o Setor Externoe a Determinação da Taxa de Câmbio 1 o BALANÇODE PAGAMENTOS A partir do momento em que um país começa a comercializar com outros, surge a necessidade de se estabelecer um controle sobre o fluxo de pagamentos e recebimentos provenientes das relações comerciais internacionais. Para efetuar esse controle, existe o Balanço de Pagamentos (BP), que é o registro contábil de todas as transações, ocorridas em certo período de tempo, entre residentes e não residentes de um país. A contabilidade dessas transações segue o método das partidas dobradas, segundo o qual para cada lançamento a débito corresponde um lançamento a crédito e vice-versa. A entrada de divisas (moedas estrangeiras) é assinalada com sinal positivo, e a saída, com sinal negativo. Os lançamentos são uniformizados em uma só moeda, geralmente, o dólar norte-americano, por sua aceitação internacional. 1.1 Estruturageral do Balanço de Pagamentos O Balanço de Pagamentos é composto de duas grandes contas: as Transações Correntes e o Movimento de Capitais. O Movimento de Capitais Compensatórios é apenas um artifício contábil usado para "zerar" o Balanço de Pagamentos, satisfazendo a metodologia das partidas dobradas.
234 Miero e Maeroeeonomia. Montella A estrutura geral do BPpode ser vista na Figura 1. FIGURA1 ESTRUTURA GERAL DO BALANÇO DE PAGAMENTOS TRANSAÇÕESCORRENTES 1 Balança Comercial Exportações (FOB) Importações (FOB) 2 Balança de Serviços Viagens internacionais Transportes Seguros Juros Serviços governamentais Serviços diversos 3 Transferências Unilaterais 4 Saldo do Balanço de Pagamentos em Transações Correntes (1 + 2 + 3) MOVIMENTOS DE CAPITAIS 5 Movimento de capitais autônomos Investimentos Financiamentos Amortizações Empréstimos a médio e longo prazos Empréstimos a curto prazo Outros capitais 6 Erros e omissões 7 Saldo total do Balanço de Pagamentos (4 + 5 + 6) DEMONSTRATIVODE RESULTADOS 8 Movimento de Capitais Compensatórios Haveres e obrigações no exterior Empréstimos de regularização Atrasados
1.2 Detalhamento das contas do balanço de pagamentos 1 Balança Comercial Na BalançaComercialsão registradas as exportações e as importações de mercadorias. Asprimeiras são lançadas com sinal positivo, representando entrada de divisas, e as segundas, com sinal negativo, demonstrando saída de divisas. Astransações de mercadorias podem ser feitas sob três condições: FOB,C&Fe CIEA condição FOB(FreeOnBoard) significaque,umaveza bordodoveículoque transportará a mercadoria até o país de destino, o vendedor não tem mais nenhuma responsabilidade sobre ela. As despesas com seguro e frete correm por parte do comprador. A condição C&F (Cost & Freight) significa que, ao preço acordado, estão incluídos o valor da mercadoria e o valor do frete. Finalmente, a condição CIF (Cost,Insurance & Freight) indica que, ao preço acordado, estão incluídos o valor da mercadoria, o valor do frete e o valor do seguro. Como o frete e o seguro são serviços, seus valores devem ser computados na Balança de Serviços, registrando-se, na Balança Comercial, apenas o custo da mercadoria, quer dizer, seu valor FOB. 2 Balança de Serviços Na Balançade Serviçossão registrados os pagamentos e os recebimentos relativosàs transações de bens intangíveis.ospagamentos, por representarem saída de divisas, são lançados com sinal negativo, e os recebimentos, com sinal positivo. Incluem-se na Balança de Serviços: as viagens internacionais, os transportes e os seguros; os serviçosgovernamentais, que dizem respeito à representação do país no exterior, como as embaixadas e os consulados; a remuneração dos serviçosdos fatores de produção, ou seja, a remessa ou recebimento de juros1 e lucros (pelo uso do fator capital), a remessa ou recebimento de salários (relativos ao fator trabalho) e a remessa ou recebimento de aluguéis (pelo uso da terra); e os serviços diversos, que incluem pagamentos e recebimentos de royalties, de aluguéis de filmes etc.
