UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO UFRJ INSTITUTO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO COPPEAD

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO UFRJ INSTITUTO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO COPPEAD A INTERNACIONALIZAÇÃO DA INDÚSTRIA DE TI BRASILEIRA: UM ESTUDO DA INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NESSE PROCESSO RICARDO COSTA VIEIRA DA SILVA MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS ORIENTADORA: Profa. Dra. Adriana Hilal RIO DE JANEIRO, RJ BRASIL 2008 i

2 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1.1: CADEIA DE VALOR DO SOFTWARE... 7 FIGURA 1.2: MERCADOS DE SOFTWARE E SERVIÇOS DE TI EM 2003 (US$ MILHÕES)... 8 FIGURA 2.1: ÍNDICE DE LOCALIZAÇÃO GLOBAL AT KEARNEY FIGURA 2.2: PRINCIPAIS MERCADOS PARA EXPORTAÇÃO DE SOFTWARES CHINESES FIGURA 2.3: CRESCIMENTO ANUAL MÉDIO DO MERCADO DE TI BRASILEIRO FIGURA 2.4: DIAMANTE DA VANTAGEM COMPETITIVA NACIONAL FIGURA 2.5: O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DA FIRMA FIGURA 2.6: ELEMENTOS MÍNIMOS PARA UMA EMPRESA NASCIDA GLOBAL SUSTENTÁVEL.. 56 FIGURA 2.7: TIPOS DE EMPREENDIMENTOS INTERNACIONAIS FIGURA 2.8: COMPROMETIMENTO COM MERCADOS ESTRANGEIROS LISTA DE TABELAS TABELA 2.1: MERCADO DE SOFTWARE EM ALGUNS PAÍSES SELECIONADOS EM TABELA 2.2: EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA INDIANA DE SOFTWARE (EM MM US$) TABELA 2.3: PRINCIPAIS POLÍTICAS ADOTADAS NA INDÚSTRIA INDIANA DE SOFTWARE TABELA 2.4: PRINCIPAIS POLÍTICAS ADOTADAS NA INDÚSTRIA CHINESA DE SOFTWARE TABELA 2.5: INVESTIMENTOS NO PROGRAMA SOFTEX 1992 A TABELA 2.6: RECURSOS INVESTIDOS E EXPORTAÇÕES - SOFTEX (1994 A 2000) TABELA 2.7: ESTÁGIOS DE INTERNACIONALIZAÇÃO EM FIRMAS BORN GLOBAL INTENSIVAS EM CONHECIMENTO TABELA 2.8: DISTRIBUIÇÃO DE FIRMAS EXPORTADORAS NA PESQUISA TABELA 2.9: CLASSIFICAÇÃO DAS 20 MAIORES MULTINACIONAIS BRASILEIRAS ii

3 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ABES BNDES BPO BRASSCOM BRIC CLT CNPq CPII DESI EMN FDC IDE ITES MCT Mercosul MNE NASSCOM OMC ONU P&D PIB PITCE PLANIN PNUD Prosoft ProTeM-CC RNP SEBRAE SEI SEPIN SINAPAD SOFTEX 2000 TELEBRÁS Associação Brasileira de Empresas de Software Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Business Process Outsourcing Brazilian Association of Software and Service Export Companies Brasil, Rússia, Índia e China (acrônimo criado pela Goldman Sachs para designar os países que terão crescimento acelerado até 2050). Consolidação das Leis do Trabalho Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Columbia Project on International Investment Desenvolvimento Estratégico em Informática Empresa Multinacional Fundação Dom Cabral Investimento Direto no Estrangeiro Information Technology Enabled Services Ministério da Ciência e Tecnologia Mercado Comum do Cone Sul Multi National Enterprise National Association of Software and Service Companies Organização Mundial do Comércio Organização das Nações Unidas Pesquisa e Desenvolvimento Produto Interno Bruto Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior Plano Nacional de Informática e Automação Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas Linha de financiamento do BNDES específica para desenvolvedores de software Programa Temático Multiinstitucional em Ciência de Computação Rede Nacional de Pesquisa Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Antiga Secretária Especial de Informática, atual SEPIN Secretaria da Política de Informática e Automação Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho Programa Nacional de Software para Exportação Telecomunicações Brasileiras S/A iii

