ARMAZENAGEM EM NÍVEL DE FAZENDAS

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1 ARMAZENAGEM EM NÍVEL DE FAZENDAS Adilio Flauzino de Lacerda Filho 1 Foi instalado em 30/01/2003, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional CONSEA, o qual tem caráter consultivo e assessora o Presidente da República para a formação de políticas e definição de orientações para que o país garanta o direito humano à alimentação. É um instrumento de articulação entre o governo e a sociedade civil na proposição de diretrizes para as ações nas áreas de alimentação e nutrição (www.planalto.gov.br/consea/exec/index.cfm, em 18/09/2008)). Por meio desse instrumento, preconiza-se, com base na segurança alimentar e nutricional, que "todos têm direito a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente". Este objetivo só será alcançado a partir da consciência de que não produzimos grãos e sim alimentos para o homem e para os animais domésticos. Entende-se que, além do suprimento humano, os grãos, principalmente milho e soja, são transformados em carnes, ovos e leite. Portando, há a necessidade de entendermos que a busca da qualidade do alimento inicia-se na lavoura e deverá ser mantida durante todas as operações unitárias que envolvem a produção de alimento, até o consumidor final. Mas o que é qualidade de grãos? Evidentemente é uma resposta de relativa complexidade, considerando-se os diferentes seguimentos produtivos do agronegócio e os seus interesses peculiares, como sementes, indústria e comércio de grãos "in natura". Entretanto, podem ser estabelecidos alguns atributos que nos permitam estabelecer referenciais, tais como: 1) baixo teor de água; 2) baixo índice de impurezas e matérias estranhas; 3) baixo nível de infestação por insetos-praga; 4) baixa contaminação por fungos e bactérias; 5) isenção de micotoxinas; 6) alto valor nutritivo; 7) baixa susceptibilidade à quebra; 8) elevada massa específica aparente; e 9) elevado índicie de germinação, associado à alta vitalidade, no caso de sementes. O sistema de produção agrícola envolve etapas distintas e todas de igual importância. Inicia-se com o preparo do solo, seguindo-se o plantio propriamente dito, tratos culturais, colheita, armazenagem e transporte. A armazenagem deve ser vista como uma das mais importantes etapas do processo de produção, não só por permitir a preservação da qualidade do produto, se bem praticada, mas por ser a operação que irá dar suporte à comercialização, garantindo, com lucros, o retorno dos investimentos aplicados nas fases anteriores. Em países como França, Argentina, Estados Unidos da América do Norte e Canadá, armazenam-se nas fazendas entre 30 e 65% dos grãos produzidos. Nesses países, ao contrário do Brasil, a estrutura de armazenagem foi iniciada em nível de fazenda e foi 1 Professor Associado II do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa. Viçosa, MG.

2 expandida para as unidades coletoras, intermediárias e terminais, conforme ilustrado por meio da Figura 1. No Brasil o sistema de armazenagem de grãos tomou maior impulso a partir do final dos anos 60 e sua expansão se deu com base nas centrais de pré-processamento e processamento de grãos, as quais foram estruturadas para o recebimento, pré-limpeza, secagem, limpeza, armazenagem e expedição do produto. Essas instalações se caracterizam por terem grande capacidade estática de armazenagem, operarem, simultaneamente, com grandes fluxos de recebimento e expedição de produtos e foram localizadas nos centros de produção, atendendo áreas de abrangência, muitas vezes, com raio superior 80 km. Figura 1. Croqui: caracterização dos diferentes níveis de unidades armazenadoras. Nesta condição, os grãos são transportados úmidos das lavouras para os armazéns, o que pode lhes proporciona danos quantitativos e qualitativos, além de danificar as rodovias, os veículos de transporte e, ainda, aumentar os gastos com combustível, mãode-obra e manutenção de veículos para transportar a água que deveria ter sido evaporada dos grãos, na fazenda. Um programa abrangente de armazenagem deve envolver estruturas em nível de fazenda, unidades coletoras, intermediárias e terminais, as quais possuem características técnicas distintas e, portanto, custos de implantação e operação diferenciados. É importante ressaltar que, muitas vezes, observamos unidades armazenadoras com as características técnicas das coletoras, mas instaladas em uma fazenda. Tendo, reconhecidamente, grande importância no processo produtivo, esta não é considerada uma unidade armazenadora em nível de fazenda, e sim uma unidade coletora implantada no meio rural, por possuírem maior complexidade operacional e exigirem maior investimento inicial. Fazem parte das estruturas de grandes empresas agrícolas. As principais características de uma unidade armazenadora em nível de fazenda são: a) ser projetada, prioritariamente, para receber produtos úmidos e sujos; b) ser dimensionada para atender a capacidade diária de colheita; c) não necessita de alta capacidade para movimentação do produto;