3 Transferências Unilaterais Ao contrário das rubricas anteriores, as Transferências Unilaterais não estão relacionadas à compra e venda de bens e serviços. Elas dizem respeito à entrada e à saída de divisas decorrentes de doações, da manutenção de estudantes no exterior e afins. 3) 4 Saldo do Balanço de Pagamentos em Transações Correntes (1 + 2 + o saldo do BP em Transações Correntes corresponde à soma dos saldos da Balança Comercial, da Balança de Serviçose das Transferências Unilaterais. Seu resultado é interpretado da seguinte maneira: saldo negativosignificaque o país de que se trata comproumaisdo que vendeu ao exterior. O Resto do Mundo, então, está com a poupança positiva e pode emprestar ao país que apresentou déficit em Transações Correntes; saldopositivo significa que o país de que se trata vendeu mais do que comprou do exterior, deixando-o com a poupança negativa. A poupança externa positiva (saldo negativo em Transações Correntes) é chamada de Passivo Externo Líquido, mostrando que, havendo poupança e, consequentemente, empréstimo estrangeiros, aumentam as obrigações financeiras do país com o Resto do Mundo. Analogamente, a poupança externa negativa (saldo positivo em Transações Correntes) é chamada Ativo Externo Líquido. 5 Movimento de Capitais Autônomos No Movimento de capitais autônomos são registradas as entradas e saídas de divisas relativas a empréstimos, financiamentos, investimentos e amortizações da dívida. Os empréstimos e financiamentos são também chamados capitais de empréstimo e devem ser devolvidostão logo expire a data de vencimento. Os investimentos, se estiverem relacionados à instalação de firmas estrangeiras no país ou à instalação de firmas nacionais no exterior,são chamados de investimentosdiretos; e se estiverem relacionados a capitais especulativos transacionados nas Bolsasde Valores, são chamados capitais de risco. Em suma, um país recebe divisas e as registra no Movimento de Capitais Autônomos com sinal positivo quando: toma empréstimos ou financiamentos no exterior; recebe investimentos diretos; recebe capitais de risco;
recebe amortizações (pagamentos) de empréstimos que tenham sido concedidos a outros países do mundo. Analogamente, esse país gasta divisas e as registra no Movimento de Capitais Autônomos com sinal negativo quando: concede empréstimos ou financiamentos ao exterior; realiza investimentos diretos no exterior; realiza investimentos de risco no exterior; paga empréstimos ou financiamentos ao Resto do Mundo. 6 Erros e omissões Essa rubrica existe para "acertar" as diferenças nos valores das mercadorias e serviços, a cargo do Departamento de Comércio Exterior (DECEX),e nos valores de caixa, a cargo do Banco Central. Admite-se um valor de no máximo 5% da soma das exportações com as importações. 7 Saldo total do Balanço de Pagamentos (4 + 5 + 6) O saldo total do Balanço de Pagamentos corresponde à soma do saldo em Transações Correntes, do saldo do Movimento de Capitais Autônomo e da rubrica erros e omissões. Seu resultado é interpretado da seguinte maneira: o saldo negativocorresponde a um déficit no BP, e significaque, naquele período de tempo, saíram mais divisas do que entraram; o saldo positivo corresponde a um superávit no BP, e significa que, naquele exercício, entraram mais divisas do que saíram. 8 Movimento de Capitais Compensatórios (- 7) Também chamado de Demonstrativode Resultados,o Movimento de Capitais Compensatórios indica qual o destino das divisas caso o Balanço de Pagamentos seja superavitário, e qual a origem dos recursos que neutralizam o déficit caso o resultado seja deficitário. AsAutoridades Monetárias, que administram o Movimento de Capitais Compensatórios, dispõem de três instrumentos para compensar o saldo do Balançode Pagamentos. São eles:
Reservasde caixa:que são haveresna formade divisasestrangeiras,títulos externos, ouro monetário e Direitos Especiais de Saque (moeda fiduciária criada pelo FMI); Empréstimosde regularização:que são empréstimos tomados junto ao FMIpara honrar os compromissos financeiros internacionais; e Atrasados:que é um mecanismo contábil usado quando o país não paga um débito no prazo. Nesse caso, debita-se em "Amortizações"e creditase nesta conta. Assim, no caso de um resultado negativo no Bp,as autoridades monetárias podem compensá-io: queimando reservas diversas; vendendo ouro monetário; vendendo títulos externos; fazendo pedidos de empréstimo junto ao FMI; e lançando contas que não foram pagas na rubrica "atrasados", com sinal positivo. No caso de um saldo positivo no Bp,o excesso de divisas pode ser endereçado: ao aumento das reservas; à compra de ouro monetário; à compra de títulos externos; ao pagamento de contas que estavam creditadas em "atrasados". Note que os pagamentos de empréstimos tomados junto ao FMIsão lançados em amortizações, como qualquer outro pagamento de empréstimo ou financiamento. O detalhamento das contas do Balanço de Pagamentos aparece resumido na Figura 2, a seguir.
