Convulsão no Recém-nascido
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- Alexandre Cabral Palha
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1 Diretrizes Clínicas Protocolos Clínicos 008 Convulsão no Recém-nascido Última revisão: 20/07/2014 Estabelecido em: 03/12/2005 Responsáveis / Unidade José Mariano da Cunha Filho Médico MOV Luiz Fernando Fonseca Médico HJPII Colaboradores Viviane Evelyn Santos Médica Revisores (20/07/2014) Karina Santos Wandeck Médica MOV Sílvia Santiago Cordeiro Médica MOV Disponível em e intranet
2 INTRODUÇÃO / RACIONAL As convulsões são sempre uma emergência médica, devendo o médico estar preparado para reconhecê-las e tratá-las prontamente. No período neonatal, isso se torna difícil devido à imaturidade cerebral, que leva a padrões diferenciados de crises, sendo comuns as crises sutis e a ausência de crises tônico-clônicas generalizados. Também não é rara a presença de crises convulsivas sem alterações eletroencefalográficas, ou o contrário, a presença de alterações eletrográficas sem manifestações clínicas. É uma patologia relativamente frequente com incidência inversamente proporcional à idade gestacional, sendo os prematuros extremos os mais acometidos. A incidência chega a 57,5 por 1000 crianças com peso de nascimento inferior a 1500g, a 2,8 por 1000 crianças com peso de nascimento entre 2500 e 3999g. A mortalidade é alta, cerca de 15% e a incidência de sequelas neurológicas varia entre 25% a 35% (retardo mental, déficits motores e epilepsia). O principal objetivo no atendimento às convulsões do recém-nascido(rn) é o esclarecimento da etiologia das crises a fim de otimizar seu manejo. A acurada determinação da etiologia vai orientar não só o tratamento adequado das crises como a limitação de possíveis danos e disfunções do sistema nervoso central que poderão ocorrer caso a causa subjacente não seja adequadamente tratada. A terapia específica conforme a etiologia pode ser necessária a fim de alcançar bons resultados no atendimento do RN com convulsões. OBJETIVOS 1. Identificar a presença de episódios convulsivos no recém-nascido; 2. Sistematizar e dinamizar o atendimento ao RN em convulsão, com a finalidade de controlar a crise, em tempo hábil, diminuindo as chances de lesão cerebral; 3. Sistematizar o atendimento do RN em convulsão, com o objetivo de identificar as causas e instituir tratamento adequado, de qualidade, baseado em critérios científicos atuais; SIGLAS EEG Eletroencefalograma GC Glicemia Capilar RM Ressonância Magnética RNPT Recém-nascido Pré-termo RNT Recém-nascido Termo PCR Proteína C Reativa SNC Sistema Nervoso Central USTF Ultrassom Transfontanela TC Tomografia Computadorizada IM Intramuscular EV Endovenoso VO Via Oral
3 MATERIAL / PESSOAL NECESSÁRIO Enfermeira e técnico em enfermagem; Material de suporte de vida neonatal; Drogas anticonvulsivantes; Eletroencefalograma; Poligrafia neonatal, ultrassom transfontanela(ustf), tomografia computadorizada (TC) do encéfalo ressonância magnética (RNM) do encéfalo; Laboratório de análises clínicas, sorologias e triagem metabólica; ATIVIDADES ESSENCIAIS 1. Classificação das crises A. Sutis: Alteração paroxística do comportamento e da função motora ou autonômica, sem padrão tônico, clônico ou mioclônico, caracterizada por movimentos tais como: desvios oculares, sucção, mastigação, pedalagem, movimentos de natação. Outras manifestações também podem ser epiléticas: apneia, distúrbios autonômicos (mudança de coloração da pele, alteração da frequência cardíaca, dentre outras). B. Tônicas: Contração tônica de membros e/ou tronco, às vezes lembrando postura de decerebração. Pode ser focal ou generalizada. C. Clônicas: Movimentos clônicos rítmicos, cerca de 1 a 3 por segundo, podendo ser focal (de um ou mais membros, no mesmo dimídio) ou multifocal (padrão errático, acometendo membros de ambos os dimídios, muitas vezes confundidas com crises tônico-clônico generalizadas, que não ocorre no período neonatal). D. Mioclônicas: Abalos musculares rápidos, com predileção pela musculatura flexora, podendo ser focal, multifocal ou generalizado. 2. Diagnóstico Diferencial A. Estados de hiperexcitabilidade ( jitteriness ) com tremores: Sem movimentos oculares anormais; Tremores são influenciados por fatores externos (exacerbados com estímulos sensitivos e desaparecimento com flexão passiva); Sem descargas autonômicas. B. Mioclonia benigna do sono: Mioclonia somente durante o sono;
4 Início na primeira semana de vida; Resolução usualmente nos primeiros dois meses de vida; Exame neurológico e eletroencefalograma normais. C. Hiperekplexia: Desordem caracterizada por respostas exageradas (espasmos tônicos sustentados e reações de sobressalto) a estímulos visuais, auditivos e táteis, sem natureza epiléptica. 3. Etiologia das convulsões neonatais A. Encefalopatia hipóxico isquêmica B. Hemorragias intracranianas: Hemorragia subaracnóide primária; Hemorragia parenquimatosa; Hemorragia subdural; Hemorragia da matriz germinal perintraventricular (típica do prematuro). C. Distúrbios metabólicos adquiridos: Hipoglicemia; Hipocalcemia; Hiponatremia; Hipomagnesemia; Hipernatremia. D. Infecções de SNC: Meningite; Encefalite; Abscesso cerebral. E. Infecções congênitas do SNC: Toxoplasmose; Rubéola; Citomegalorivose; herpes simples; sífilis; HIV. F. Distúrbios vasculares do SNC: Infarto venoso; Infarto arterial; Policitemia e estados de hipercoagulação.
