GASTOS PÚBLICOS NOS CENTROS ESPECIALIZADOS EM ODONTOLOGIA SITUADOS EM FORTALEZA-CEARÁ Cleonice Moreira Cordeiro 1

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1 GASTOS PÚBLICOS NOS CENTROS ESPECIALIZADOS EM ODONTOLOGIA SITUADOS EM FORTALEZACEARÁ Cleonice Moreira Cordeiro 1 Introdução Vera Maria Câmara Coelho 2 O estudo analisou os gastos nos Centros Especializados em Odontologia da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESACe) situados em Fortaleza, no período de 2000 a A saúde bucal foi incluída no Programa de Saúde da Família em 2000, sendo definidos incentivos para implantação de Equipes de Saúde Bucal da Família (ESBF), através de portaria ministerial (1.444/2000). Em 2004, o Ministério da Saúde publicou documento de diretrizes para a área, lançado uma política nacional de Saúde Bucal, que, de acordo com o discurso oficial, passou a ser uma das prioridades de governo. O documento destacou a importância de expandir a cobertura das ações especializadas (média complexidade), através de incentivo financeiro para a implantação de Centros de Especialidades Odontológicas em todo país. Para cumprimento desta meta, foram publicadas portarias específicas sobre este assunto. No estado do Ceará, apesar de esforços para inclusão da saúde bucal na estratégia de saúde da família, somente após a aprovação de incentivo específico pelo Ministério da Saúde é que esta inserção aconteceu efetivamente. Na atenção especializada, a rede assistencial da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESACe) conta com três Centros Especializados em Odontologia (CEO s), situados em Fortaleza, custeados pelo governo do estado e por recursos federais. Com a política implementada pelo Governo Federal de incentivo à criação de Centros de Especialidades Odontológicas, alguns estabelecimentos estão sendo construídos, porém ainda uma capacidade limitada de oferta de serviços. No final da década de 1990, com a habilitação do município de Fortaleza na Gestão Plena do Sistema Municipal, os recursos federais passaram a ser transferidos do Fundo Nacional de Saúde FNS para o Fundo Municipal de Saúde FMS, sendo repassados para as Unidades através de convênio (recursos do Piso da Atenção Básica PAB). Concretamente, esta mudança na gestão do SUS no município, representou um momento de redefinição de papéis entre esfera municipal e estadual na prestação de serviços assistenciais e repactuação de ações. Neste contexto de mudanças nas políticas de financiamento e da reorganização na oferta de serviços dos Centros Especializados em Odontologia (CEO s), justificase avaliar como as políticas se refletem no cotidiano destas unidades, no caso específico da pesquisa, em seus gastos. O trabalho teve como objetivo geral analisar a influência do financiamento público na organização da atenção de média e alta complexidade em Saúde Bucal em Fortaleza, enfocando os CEO s, integrantes da rede assistencial própria da SESACe Desenho Metodológico Tratase de um estudo descritivo, do tipo análise documental, visando a análise dos gastos públicos em saúde bucal na atenção especializada. O período estudado foi de 2000 a 2003, considerado significativo por possibilitar a análise do comportamento destes gastos e a sua comparação em um período de mudanças nas políticas de financiamento do setor saúde, em especial, de saúde bucal. 1 Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2 Secretaria da Saúde do Estado do Ceará Endereço para contato:

2 Foram estudados documentos da Secretaria Estadual de Saúde do Ceará e portarias ministeriais, para verificar a mudança na lógica do financiamento no período estudado. Para estudar os gastos foram pesquisados orçamentos e balanços do Fundo Estadual de Saúde FUNDES (Custeio/investimento), com detalhamento segundo elementos de despesa e fonte de recursos; e da SESACe, no que se refere ao pagamento de pessoal. Na identificação institucional dos CEOs, foram utilizados documentos da SESACe como regulamento e organograma da Secretaria, Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), além do Plano Diretor de Regionalização (PDR) do Estado. Para definir o perfil real de oferta foram utilizados dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIASUS). A análise dos dados foi realizada através da comparação entre as informações obtidas durante a pesquisa documental. Foi possível confrontar, por exemplo, a identificação institucional dos CEO s com o perfil real de oferta de serviços, as políticas de financiamento com os gastos por nível de atenção e elementos de despesa, possibilitando assim uma análise mais aprofundada sobre o perfil de gastos dos CEO s e sua relação com as políticas de descentralização e de financiamento do Ceará e do Estado brasileiro. Resultados Observouse um discreto aumento, em números absolutos, no número total de procedimentos realizados por estas unidades no período estudado, com diminuição percentual da participação das ações básicas, apesar deste grupo de procedimentos continuar prevalecendo nas ações realizadas em todo o período. As ações especializadas demonstraram crescimento real no período estudado (Gráfico 01). Conforme o Gráfico 02, que mostra o perfil das ações especializadas por tipo de financiamento, foi observado que o perfil da assistência odontológica especializada nos CEO s apresentou tendência de concentração maior nos atendimentos voltados para o nível intermediário da média complexidade (ME 02). 01. Procedimentos realizados nos CEO s, por nível de complexidade. FortalezaCe. Período Nº de procedimentos Ações Básicas Ações Especializadas TOTAL Fonte: Dados Brutos SIA/SUS 2000, 2001, 2002, Procedimentos em Ações Especializadas realizados pelos CEO s, por tipo de Financiamento. FortalezaCe. Período 2000 a 2003 nº de procedimentos ano PABA ME01 ME02 ME03 Fonte: Dados Brutos SIA/SUS 2000, 2001, 2002, 2003.