FIGURA 2 DETALHAMENTODAS CONTASDO BALANÇODE PAGAMENTOS TRANSAÇÕESCORRENTES 1 Balança Comercial Exportações(FOB)- crédito Importações (FOB)- débito 2 Balança de Serviços - pode apresentar tanto débitos como créditos Viagens internacionais - turismo Transportes - fretes Seguros Serviçosda dívida- juros Serviçosgovernamentais - embaixadas, consulados, representações no exterior Serviçosdiversos -lucros, royalties, assistência técnica 3 Transferências Unilaterais - doações de mercadorias ou doações monetárias 4 Saldo do Balanço de Pagamentos em Transações Correntes (1 + 2 + 3) Saldo negativo: poupança externa positiva - Passivo Externo Líquido Saldo positivo: poupança externa negativa - Ativo Externo Líquido MOVIMENTOSDECAPITAIS 5 Movimento de capitais autonômos Investimentos - instalação de firmas estrangeiras no país Financiamentos Empréstimos a curto prazo Empréstimos a médio e longo prazos Amortizações - amortizações de empréstimos e financiamentos Outros capitais - capitais especulativos, de curto prazo, aplicados no mercado financeiro 6 Erros e omissões - diferença nas fontes de informação entre os itens de mercadorias e serviços, a cargo do Departamento de Comércio Exterior(DECEX),e de caixa, a cargo do Banco Central. 7 Saldo total do Balanço de Pagamentos (4 + 5 + 6) Saldo negativo: déficit (saírammais divisas do que entraram) Saldo positivo: superávit (entraram mais divisas do que saíram) DEMONSTRATIVODERESULTADOS - ou FINANCIAMENTODO RESULTADO 8 Movimento de Capitais Compensatórios (- 7) - é igual ao saldo do Balanço de Pagamentos, com sinal trocado. Reservasde caixa- divisas, títulos externos, ouro monetário e DES Empréstimos de regularização - empréstimos junto ao FMIpara honrar os compromissos financeiros internacionais. Atrasados - quando o país não paga um débito no prazo, debita-se em "Amortizações" e credita-se nesta conta.
2 A TAXADE CÂMBIOE O MERCADODE DMSAS Se dois países que possuem moedas diferentes transacionam entre si, é necessário descobrir uma proporção de valor entre as suas moedas. Essa proporção ou paridade entre diferentes moedas é denominada "taxa de câmbio" e é determinada no mercado de divisas (moedas estrangeiras). 2.1 O conceito de taxa de câmbio A taxa de câmbio, que relaciona o valor de duas moedas diferentes, pode ser expressa pela convenção do certo ou pela convenção do incerto. A convençãodo certo, adotada nos EstadosUnidose na Inglaterra, consisteem cotar a moeda nacional em moeda estrangeira. A convenção do incerto, adotada nos demais países, consiste em cotar a moeda estrangeira em moeda nacional. Por isso falamos, no Brasil, que: US$ 1,00 (moeda norte-americana) = R$ 3,45 (moeda nacional) e não R$ 1,00 (moeda nacional) = US$ 0,290 (moeda norte-americana) muito embora os valores sejam os mesmos. Por questões didáticas, a partir de agora, só usaremos a convenção do incerto e iremos nos referir à moeda estrangeira como divisa ou dólar americano. Antes de prosseguir, vale registrar uma situação que muitas vezes nos engana quando usamos a convenção do incerto: uma taxa de câmbio alta (e1) significa que o preço da divisa está alto e que a moeda nacional está desvalorizada, ao passo que uma taxa de câmbio baixa (ez) implica preço da divisa baixo e moeda nacional valorizada, como ilustra a Figura 3. FIGURA3 MOVIMENTO DA TAXA DE CÂMBIO PELA CONVENÇÃO DO INCERTO R$ 3,00 =e US$1,00 1 R$ 1,1 O =e US$ 1,00 2 taxade câmbioalta moeda nacional desvalorizada câmbio desvalorizado taxa de câmbiobaixa moeda nacional valorizada câmbio valorizado