4 TI TIC UNCTAD Tecnologia da Informação Tecnologia da Informação e Comunicação United Nations Conference on Trade and Development iv

5 Sumário CAPÍTULO I INTRODUÇÃO OBJETIVOS DO ESTUDO IMPORTÂNCIA DO ESTUDO CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO CARACTERIZAÇÃO DO SOFTWARE CADEIA DE VALOR DO SOFTWARE A IMPORTÂNCIA DO SETOR DE SOFTWARE... 7 CAPÍTULO II REVISÃO DE LITERATURA A INDÚSTRIA DE SOFTWARE A Indústria de Software no Mundo Os BRICs e a Indústria de Software A Indústria de Software na Índia A Indústria de Software na China A Indústria de Software no Brasil AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O SETOR DE SOFTWARE A Vantagem Competitiva das Nações (Porter, 1993) Política Industrial Falhas de mercado A Política Industrial do Governo Federal O Programa Softex O BNDES e o Prosoft AS TEORIAS DE INTERNACIONALIZAÇÃO O modelo da escola de Uppsala As redes de empresas As empresas nascidas globais Internalização O Paradigma Eclético da Produção Internacional Vantagens específicas de propriedade Vantagens de internalização Vantagens de localização Críticas às Teorias de Internacionalização Críticas aos Modelos de Uppsala, Redes Industriais e Born Globals Críticas ao Paradigma Eclético e Internalização Estudos sobre a internacionalização de empresas brasileiras A internacionalização das empresas nacionais (Brasil et al., 1996) Processos, pessoas e networks no Investimento Direto no Exterior (Barreto, 1998) v

6 Internacionalização de Empresas Brasileiras no Mercosul: Estudo de Caso (Pinto, 1998) Estudos sobre a Promoção de Exportações via Internacionalização (BNDES, 2005) Multinacionalização das empresas brasileiras (FDC/ CPII, 2007) ANEXO I - REFERÊNCIAS vi

7 Capítulo I Introdução vii

8 Capítulo I INTRODUÇÃO 1.1. Objetivos do Estudo Este estudo insere-se em uma corrente de pesquisas sobre o processo de internacionalização de empresas brasileiras de software. Apesar de existir uma quantidade significativa de estudos sobre internacionalização de empresas brasileiras de variados setores econômicos, poucos deles concentram-se no setor de software e uma quantidade ainda mais reduzida desses estudos procura examinar as políticas públicas implementadas pelo governo brasileiro nos últimos anos com vistas a estimular o processo de internacionalização das empresas desse segmento. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é investigar aspectos de internacionalização e influência das políticas públicas nas empresas brasileiras de software. São colocados três grupos principais de questionamentos que procuram avaliar: i) como ocorreu o processo de internacionalização dessas empresas; ii) de que forma as teorias de internacionalização existentes explicam seu processo de internacionalização e; iii) se existiu ou não influência das políticas públicas do governo brasileiro para estimular a internacionalização dessas organizações, seja via exportação de software, seja via criação de subsidiárias no exterior. Especificamente, do ponto de vista de políticas públicas, busca-se compreender o papel da criação do Programa Softex em 1993, das políticas implementadas pelo BNDES para o setor com a criação do Programa Prosoft e, por fim, investigar a política industrial instituída em 2003 pelo Governo Brasileiro, tendo o desenvolvimento do setor software como um de seus eixos estruturantes Importância do Estudo O Brasil surgiu no mercado internacional como uma colônia exportadora de commodities e assim o fez ao longo de toda a sua história. O país passou pelos ciclos do pau-brasil, açúcar, algodão, látex para produção da borracha, café, e mais recentemente soja e minério de ferro. Esse é o único país do mundo cujo nome deriva de uma commodity. A partir da década de 1930, o país logrou sucesso em implementar uma política de substituição de importações e desenvolver uma indústria de bens industrializados (Furtado, 1959). Com o recente processo de industrialização, o Brasil começou a surpreender seus congêneres mundiais com o desenvolvimento de setores industriais com alto valor agregado e a exportação de tecnologia brasileira, demandante de pessoal com elevado nível de capacitação técnica. 1

