AGROECOLOGIA: TEMA TRANSVERSAL PARA A EDUCAÇÃO DO CAMPO RESUMO

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1 AGROECOLOGIA: TEMA TRANSVERSAL PARA A EDUCAÇÃO DO CAMPO RESUMO Aldemira Ferreira da Silva¹ Este trabalho aborda a Agroecologia como Tema Transversal para a Educação do Campo, onde o tema agroecologia perpassa todo o currículo escolar das escolas do campo. Procura-se assinalar a importância da mesma na formação escolar do jovem trabalhador rural. Para a realização deste trabalho, além da revisão de literatura, foram também apresentadas as atividades socioambientais da escola Rural Municipal Pau Brasil, no município de Confresa- MT. A Agroecologia se apresenta como ciência que integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos ao estudar os impactos da agricultura nos sistemas agrícolas e na sociedade como um todo. Ela propõe a transição de modelos de produção agrícola convencional para modelos de produção agrícola sustentáveis. Procura-se com esta proposta apresentar novos significados para a educação do campo, propondo elaborar estratégias educacionais para uma nova política educacional para o campo. São entendidos por Temas Transversais, todos aqueles objetos de estudo de relevância social que perpassam pelas áreas do conhecimento estabelecido no currículo da escola. Palavras-chave: Educação do campo. Educação Ambiental. Agroecologia 2. CONCEITO DE AGROECOLOGIA. A Revolução Industrial, iniciada no século XIX, contribuiu para a formação do modelo de produção adotado atualmente. Pregava-se que através da ciência e do avanço tecnológico as sociedades poderiam alcançar a civilização, que se daria através das técnicas e das máquinas constituindo o progresso da humanidade. Isso acontece quando o homem se coloca como centro do universo e a sociedade se distancia da natureza, constituindo-se em uma ruptura na relação harmoniosa entre homem e natureza. Esta separação provocou a exploração desgovernada dos recursos naturais. Novos valores e atitudes foram estabelecidos 1. Licenciada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT. Especialista em Educação do Campo: Desenvolvimento e Sustentabilidade pelo IFMT e Mestranda em Educação Agrícola pelo Programa de Pós Graduação em Educação Agrícola da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Ocupa o cargo de Pedagogo/área no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso.

2 2 na relação homem/natureza. Assim, o ideal da produção agrícola parte da concepção de que a natureza deve ser dominada e seus recursos disponibilizados ao homem. A Agricultura convencional tem suas bases construídas sobre os princípios da Revolução Verde, movimento que começou nos países desenvolvidos após a Segunda Guerra Mundial e que chegou aos países latinos americanos após a metade do século XX. Movimento que partia do princípio de aumento da produção e da produtividade das atividades agrícolas. Com essa nova concepção de produção agrícola os agricultores foram abandonando as criações tradicionais e a rotação de culturas com leguminosas, substituindo os sistemas complexos de produção por sistemas simplificados e de monoculturas. Para o desenvolvimento dessa política várias técnicas agrícolas foram adotadas como o cultivo intensivo do solo, monocultura, aplicação de fertilizantes sintéticos, irrigação, controle químico de pragas e de ervas adventícias e manipulação de genomas de plantas. A prática da Agricultura Convencional coloca em risco os recursos do planeta, leva à degradação do solo, o desperdício e uso exagerado de água, a poluição do ambiente, dependência dos insumos externos, perda da diversidade genética, perda do controle local sobre a produção agrícola e desigualdade global. São muitas as maneiras pelas quais a agricultura convencional afeta a produtividade ecológica futura, os recursos naturais agrícolas como solo, água, diversidade genética são explorados demais e degradados; processos ecológicos globais, dos quais a agricultura essencialmente depende, são alterados; e as condições sociais que conduzem à conservação de recursos são enfraquecidos e desmantelados. (Gliessman, 2009) A partir desse desequilíbrio econômico, social, cultural e ambiental produzidos pela Agricultura Convencional, surgem novas experiências que vão buscar um novo modelo de produção sustentável. Ao se referir a esta nova ciência que tem como foco os agroecossistemas, Altieri (2009) assim a descreve:

