso, buscou-se promover a consolidação da área de Ensino de Ciências, na qualidade de área de pesquisa, e na perspectiva de ensino e extensão, promove a alfabetização científica à luz da filosofia do Movimento Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA). Como produto desta pesquisa, está em fase de produção um livro voltado para o professor de ciências, reunindo as experiências vividas dos projetos de pesquisa de Pic Jr, ressaltando as práticas experimentais investigativas de ciência e tecnologia, norteadas pela história, cultura e questões socioambientais. O saber escolar está intimamente ligado à atividade de construir significados assimiláveis pelo aluno, fazendo uso da razão, do raciocínio normalizado, organizando o conhecimento numa sequência compreensível, que deverá ser fixada por exercícios que visem estimular e fixar a aprendizagem, tendo por objetivo a manutenção da cultura, como decorrência da manutenção da sociedade (VADEMARIN, 1998). Alfabetizar, portanto, os cidadãos em ciência e tecnologia é hoje uma necessidade do mundo contemporâneo (SANTOS e SCHNETZLER, 2000). Não se trata de mostrar as maravilhas da ciência, como a mídia já o faz, mas de disponibilizar as representações que permitam ao cidadão agir, tomar decisão e compreender o que está em jogo no discurso dos especialistas (FOUREZ, 1995). Essa tem sido a principal proposição dos currículos com ênfase em CTS. A partir de uma parceria entre o Campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e uma Escola Estadual, buscamos reunir alunos do ensino médio, professores de ciências (Física, Química e Biologia) e pesquisadores, para debater e refletir questões da ciência, tecnologia e ambiente, a partir da construção e divulgação periódica do Jornal Escolar da Ciência produzido mensalmente por essa equipe de trabalho. O Jornal Escolar da Ciência se constitui em uma atividade interdisciplinar extracurricular de caráter cultural e educativo, composto por um editorial, uma pesquisa desenvolvida no Espírito Santo, uma pesquisa em nível de Brasil/Mundo, um personagem da história da Livro 1 - p

3 28 ciência e um acontecimento local. Essa proposta está respaldada pela possibilidade de promover alfabetização científica na comunidade escolar. Segundo Chassot, alfabetização científica é: [...] como uma linguagem para a descrição e compreensão do mundo natural [...] Defende-se que a alfabetização científica um analfabeto científico é aquele que não sabe ler a linguagem em que está escrita a natureza possa ser responsável não apenas pela facilitação do entendimento do mundo, mas por ajudar a transformá-lo em algo melhor. A alfabetização científica é vista também como possibilidade para fazer inclusão social, sendo óbice para isso o presenteísmo (vinculação exclusiva ao presente, sem enraizamento com o passado e sem perspectivas com o futuro) e o cientificismo (crença exagerada no poder da Ciência e/ou atribuição à mesma de fazeres apenas benéfico). O dogmatismo, marcado pelo positivismo, é apresentado como uma das marcas para uma não alfabetização científica (CHASSOT, 2003, p. 90). No campo da educação científica, o Movimento CTSA encontra-se em ressonância com as ideias educacionais de Paulo Freire, por apoiar o ensino das ciências mais humanista, tendo em vista a conscientização social de que a ciência e a tecnologia são elementos da cultura, compreendendo a sala de aula como espaço educativo de construção de cidadania (FREIRE, 2002; AULER e DELIZOICOV, 2006). O Projeto Pibic Jr Jornal Escolar da Ciência aprovado em 2011, é parte de um projeto de pesquisa mais amplo denominado Educação Científica: processos de ensino e aprendizagem da Rede Estadual de Ensino Médio do Espírito Santo envolvendo trabalhos de pesquisa de mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática do Instituto Federal do Espírito Santo. O objetivo desta pesquisa foi analisar o processo de construção da área de Ensino de Ciências a partir da iniciativa política do PIBIC Jr do Estado do Espírito Santo, que que ao mesmo tempo busca promover a alfabetização científica nos alunos, a formação continuada dos professores das escolas estaduais, a formação continuada dos professores pesquisadores e formação inicial do aluno de iniciação científica do projeto de extensão/pesquisa Jornal Escolar da Ciência. 2.Metodologia 2.1 A pesquisa Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, desenvolvida a partir de observações feitas pelos pesquisadores, análise de documentos oficiais, leituras e Livro 1 - p