9 Constituem-se exemplos do processo de desenvolvimento de setores com alta tecnologia e exportação de produtos de alto valor agregado, a prospecção de petróleo em águas marítimas profundas, o desenvolvimento de uma indústria aeronáutica com tecnologia autóctone a partir da década de 1950, tendo as primeiras exportações já ocorrendo a partir da década de 1970 e a criação da maior indústria de Tecnologia da Informação da América Latina, que observou a criação de tecnologias tais como as urnas eletrônicas, que permitiram a completa informatização das eleições brasileiras ou a completa automatização para envio via Internet das declarações de Imposto de Renda de todo os contribuintes brasileiros. A relevância do presente estudo, de uma perspectiva teórica, está ligada aos seguintes aspectos: a importância dos estudos sobre internacionalização de empresas brasileiras de software no contexto do fenômeno da liberalização das economias dos países centrais e periféricos; a análise do processo de internacionalização de um setor demandante de alta tecnologia em um país em desenvolvimento, a luz da competição internacional colocada por outros países emergentes tais como China e Índia; o entendimento de como as políticas públicas governamentais podem influenciar esse processo para expandir a capacidade de competição brasileira nesse setor que já encontram alguns outros atores globais em estágio mais avançado tais como EUA, Alemanha, Japão, Índia, Irlanda, Israel, entre outros. Do ponto de vista prático, o presente estudo poderá contribuir para três atores principais: os agentes governamentais criadores das políticas públicas, empresários do segmento de software com vistas a expandir o mercado de atuação de suas empresas para a arena global e as entidades de classe representantes do setor. Os agentes criadores das políticas públicas podem fazer uso desse estudo para identificar pontos de melhoria das ações governamentais no setor, de forma a ampliar as possibilidades de exportações e a competitividade das empresas brasileiras no setor de software. Os empresários desse setor que desejem internacionalizar suas empresas podem utilizar o estudo com vistas a identificar os desafios da globalização de empresas nesse segmento econômico e constatar quais são os instrumentos governamentais disponíveis para apoiar o processo de internacionalização. 2

10 Por fim, as entidades de classe representantes dos principais grupos de interesse do setor de software, podem apoiar-se nesse estudo para atuarem como elementos aglutinadores e catalisadores dos interesses das empresas e dos representantes do governo brasileiro, criadores das políticas públicas nacionais para o setor Contextualização do Processo de Internacionalização Ao investigar a história econômica brasileira, é possível verificar que Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, foi, já no século XIX, o primeiro empresário a expandir o processo de internacionalização da economia do país para além da exportação de commodities (Caldeira, 1995). Como não há estudos claramente estabelecidos para o período de Mauá, é necessário utilizar como ponto de partida para os estudos de internacionalização, somente as primeiras iniciativas da Petrobrás na década de 1970, com vistas a prospectar petróleo em outras regiões do mundo e atender às necessidades brasileiras por combustíveis fósseis (Silva, 2000). Friedrich List faz, no século XIX, uma revisão dos principais conceitos da obra de Adam Smith. Esse autor define em sua obra que os países passam por quatro grandes fases durante seu processo de desenvolvimento econômico (List, 1983) 1 : 1. Identificação de uma matéria-prima a partir da qual o país constitui sua base econômica e de transações com outras nações em nível mundial. No caso brasileiro, a partir de sua independência política, o café passou a representar esse produto no contexto da constituição e expansão da base econômica de exportação. 2. Implantação de uma política de substituição de importações para permitir o desenvolvimento de uma indústria nacional razoavelmente diversificada com bases nas receitas geradas no momento anterior do modelo. 3. Abertura da economia do país para competição direta com produtos estrangeiros, aumentando seu nível de produtividade e trazendo uma maior especialização para aqueles bens competitivos em escala internacional. 1 A versão original da obra, denominada Das Nationale System der Politischen Ökonomie, foi publicada em A indicação colocada neste trabalho refere-se à versão brasileira da obra. Essa publicação tornou Friedrich List o autor alemão mais consultado e referenciado após Karl Marx. List apresentou conceitos que faziam um contraponto às teorias de Adam Smith e Karl Marx defendendo a colaboração global entre governos e empresas. Tais teorias apresentam-se válidas, mais de 150 anos após sua publicação. 3