No regime de taxas de câmbio fixas, que veremos mais adiante, um aumento no preço da divisa recebe o nome de "desvalorização cambial" e uma diminuição no preço da moeda estrangeira denomina-se "valorização cambial". No regime de taxas de câmbio flutuantes, um aumento no preço da divisa recebe o nome de "depreciação cambial" e uma diminuição no preço da moeda estrangeira, "apreciação cambial". No Brasil, devido ao longo período de tempo em que reinou o regime de câmbio fixo, as pessoas continuam falando "desvalorização" e "valorização" cambial. Usaremos as duas formas indiscriminadamente. 2.2 O mercado de divisas o mercado de divisas é a interação entre a oferta e a demanda de divisas. Mas, de onde vêm essa oferta e essa demanda? A resposta é: das transações que constam no Balanço de Pagamentos. Vejamosa Figura 4. FIGURA 4 o MOVIMENTODE MERCADORIASE SERVIÇOSE A CONTRAPARTIDA EM MOEDA NACIONALE DMSAS ESTRANGEIRAS BRASil RESTO DO MUNDO I IMPORTADORESr mercadorias e serviços EXPORTADORESe IMPORTADORES do Resto do Mundo R$ R$ moeda: local i I I i moeda I local -+ BANCO CENTRAL e CASASDECÂMBIO do Brasil BANCO CENTRAL e CASAS DE CÂMBIO do Resto do Mundo... t I i divisas i I1 R$ I A Figura 4 mostra o seguinte: Quando os importadores brasileiros compram mercadorias e serviços do Resto do Mundo eles devem efetuar o pagamento na moeda do país com quem se
transacionou. Mas os importadores brasileiros não têm moedas estrangeiras. Eles têm reais. Para converter esses reais em divisas, os importadores devem entregar a moeda nacional em alguma casa de câmbio e trocá-ia, pela cotação do dia, por divisas. Essa troca de moeda nacional por divisas é o mesmo que demandar divisas. Essasdivisas seguem para o país de onde saíram as mercadorias e os serviços importados, selando a transação. Por outro lado, quando exportadores brasileiros vendem mercadorias e serviços para o Resto do Mundo, eles recebem divisas como pagamento. Como não se pode transacionar com moeda estrangeira dentro do Brasil, os exportadores deverão ir às casas de câmbio e trocar as divisas que receberam por reais. Essatroca é feita pela cotação do dia e é o mesmo que ofertar divisas. Em suma, importar é demandar divisas e exportar é ofertar divisas. Por extensão, todo movimento de saída de divisas do país implicará a demanda por divisas e todo movimento de entrada, a oferta de divisas. Vejamospor partes. 2.2.1 A demanda por divisas A demanda por divisas depende, portanto: 1. do volume de importações, uma vez que os importadores necessitam de moeda estrangeira para pagar sua compras realizadas no exterior; e 2. da saída de capitais, sob a forma de amortizações de empréstimos, pagamentos de juros etc., que também precisam ser trocados por moeda estrangeira. Observe o exemplo a seguir: TAXADE CÂMBIO PREÇODO BEM Y PREÇODO BEM Y (R$/US$) em US$ em R$ TAXADE CÂMBIO ALTA TAXADE CÂMBIO BAIXA 3,00 30,00 90,00 1,10 30,00 33,00 Pelo exemplo anterior, se os pagamentos das mercadorias importadas ou dos juros e dos empréstimos forem efetuados com a taxa de câmbio mais alta (com a moeda nacional desvalorizada), o número de reais trocados por dólares vai ser
maior do que se a taxa de câmbio estiver mais baixa (ou, o que é o mesmo, se a moeda nacional estiver valorizada). Então, a taxa de câmbio alta (e1) desestimula as importações e as demais saídas de capital, ao passo que a taxa de câmbio baixa (e2) as estimula. Em outras palavras, quanto mais alta a taxa de câmbio, menor será a quantidade demandada de divisas; e quanto mais baixa a taxa de câmbio, maior a quantidade demandada de divisas. Graficamente, e GRÁFICO 1 A DEMANDAPOR DMSAS e, D o q, qdivisas 2.2.2 A oferta de divisas A oferta de divisas depende, por sua vez: 1. do volume de exportações, uma vez que as moedas recebidas pelas vendas externas têm de ser trocadas por moeda nacional; e 2. da entrada de capitais, que também precisam ser trocados por moeda nacional. Observe o exemplo a seguir:
