Armazenagem de milho em silos secadores no Alto Uruguai Gaúcho RESUMO

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1 Armazenagem de milho em silos secadores no Alto Uruguai Gaúcho 83 Murilo Correa Marcon 1, André Pellegrini 2, Carlos Alberto Angonese 1, Valdir Machado 1, Claudio Kochhan 1 ; Antonio Pandolfo 1 RESUMO O milho é um cereal de importância econômica, entretanto durante o armazenamento sofre perdas quantitativas e qualitativas devido a taxa de respiração, ataque de fungos e insetos. Nesse sentido, agricultores familiares do Rio Grande do Sul buscam alternativas na secagem e armazenagem de grãos para viabilizar a criação de animais com menor custo e comercializar fora do período de safra para agregar valor ao produto. Diante disto, o objetivo deste trabalho foi de avaliar as características físicas dos grãos armazenados, bem como identificar as dificuldades enfrentadas pelos agricultores armazenadores para manter milho de qualidade na propriedade familiar rural. Durante as visitas foram realizadas amostragens dos grãos de milho armazenado em silos secadores. Foi possível verificar que o silo secador se constitui uma boa alternativa para a secagem e armazenagem dos grãos. Contudo são necessários maiores cuidados no cultivo do milho para que não sejam armazenados grãos com danos físicos e com ataques biológicos (fungos e insetos). Palavras-chave: Armazenagem. Ar natural. Agricultura Familiar. ¹EMATER/RS-ASCAR - Rua Botafogo, Porto Alegre - RS Brasil fone (0XX51) / fax (0XX51) ²Universidade Regional Integrada do Médio Alto Uruguai e das Missões - Câmpus Frederico Westphalen. 753

2 INTRODUÇÃO A agricultura familiar compreende grande diversidade cultural, social e econômica, podendo variar desde o campesinato tradicional até a pequena propriedade de produção modernizada (CRUZ et al., 2006). A cultura do milho caracteriza-se pela grande versatilidade, que permite ao agricultor viabilizar criações como: aves coloniais, suinocultura, produção de leite além de fazer parte da alimentação humana. Martins et al. (2013), relatam a história da armazenagem na pequena propriedade rural familiar no Rio Grande do Sul, que passou por várias formas e tipos de secagem e armazenagem. A partir dos anos 2000 modelo propagado pela extensão rural gaúcha está na armazenagem dos grãos no sistema de silosecador construído em alvenaria armada com tela de contenção. A secagem por passagem forçada de ar pode ser classificada em baixa temperatura, alta temperatura ou secagem combinada, que segundo Silva et al. (2000), definem a secagem em baixas temperaturas quando a temperatura do ar natural usado para secagem não ultrapasse 10ºC acima da temperatura ambiente. Hansen et al. (2013) descreve que nestes sistemas a secagem é um processo lento quando comparado a secagem a lenha, sendo que o tempo de secagem varia conforme as condições climáticas, podendo chegar até 8 semanas para finalizar o processo. Devido a adoção deste tipo de unidades pelos agricultores familiares no Alto Uruguai Gaúcho e a pouca disponibilidade de informações sobre a eficiência e retorno financeiro destas unidades armazenadoras, justifica-se este trabalho. Diante disto, o presente trabalho tem por objetivo analisar os processos de secagem e armazenagem em silos que utilizam circulação forçada de ar natural, identificando possíveis problemas e potencialidades desse sistema em nível de propriedade rural. MATERIAIS E MÉTODOS Durante o período de 15/02/2014 até 30/05/2014 foram realizadas coletas de grãos de milho em silos de alvenaria com contenção metálica para armazenagem de milho a granel. Também foi aplicado o questionário sócio econômico para os agricultores. Foram realizadas dezoito visitas, realizando as coletas de grãos de milho em nove células armazenadoras, com capacidades diferentes de estocagem. Estas unidades foram construídas e adaptadas com auxílio da EMATER/RS, e 754