11 4. A partir de uma base industrial consolidada e com produtos de maior conteúdo tecnológico agregado, os países passam a internacionalizar suas empresas, buscar novos mercados para seus produtos e defender modelos liberais para outras nações que ainda não tenham vivido o processo de desenvolvimento anteriormente descrito. O Brasil viveu completamente as duas primeiras etapas desse processo em sua história. A partir da década de 1990, com a abertura comercial, a terceira etapa do processo foi implantada com razoável sucesso. Resta ao Brasil o desafio de seguir para a quarta fase desse processo e avançar no seu processo de desenvolvimento econômico. Nesse contexto, a indústria de software surge como uma das grandes alternativas de internacionalização para as empresas brasileiras. O desenvolvimento de softwares inovadores e o uso de um capital humano com elevado nível de especialização poderão permitir a competição direta com outras nações desenvolvidas ou emergentes de porte equivalente ao brasileiro. A Índia já vem trilhando, há alguns anos, esse caminho com relativo sucesso (Athreye, 2005) Caracterização do Software O software é essencialmente um serviço, uma vez que consiste na elaboração de uma série de instruções para serem executadas pelo computador e sua exploração econômica ocorre através da cessão de direitos autorais. Há inúmeras formas possíveis de classificação do software. Uma classificação comumente utilizada divide o setor em dois grandes agrupamentos: a) software e b) serviços. Tais agrupamentos ainda são sub-classificados de acordo com sua aplicação (Filho, et al., 2006). A categoria de software contempla: Aplicativos são os pacotes de aplicativos para consumidores em geral, aplicativos comerciais e industriais. Ambientes de Desenvolvimento e Implementação de Aplicações são as ferramentas utilizadas para gerenciar e definir os dados que serão mantidos nos bancos de dados e as ferramentas de desenvolvimento de novos programas. Software de Infra-Estrutura divide-se em cinco categorias, representadas por software de gerenciamento de sistemas e redes, software de segurança, software de storage e backup, software de redes e sistemas operacionais. 4