4 29 debates de artigos científicos da área de Educação em Ciências. Este projeto se constitui em um espaço de pesquisa do processo de alfabetização científica para o Grupo de Pesquisa Educação Científica e Movimento CTS do Instituto Federal do Espírito Santo. Nessa perspectiva, há aluno de mestrado em Educação em Ciências e Matemática desenvolvendo sua dissertação, há professores da escola estadual envolvidos com o projeto, há professores pesquisadores do Ifes, há cinco alunos de ensino médio (IC Jr) e um aluno da licenciatura em Química (IC). Buscou-se introduzir uma prática pedagógica lúdica na Escola Estadual para servir como eixo de articulação entre as práticas realizadas na sala de aula e o cotidiano dos alunos e professores. 2.2 O local Esta pesquisa terá como local central o Campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo. No entanto, o projeto está sendo desenvolvido na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Marinete de Souza Lira está localizada na Av. Vitória Régia, s/n, no bairro de Feu Rosa, no município da Serra, ES. 2.3 Coleta e Análise dos Conteúdos Os resultados aqui apresentados são parte de uma pesquisa desenvolvida nos moldes de um estudo de caso, conforme Marcone e Lakatos (2009), qualitativa e caráter exploratório. Apoiou-se em um referencial teórico que oferece as categorias de análise dos dados. Esses dados foram coletados por meio de observação participante dos professores pesquisadores que podem, quando necessário lançar mão de um questionário contendo questões abertas e fechadas para ser aplicado ao público (comunidade escolar). As respostas dos questionários e as observações dos professores/investigadores oferecem elementos para a compreensão dos impactos do desenvolvimento do projeto escolar. A identidade dos sujeitos foi preservada e os colhidos foram utilizados exclusivamente na pesquisa. Os conceitos básicos, ou seja, as categorias escolhidas para análise foram inferidas de reflexões sobre os paradigmas educacionais da complexidade e da transdisciplinaridade, bem como das reflexões sobre a alfabetização científica nos moldes do movimento CTSA. Essas categorias foram percebidas aqui como o instrumento metodológico da dialética para analisar os fenômenos da natureza e da sociedade que, conforme Bardin Livro 1 - p

5 30 (2004) serve de elemento para interpretar o real, indicando, ao mesmo tempo, uma estratégia política. 3. A alfabetização científica e o projeto de PIBIC Jr Jornal Escolar da Ciência O projeto de pesquisa/extensão visou à implantação de um Jornal Escolar da Ciência em uma escola estadual do município da Serra/ES. Vale citar que essa escola está situada em um bairro considerado à margem da sociedade. O processo de construção do jornal escolar é mensal, tendo como foco a comunidade escolar (alunos, professores, técnicoadministrativos) e a comunidade externa (familiares de alunos, pessoas das comunidades do entorno da escola). Para que os cinco alunos de iniciação científica júnior e o aluno de IC conhecessem as rotinas do processo de construção do jornal, foram realizadas oficinas para preparar a equipe do jornal escolar. Foram elas: (a) Oficina de pesquisa e redação; (b) Oficina de percepção das informações; (c) Oficina de construção do Jornal Escolar. Os recursos liberados foram suficientes para comprar os equipamentos de notebook, projetos multimídia para realização das reuniões, impressora, maquina de fotografia e material consumo. Também foram aprovadas cinco bolsas de iniciação científica júnior e uma bolsa de IC com duração de doze meses. A maior parte dessas escolas está inserida em um bairro carente, em uma área com alto índice de violência e tráfico de drogas. Por apresentar muitos conflitos em decorrência dos problemas de drogas e violência, é considerada uma região à margem da inclusão social e educacional. A comunidade, necessitada de atendimentos em todos os níveis: educação, saúde, segurança e trabalho. As famílias trabalhadoras necessitam que as crianças e adolescentes exerça alguma atividade para a complementação da renda familiar, sendo este, um dos motivos de evasão escolar e repetência, conforme relato de alguns professores. O bairro, onde se situa a escola é residencial, em geral possui um pequeno comércio para atender a demanda (padaria, bares, mercadinhos, farmácia e Banco) e as condições sociais de sobrevivência, em alguns casos, são precárias. A maior parte das escolas atende alunos de variadas faixas etária: no turno diurno os alunos no Ensino Fundamental (7ª a 8ª séries) apresentam idade entre 12 e 16 anos, no Ensino Médio apresentam idade entre 15 e 21 anos. No noturno, acontece o Ensino Médio Regular e EJAEM, que atende as mais variadas idades dos alunos, estes retornam pela Livro 1 - p