3 d) deve apresentar alta capacidade de pré-limpeza e secagem; e) ter sistemas de armazenagem compatíveis em capacidade e características técnicas necessárias à preservação da qualidade do produto. Na Figura 2 ilustra-se, por meio de uma vista parcial, as instalações de armazenagem, em nível de fazenda, da Universidade Federal de Viçosa. Figura 2. Vista parcial: laboratório de pré-processamento e armazenagem do Departamento de Engenharia Agrícola UFV. As unidades coletoras e intermediárias devem ser estruturadas para receberem produtos úmidos e sujos, úmidos e limpos, secos e sujos e secos e limpos, os que as caracterizam para operarem com grandes fluxos de recebimento e expedição, elevada capacidade de pré-limpeza, secagem, limpeza e armazenagem. As unidades terminais (indústrias e portos) se caracterizam por receberem, prioritariamente, produtos secos e limpos, sendo reduzida a capacidade de secagem (emergencial) em comparação com a alta capacidade de movimentação e armazenagem de produtos. A importância fundamental de o agricultor investir em seu próprio sistema de armazenagem reside-se na necessidade de obter produtos com melhor qualidade, em função da globalização do mercado. Dentre as principais vantagens, pode-se citar: a) trabalhar com instalações higienizadas, que constitui o principal fator para se obter qualidade. Ser consciente de que está armazenando alimentos; b) poderá estabelecer um programa de colheita obedecendo à indicação do teor de água dos grãos, de forma a minimizar os riscos de danos e perdas no campo, durante esta operação; c) não permitir que o produto permaneça úmido e sujo, durante períodos prolongados de tempo, por aguardarem a descarga durante horas nas filas dos armazéns ou em moegas de recepção, o que poderá proporcionar aquecimento do produto e infecção por fungos e perda de qualidade; d) trabalhar melhor a pré-limpeza dos grãos, o que proporciona secagem mais uniforme, minimiza os riscos de incêndio nos secadores e reduz o custo de secagem; e) poderá supervisionar, continuamente, a qualidade do seu produto prevenindo-se de problemas que poderão causar-lhes perdas quantitativas e qualitativas; f) prevenir-se, de forma econômica, de infestações de pragas (roedores, pássaros e insetos-praga), e infecções por fungos e bactérias, agregando valor ao produto; g) poderá se programar para comercializar o produto no momento que obtiver os preços que melhor lhe convierem; e h) economizar com transporte do produto colhido, no trajeto da lavoura para as grandes centrais de pré-processamento (unidades coletoras ou intermediárias), considerando-se o

4 maior preço do frete devido a maior demanda pelo transporte durante a safra, dentre outras. O custo de implantação de uma unidade de armazenagem é função da tecnologia a ser utilizada, da capacidade de processamento, da qualidade dos equipamentos adquiridos e da capacidade estática de armazenagem. Dependendo do dimensionamento, as estruturas poderão ser construídas de alvenaria, concreto, metal ou uma adequação entre esses materiais. Estima-se que este investimento poderá variar entre 100 e 250 dólares (U$) por tonelada. Entretanto, para as pequenas propriedades agrícolas, este valor poderá ser reduzido, em função da capacidade demandada e de alternativas de projetos. Depreende-se que, para a mesma tecnologia, a capacidade da instalação influenciará o montante de recursos investidos, com base em uma economia de escala. Neste contexto, por questões técnicas e econômicas, é de fundamental importância que o agricultor consulte um profissional que tenha conhecimentos da área, especificamente um engenheiro agrícola que tenha habilitação para tal, para analisar o seu projeto antes de adquirir o sistema de armazenagem. Entretanto, verifica-se no Brasil que esta orientação ou análise do projeto é feita pelo próprio vendedor de equipamentos. Nesta condição, não e raro acontecer de o produtor adquirir equipamentos, às vezes desnecessários ou inadequados para a instalação, pelo fato desse profissional de vendas, na maioria das vezes, ser despreparado tecnologicamente, uma vez que seu principal objetivo é realizar a própria venda. Com base nos levantamentos realizados pela Companhia Nacional de Abastecimento CONAB, verificou-se, nos últimos anos, incrementos na capacidade estática da armazenagem em nível de fazendas, aumentando de 5 para 15%. Esta é uma informação importante por estar associada à redução do custo de produção (http://www.conab.gov.br, em 18/09/2008). A Figura 3 contém informações relativas às capacidades estáticas de armazenagem, considerando-se os diferentes seguimentos. Figura 3. Distribuição da capacidade estática de armazenagem no Brasil, por diferentes seguimentos. Observa-se que as instalações de armazenagem no meio rural, somadas às de nível de fazenda, constituem 47% da capacidade estática, o que corresponde a 57,334 milhões de toneladas, em relação à capacidade estática total instalada de 121,987 milhões de toneladas (www.conab.gov.br, em 18/09/2008).