12 Software embarcado é constituído por uma solução integrada de hardware e software, tais como aqueles utilizados por centrais telefônicas e telefones celulares. Software OEM são as licenças ofertadas pelas grandes empresas multinacionais para os sistemas operacionais embutidos em computadores vendidos em lojas de varejo. Software para uso próprio Todo e qualquer software dentro de uma empresa para uso local. Firmware programas desenvolvidos em linguagem de montagem integrados ao hardware. A categoria de serviços, por sua vez, é constituída por: Consultoria é composta pelos serviços de consultoria e aconselhamento relativos à Tecnologia da Informação (TI). Integração de Sistemas define-se pela solução integrada de planejamento, design, implementação e gerenciamento de soluções de TI para atender às especificações técnicas colocadas pelo cliente. Outsourcing tarefa pela qual um fornecedor de serviços exterior à organização demandante assume a responsabilidade pelo gerenciamento e operação de parte ou toda a infra-estrutura de TI do cliente. Suporte serviços relacionados à instalação, ajustes e configuração do software, além do provimento de suporte técnico aos usuários finais. Treinamento processo de capacitação de usuários ou clientes relacionados a ferramentas de TI. BPO serviços, prestados por empresa externa, que compreendem a transferência do gerenciamento e execução de processos de trabalho ou completa função de negócios. Tal terceirização só se torna economicamente viável graças ao uso intensivo da TI, razão pela qual esses serviços recebem a qualificação de ITES (IT enabled services), sendo referidos como ITES-BPO. É possível ainda classificar o software quanto à forma de comercialização: padronizáveis, parametrizáveis, customizáveis. Os softwares padronizáveis podem ser adquiridos, instalados e utilizados imediatamente. Aqueles ditos parametrizáveis podem necessitar de algumas configurações disponíveis no produto antes de estarem prontos para utilização. Por fim, os softwares customizáveis são aqueles que podem necessitar de programação adicional para atender necessidades específicas de cada um de seus consumidores (Gutierrez, 2007). 5

13 1.5. Cadeia de Valor do Software A criação de um novo software decorre de uma demanda de mercado identificada, seja ela decorrente de uma necessidade colocada pelo cliente ou a partir de uma pesquisa de oportunidade feita pela empresa desenvolvedora de software. As grandes etapas compreendidas pelo ciclo de vida do software são: desenvolvimento, distribuição e comercialização, implantação e treinamento (Gutierrez, 2007). O desenvolvimento do software, por sua vez, é composto por cinco atividades: 1. Levantamento de requisitos, concepção do produto e especificação. 2. Projeto de arquitetura do software e da infra-estrutura necessária. 3. Programação ou codificação do software. 4. Verificação da qualidade e testes do software. 5. Homologação e elaboração de documentação para o usuário. Para a realização do desenvolvimento, é necessário que a empresa possua um ambiente propício para a implementação dos programas, com toda a infra-estrutura de equipamentos, conexões a rede e links telefônicos. A mão-de-obra deve ser qualificada, treinada nas metodologias a serem utilizadas no trabalho e eventualmente o processo de desenvolvimento da empresa deve ser certificado. Uma vez implantado, o sistema requer gastos contínuos com: atendimento e suporte ao cliente; fornecimento, suporte e manutenção de infra-estrutura; manutenção e evolução do produto. Na cadeia do software existem as empresas de produtos, serviços ou grandes usuárias de serviços de TI que muitas vezes possuem suas próprias equipes internas. As empresas podem ocupar uma ou mais classificações simultaneamente. A figura seguinte descreve a cadeia de valor do software anteriormente descrita (Gutierrez, 2007). 6

14 Figura 1.1: Cadeia de Valor do Software 1.6. A Importância do Setor de Software Em entrevista, o historiador econômico americano David Landes, autor de A Riqueza e a Pobreza das Nações afirma que:... estamos assistindo a uma mudança profunda. Os países que tiverem a oportunidade de não apenas usar, mas também de melhorar as novas tecnologias estarão em posição de vantagem na Nova Economia. Foi essa capacidade que salvou os Estados Unidos depois de anos de estagnação. Os Estados Unidos apostaram na importância do que chamamos de software. O hardware é muito importante. Mas creio que a longo prazo é o software que vai dominar. Qualquer um pode aprender como fazer um computador. Ou você pode importar uma fábrica de hardware correndo o risco de que ela se mude para o vizinho se ele oferecer trabalho mais barato... Por isso, é na área do software que os novos países devem fazer suas apostas atualmente 2. Assiste-se no início do século XXI uma transição econômica importante: a mudança de uma sociedade industrial para uma sociedade da informação ou do conhecimento. Dentro desse novo paradigma de organização social, a indústria de software surge como um importante eixo estruturante. 2 Landes, D. Entrevista concedida às páginas amarelas da Revista Veja, 22/03/