6 31 necessidade do trabalho, para complementar os seus estudos e ou para realizarem o sonho de estudar. Desta forma, se constituiu a equipe do jornal, sendo estabelecido um número mensal e uma rotina para divulgar nas salas de aula o número do jornal escolar, promovendo uma expectativa nos alunos e professores. Parece-nos que esse movimento de divulgação influencia as práticas pedagógicas realizadas pelos professores nas disciplinas do Ensino Médio, porque esta propaganda serve como veículo de comunicação para sensibilização da comunidade escolar. Foram criadas cinco equipes de trabalho alocadas nas respectivas colunas previamente definidas para o Jornal Escolar, coordenadas por um professor da escola e assessoradas pelo bolsista da graduação. Cada aluno da equipe ficou responsável por uma coluna do jornal: (a) Editorial; (b) Coluna da Ciência no Espírito Santo ; (c) Coluna da Ciência no Brasil/América Latina/Mundo ; (d) Coluna da História da Ciência ; (e) Coluna Aconteceu!!!. Assim, um aluno de ensino médio ficou responsável por escrever o editorial; outro pela Coluna da Ciência no Espírito Santo, elaborando um texto sobre uma pesquisa realizada por um grupo do Espírito Santo; outro escreve sobre a Coluna da Ciência no Brasil/América Latina/Mundo, buscando elaborar um pequeno texto sobre um assunto atual de ciência e tecnologia no Brasil e no Mundo. Outro aluno escreve sobre a Coluna da História da Ciência, que busca elaborar um texto sobre um acontecimento ou personagem da história da ciência. Finalmente, há um aluno que fica responsável pelo texto que conta uma situação socioambiental, local ou regional. Não se trata apenas de mostrar e divulgar as maravilhas da ciência, como vimos na TV, mas de disponibilizar as representações que permitam ao cidadão agir, tomar suas próprias decisões e compreender o que está em jogo no discurso dos especialistas. Essa tem sido a principal proposição dos currículos com ênfase em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). Por tratar de assuntos relacionados ao desenvolvimento do Estado do Espírito Santo, acredita-se que esse trabalho possa servir como catalisadores para definição do futuro dos jovens, buscando indicar possíveis caminhos a serem percorridos na sua vida pessoal e profissional. Talvez, ao desenvolver esse projeto, a escola passe a se localizar Livro 1 - p

7 32 na rota do conhecimento científico nas várias áreas do conhecimento, levando ao jovem a sonhar com um bom curso técnico em uma boa escola ou com sua formação acadêmica em nível de graduação em uma Universidade/Instituto. Com isso, busca-se introduzir uma prática pedagógica lúdica na Escola Estadual para servir como eixo de articulação entre as práticas realizadas na sala de aula e o cotidiano dos alunos e professores. Acreditamos que os temas abordados no jornal escolar possam influenciar as práticas de sala de aula, promovendo a alfabetização científica à luz do Movimento CTSA em alunos do ensino médio e, mesmo, em professores. 4. A formação de professores A dinâmica social contemporânea está fortemente condicionada pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Partindo do pressuposto de que a sociedade, como um todo, possui o direito de participar em definições que envolvem seu destino, considera-se fundamental a democratização de processos decisórios que envolvem temas vinculados à Ciência-Tecnologia (CT). Por exemplo, AULER (1998) enfocou o surgimento histórico do Movimento CTSA no campo educacional, a tradução dos seus objetivos em novas configurações curriculares, os problemas e as perspectivas encontradas, bem como os desafios que se colocam para o ensino de Ciências (formação de professores) no contexto educacional brasileiro. Entre esses problemas e desafios situados como possíveis questões de investigação, destacamos: formação disciplinar dos professores incompatível com a perspectiva interdisciplinar presente no movimento CTSA; compreensão dos professores sobre as interações entre ciência, tecnologia e sociedade; não contemplação do enfoque CTSA nos exames de seleção; formas e modalidades de implementação; produção de material didático-pedagógico; e redefinição de conteúdos programáticos (AULER e BAZZO, 2001). À medida que esse projeto envolve tanto aluno de IC como professores das escolas, percebe-se que se constitui em um processo de formação inicial e continuada. Na perspectiva de uma abordagem progressista (MISUKAMI, 1986), promovendo a interdisciplinaridade, o aluno de IC exerce o estagio docente, acompanhando e apropriando-se dos conhecimentos produzidos pela equipe do Jornal Escolar. Por outro lado, a medida que os professores da Escola também fazem parte dos debates e das oficinas, eles vão aprimorando suas práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula. Livro 1 - p