3 caracterizam-se por ter um fundo falso, com sistema de ventilação composto por um motor e um ventilador. O conjunto motorizado possui pressão estática e vazão dimensionada para cada silo. Estas unidades armazenadoras estão localizadas nos municípios de Charrua, Cruzaltense e Paulo Bento, sendo que as capacidades das unidades variam de 400 até 1500 sacas de milho. Nesse sentido foram analisadas nove células armazenadoras com duas amostragens por silo, nos municípios citados anteriormente. O milho foi armazenado após os silos serem previamente higienizados pelos agricultores, a fim de diminuir a população de carunchos,. A primeira amostragem foi feita logo após a colheita e outra com pelo menos trinta dias de intervalo, visando verificar o final do processo de secagem e o controle de insetos. As amostras foram obtidas com auxílio de um calador de profundidade de 2,2 metros, um balde dez quilos e um quarteador. Cada amostra foi composta por nove caladas, acomodada no balde de amostra e posteriormente dividida em duas subamostras com auxílio do quarteador, seguindo as normas de classificação adotadas pelo sistema oficial de classificação. As amostras foram classificadas pela unidade de classificação da EMATER-RS/ASCAR lotada em Erechim/RS. RESULTADOS E DISCUSSÃO A amostragem nas unidades armazenadoras ocorreu logo após a etapa de colheita e antes do processo de secagem, a fim de avaliar o estado dos grãos após a saída da lavoura, conforme tabela 1. Analisando os resultados da tabela 1 podemos observar que há uma alta variação no índice de grãos quebrados sadios, ou seja, grãos quebrados com mais de 5 mm, o menor índice em 2,89% e o maior em 16,86%. Para quebrados com tamanho de 3 mm a 5 mm o índice variou de 0,55% a 2,29%. Ao analisarmos os dois índices podemos afirmar que os percentuais de grãos quebrados superam os 19% dos grãos armazenados na unidade. Esses dados mostram principalmente que há dificuldade de regulagem das máquinas no momento de colheita, sendo um fator de que interfere diretamente na qualidade do grão armazenado. Já que o grão quebrado perde a proteção da casca refletindo na taxa de respiração dos grãos, no ataque de pragas e na proliferação de fungos e micotoxinas. Os índices referentes a quebra de grãos devem-se principalmente a baixa umidade de colheita dos grãos e a colheita mecanizada terceirizada. Esses dois fatores estão interligados, pois muitas vezes os grãos passam do ponto 755

4 ideal colheita por não se ter maquinário próprio, e também, segundo relato dos agricultores, não é realizada a regulagem adequada para cada situação da lavoura, resultando descontos quando da entrega dos grãos para a armazenagem terceirizada. Mas como em 89% dos agricultores usam o milho diretamente para a alimentação animal, a pequena percentagem de grão quebrado armazenado na propriedade possuirá boa qualidade nutricional e não representará riscos aos animais, se usado no curto prazo. Quanto a qualidade de grãos, apenas uma amostra foi considerada fora de tipo e duas amostras classificadas como tipo 2 devido ao total de avariados, 4 amostras foram classificadas como fora de tipo, devido a presença de insetos vivos, resultado este esperado, pois as amostras foram obtidas antes do expurgo. Estes resultados corroboram com o relato de Gallo et al. 2002, em que a infestação pelo caruncho na massa de grãos ocorre na lavoura e que quanto mais tempo se demora para colher mais tempo os grãos ficam expostos as pragas. Outro fator relevante a ser analisado são os dados referentes à presença de insetos nas amostras obtidas, em apenas uma amostra não foi detectado o dano por Sitophilus zeamais, no entanto nesta amostra pode-se observar insetos vivos o que representa um potencial de dano aos grãos. Zago (2002) afirma que apenas um casal de gorgulho do milho S. zeamais que vive em media de quatro a cinco meses, com sucessivas gerações, pode dar origem a um milhão de insetos de insetos, que podem consumir o equivalente a cinco sacas de milho. Nesse sentido, apenas a presença de insetos vivos é indicativo para tomar medidas de controle, podendo ser o o resfriamento da massa de grãos para reduzir a atividade do caruncho e posteriormente o controle químico. Os agricultores entrevistados afirmaram que após a secagem dos grãos realizam o controle através de expurgo, utilizando fosfina a 6 g/m 3, e apenas um relata a utilização de controle preventivo com Bifenthrin. 756