TAXA DE CÂMBIO PREÇODO BEM x PREÇODO BEM x (R$/US$) em US$ em R$ TAXA DE CÂMBIO ALTA TAXA DE CÂMBIO BAIXA 3,00 1,10 50,00 150,00 50,00 55,00 Pelo exemplo anterior, se as mercadorias e os serviços forem exportados com a taxa de câmbio mais alta, isto é, com a moeda nacional desvalorizada, o número de reais recebido será maior do que se a taxa de câmbio estiver mais baixa ou, o que é o mesmo, se a moeda nacional estiver valorizada. Logo, a taxa de câmbio alta (e1) estimula as exportações e as demais entradas de capital, ao passo que a taxa de câmbio baixa (e2) as desestimula. Dito de outra forma, quanto mais alta a taxa de câmbio, maior será a quantidade ofertada de divisas; e quanto mais baixa a taxa de câmbio, menor será a quantidade ofertada de divisas. Graficamente, e GRÁFICO2 A OFERTADE DMSAS s e, O q, qdivisas
2.2.3 O equilíbrio no mercado de divisas Já vimos, quando tratamos especificamente do Balanço de Pagamentos, que quando o seu saldo total é superavitário é porque entraram mais divisas no país do que saíram; quando seu saldo é deficitário é porque saíram mais divisas do que entraram; e quando seu saldo é nulo é porque entraram tantas divisas quantas saíram. A correspondência entre os saldos do BPe as respectivas situações no mercado de divisas pode ser acompanhada pelo Gráfico 3. GRÁFICO3 e EQUILÍBRIONO MERCADODE DMSAS S (ENTRADA DE DIVISAS: X e entrada de k) e, D (SAíDA DE DIVISAS: M e saída de k) o q, qdivisas LEGENDA: Em 1: excedente de divisas ~ superávit no BP Em 2: escassez de divisas ~ déficit no BP Em E: equilíbrio no BP (saldo = O) Quando as curvas de oferta e demanda se interceptam, o mercado de divisas está em equilíbrio e o saldo do Balanço de Pagamentos é igual a zero. Quando o preço da divisa (ou taxa de câmbio) está acima do preço de equilíbrio de mercado (e1 > eo)' está havendo um excedente de moeda estrangeira, proveniente de um superávit no Balanço de Pagamentos. Por outro lado, uma taxa de câmbio abaixo da taxa de câmbio de equilíbrio (e2 < eo) mostra que está havendo uma escassez de divisas no mercado, proveniente de um déficit no Balanço de Pagamentos.
2.3 As taxas de câmbio fixas e as taxas de câmbio flutuantes No Brasil, até fevereiro de 1990, o Banco Central controlava a taxa de câmbio através da compra e venda de dólares, conforme o mercado apresentasse excesso ou escassez de divisas, respectivamente. Essa forma de tratar a questão do câmbio é chamada "regime de câmbio fixo (ou ajustável)". A partir de então, com a implementação do Plano Collor I, o país adotou o "regime de taxas de câmbio flutuantes (flexíveis ou livres)", que são determinadas pelo mercado de divisas, sem a intervenção do governo. 2.3.1 O regime de taxas de câmbio flutuantes No caso em que prevalecem as taxas de câmbio flutuantes, é preciso perceber que a tendência do saldo do Balanço de Pagamentos é caminhar para zero. O procedimento para tanto é o seguinte: suponha que exista um superávit (posição 1 do Gráfico 4). Com o excesso de divisas, a moeda nacional vai se valorizar (e1 vai caindo para eo)' reduzindo o saldo do Balanço de Pagamentos e eliminando o excesso de divisas. Suponha, agora, que exista um déficit (posição 2 do gráfico). Com a falta de divisas, a moeda nacional vai se desvalorizar (ez vai subindo para eo)' aumentando a entrada e reduzindo a saída de divisas até que não exista mais falta de divisas. Com o regime de taxas flutuantes (ou livres), portanto, existe um ajuste automático no mercado de câmbio, como mostra o Gráfico 4.