3 3 Trata-se de uma nova abordagem que integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo. Ela utiliza os agroecossistemas como unidade de estudo, ultrapassando a visão unidimensional - genética, agronomia, edafologia incluindo dimensões ecológicas, sociais e culturais. Para Caporal e Costabeber (2004), A agroecologia é entendida como um enfoque científico destinado a apoiar a transição dos atuais modelos de desenvolvimento rural e de agricultura convencionais para estilos de desenvolvimento rural e de agriculturas sustentáveis. Como se pode perceber pelas citações acima, a agroecologia incorpora em suas informações conceituais fatores complexo através das dimensões socioculturais, econômicos, e ambientais. Assim, ela permite tanto a compreensão, análise e crítica do atual modelo do desenvolvimento de agricultura convencional, como também o redesenho de novas estratégias para o desenvolvimento rural e de estilos de agricultura sustentáveis. Segundo Gleissman(2009) um agroecossistema sustentável é:... O que mantém a base de recursos da qual depende, conta com um uso mínimo de insumos artificiais vindos de fora do sistema de produção agrícola, maneja pragas e doenças através de mecanismos reguladores internos e é capaz de se recuperar de perturbações causadas pelo manejo e colheita. Caporal e Costabeber (2006) refletindo sobre agroecologia como novo paradigma para o desenvolvimento rural sustentável destacam dois aspectos fundamentais para a educação e a comunicação: a nova ciência propõe uma prática educativa baseada em metodologias participativas que permitem a reconstrução histórica das trajetórias de vida e dos modos de

4 4 produção, assim como o desvendamento das relações das comunidades com o meio ambiente. Propõe uma avaliação da agricultura praticada na comunidade, dos impactos positivos e negativos, dos modelos dominantes e também de identificar o potencial endógeno das comunidades. O segundo refere-se a conhecer os saberes e os saberes próprios de um determinado sistema cultural, assim como o potencial que estes saberes podem ter como base para outros estilos de desenvolvimento rural e de agriculturas. A agroecologia como ciência busca a integração e a articulação de conhecimentos e saberes, num processo interdisciplinar interligando as diferentes áreas do conhecimento. A transição do modelo de Agricultura Convencional para o modelo Agroecológico refere-se a um processo de evolução contínua e crescente. Trata-se de um processo social por depender da intervenção humana, e não implica somente na busca de uma maior racionalização econômica-produtiva, com bases nas especificidades biofísicas de cada agroecossistema, mas também numa mudança nas atitudes e valores dos atores sociais em relação ao manejo e conservação dos recursos naturais. Caporal e Costabeber (2004). 3. METODOLOGIA: Além de revisão de literatura para a realização deste trabalho foram observados e coletados através de questionário as experiências da Escola Rural Municipal Pau Brasil do município de Confresa-MT, foi solicitado a professora do Ensino Fundamental desta escola que respondesse as seguintes questões: 1. Sua escola, sendo uma escola do campo tem projeto de Educação especial para Educação do Campo? 2. Você aborda em suas aulas conhecimentos e técnicas agroecológicas, visto que você trabalha com jovens e adolescentes filhos de trabalhadores rurais? Elenque as práticas desenvolvidas na sua escola. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO. As políticas adotadas atualmente pela educação nacional têm se constituídas em políticas educacionais urbanizadas e pouco valorizadoras da identidade dos trabalhadores rurais. A educação do campo pode promover a formação voltada para as necessidades da agricultura familiar ao privilegiar modelos de agricultura sustentáveis. Necessita ser desenhada de maneira participativa que integre escola, família e comunidade. Através da interligações dos