5 Considerando-se que a safra 2007/2008, conforme a CONAB, foi de 143,87 milhões de toneladas, verifica-se a deficiência de 21,973 milhões de toneladas, o que não causa grandes preocupações pelo fato das agroindústrias absorverem quantidades superiores esta. Contudo, se tivermos em conta que, por questões de segurança no suprimento alimentar qualquer país deveria ter, no mínimo, o valor de uma de suas safras em estoque, verifica-se uma grande defasagem na capacidade estática de armazenagem no Brasil. Não é difícil perceber que se houverem políticas direcionadas no sentido de priorizarem a armazenagem em nível de fazendas, para atender à política de suprimento e à comercialização, poderá resultar em menor investimento de implantação, menor custo operacional, melhor qualidade dos grãos e maior lucratividade. Dentre as informações importantes, sobre tomadas de decisões, para subsidiara os produtores que desejarem investir na armazenagem em nível de fazendas, estão aquelas relacionadas aos custos praticados para realizar as operações que envolvem a armazenagem de grãos. Esses custos são variáveis em função da região, empresas, insumos, tecnologia aplicada aos processos etc. Tomaremos como referência os custos praticados pela CONAB (www.conab.gov.br, em 18/09/2008), conforme apresentado na Tabela 1. Tabela 1. Especificações de serviços e seus respectivos custos, praticados em uma unidade armazenadora, por quinzena ESPECIFICAÇÃO DA OPERAÇÃO UNIDADE VALO R 1) Recepção / expedição. Recepção de grãos a granel R$ / t 1,33. Expedição de grãos a granel R$ / t 1,75. Recepção de grãos ensacados R$ / t 1,11. Expedição de grãos ensacados R$ / t 1,11 2) Pesagem rodoviária (avulsa) R$ / veículo 15,00 3) Pré-limpeza e limpeza. Até 5% de impurezas R$ / t 1,78. Mais que 5% de impurezas R$ / t 2,05 4) Secagem. Até 16,00% b.u. R$ / t 7,25. De 16,01 a 20,00% b.u. R$ / t 8,27. De 20,01 a 24,00% b.u. R$ / t 9,95. Acima de 24,01% b.u. R$ / t 12,19. Acrescer 14% sobre os valores para arroz e sementes R$ / t - 5) Armazenagem. Grãos ensacados R$ / t 1,44. Grãos a granel. outros produtos agrícolas R$ / t 1,50. arroz, cevada e malte R$ / t 1,95. aveia 2,25 6) Seguro % quinzena 0,021 7) Sobretaxa. Arroz,milho, feijão, sorgo, soja, trigo, centeio e triticale % quinzena 0,15 8) Taxa de administração % 10 9) Serviços de braçagem Preço do dia 10) Taxa mínima Ver observações Emissão de Warrant/Conhecimento de depósito/cda/wa (apedido) R$ /conjunto 15,00 12) Emissão de outros documentos R$ / documento 5,00 (Fonte: CONAB em 18/09/2008).

6 Necessário se faz esclarecer alguns pontos relativos à aplicação dos procedimentos tarifários de armazenagem e, em caso de dúvidas, buscarem informações na administração das unidades armazenadoras da CONAB. São eles: 1) A taxa de administração incide sobre os valores dos serviços prestados por terceiros e seus respectivos encargos. 2) Os produtos destinados exclusivamente a processamento/beneficiamento terão acréscimos de 30% sobre a respectiva tarifa. 3) O custo dos serviços executados em horas extras, após o expediente normal, será acrescido de 50%, e aos domingos e feriados de 100%. 4) O fechamento de cada quinzena dar-se-á no 1º dia útil posterior ao período de competência, ou seja, 1ª quinzena (1 a 15) e 2ª quinzena (16 a 30/31). 5) Taxa mínima: para cobrança de armazenagem deve-se considerar o valor de R$ 10,00/quinzena. Para a prestação dos demais serviços, cobrar o equivalente a 10 (dez) toneladas da tarifa referente ao serviço realizado. 6) Para os produtos submetidos à secagem não será cobrada a pré-limpeza. 7) O valor da mercadoria, para efeito de seguro, será aquele definido no Regulamento de Armazenagem ambiente natural. 8) Seguro: Incide sobre todos os produtos, exceto aqueles em que se cobra a sobretaxa. Pode-se concluir que, com base em informações técnicas e em um programa de governo que venha dar sustentabilidade financeira à iniciativa do agricultor para implementar a armazenagem em nível de fazenda, poderá ser possível produzir grãos com qualidade, agregando-se valor ao produto, reduzindo o custo de produção e, ainda, estabelecer competitividade para atuar no mercado externo.

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