GRÁFICO 4 e TAXAS DE CÂMBIO FLUTUANTES S (ENTRADADEDIVISAS:X e entrada de k) D (SAíDA DEDIVISAS:M e saída de k) o q, qdivisas LEGENDA: Em 1: excedente de divisas ~ o excesso de divisas faz o preço da divisa (e) cair, restaurando, automaticamente, o equilíbrio no mercado de divisas, e, consequentemente, no BP. Em 2: escassez de divisas ~ a escassez de divisas faz o preço da divisa (e) subir, restaurando, automaticamente, o equilíbrio no mercado de divisas, e, consequentemente, no BP. Em E: equilíbrio no BP (saldo = O). 2.3.2 O regime de taxas de câmbio fixas Antes de tudo, vale ressaltar que o nome "fixa" nada tem a ver com a ideia de "imóvel". Na verdade, "fixa"vem de fixada pelo governo, na figura do Banco Central. A taxa fixada pelo governo não coincide com a taxa de câmbio que vigoraria se o mercado estivesse funcionando livremente. Com isso, pode-se ficar longos períodos com excesso ou com falta de divisas, dependendo da política adotada. Se o objetivo do governo for o de manter a taxa de câmbio alta (como o nível e1 do Gráfico 5), o Banco Central deverá intervir sistematicamente no mercado de câmbio para comprar divisas.fazendo isso, o governo diminui a quantidade de divisas no mercado, mantendo seu preço em alta. Essa compra de divisas, entretanto, gera um aumento de moeda nacional na economia, o que pode estimular a inflação. Para evitar isso, o governo vende títulos públicos, reduzindo novamente
a oferta de moeda nacional. Essa operação é chamada "esterilização" e está representada na Figura 5. FIGURA 5 ETAPAS DA ESTERILIZAÇÃO (1 ) HÁ UM EXCESSO DE DIVISAS (2) GOVERNO COMPRA DIVISAS E PAGA EM MOEDA NACIONAL (3) HÁ UM AUMENTO DE MOEDA NACIONAL EM CIRCULAÇÃO GOVERNO (4) VENDE TíTULOS PARA ENXUGAR A ECONOMIA (5) DIMINUI A QUANTIDADE DE MOEDA NACIONAL EM CIRCULAÇÃO Observeque o enxugamento da economia é um processoque começa na etapa (4) da Figura 5, ao passo que a esterilização da economia começa na etapa (2). Logo, todo processo de esterilização compreende um enxugamento. Ainda quanto ao regime de câmbio ajustável (ou fixo), se o objetivo do governo for o de manter a taxa de câmbio abaixo da taxa de câmbio de equilíbrio (como o nível ez do Gráfico 5), o Banco Central terá que vender continuamente divisas no mercado de câmbio. Comessa venda, o governo aumenta a quantidade de divisas no mercado, evitando a desvalorização da moeda nacional e a consequente elevação do preço da divisa. O alcance desta última política é do tamanho das reservas internacionais, que, por sua vez, têm origem nos superávits do Balanço de Pagamentos.
GRÁFICO 5 TAXAS DE CÂMBIO FIXAS e COMPRA DE DIVISAS 5 o [2] " D VENDA DE DIVISAS q2 q, qdivisas LEGENDA: Em 1: excedente de divisas ~ o excesso de divisas faz o preço da divisa (e) cair. Para que isso NÃO aconteça, o governo intervém no mercado comprando divisas. Em 2: escassez de divisas ~ a escassez de divisas faz o preço da divisa (e) subir. Para que isso NÃO aconteça, o governo intervém no mercado, vendendo divisas. Em E: equilíbrio no BP (saldo = O) Para concluir o caso das taxas de câmbio fixas, podemos dizer que: (1) se a operação de compra de dólares não estiver sendo suficiente para suprir o excesso de divisas, o governo poderá impor restrições à entrada de mais divisas através, por exemplo, de controles à entrada de capitais especulativos de curto prazo na Bolsa de Valores; e (2) se o volume de reservas internacionais não for suficiente para cobrir a falta de divisas, o governo poderá tomar medidas recessivas, como as restrições quantitativas às importações e/ou o aumento da taxa de juros para evitar a saída de capital e, consequentemente, de divisas. 2.3.3 Vantagens e desvantagens de cada regime cambial A principal vantagem do regime de taxas de câmbio fixas é a segurança que ele proporciona aos agentes econômicos,facilitando as transações internacionais. Sua maior desvantagem é o ônus que recai sobre o BancoCentral, por ter que assegurar a estabilidade proposta por esse sistema. No que se refere ao câmbio flutuante, sua maior vantagem é ajustar-se automaticamente, desonerando o BancoCentral dessa incumbência. Em compensação,
o câmbio flutuante tem como desvantagem estar condicionado à movimentação especulativa dos capitais externos, que são, por natureza, muito voláteis. Atualmente, o regime cambial adotado na maioria dos países é o chamado "dirtyfloating" (flutuação suja). Nesse tipo de regime, a taxa de câmbio flutua dentro de um intervalo com limites máximos e mínimos, também chamados bandas. Se a taxa se aproxima do limite máximo, o Banco Central entra no mercado vendendo divisas. Isso aumenta a oferta de divisas e diminui a taxa de câmbio. Caso a taxa de câmbio se aproxime do limite mínimo, o Banco Central entra no mercado comprando divisas, que diminui a sua oferta e aumenta o seu preço (a taxa de câmbio). Em suma, no regime misto, a taxa de câmbio flutua, mas de forma monitorada, como ilustra o Gráfico 6. e GRÁFICO 6 DIRTY FLOATING- O REGIME CAMBIALMISTO s e, D o q, qdivisas 3 OUTRAS QUESTÕES RELACIONADASAO SETOR EXTERNO 3.1 As variações cambiais e a inflação As mudanças no câmbio são sentidas tanto através da valorização quanto da desvalorização cambial, sendo que a valorização cambial ou diminuição da taxa de câmbio (nível e2do Gráfico 5) tende a diminuir a inflação, ao passo que a desvalorização cambial ou aumento da taxa de câmbio (nível e1)tende a aumentá-ia.