5 5 saberes, o aluno da educação do campo terão um conhecimento global da realidade, sendo capaz de lidar com as dificuldades, construindo novas bases tecnológicas que venham a garantir a construção de um projeto de produção agrícola baseado em um sistema ambientalmente correto. A educação, através de projetos inovadores, contextualizados, interdisciplinares, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de valores e atitudes ambientalmente sustentáveis, que se constrói ao percurso de interação, escola, família e comunidade. Ao ser questionada se a sua escola, sendo uma escola do campo tem projeto de educação especial para Educação do Campo, a professora respondeu que: É objetivo do Projeto Político Pedagógico da escola que durante a vida escolar os alunos sejam preparados para a vida de acordo com a realidade dele. A educação dos alunos do campo é pensada de forma que esses alunos aprendam a amar o campo e a viver do campo para que no término de seus estudos o aluno possa permanecer no campo utilizando conhecimentos adquiridos para a melhoria de sua vida e de sua família. E ainda, perguntada se aborda em suas aulas conhecimentos e técnicas agroecológicas, visto que trabalha com jovens e adolescentes filhos de trabalhadores rurais e para elencar as práticas desenvolvidas na escola a professora destacou: Trabalhamos na escola com projetos que orientam e propõe conhecimento para que nossos alunos possam utilizar em sua propriedade rural juntamente com sua família. Dentre esses projetos estão: horta na escola, a natureza pede socorro; APPs- Áreas de preservação Permanente; Reflorestamento do espaço escolar, Minha escola Verde, orientações de como cuidar do lixo... Os alunos participam das aulas práticas tanto no espaço escolar como em propriedades fora do espaço escolar. A escola trabalha com projetos de extensão, aproximando os alunos ao contexto local. Há um envolvimento da escola com os problemas da comunidade. O conhecimento científico desenvolvido na instituição é base para discussão e apresentação de solução para as questões ambientais da localidade. Em visita a escola foi possível observar que todo o insumo utilizado para a produção da horta é orgânico, os alunos utilizam garrafas de refrigerantes inutilizadas para a construção da estrutura dos canteiros.

6 6 A escola, presente na comunidade, poderá através de práticas agroecológicas propor uma reflexão e elaboração de estratégias para mudanças de hábitos e atitudes danosas ao meio ambiente. Ela é capaz de elaborar e transmitir conhecimentos e práticas que contribuam para a transição de ações de degradação ambiental para ações sustentáveis. A Agroecologia, como ciência propõe essa transição. Trás para a reflexão a necessidade de diminuir os insumos sintéticos e externos para insumos orgânicos e mais ecológicos, além de redesenhar um novo modelo de produção agrícola. A Agroecologia apresenta-se como oportuna na composição de um projeto de Educação do Campo na medida em que possibilita a elaboração e vivência do conceito de produção, o desenvolvimento de conhecimentos para a transição de métodos de produção que degradam o ambiente para métodos sustentáveis de produção. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A agroecologia, como tema transversal para a Educação do Campo, transcorre o contexto da comunidade escolar. Não constitui uma disciplina do currículo a mais a ser trabalhada obrigatoriamente no calendário escolar, mas se torna uma reflexão conceitual necessária para o desenvolvimento de novos valores e atitudes frente à produção agrícola. Por isso ela deve ser transversal, perpassando por todas as áreas do conhecimento. A construção de um Projeto de Educação do campo, não deve ser diferente de outros projetos de Educação em relação ao nível de conhecimento e desempenho, mas deve propor um projeto de educação do campo contextualizado com as práticas produtivas e culturais, que tenha como objetivo valorizar a identidade do Trabalhador Rural. 6. BIBLIOGRAFIA: ALTIERI, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. - 5ª Ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, Jose Antonio; Paulus, Gervásio. Agroecologia: Matriz disciplinar ou novo paradigma para o desenvolvimento rural sustentável. [online] ITCP- USP Disponível em < > acesso em 27/06/2011. GLIESSMAN, Stephen R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. - 4ª Ed. Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 2009.

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