5 G. Anomalias congênitas cerebrais: Displasias corticais; Holoprosencefalia; Lisencefalia; Paquigiria e polimicrogiria. H. Erros inatos do metabolismo: Defeitos do ciclo da uréia; Aminoacidopatias; Organoacidopatias; Dependência de piridoxina; Deficiência de biotinidase; Desordem do transporte da glicose: Doença de DeVivo. I. Síndromes genéticas J. Desordens mitocondriais: Piruvatodesidrogenase, citocromo c-oxidase, etc K. Desordens peroxissomiais: Zellweger, adrenoleucodistrofia neonatal, etc L. Síndrome de abstinência: Crack; Cocaína; Álcool; Barbitúricos, etc M. Intoxicação exógena: por anestésico local N. Encefalopatia bilirrubínica O. Outras: Neoplasias encefálicas congênitas; neuroectodermoses; etc
6 4. Avaliação A. Histórico: Consanguinidade, patologias maternas (prévias e obstétricas), eventos peri e pós-natais relacionados ao parto, uso de drogas durante a gravidez. B. Exame: Classificação da crise Exame clínico e neurológico. C. Exames complementares Ionograma; Glicemia: (Pode ser glicemia capilar no momento da crise). Deve ser realizada também a glicemia sérica por que nos casos de galactosemia o glicosímetro lê a galactose como glicose falseando o resultado de uma possível hipoglicemia. Gasometria: (sob avaliação clínica); Triagem infecciosa: o Hemograma; o PCR; o Exame de líquor (sob avaliação clínica); Exame de imagem (USTF, TC, RNM de encéfalo): de acordo com a avaliação neurológica. EEG: eletroencefalograma e poligrafia quando disponíveis. Triagem para erros inatos do metabolismo: (quando suspeita clínica). Avaliação genética em casos com dismorfismos 5. Tratamento A- Suporte básico Manter oxigenação adequada; Manter estabilidade hemodinâmica; Corrigir distúrbios hidroeletrolíticos e metabólicos: o Hipoglicemia: Glicose 10% solução: 2ml/kg EV;
7 IM. o Hipocalcemia: Gluconato de cálcio 5% solução: 4 ml/kg EV; o Hipomagnesemia: Sulfato de magnésio 50%, solução: 0,2 ml/kg B- Tratamento medicamentoso: I - Fenobarbital (200 mg / 2 ml), (4% - 1 gota = 1 mg) Ataque: 20 mg/kg EV (ataques adicionais de 5 mg/kg, até um total máximo de 40 mg/kg - em situações especiais e somente em recém-nascidos em ventilação mecânica) Manutenção: 3 a 4mg/Kg/dia a cada 24 h Observações: o Inicialmente EV e passar para VO logo que possível; o Monitorização de nível sérico a critério clínico. o Fenobarbital venoso deve ser diluído em ABD ou SF 0,9% e infundido lentamente (1 a 2mg/Kg/min) II - Fenitoína (250 mg / 5 ml injetável, ampola com 5 ml) Ataque: 20 mg/kg, EV Manutenção: 3 a 4mg/Kg/dia, EV, a cada 24 h * Monitorização de nível sérico a critério clínico; * Não utilizar VO ou IM. Observação: o Hidantal venoso deve ser diluído em ABD ou SF 0,9% e infundido lentamente (0,5 a 1 mg/kg/min), em acesso separado, não utilizar microgotas. III - Midazolam (15 mg/3 ml; 5 mg/5 ml) Dose: 0,2 mg/kg/dose de ataque, seguido de infusão contínua de 1 a 4 mcg/kg/ min (em status refratário), EV. Observação: o Em algumas situações, a infusão pode chegar até 18
8 mcg/kg/min. IV Topiramato: (Comprimidos : 25 mg e 50 mg) Dose: iniciar 2 a 4 mg/kg/d com aumentos semanais de 2 a 4 mg/kg/d até máximo de 10 mg/kg/d. Uso é por VO ou sonda nasogástrica, dose única ou dividido em duas tomadas. (em status refratário o aumento pode ser mais rápido que semanal) V- Lidocaína: ( Ampolas 5ml: 2%, 20ml:2%, frasco 20ml a 1%) Dose: ataque de 4mg/kg seguido de infusão contínua 2mg/kg/h, EV. Só é utilizada quando status persistente e demais drogas não surtiram efeito. VI -Outras drogas: (somente com avaliação neurológica) Piridoxina: (comprimidos de 40 mg) 50 a 100 mg, EV preferencialmente ou VO, repetir até máximo de 500mg, se necessário; Piridoxal-5-fosfato: 30mg/kg/d VO (não disponível na FHEMIG); Ácido folínico:(comprimidos de 15 mg/ Pó para solução injetável frasco-ampola 50mg/ Solução oral frasco de 50 ml com 1mg/ml / Solução oral frasco de 20 ml com 5 mg/ml) dose de 4mg/kg/d VO. VII- Determinantes da duração da terapia anticonvulsivante em crises neonatais: Exame neurológico neonatal; Causa das convulsões; Padrão do eletroencefalograma. 6. Síndromes epilépticas neonatais A. Convulsões neonatais familiares benignas: São de etiologia desconhecida, a história familiar é positiva para convulsão neonatal, o exame neurológico é normal, geralmente surgem no 2º ou 3º dia de vida, podem acontecer muitas crises no mesmo dia, tem bom prognóstico e geralmente cessam em um a seis meses. B. Convulsões neonatais idiopáticas benignas: São crises que ocorrem geralmente no RN a termo, saudável, também com exame neurológico