15 A indústria de software tem como característica geral a predominância de pequenas empresas. Essas empresas podem ser criadas em quaisquer regiões que possuam os requisitos básicos para sua formação, sem a necessidade de um maciço investimento de capital, bastando para isso ter um conjunto de pessoas qualificadas, alguns computadores e conexão à Internet (Araújo, et al., 2004). Por ser uma indústria relativamente recente, o software até pouco tempo era visto como um sub-componente do setor de TI. A percepção da importância do software tem crescido nas últimas décadas. Esse aumento do interesse pelo setor decorre não somente do tamanho do setor, mas também de sua taxa de crescimento e de sua contribuição para os ganhos de produtividade (Filho, et al., 2006). Na figura a seguir estão identificados os principais competidores do Brasil no mercado mundial de software e serviços de TI. A estatística compõe os dados de mercado doméstico e exportações. É possível identificar que o Canadá possui um grande mercado doméstico e uma quantidade significativa de exportações. Por outro lado, Irlanda e Índia possuem volumes de exportações muito maiores do que seus próprios mercados domésticos. Por fim, China e Brasil possuem fortes mercados internos, mas volumes de exportações que ainda não são significativos comparativamente com outros países do mundo. Figura 1.2: Mercados de software e serviços de TI em 2003 (US$ Milhões) Fonte: (A. T. Kearney, 2005) Em estudo sobre o impacto da gestão nos resultados das empresas brasileiras de software, Kubota (2007) identificou como uma das variáveis de seu estudo, a importância do perfil exportador para o resultado financeiro dessas organizações. O estudo identifica a existência de quatro grupos de empresas: i) formais, caracterizadas por serem de médio e grande porte, com baixa desempenho percebido e rentabilidade; 8

16 ii) pioneiras, possuem o segundo melhor desempenho percebido, o melhor desempenho exportador, a maior rentabilidade média e menor nível de contratação de sua força de trabalho via cooperativas ou pessoas jurídicas ; iii) desorganizadas, identificadas por empresas de pequeno porte, com avaliações menos positivas nos itens de gestão e resultados percebidos e desempenho mediano no critério de rentabilidade e iv) líderes, caracterizado por empresas de médio e grande porte, com rentabilidade mediana e avaliações positivas nos critérios de gestão. Em uma das conclusões, o autor do estudo identifica que o desempenho exportador contribui positiva e significativamente para a rentabilidade da empresa (Kubota, 2007). 9

17 Capítulo II Revisão de Literatura 10

18 Capítulo II REVISÃO DE LITERATURA 2.1. A INDÚSTRIA DE SOFTWARE A Indústria de Software no Mundo Durante os anos 1990, vários países de economia emergente desenvolveram indústria de software de proporções relevantes. Em 2001, havia vários países cujas receitas geradas por essa indústria localizavam-se entre US$ 7 e US$ 10 bilhões, incluindo Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Irlanda e Israel. Os três últimos, muitas vezes denominados por 3 I s destacam-se pelo rápido crescimento de suas indústrias e a alta participação das exportações nesse total. Brasil e China também registraram taxas de crescimento de dois dígitos em geração de receitas na década de 1990, mas amplamente ancorados em uma grande demanda de seus mercados domésticos ao invés de exportações para mercados mais dinâmicos (Arora, et al., 2005). A indústria de software tem sido responsável por aproximadamente 50% da indústria de Tecnologia da Informação (TI) (Arora, et al., 2001). Muito se disse sobre o surgimento da nova economia no início dos anos Por ser essa uma indústria altamente demandante de mão-de-obra com elevado grau educacional e de especialização, ela teria um potencial de modificar a forma com a qual seria gerada a riqueza das nações. Nessa nova forma de organização econômica, os principais recursos não seriam mais as máquinas, as terras ou o capital, mas sim a posse da informação e o preparo para atuação segundo esse novo paradigma de criação de riqueza. A produção de software constitui-se em mais do que mais um segmento econômico, representa o bem intermediário central na nova economia digital. Seu papel é análogo a aquele desempenhado pelos bens de capital em uma economia baseada em tecnologias mecânicas. Assim como os bens de capital, o software é caracterizado por um grande número de fornecedores especializados (serviços). Colocado de outra forma, a quantidade de empresas que produzem software ou empregam programadores é maior do que o número de firmas que normalmente se denominam empresas de software (Arora, et al., 2005). A indústria de software vem despertando muito interesse em estudos recentes, pois é uma indústria típica de países desenvolvidos. Contudo, alguns países em desenvolvimento tão díspares tão Índia, Irlanda, Israel (os 3 I s) ou mais recentemente Brasil e China vêm logrando sucesso em aumentar seus volumes exportados. Muitos desses países que vêm dedicando esforços e utilizando essa indústria para queimar 11