5 Tabela 1. Classificação dos grãos de milho antes da secagem e controle de insetos. 1 Agricultor Data da Classificação 20/02/ /02/ /03/ /03/ /04/ /04/ /03/ /03/ /03/ Nº Amostra/Lacre / /85/ / / / / / / /22 4 Matérias Estranhas 0,29% 0,53% 0,10% 0,26% 0,03% 0,15% 0,13% 0,11% 0,34% e Impurezas 5 Umidade 16,40% 15,30% 16,20% 16,20% 14,50% 13,40% 15,30% 14,40% 17,50% Quebrados 6 2,29% 1,84% 0,55% 1,54% 0,52% 0,53% 0,96% 0,93% 0,62% (<5mm a 2,3mm) 7 Mofado 0,00% 0,00% 0,86% 1,65% 1,69% 1,85% 5,93% 1,08% 5,78% 8 Ardidos 0,00% 0,02% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 9 Fermentados 0,49% 1,09% 0,74% 0,34% 5,97% 2,53% 6,16% 6,08% 0,58% 10 Germinados 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,13% 0,27% 0,63% 1,29% 0,00% 11 Carunchados 0,06% 0,71% 0,00% 0,31% 0,86% 0,59% 0,14% 1,05% 0,00% 12 Chochos ou Imaturos 0,00% 0,03% 0,05% 0,03% 0,16% 0,52% 0,00% 0,15% 0,00% 13 Gessados 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% Total Avariados 14 0,49% 1,14% 1,65% 2,02% 7,95% 5,17% 12,72% 8,60% 6,36% (Soma ) 15 Grãos Quebrados Sadios 16,86% 4,16% 6,60% 11,67% 2,89% 6,32% 4,90% 15,69% 3,26% 16 Grupo SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO SEMIDURO 17 Classe AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA AMARELA 18 TIPO Tipo 1 Tipo 1 Fora de Tipo Fora de Tipo Fora de Tipo Fora de Tipo Fora de Tipo tipo 2 tipo 2 OBS - - Insetos Vivos Insetos vivos Insetos Vivos Insetos Vivos Avariados Avariados Avariados 757

6 Em algumas amostras observa-se a presença de grãos mofados o maior índice foi de 5,93%. Isto demonstra que há contaminação por fungos no cultivo do milho a campo, aumentando o risco de ocorrer a presença de micotoxinas na unidade armazenadora. Segundo Caldas et al. (2002) as micotoxinas podem contaminar os alimentos no cultivo, no transporte em veículos inadequados ou no armazenamento, possuem alto grau de toxicidade a humanos, animais e plantas e podem causar problemas reprodutivos, perda de despenho dos animais alimentados com estas substancias, as micotoxinas de campo são originarias principalmente de fungos do gênero Alternaria, Fusarium e Hemintosporium. Analisando sistemicamente a informação obtida da classificação dos grãos, podemos afirmar que para garantirmos uma boa armazenagem na propriedade rural necessitamos garantir o bom andamento da lavoura para que os problemas sejam minimizados visando garantir que os grãos dentro do silo sejam grãos inteiros, livre de insetos e fungos. Para tanto necessitamos investir em qualificação dos agricultores armazenadores para que escolham as cultivares não levando somente a produtividade, mas também a sanidade, dureza de grãos e o seu ponto de colheita ideal, com maquinas adequadas para a colheita. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como recomendação para a qualidade de grãos, os agricultores devem escolher cultivares de milho mais resistentes ao ataque de insetos. Além disso, devem estar atentos ao ponto ideal de colheita e as técnicas de regulagem para minimizar os danos físicos, que proporcionarão a redução em qualidade de grãos. O manejo de silo secadores ainda possuem deficiências a serem superadas pelos agricultores na pré-limpeza dos grãos, no controle dos insetos praga presentes nas estruturas de armazenagem. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CALDAS, E.D; SILVA, S.C.; OLIVEIRA, J.N. Aflatoxins and ochratoxin A in food and the risks to human health. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v.36, n.3, p , Mar CRUZ, J.C.; KONZEN, E.A.; PEREIRA FILHO, I.A.; MARRIEL, I. et al. Produção 758

7 de milho orgânico na agricultura familiar. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, Circular técnica, 81. HANSEN, R. C.; KEENER, H. M.; GUSTAFSON, R.J. Natural air grain drying in Ohio. Extension FactSheet: Food, Agricultural and Biological Engineering, Columbus, AEX Disponível em:<http://ohioline.osu.edu/aex-fact/ pdf/0202_06.pdf>. Acesso em: 4 maio GALLO, D.; NAKANO, O.; SILVEIRA NETO, S. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba SP: FEALQ, p. MARTINS, Ricardo Ramos; CALCANHOTTO, Flávio Abreu; MARTINS, Bibiana Volkmer; FRANCO, José Boaventura da Rosa. A armazenagem sustentável como inovação para a pequena propriedade. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável: revista da EMATER. Rio Grande do Sul/ASCAR, Porto Alegre, RS, v.6, n.1/2, p.8-25, jan./nov Disponível em <http://www.emater. tche.br/site/arquivos_pdf/teses/rev-agroeco_2013_relato-exp.pdf>. Acesso em: 23 maio SILVA, J. S.; AFONSO, A. D. L.; DONZELLES, S. M. L. Secagem e secadores. In: SILVA, J. S. Secagem e armazenagem de produtos agrícolas. Viçosa: Aprenda Fácil, p cap. 5. ZAGO, N. J. Caracterização sócio-cultural dos agricultores e avaliação de populações locais e milho crioulo no Alto Vale do Itajaí. Florianópolis, p. Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) Curso de Pós-Graduação em Agroecossistemas. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. 759

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