3.1.1 A valorização cambial e a inflação Todas as vezes que ocorre uma valorização cambial, as consequências são: a moeda nacional fica mais forte; o preço da divisa (ou taxa de câmbio) cai; os produtos importados ficam mais baratos; os similares nacionais ficam mais baratos; os insumos importados ficam mais baratos; os produtos exportáveis ficam mais baratos; a dívida externa em moeda nacional fica menor; e a inflação tende a cair. Como mostra o nível ez do Gráfico 5, quando há uma valorização cambial, a moeda nacionalfica maisforte e, em consequência, a taxa de câmbio (que é a relação entre moeda nacional e moeda estrangeira) cai. Isso significa dizer que o preçoda divisa (que é a taxa de câmbio) diminui. Segue-se, então, que osprodutos importados tornam-se mais baratos;não porque seus preços diminuem, mas porque na hora da conversão serão necessárias menos unidades de moeda nacional para trocar pela mesma quantidade de moeda estrangeira. O reflexo disso é ter os similaresnacionaismais baratos;afinal, se os produtores nacionais não baixarem o preço de suas mercadorias, os consumidores acabarão comprando mercadorias importadas, deixando que as nacionais encalhem. Por extensão aos produtos importados, os insumos importadostambémficam mais baratos. Portanto, os produtos nacionais que utilizam tais insumos têm seu custo e, em consequência, seu preço reduzido. Além disso, osprodutos exportáveisficam mais baratos,afinal, na hora da conversão, os exportadores receberão menos unidades de moeda nacional por dólar exportado. Por esse motivo, os exportadores preferem vender seus produtos no mercado interno, mas sabem que se os seus preços estiverem acima dos preços dos produtos estrangeiros não conseguirão escoar seus estoques. Daí o fato de seus produtos ficarem mais baratos tanto para consumo externo quanto para o consumo interno. Comtudo isso, o resultado só pode ser o de calmaria nos preços dos insumos, dos produtos e, por extensão, do Nível Geral de Preços, que significa dizer queda na inflação.
3.1.2 A desvalorização cambial e a inflação Por analogia ao caso anterior, todas as vezes em que ocorre uma desvalorização cambial, as consequências são: a moeda nacional fica mais fraca; o preço da divisa (ou taxa de câmbio) sobe; os produtos importados ficam mais caros; os similares nacionais ficam mais caros; os insumos importados ficam mais caros; os produtos exportáveis ficam mais caros; a dívida externa em moeda nacional fica maior; e a inflação tende a subir. Comomostra o nível e1do Gráfico5, quando há uma desvalorização cambial, a moeda nacionalfica maisfraca e, consequentemente, a taxa de câmbio (moeda nacional/moeda estrangeira) sobe. Isso significa dizer que o preço da divisa (que é a taxa de câmbio) aumenta. Em consequência, os produtos importados tomamse mais caros;afinal, na hora da conversão de real para dólar serão necessárias mais unidades de moeda nacional para trocar pela mesma quantidade de moeda estrangeira. Sabendo disso, os produtores nacionais que vendem para o mercado interno, sem temer a concorrência com os produtos importados, acabam vendendo suas mercadorias por preços mais altos do que se a moeda nacional estivesse valorizada. Logo, os similares nacionaisficam mais caros.além disso, os insumos importados, que tambémficam mais caroscom a desvalorização,contribuem para aumentar o custo e o preço daqueles bens que os utilizam na produção. Nomesmo sentido dos produtos e dos insumos importados, os produtos exportáveistambém ficam mais caroscom a moeda desvalorizada, pois, na hora da conversão, os exportadores recebem mais unidades de moeda nacional por dólar exportado. Por esse motivo, os exportadores preferem vender seus produtos no mercado externo a vendê-ios internamente. Comtudo isso, o resultado é o aumento do NívelGeral de Preços, que significa dizer aumento na inflação. o controle da inflação via ajustes na taxa de câmbio é denominado âncora cambial. 3.2 A internacionalização da economia o mundo está se integrando a uma velocidade muito elevada. As razões para essa integraçãoestão nas melhoriastecnológicas(tanto de comunicaçãoquan-