19 etapas no processo de desenvolver capacitações industriais e criar novas empresas baseadas no conhecimento. Por conseqüência, eles vêem aumentada a possibilidade da geração de exportações de alto valor agregado. A tabela seguinte demonstra a partir de alguns números a importância da indústria de software para esses países. Esses números trazem consigo algumas observações relevantes a serem feitas: A indústria de software é dominada pelas grandes nações desenvolvidas como EUA, Alemanha ou Japão. Não há uma relação direta entre os tamanhos dos mercados e o volume de exportações. A indústria de software representa, na média, algo entre 1% e 2% da economia da maioria dos países, com proporções mais elevadas tipicamente associadas às economias dos países mais desenvolvidos. Em alguns países em desenvolvimento, particularmente Israel e Irlanda, a País indústria de software é representada por uma participação desproporcional de suas economias. Vendas (10 6 US$) Exportações (10 6 US$) Empregados Vendas / PIB Índice de desenvolvimento da indústria a Índice de desenvolvimento da indústria doméstica b EUA** n/d ,0% 0,5 0,5 Japão* ,0% 0,8 0,8 Alemanha n/d ,2% 0,9 0,9 Reino Unido n/d n/d 1,0% 0,4 0,5 Índia ,7% 7,8 1,9 Brasil ,5% 2,2 2,2 Coréia n/d 1,8% 1,1 1,1 Irlanda / 3.500# ,4% 3,4 0,5 China ,6% 1,8 1,7 Espanha* n/d ,7% 0,4 0,4 Taiwan* n/d 1,2% 0,7 0,6 Israel* ,4% 1,8 0,5 Finlândia ,6% 0,7 0,6 Cingapura n/d 1,9% 0,7 0,5 Argentina* ,5% 0,4 0,4 México <1.000 n/d n/d <0,2% 0,2 0,2 Tabela 2.1: Mercado de software em alguns países selecionados em