3 Estudando os balanços do estado do Ceará, referentes aos CEO s, foi encontrado um acréscimo de 8,48% nos gastos, quando comparado o ano de 2000 em relação a A participação dos recursos do tesouro estadual nos gastos destas unidades foi superior a dos recursos federais em todo o período em estudo. Excluindo o ano 2002 da análise, podemos observar tendência de crescimento nos gastos estaduais e de decréscimo nos gastos federais. Em 2001 ocorreu uma pequena diminuição (0,96% em relação ao ano anterior) e um acentuado aumento no ano seguinte. O ano de 2002 foi considerado atípico no período estudado, pois, além de ter sido observado investimento federal em reformas nos CEO s, foi observado um gasto extraordinário do tesouro estadual referente a ajustes, com pagamento retroativo, nos salários dos servidores estaduais (Gráfico 03). 03. Gastos nos CEO s, por fonte de recursos. Período Valores a preços constantes de dez/2003 IGP.M. Fundação Getúlio Vargas em 1,00; Fonte: Dados Brutos Secretaria de Saúde do Estado do Ceará; Secretaria da Fazenda do Dentre as despesas correntes nos CEO s, a maior parcela está concentrada na rubrica de pessoal, representando entre 80 e 82% das despesas correntes no período estudado. Os gastos com material de consumo sofreram decréscimo considerável (39,44%), quando comparado o ano de 2003 em relação a 2000, em números absolutos; em termos de participação percentual, a exceção de 2002, existe uma tendência de queda neste elemento de despesa (Gráfico 04). 04. Gastos nos CEO s, por elemento de despesa. Período Tesouro estadual Recursos federais/sus Total Material de consumo Desp exercícios Obras e instalações Equip e mat perm Valores a preços constantes de dez/2003 IGP.M. Fundação Getúlio Vargas em 1,00; Fonte: Dados Brutos Secretaria de Saúde do Estado do Ceará; Secretaria da Fazenda do A maior concentração de gastos do Tesouro Estadual referese a despesas correntes, e dentre estas, as despesas com pessoal representam o maior peso, seguindo a tendência do gasto global. Em 2002, o material de consumo das unidades passou a ser financiado também por esta fonte de recursos, cabe lembrar que mesmo com a participação destes recursos, em

4 maior escala em 2003, este elemento de despesa mantevese abaixo dos níveis. Apenas em 2001 são registradas despesas de capital relativas ao Tesouro do Estado, como aquisição de equipamentos e material permanente, representando 2,28% do gasto (Gráfico 05). 05. Gastos tesouro Estadual nos CEO s de Fortaleza, por elemento de despesa. Período Material de consumo Desp exercícios Equip e mat permanente Valores a preços constantes de dez/2003 IGP.M. Fundação Getúlio Vargas em 1,00; Fonte: Dados Brutos Secretaria de Saúde do Estado do Ceará; Secretaria da Fazenda do Os gastos federais apresentaram decréscimo de 58,72% comparando os dados de 2003 com os de Apesar desta queda, em 2002 constatouse importante investimento em obras, instalações, equipamentos e material permanente para os CEO s financiados com recursos federais. 06. Gastos federais totais nos CEO s de Fortaleza, por elemento de despesa. Período Material de consumo Desp de exerc Obras e instalações Equip e mat perm Valores a preços constantes de dez/2003 IGP.M. Fundação Getúlio Vargas em 1,00; Fonte: Dados Brutos Secretaria de Saúde do Estado do Ceará; Secretaria da Fazenda do 07. Gastos com recursos federais nos CEO s, por nível de complexidade. FortalezaCe. Período Ações Básicas Total Ações Especializadas

5 Valores a preços constantes de dez/2003 IGP.M. Fundação Getúlio Vargas em 1,00; Fonte: Dados Brutos Secretaria de Saúde do Estado do Ceará; Secretaria da Fazenda do Conclusão Como conclusão, foi identificada uma indução na oferta de serviços a partir de incentivos específicos do Ministério da Saúde no que se refere à atenção básica. No caso de ações especializadas, apesar do perfil institucional dos estabelecimentos estudados, a falta de uma política clara de financiamento destas ações, até 2003, se concretizou em uma oferta real de serviços diferente do esperado em uma unidade especializada, o que é constatado também na análise das despesas realizadas com recursos federais no período estudado. Esta pesquisa justifica a necessidade de fortalecimento de uma Política Nacional de Saúde Bucal capaz de garantir financiamento para as ações especializadas em odontologia, passo fundamental na garantia do acesso. Recomendase o desenvolvimento de estudos sobre o impacto da mudança no perfil da oferta de serviços dos CEO s, no que se refere ao atendimento das demandas dos usuários na atenção básica na rede municipal. Referências Bibliográficas BRASIL. Portaria de 29 de dezembro de Estabelece incentivo financeiro para reorganização da atenção à saúde bucal... Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília, n. 250, p. 85, 29 dez Seção 1E.. Ministério da Saúde; Secretaria de Atenção à Saúde; Departamento de Atenção Básica: Coordenação Nacional de Saúde Bucal. Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal. Brasília: Ministério da Saúde, 2004a. CEARÁ, Secretaria da Saúde do Estado. Diretrizes de reorganização da atenção e dos serviços do Sistema Único de Saúde do Estado do Ceará. Fortaleza, 1998.

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