8 33 Esse projeto também fomenta as pesquisas de mestrado do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática do Instituto Federal do Espírito Santo, com o desenvolvimento de práticas de educação científica, lúdicas e alternativas. Com a realização deste projeto pensa-se em gerar artigos científicos e até um pequeno livro, em parceria com o Programa EDUCIMAT. Estes textos poderão contribuir na divulgação do Jornal Escolar da Ciência como meio de alfabetização científica e desenvolvimento de concepções de CTSA de alunos e professores. Dessa forma, buscamos fortalecer a área de Ensino de Ciências e Matemática, contribuindo com a formação de novos pesquisadores, colocando o Instituto Federal do Espírito Santo e a EEEFM Marinete de Souza Lira como sendo uma referência na promoção e reflexão dessas temáticas. Desta forma, a área de Ensino de Ciências é consolidada no Estado do Espírito Santo. 5. Considerações finais Dentre as inúmeras formas que existem para se efetivar a alfabetização científica esse projeto trabalhará com o paradigma educacional defendido por Edgar Morin (1999), na sua teoria da epistemologia da complexidade. Para Miranda (2006), a articulação da construção do jornal com as rotinas escolares se constitui em um processo de Educomunicação. A Educomunicação busca facilitar a produção e difusão da informação, promover a interatividade dos processos de ensino-aprendizagem e fornecer os referenciais teóricos e metodológicos necessários à análise da produção cultural para efeito de uma adequada formação para o relacionamento com o sistema massivo de meios de informação (SOARES, 2000). Para tanto, as práticas educomunicativas privilegiam os conceitos de comunicação dialógica; de ética de responsabilidade social para os produtores culturais; de recepção ativa e criativa por parte das audiências; de política de uso dos recursos da informação de acordo com os interesses dos polos envolvidos no processo de comunicação e, consequentemente, da ampliação dos espaços de expressão (SOARES, 2000). Para Morin, o termo epistemologia da complexidade, ou do Complexus [do latim] o que é tecido junto (MORIN, 1997, p. 44), integra os modos de pensar em oposição à forma linear, reducionista do pensamento. O Projeto Jornal da Ciência na Escola quer Livro 1 - p

9 34 vivenciar este novo paradigma promovendo a alfabetização científica numa perspectiva de transdiciplinaridade. No campo educacional, a complexidade aparece como transdisciplinaridade. Uma educação que questiona os modelos reducionistas e fragmentados, a divisão em disciplinas compartimentalizadas em áreas e em departamentos que não contribui para a emancipação das pessoas. Uma educação transdisciplinar busca o diálogo entre os diversos tipos de conhecimento, une as diferenças no seu processo de construção e pressupõe a utilização das diversas linguagens. Entre as linguagens, Morin destaca as artes como forma de facilitar a aprendizagem do aluno na vivência deste novo paradigma. As artes levam-nos à dimensão estética da existência e conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente. Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana (MORIN, 2006, p. 45). Os filmes, os romances e os poemas são, para Morin, meios didáticos importantes para a uma educação que incorpore a epistemologia da complexidade, porque permite a percepção do outro com sua instabilidade e identidade própria e, ao mesmo tempo, a percepção do universal em realidades que se nos expressam diversos acontecimentos sociais e históricos. São o romance e o filme que põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade, com o mundo. O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço (MORIN, 2006, p. 44). O projeto Jornal Escolar da Ciência pretende promover a alfabetização científica, numa perspectiva interdisciplinar e transdisciplinar, através das publicações periódicas. Até o momento foi possível constatar relevante crescimento de todos os bolsistas em nível de autonomia, relações interpessoais e conhecimento científico. Tais avanços são averiguados quando, a partir deles, partem questionamentos e respostas aos próprios questionamentos e sugestões de percursos metodológicos para execução de tarefas/atividades. Busca-se introduzir uma prática pedagógica lúdica na Escola Estadual para servir como eixo de articulação entre as práticas realizadas na sala de aula e o cotidiano dos alunos e professores. É esperado que os temas abordados no jornal escolar passem a fazer parte Livro 1 - p