20 Fonte: Adaptado de (Veloso, et al., 2003); n/d não disponível; * 2000; ** 2002; a Vendas divididas pelo tamanho da economia, medida pelo PIB, e seu nível de desenvolvimento medido pelo PIB per capita; b Mesmo que o índice anterior, mas considerando somente as vendas domésticas; # O segundo número exclui as exportações da Microsoft no país; Comparar o tamanho absoluto da indústria de software, ou até mesmo seu tamanho relativo ao PIB, contudo não demonstra precisamente o nível de sofisticação ou desenvolvimento desse segmento econômico. Dessa forma, a quinta coluna da tabela anterior fornece o índice de desenvolvimento da indústria que é calculado dividindo as receitas da indústria pelo PIB (para contabilizar seu tamanho) e então pelo PIB per capita (para contabilizar seu nível de desenvolvimento), e então multiplicado por um milhão por propósitos de normalização. Por fim, a última coluna descreve o mesmo cálculo, mas somente para a participação das vendas em relação ao mercado doméstico (Veloso, et al., 2003). Os valores desses índices sugerem que: Há uma forte proeminência dos três I s (Irlanda, Israel e Índia) confirmando o interesse que tem sido dedicado no estudo da indústria de software desses países e suas capacitações. China e Brasil demonstram uma forte evidência de um setor relativamente desenvolvido com valores elevados para o índice de desenvolvimento da indústria. O Brasil desenvolveu um mercado de software relativamente forte dado seu nível de desenvolvimento econômico quando comparado a outras economias listadas na tabela, seguido por Índia e China. Nas décadas de 1970, 1980, sob inspiração dos estudos cepalinos 3, vários países envidaram esforços para desenvolver diversos segmentos industriais de suas economias através de uma política de substituição de importações. Nesse contexto encontraram-se uma grande parte dos países latino-americanos, Espanha e alguns países do Sudeste Asiático. Países tão distintos quanto Brasil e Índia tentaram 3 A CEPAL é um organismo da ONU dedicado a estudos econômicos sobre a América Latina. Tal organismo teve influência destacada nas políticas econômicas dos governantes latinos, principalmente nas décadas de 1950, 1960 e 1970, através da sugestão da política de substituição de importações como forma de promover a rápida industrialização desses países. Os principais mentores intelectuais de tais políticas foram o argentino Raúl Presbisch e o brasileiro Celso Furtado. Os estudos de Celso Furtado constituíram a base para o Plano de Metas executado durante a gestão de Juscelino Kubitscheck como presidente do Brasil. 13

21 desenvolver suas indústrias de informática com um grande foco na produção industrial de hardware. As políticas de Índia e Brasil implementadas respectivamente nas décadas de 1970 e 1980 proibiam a importação de equipamentos de informática e protegia os produtores locais com elevadas tarifas de importação. Mas a política indiana possuía uma pequena exceção que possivelmente tenha constituído a semente o desenvolvimento de uma sólida indústria de software e uma futura elevada diferença nos desempenhos exportadores de ambos os países. Em 1972, o Governo Indiano instituiu um esquema de exportação de software que permitia a importação de hardware desde que fossem utilizados estritamente com propósitos de desenvolvimento de software (Veloso, et al., 2003). Brasil e México representam respectivamente as duas maiores economias da América Latina. Ambos os países, buscaram desenvolver suas indústrias de informática através de proteção contra a concorrência estrangeira seguindo a linha cepalina. Ambos os países introduziram na década de 1990 medidas liberalizantes com o propósito de aumentar a competição nesse setor. Mas a partir de então, cada um dos países tomou caminhos distintos na abertura de seus mercados. Dada a sua pluralidade políticopartidária, o Brasil tendeu a implementar medidas para liberalizar gradualmente seu mercado, substituindo a proteção da indústria com uma política ativa de promoção desse segmento. Por outro lado, o México decidiu adotar políticas do tipo laissez faire. Em decorrência dessas diferentes abordagens utilizadas pelos governos desses países, o Brasil logrou mais sucesso em constituir em uma indústria de informática de maior porte do que aquela identificada em seu congênere mexicano (Dedrick, et al., 2001). Na área de informática, ocorreu ao longo dos anos, uma divisão internacional do trabalho que nos remete a divisão industrial anterior colocada em termos de centro e periferia. No âmbito da indústria de informática, os países desenvolvidos (centro), em geral, se especializaram na fabricação de hardware e software, enquanto que os países em desenvolvimento (periferia) se especializaram no último (MDIC, 2002). A empresa de consultoria norte-americana AT Kearney desenvolveu um índice que mede a atratividade de cada um dos principais países no mercado de TI. Na versão mais recente desse índice de 2005, o Brasil saltou do décimo para o quinto lugar. A figura a seguir descreve o indicador denominado Global Off-shoring Attractiveness Index. 14

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