9 normal, que aparecem no quinto dia e cessam próximo do 15º dia de vida. C. Encefalopatia epiléptica infantil precoce (Otahara): Síndrome caracterizada por espasmos tônicos indistinguíveis dos espasmos da síndrome de West, com padrão eletroencefalográfico de surtosupressão. O prognóstico é ruim. Esta síndrome pode ser causada por uma grande variedade de insultos cerebrais precoces e extensos, especialmente malformações. D. Encefalopatia mioclônica precoce: Síndrome caracterizada por mioclonias e crises clônicas focais, de início precoce. O padrão eletroencefalográfico também é de surto-supressão que persiste após a 2ª semana de vida. O prognóstico é ruim. A síndrome pode resultar de defeitos metabólicos não determinados ou malformações cerebrais. 7. Prognóstico O prognóstico é variável e dependente da causa subjacente. Alguns tipos de convulsão neonatal estão associadas a altas taxas de mortalidade e resultados neurológicos e de desenvolvimento desfavoráveis em longo prazo. Os resultados de neuroimagem e EEG são melhores preditores de prognóstico do que as características clínicas isoladamente. O EEG interictal normal está associado com um bom prognóstico; Exame neurológico normal e EEG normais/levemente alterados estão associados a resultado favorável, especialmente se a neuroimagem é normal; Malformações cerebrais e severa hipóxia-isquemia estão associadas a prognóstico ruim; RN com eletroencefalograma com padrão surto-supressão ou com padrão de fundo marcadamente atenuado que persiste por mais de 12 horas após o nascimento são susceptíveis a um desfecho adverso.² É indicado que os RN que sofreram convulsões sejam acompanhados por equipe multidisciplinar a fim de reconhecer e tratar precocemente possíveis desenvolvimentos anormais após a alta.
10 ITENS DE CONTROLE 1. Número absoluto de pacientes com crise convulsiva submetidos à propedêutica laboratorial imediata /Número absoluto de pacientes atendidos 2. Percentual de pacientes tratados com convulsão neonatal submetidos ao protocolo e que apresentaram sequelas neurológicas 3. Percentual de pacientes tratados com convulsão neonatal submetidos ao protocolo e que desenvolveram epilepsia REFERÊNCIAS 1. Guidelines on neonatal seizures. World Health Organization Queensland Maternity and Neonatal Clinical Guideline: Neonatal seizures- October Eli M Mizrahi, MDSection EditorsDouglas R Nordli, Jr, MDJoseph A Garcia-Prats, MDDeputy EditorApril F Eichler, MD, MPHEtiology and prognosis of neonatal seizures Up to date,25/07/ Robert R. Clancy, MD. Summary proceeding from the neurology group on neonatal seizures. Pediatrics, supplement 2006; 3: Biagiani E, Ferrari F, Boldrini A, Roversi MF, Cioni G. Electroclinical correlation in neonatal seizures. Europ J Paediatr Neurol 1998; 2:. 6. Fonseca, Pianetti, Xavier: Compêndio de Neurologia Infantil, 3ª edição Medsi Margotto, PR. Assistência ao recém-nascido de risco, 2ª edição. Editado por Paulo R Margotto Fonseca, Cunha Filho, Pianetti, Costa Val Filho: Manual de Neurologia Infantil Medsi Guanabara Koogan Booth D; Evans D J -Anticonvulsants for neonates with seizures Editorial Group: Cochrane Neonatal Group Published Online: 19 JUL 2004 Assessed as up-to-date: 29 MAR 2004 DOI: / CD pub2 10. Tulloch J K; Carr R R; Ensom M H H; A Systematic Review of the Pharmacokinetics of Antiepileptic Drugs in Neonates With Refractory Seizures. J Pediatr Pharmacol Ther Jan-Mar; 17(1): doi: / PMCID: PMC Volpe JJ ; Neurology of the Newborn Fifth Edition Saunders
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