to de transporte), nos avanços políticos (como o fim da Guerra-Fria) e na maior compreensão das vantagens da abertura econômica dos países. A consequência imediata desse movimento de integração é o crescimento dos fluxos comerciais e financeiros internacionais. Os fluxos comerciais são determinados pelo grau de abertura de uma economia. Seu valor - medido pela soma das importações mais as exportações dividida pelo PIB- tem aumentado em quase todos os países. Em alguns países, a soma das importações e das exportações já é superior ao próprio PIB,como em Cingapura, onde o grau de abertura da economia atingiu, em 1994, o valor 5. No Brasil, nesse mesmo ano, o grau de abertura foi de 0,2. Os fluxos financeiros, por sua vez, são afetados por expectativas e por políticas cambiais e monetárias das diferentes economias. Quando a taxa de juros de um país for superior às taxas de juros de outros países, pode-se esperar um fluxo positivo de recursos em direção ao país com a taxa de juros mais elevada. Um dos problemas que desencadearam a crise mexicana (em dezembro de 1994), a crise asiática (emjulho de 1997), a crise russa (em setembro de 1998), a crise argentina (em 2000) e, mais recentemente, a crise americana (em 2007-08) foi a volatilidade dos capitais provenientes dos fluxos financeiros. Esses capitais, também chamados "hot money", são capitais especulativos de curto prazo, aplicados em Bolsa de Valores,e que não são controlados pelas instituições federais. Suas características, associadas ao alto grau de informatização, fazem com que esses capitais sejam transferidos para países que apresentem condições financeiras mais atrativas, de um dia para outro. As consequências disso são: a desvalorização da moeda do país de onde os capitais fugiram e a certeza da perda da sua autonomia nacional, em termos financeiros. Em outras palavras, os investidores estrangeiros passam a desconfiar da capacidade do país em crise de pagar sua dívida externa, o que acaba dificultando a obtenção de empréstimos e levando o país ao colapso econômico. 3.3 Ajustes no BPpor meio de políticas governamentais Alteraçõesnas contas do Balançode Pagamentos podem ser rapidamente sentidas sempre que o governo adota uma medida fiscal, financeira ou cambial. Medidas fiscais são aquelas que estimulam ou desestimulam as exportações e importações através da manipulação de quotas e tarifas. A isenção ou a baixa alíquota sobre os produtos exportados (importados) estimula as exportações (importações). Analogamente, tarifas elevadas tornam os produtos mais caros, desestimulando sua transação. Medidasfinanceirasdizem respeito ao mercado financeiro e estão diretamente relacionadas à manipulação da taxa de juros. Todavez que o governo aumenta
a taxa de juros interna acima do valor da taxa de juros internacional (PrimeRate dos EUAe Libor da Inglaterra) os capitais especulativos de curto prazo imigram para as Bolsas de Valoresdo país. O lado bom disso é que a entrada de capitais é computada com sinal positivo no Balanço de Pagamentos. O lado ruim é que esses capitais são muito voláteis, podendo sair a qualquer momento sem deixar qualquer garantia de retomo ao país. Quando o governo coloca a taxa de juros interna abaixo da taxa de juros internacional, ele o faz sabendo que o resultado é a saída imediata de boa parte dos capitais especulativos. Medidas cambiais, por fim, estão relacionadas à administração da taxa de câmbio. Quando o governo desvaloriza a moeda nacional, aumentando a taxa de câmbio, são necessárias mais unidades de moeda nacional para equivaler a uma unidade de moeda estrangeira. Os resultados dessa política são: aumento das exportações; diminuição das importações; proteção do mercado interno contra a competição externa; aumento dos custos dos produtos que utilizam insumos importados; e aumento, em moeda nacional, do valor da dívida externa. Por outro lado, quando o governo valoriza a moeda nacional, diminuindo a taxa de câmbio, os detentores de divisas passam a receber menos unidades de moeda nacional em troca de cada unidade de moeda estrangeira. Consequentemente, as valorizações causam um impacto contrário ao das desvalorizações no Balanço de Pagamento e na economia, de um modo geral.