10 35 dos debates realizados na sala de aula, promovendo a alfabetização científica à luz do Movimento CTSA em alunos do ensino médio e mesmo em professores e alunos de graduação. Por tratar de assuntos relacionados ao desenvolvimento do Estado do Espírito Santo, acredita-se que esse trabalho possa servir como catalisadores para definição do futuro dos jovens, buscando indicar possíveis caminhos a serem percorridos na sua vida pessoal e profissional. Talvez, ao desenvolver esse projeto, a escola passe a se localizar na rota do conhecimento científico nas várias áreas do conhecimento, levando ao jovem a sonhar com um bom curso técnico em uma boa escola ou com sua formação acadêmica em nível de graduação em uma Universidade/Instituto. Acreditamos que esse projeto irá também fomentar as pesquisas de mestrado do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática do Instituto Federal do Espírito Santo, com o desenvolvimento de práticas de educação científica, lúdicas e alternativas. Com a realização deste projeto pensa-se em gerar artigos científicos e até um pequeno livro, em parceria com o Programa de Pós-graduação. Estes textos poderão contribuir na divulgação do Jornal Escolar da Ciência como meio de alfabetização científica e desenvolvimento de concepções de CTSA de alunos e professores. Dessa forma, buscamos fortalecer a área de Ensino de Ciências e Matemática, contribuindo com a formação de novos pesquisadores, colocando o Instituto Federal do Espírito Santo e a EEEFM Marinete de Souza Lira como sendo uma referência na promoção e reflexão dessas temáticas. Referências AULER, Décio. Movimento Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS): modalidades, problemas e perspectivas em sua Implementação no ensino de física. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 6, Livro de Resumos, Florianópolis, AULER, Décio.; BAZZO, Walter Antonio. Reflexões para a implementação do movimento CTS no contexto educacional brasileiro. Ciência e Educação, v. 7, n. 1, p. 1 13, CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 22, p , Jan.-Apr FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. 24 ed. São Paulo: Paz e Terra, MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M.; Metodologia do Trabalho Científico, 7ª. Edição Revista e Ampliada, São Paulo:Editora Atlas, Livro 1 - p

11 36 MIRANDA, Amanda Souza; O Jornal Escolar e a Educação Problematizadora: vislumbrando uma aproximação. UNIrevista - Vol. 1, n 3 : (julho 2006). ISSN MIZUKAMI, Maria da Graça N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: Editora Pedagógica Universitária, SOARES, I. de O. Educomunicação: as perspectivas do reconhecimento de um novo campo de intervenção social: o caso dos estados unidos. Eco Revista Científica, 2000; Disponível em: acesso em 18/03/2012. SOUZA, S. C.; LINSINGEN, I. V.; PEREIRA, P. B. Repensando a formação de professores de ciências numa perspectiva CTS: algumas intervenções. 1º Congresso Argentino de Estudos Sociais de la Ciência y la Tecnologia, (p. 17). Buenos Aires, MORIN, E. Meus Demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, MORIN, E. Complexidade e Transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, MORIN, E. A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, VANDEMARIN, V. V. O discurso pedagógico como forma de transmissão do conhecimento. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 44, p , abri/98. SANTOS, W.L.P. dos; MORTIMER, E.F. Uma análise de pressupostos teóricos da abordagem C-T-S (Ciência Tecnologia Sociedade) no contexto da educação brasileira, ENSAIO-Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p.1-23, Dez FOUREZ, G. A construção das Ciências: Introdução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: EDUNESP, SCHNETZLER, R. P. ; SANTOS, W. Educação em química: compromisso com a cidadania. 2. ed. Ijuí: Unijuí, BARDIN, L. Análise de conteúdo, 3ª. Edição, Lisboa: Edições 70, Livro 1 - p

12 37 Anexos Quadro I. Relação de projetos aprovados pela FAPES no PIC-Jr de 2011, submetidos por pesquisadores do Grupo de Pesquisa Educação Científica e Movimento CTSA (Cadastrado no CNPq). Projeto/Objeto de estudo Cineclube na Escola Horta Escolar Fabricação do papel Energia Sustentável Energia Sustentável Ensino de Biologia Educação Ambiental Cineclube na Escola Jornal Escolar da Ciência Cineclube na Escola Município da Escola/ES Vitória Vila Velha Aracruz Serra Vitória Santa Teresa Afonso Cláudio Vila Velha Serra Serra Livro 1 - p

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